A Coleta do Anoitecer
A palavra coleta teve efeito imediato na laje, principalmente porque cada morador entendeu a ameaça de acordo com a própria experiência. Seu Arlindo achou que era cobrança de taxa escondida da concessionária, Binho perguntou se coleta alienígena dava certificado para colocar no currículo, e Dona Cida decidiu que ninguém coletaria sobrinho dela sem antes explicar finalidade, CNPJ e horário de atendimento. Ícaro recolheu a peça ovalada do chão com um cuidado que deixou Priscila irritada, porque homem que fazia drone parar no ar, roteador confessar segredo e mapa luminoso aparecer no cimento ainda insistia em esconder informação igual adolescente pego com boletim ruim. Ela cruzou os braços, pediu uma versão adulta da história, e ele olhou para o céu escurecendo com uma vergonha quase doméstica. O núcleo era uma espécie de sistema de emergência da nave que caiu quando ele era criança, e durante anos ficara calado, enterrado em algum ponto do morro, talvez por defeito, talvez por preguiça cósmica, palavra que Dona Cida considerou plausível.
Ícaro explicou que lembrava pouco da queda, só calor, cheiro de metal molhado e a mão de Dona Cida puxando seu corpo de dentro de uma pilha de monitores quebrados. A partir daí, o morro tinha feito o que sempre fazia com problema grande demais para caber em formulário. Deu comida, apelido, chinelo, bronca, escola pública e emprego inventado até o menino virar adulto com empresa registrada. Priscila ouviu sem interromper, ainda incomodada com a ternura ridícula daquela biografia improvisada entre antenas e caixa d água. Ele disse que nunca tinha procurado o tal núcleo porque parte dele temia ser chamado de volta. Outra parte temia descobrir que ninguém chamaria. Dona Cida bateu a mão na mesa e avisou que drama de origem só seria permitido depois do jantar, pois criatura de qualquer planeta raciocinava pior com estômago vazio. O comentário salvou Ícaro de terminar a confissão e salvou Priscila de admitir que já queria defendê-lo com uma coragem sem contrato assinado.
A comissão contra coleta foi formada em quinze minutos, com ata verbal, café em copo americano e brigas sobre quem ficaria responsável pelas extensões. Priscila sugeriu registrar tudo por escrito, e Dona Cida respondeu que registro demais atraía fiscal, jornalista e parente sumido. Tainá estacionou duas motos na entrada da viela para bloquear carro estranho, Binho subiu para vigiar as antenas com o drone carregado pela metade, e Seu Arlindo distribuiu lanternas de procedência duvidosa. Ícaro tentou recuperar o comando da situação dizendo que aquilo podia ser perigoso, só que perdeu autoridade quando a peça ovalada no bolso dele começou a tocar um jingle de supermercado. Priscila riu antes de conseguir segurar. Ele olhou para ela com uma ofensa mansa, e o riso dela se espalhou pela laje com alívio demais para ser apenas graça. Por alguns segundos, o fim do mundo coube numa mesa de plástico, ao lado de pão frio, cabo desencapado e um homem bonito tentando desligar tecnologia extraterrestre pelo constrangimento.
Quando a primeira luz surgiu acima do reservatório, ninguém gritou. O morro inteiro pareceu prender a respiração por educação, talvez por susto, talvez porque Dona Cida ergueu uma frigideira e pediu silêncio sem mover os lábios. A claridade desceu devagar, redonda, azulada, sem barulho de helicóptero, sem asa, sem fumaça, sem qualquer consideração pelo repertório audiovisual de Priscila. Ícaro avançou um passo e Priscila segurou sua camisa pela manga. O gesto saiu rápido, íntimo, irritantemente natural. Ele olhou para a mão dela, depois para o rosto dela, e ela soltou a manga com uma dignidade destruída pela pressa. Disse que era medida preventiva, nada emocional. Ele respondeu que o departamento jurídico do coração dela parecia criativo. Ela prometeu processá-lo por metáfora ruim. A luz tocou a laje antes que ele pudesse sorrir direito, e todas as antenas da LajeLink se dobraram na mesma direção, educadas demais diante de autoridade desconhecida.
