1o Quadro - O Ceu
1° Quadro
O Ceu
A cena representa um velho carrussel — Ao fundo, um elevador inutilizado — Uma inscrição DEUS=PATRIA-BORDEL-CABA- ÇO — De um lado, tres reservados HO- MENS=MULHERES-ANJOS.
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CENA I r .fjí
As 4 Garças, sentadas em banquinhos, fa zem bordados
ETlELVIiN A (bocejando) — Ih ! Que dia páu! Quan d o é que acabará esta eternidade! M A L V I N A — Eu é que não posso ficar sem ocupa ção. São Pedro me pediu para fazer umas toalhi- nhas, o fio de nuvem acabou. .. B A L D U I'N A — Não esqueça as in iciaes.. . E T E L V I N A — I h ! Céo é pau! Que pena Rasputin ter ido para o inferno! B A L D U IN A — A culpa foi d o lussupof que não deu tempo dele se confessar! Q U E R U B IN A — Mas vocês queriam o Rasputin aqui?! E T E L V I N A — Pelo menos se tirava lin h a ... M A L V I N A — Vamos estudar inglez, em vez de falar besteira. Anda, gente! E T E L V I N A — Comece v o c ê ... M A L V I N A — The table — the pencil — the breakfast. E T E L V I N A — São Pedro já sabe como é borboleta. Q U E R U B IN A — Ele me ensinou: — Buterfly!
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(O u ve-se o D IV O cacarejar dentro do reservado das mulheres).
M A L V I N A (tapando as orelhas) — Que fracasso! Q U E R U B IN A — O D I V O está estudando, coitada! M A L V I N A — Dentro da casinha? Q U E R U B IN A — São habitas terrestres. B A L D U IN A — Não está bem desencarnado a in d a ... E T E L V I N A — Ele vai dar um concerto em beneficio. M A L V I N A — Aqui no oéo? E T E L V I N A — Em beneficio do soldado desconhecido! M A L V I N A — São idéas daquele outro m a lu c o ... E T E L V I N A — Q uem ? M A L V I N A — Do Poeta Soldado! E T E L V I N A — Que fim levou ele? N ão comungou h o j e . .. B A L D U IN A — Nem tomou café com leite! Q U E R U B IN A — Eu s e i .. . Mas não posso d iz e r ... A S T R E S — Conte! Conte! Q U E R U B IN A — Ele pediu se g re d o .. . A S T R E S — O ra! Segredo no ceo! Bôa piada! Q U E R U B IN A — M e fez jurar por Deus que eu não contava. .J E T E L V I N A — Empregando o nome de Deus em vão! M A L V I N A — Que pecado! Daqui um pouco São P e dro expulsa ele d’aqui. \ í Q U E R U B IN A — Ele está fabricando uma lança. Achou uma ponta de raio na Caverna dos Cirrus. U m raio que não tinha explodido. IDísse que vae fazer uma lança d ’aqui Uma novidade! E ’ uma lança elé trica ! M A L V I N A — Antes ele fizesse um lanceiro eletrico! B A L D U IN A — D ecerto! Lá em baixo contavam que o céo era uma boniteza. lEu fiquei virgem a vida inteira para guardar a castidade praqui! Falavam
em festas de entontecer. Cardeaes ! Ceias Não encontrei aqui nem um periquito macho pra me coçar, M A L V I N A — E ’ verdade que temos São P ed ro, . . Q U E R U B IN A - Eu prefiro o Poeta Soldado. B A L D U IN A - - Qual ! .Outro brocha ! E ’ só tamanho ! E T E L V I N A - - O D ivo pelo menos canta! B A L D U IN A — Canta! Canta mas não entòa! E T E L V I N A — Vocês estão ficando histéricas. Preci sam consultar um psicopata ! B A L D U IN A — Também com estas très fr u ta s ... E ’ isso ! Homem que vem parar no oéo !
