O Apagão do Topo
Dona Cida leu a mensagem três vezes, cada leitura com uma expressão diferente, e na terceira decidiu que ameaça anônima enviada em celular de moça educada merecia café forte, pão na chapa e uma opinião definitiva. Para ela, forasteiro era aquele tal de Santiago Bittencourt, porque Ícaro tinha chegado menino, magrelo, cheio de febre, e menino encontrado perto de entulho eletrônico virava sobrinho do morro depois da primeira bronca bem dada. Priscila, ainda com o aparelho na mão, tentou entender se estava diante de uma estratégia de segurança comunitária ou de uma reunião familiar com cardápio, enquanto Ícaro encarava a frase na tela com a mesma concentração que usava para olhar roteadores queimados. Entregue o forasteiro ou o morro apaga de cima para baixo. A ameaça tinha a delicadeza de boleto vencido e a pontaria de alguém que conhecia a geografia elétrica do Cruzeiro.
O primeiro poste piscou antes que alguém terminasse de mastigar. Depois veio o segundo, lá no alto, perto da caixa-d água pintada de azul, e a rua soltou aquele murmúrio de janela abrindo, chinelo batendo no piso, gente chamando parente por apelido. Ícaro levantou tão depressa que a cadeira arrastou e fez Dona Cida reclamar do azulejo, porque fim do mundo nenhum autorizava estragar patrimônio de padaria. Priscila foi atrás dele, embora ele tivesse começado uma frase pronta sobre segurança, prudência e ficar onde havia adultos responsáveis. Ela apontou para Dona Cida, para um balconista de dezessete anos armado com uma espátula, para um rádio preso com fita isolante e disse que a definição de lugar seguro precisava de revisão urgente. Ícaro respirou pelo nariz, o letreiro da geladeira acendeu sozinho, e a palavra refrigerante piscou em azul num ritmo indecente.
Eles subiram pela viela com a rapidez possível para duas pessoas cercadas por vizinhos que queriam ajudar, perguntar, opinar e descobrir se alienígena pagava IPTU. Tainá, mototáxi, apareceu conduzindo uma moto desligada por pura força de costume e avisou que as casas do topo tinham ficado sem luz uma depois da outra, certinhas, igual fila de banco quando o sistema cai. Seu Arlindo, aposentado com vocação para síndico de qualquer superfície, carregava três extensões enroladas no pescoço e explicava a diferença entre sabotagem e relaxamento da concessionária com um entusiasmo que não distinguia fatos de saudade. Binho, o menino do drone, jurou ter visto uma sombra prateada perto das antenas, depois pediu desculpa por talvez ser a tampa de uma caixa d água. Priscila anotaria tudo, se suas mãos não estivessem ocupadas segurando a bolsa contra o corpo e acompanhando Ícaro pelo labirinto de escadas.
A sede da LajeLink parecia ter envelhecido dez anos desde a tarde anterior. As luzes do notebook pulsavam sem obedecer tomada, as antenas apontavam para direções improváveis, e o roteador principal emitia um chiado baixo, quase ofendido. Ícaro abriu uma caixa de ferramentas com parafusos, alicates, um medidor de voltagem e uma peça lisa, ovalada, que Priscila teria chamado de sabonete caro se ela não tivesse visto o objeto flutuar dois dedos acima da bancada. Ele notou o olhar dela e guardou a peça no bolso com a dignidade de quem escondia um biscoito roubado. Ela perguntou se aquilo constava no inventário da empresa. Ele respondeu que constava na gaveta de coisas que a Receita Federal não tinha formulário para declarar. A frase teria sido boa para uma comédia empresarial, se a rua lá embaixo não tivesse apagado outra fileira de casas.
Ícaro conectou cabos entre equipamentos que não combinavam entre si e pediu que Priscila segurasse uma antena torta apontada para o reservatório. Ela segurou, sentindo o metal vibrar de leve contra a palma, e descobriu que a proximidade dele fazia qualquer instrução técnica ganhar um nível absurdo de inconveniência. Ele passou por trás dela para ajustar a inclinação, a mão cobriu a dela por um instante, e a antena soltou uma luz breve que iluminou o rosto dos dois. Priscila ficou séria por pura defesa, porque rir naquele momento denunciaria nervos demais. Ícaro pediu desculpa. Ela perguntou se ele pedia desculpa pelo contato, pelo brilho azul ou pela possibilidade de ambos saírem no jornal local como casal eletrocutado durante tentativa de namoro clandestino. Ele disse que namoro clandestino exigia confirmação prévia. Ela respondeu que a auditoria ainda estava em andamento.
A tela do notebook acordou sozinha e abriu uma chamada de vídeo sem botão de aceitar. Santiago Bittencourt apareceu em alta definição, impecável, com uma taça de água mineral na mão e o ar satisfeito de homem que acreditava ter inventado o terno azul-marinho. Ao fundo, uma sala envidraçada mostrava a cidade pequena e obediente, vista de cima. Ele lamentou a instabilidade no fornecimento, elogiou a resiliência da comunidade e ofereceu apoio técnico mediante assinatura de intenção de venda. Ícaro encostou as mãos na mesa, e as canetas rolaram para longe dele. Priscila percebeu que a raiva dele não gritava, ela arrumava coisas em silêncio, alinhava objetos, prendia a voz numa educação perigosa. Ele disse que a LajeLink não estava à venda. Santiago sorriu e comentou que empresas pequenas costumavam confundir afeto com avaliação de mercado. Dona Cida, que tinha chegado ofegante com uma sacola de pães, chamou o homem da tela de almofadinha desalmado.
A chamada caiu quando Ícaro tocou no roteador. Durante dois segundos, todas as casas do topo acenderam juntas, fortes demais, e a laje ficou branca. Depois a luz voltou ao normal, o morro inteiro aplaudiu lá embaixo, e Ícaro cambaleou com um cansaço que tentou disfarçar apoiando a mão na bancada. Priscila largou a antena e segurou o braço dele antes que Dona Cida fizesse isso com a delicadeza de quem agarra saco de farinha. Ele estava frio. A peça ovalada escapou do bolso, bateu no chão e projetou no cimento um mapa luminoso do Cruzeiro, com pontos vermelhos marcando antenas, caixas de energia e a padaria. No centro do desenho, uma frase apareceu em letras que nenhuma gráfica do bairro teria escolhido. O núcleo reconheceu o herdeiro. Coleta autorizada ao anoitecer. Priscila olhou para Ícaro, depois para o céu escurecendo atrás das caixas d água, e decidiu que a próxima pergunta dela não caberia em entrevista nenhuma.