A coisa que apareceu dentro da claridade não combinava com nenhum pesadelo de Priscila. Tinha o tamanho de um armário antigo, superfície brilhante, três pernas finas, um visor oval e a postura de funcionário público em repartição intergaláctica. A máquina varreu a laje com uma faixa de luz e emitiu uma voz formal, feminina, cheia de pausas inadequadas. Solicitava entrega voluntária do herdeiro operacional Ícaro Nobre para avaliação de retorno, preservação biológica e inventário de bens não declarados. Dona Cida deu um passo à frente e perguntou se avaliação incluía exame de sangue, porque ele tinha comido torresmo no almoço e isso poderia alterar resultado. A máquina demorou cinco segundos para processar a frase. Priscila aproveitou a pausa para perceber que Santiago Bittencourt surgira no início da viela, acompanhado por dois homens de colete preto e um sorriso de quem tinha conseguido convite para festa sem ser chamado.
Santiago aplaudiu de leve, gesto tão calculado que deu vontade de cobrar ingresso. Disse que a noite confirmava todas as suspeitas de sua área de inovação, e que a aquisição da LajeLink tinha se tornado assunto de segurança tecnológica nacional. Ícaro perguntou desde quando chantagista usava vocabulário de palestra. Santiago manteve o sorriso e apresentou um documento numa pasta de couro, alegando autorização de uma empresa chamada Nexo Orbital Consultoria, nome que fez Binho perguntar se consultoria de disco voador emitia nota. A máquina girou o visor para Santiago e informou que representantes comerciais humanos não possuíam prioridade. Priscila sentiu vontade de aplaudir o armário brilhante. Santiago perdeu meio centímetro de elegância, recuperou logo depois e disse que prioridade podia ser comprada. Nesse instante, a peça ovalada no bolso de Ícaro brilhou tanto que marcou a calça com uma luz azul indiscreta. Dona Cida mandou todo mundo parar de olhar para as partes do rapaz.
O visor da máquina projetou uma sequência de imagens no ar. Priscila viu a queda antiga perto do entulho, viu Dona Cida mais jovem carregando o menino enrolado num cobertor de campanha política, viu Ícaro adolescente montando internet para vizinha em troca de bolo, viu a LajeLink nascendo numa laje com duas antenas e uma teimosia imensa. Depois viu algo que fez Santiago dar um passo à frente. No desenho luminoso, o núcleo enterrado sob o morro alimentava a rede de Ícaro havia anos, discretamente, convertendo energia estranha em sinal barato para gente que empresa grande sempre tratara como sobra de mapa. O CEO pobre do morro não tinha roubado tecnologia. Tinha sido adotado por uma falha alienígena e transformado essa falha em serviço comunitário. A máquina anunciou que o retorno exigiria desligamento progressivo do núcleo, e metade das casas piscou no mesmo segundo. Priscila olhou para Ícaro e entendeu que a escolha não seria entre ir embora ou ficar. Seria entre salvar a própria origem ou preservar a cidade que tinha dado nome, conta de luz e afeto a ele.
Ícaro pediu três minutos para decidir. A máquina concedeu dois, o que Priscila considerou mesquinho para equipamento vindo de longe. Santiago tentou falar, porém Dona Cida encostou a frigideira no peito dele e recomendou silêncio terapêutico. A laje mergulhou numa espera cheia de celulares levantados, olhos assustados e cachorro latindo para o céu. Ícaro se aproximou de Priscila, tão perto que ela sentiu o cheiro de café, poeira quente e chuva chegando de algum lugar distante. Ele disse que, se fosse levado, queria que ela contasse a verdade sem transformar o morro em cenário pitoresco nem ele em aberração com boa iluminação. Ela respondeu que ele devia parar de encomendar obituário romântico antes da hora. A máquina abriu um compartimento de captura, Santiago sorriu de novo, e Priscila tomou a peça ovalada da mão de Ícaro com a rapidez de quem roubava prova em audiência. Quando a luz azul subiu pelo braço dela, todas as telas da LajeLink exibiram a mesma mensagem. Vínculo humano aceito. Processo de coleta suspenso por disputa afetiva.