A Sogra do Espaço Me apaixonei pelo CEO pobre do Morro: E descobri que ele era alienígena · Capítulo 7 de 12
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A Sogra do Espaço

A voz que saiu do cilindro tinha a irritação exata de mãe acordada tarde por filho adulto, embora viesse de uma luz azul enterrada sob uma antiga lan house e pronunciasse o nome de Ícaro com uma sílaba a mais. Ikaru Nobre de registro provisório terrestre, você ignorou vinte e sete ciclos de convocação familiar. Priscila olhou para Ícaro, depois para Dona Cida no alto da escada, depois para a máquina de coleta que pairava com postura burocrática, e decidiu que nenhum curso de escrita criativa preparava uma mulher para conhecer a sogra em formato de lâmpada alienígena. Ícaro abriu a boca, fechou, tentou um mãe que saiu pequeno demais e recebeu do cilindro uma repreensão sobre dicção, postura e escolhas de cabeleireiro. Dona Cida desceu metade da escada e perguntou se aquela senhora luminosa tinha criado o menino por telepatia, porque reclamar de cabelo sem pentear a criança era muita folga.

A luz dentro do cilindro oscilou antes de responder. Disse chamar-se Naira, guardiã biológica da linha Aster, capitã de uma nave de pesquisa que caíra sobre o Cruzeiro durante fuga de uma disputa comercial cósmica, definição que fez Seu Arlindo gritar lá de cima que disputa comercial em qualquer planeta terminava sobrando para bairro trabalhador. Naira explicou que colocara Ícaro no núcleo de adaptação para protegê-lo, programara retorno quando a rota estivesse segura e perdera comunicação após interferência humana nos sistemas de pouso. Priscila perguntou que interferência humana, e a máquina projetou imagens de homens usando uniformes antigos de uma empresa de telecomunicação, escavando peças metálicas do terreno anos antes da LajeLink existir. Santiago, ainda na porta, deu uma risada curta e afirmou que toda tecnologia abandonada podia ser regularizada por contrato. A escada vermelha empurrou o sapato dele mais uma vez, com gosto visível.

Ícaro parecia dividido entre correr para dentro da luz e pedir desculpa a todos por uma infância que nem lembrava. Priscila segurou a mão dele antes que esse impulso virasse sacrifício elegante, mania masculina que ela conhecia bem de romance ruim e reunião de condomínio. Ele olhou para ela, vulnerável de um jeito que retirou da cena qualquer graça por um instante. Naira percebeu o contato e pediu identificação da humana de vínculo. Priscila se apresentou por nome completo, profissão e ausência de preparo espiritual para reunião de família interestelar. A voz de Naira ficou mais baixa, quase curiosa, e perguntou se ela pretendia devolver Ikaru ao povo dele. Priscila respondeu que devolver pessoa adulta sem consultar a pessoa adulta era hábito de guarda-volumes, se muito, e que Ícaro poderia decidir destino próprio assim que todos parassem de tratar sua origem como mala extraviada.

A máquina de coleta registrou contestação válida e abriu uma etapa chamada protocolo de convivência afetiva, nome que fez Tainá gargalhar do alto da escada. Dona Cida exigiu tradução para gente normal. O visor informou que Priscila, por ter recusado benefício financeiro e mantido contato voluntário durante risco ativo, ganhava direito de questionar a convocação de retorno. Santiago protestou com tanto vigor que perdeu a pose e quase escorregou no degrau vermelho. Disse que uma ghostwriter sem mandato legal não poderia impedir negociação sobre ativo de alto valor. Naira perguntou se ele era o pretendente rejeitado. O silêncio que veio depois foi precioso. Binho, filmando de lado, sussurrou que aquela parte precisava ir para a internet com legenda. Priscila não riu, embora a vontade tivesse batido forte, porque Santiago odiou a pergunta com uma pureza que merecia respeito artístico.

Naira pediu acesso às memórias recentes de Ícaro para avaliar adaptação terrestre, e a peça ovalada projetou cenas pela sala. Apareceram Dona Cida ensinando o menino a usar garfo, Binho pequeno recebendo internet para fazer tarefa atrasada, Tainá discutindo mensalidade com capacete no braço, Seu Arlindo testando cabo com seriedade de engenheiro de barragem, Priscila chegando à laje com sapato impróprio e orgulho em excesso. A última imagem ficou nela por tempo demais. Mostrou o instante em que ela rasgara o contrato de Santiago, o rosto fechado, a mão tremendo quase nada, a decisão já tomada antes da coragem alcançar o resto do corpo. Ícaro viu a cena e apertou os dedos dela. Naira perguntou se aquela era a companheira escolhida. Priscila pigarreou. Ícaro ficou vermelho. Dona Cida mandou a sogra luminosa respeitar o tempo dos jovens, embora jovens de vinte e sete anos já pudessem adiantar serviço.

Santiago aproveitou a confusão para jogar outra carta. Tirou do paletó uma pequena placa metálica roubada da borda do alçapão e a ergueu com triunfo discreto. A sala subterrânea apagou por meio segundo. O núcleo emitiu um som seco, e todas as luzes da antiga lan house piscaram lá em cima. A máquina de coleta girou com brusquidão e informou remoção indevida de componente de estabilidade. Santiago disse que aquilo era garantia de negociação, nada pessoal, apenas governança. Priscila sentiu uma raiva tão limpa que quase sorriu. Ela perguntou se ele sempre usava a palavra governança quando cometia furto. Ele respondeu que furto pressupunha posse legítima. Naira ficou em silêncio por tempo longo demais, depois declarou que a retirada do componente iniciara degradação do núcleo e que a rede terrestre sustentada por ele perderia força antes do amanhecer.

A notícia subiu pela escada antes de qualquer pessoa explicar direito. Lá fora, celulares começaram a perder sinal, lâmpadas reduziram brilho, caixas de som pararam no meio de músicas ruins e a vizinhança inteira sentiu que o problema saía da aventura para a panela no fogão, para o pedido no aplicativo, para a chamada de vídeo com parente distante. Ícaro tentou soltar a mão de Priscila para negociar sozinho, e ela segurou com firmeza redobrada. Disse que, se ele fizesse discurso de despedida sem combinar, ela o processaria por abandono de enredo. Ele riu apesar do medo. A máquina perguntou se aquilo era humor defensivo. Priscila respondeu que era ferramenta de trabalho e patrimônio pessoal. Naira, ainda no cilindro, informou que havia uma alternativa arriscada. O vínculo humano poderia estabilizar o núcleo por escolha pública, desde que Ícaro aceitasse permanecer na Terra sem acesso imediato à memória completa de seu povo.

A alternativa caiu sobre Ícaro com crueldade elegante. Ficar no morro significava salvar a rede, Dona Cida, a LajeLink e a vida construída no improviso. Aceitar a memória completa significava conhecer sua mãe de verdade, sua espécie, sua fuga, talvez um nome anterior ao que o bairro lhe dera. Priscila percebeu que nenhuma declaração romântica resolveria aquilo sem ferir alguma parte dele. Então fez a única coisa honesta que lhe ocorreu. Soltou a mão dele, deu um passo para trás e disse que vínculo nenhum serviria para prender homem em lugar algum, nem na Terra, nem no espaço, nem numa laje com boa vista e péssima fiação. Ícaro olhou para ela com uma gratidão que doeu de tão bonita. Santiago ergueu a placa metálica e avisou que venderia o componente ao maior comprador antes do amanhecer. Naira iniciou uma contagem regressiva em voz baixa, e a primeira luz do morro se apagou.

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