(Silencio desolado)
B A L D U IN A — Vocês não sabem um verso? M A L V I N A — E u sei. B A L D U IN A — Então diga! M A L V I N A (recitando) — Atirei um limão doce. .. queci. . . espera !
Deu no cravo Deu na rosa Deu no peito D o meu bem !
B A L D U IN A — Arre que achamos um brinquedo de so ciedade. E T E L V I N A — Eu sei outro! E ’ uma fabula nha e a moscasinha” . ' A S T R E S — A h ! Que b on ito! D ig a ! IDiga! E T E L V I N A (recitando) — “ a aranha e a moscasinha”
Uma aranhinha gozada Vivia quietamente Tecendo o seu aranhol
Um dia uma moscasinha Passou pertinho dela Zuum ! Zuum ! Zuum !
A S T R E S — (rindo) — A h ! Ah A h ! Que estupendo! E T E L V IN A Não sei o resto! AS TRES - O ra! M A L V I N A - - Como' é que acaba? B A L D U D N A — E ’ ! Diga o fim ! E T E L V I N A — A aranhazinha ficou abespinhada! M A L V I N A - - Ora essa! Abespinhada!
CENA II
Os mesmos, o Poeta Soldado
(som de trom beta).
O P O E T A -S O L D A D O (entrando inesperadamente) — íE u quero regenerar a humanidade! Q uero restau rar a guerra e o sentido da guerra. Unica igiene do mundo, (para as 4 garças) Sucia de malfaze jas! Pacificas duma figa! Sociedade das N ações! ‘i f Vocês estão esperando marido aqui no céo! Não sabem que a finalidade da mulher não é trepar nem parir! E ’ a Cruz Vermelha! Ide trabalhar sob o signo sangrento! Fazei pensos de sol, unguentos de saturno para os meus guerreiros! Pomadas mer- curiaes para os meus h eroes! A S Q U A T R O S — Nós temos mais que fazer! M A L V I N A — Deus nos liv re! Mulher não deve tra balhar ! E T E L V I N A — Só em horas coonodas!
o P O E T A -S O L D A D O — Vadias! Bancando as de sempregadas. Vivem tomando chá, se visitando e fazendo trancinha. Venham se preparar no exerci- cio glorioso das armas! N o jo g o perigoso das es padas! Jurar bandeira! Lembrai-ívos de vossas tias, as Amazonas.
{toca a trombeta)
Da vossa avó Joana D ’arc ! Da brasileira D. Pulque- ria que amamentou desesete sargentos na guerra do Paraguay !
CENA III Os mesmos, o Divo
O D IV O (cantando de dentro do reservado das mulheres, com a musica det Donna é M ob ile).
Quero dinheiro Receber tudo Contrato inteiro Ou fico m udo!
(aparece àbotoando a cinta, da privada)
O P O E T A -S O L D A D O — Mas que mania! V ocê vive no reesrvado das senhoras! O D IV O — Está entupida a outra! B A L D U IN A — Sujeito cafageste! O P O E T A -S O L D A D O —• V ocê perdeu o senso moral no palco!
o D IV O — Mas isto aqui é céo ou não é céo? O P O E T A -S O L D A D O — E ’ céo, mas céo moralizado! 'Censurado ! E T E L V I N A — Sei disso! N ós estavamos hontem lendo um livro condenado. A S T R E S — Credo! E T E L V I N A — Sim senhor! ‘“ os homens preferem as loiras” ! B A L D U IN A — Quem foi que trouxe essa porcaria pra cá! O D IV O — V ão dizer que fui eu! O P O E T A -S O L D A D O — Livros excomungados neste ambiente de elevação! V ou denunciar ao vice-almi- rante Pedro ! V ou abrir um inquérito policial ! E T E L V I N A — Faça o favor! Não fique alucinado sinão nós também ficamos ! B A L D U IN A — Estamos fartas dessas fitas de guerra! M A L V I N A —• As conversas do oéo são inocentes mas acabam sempre em sururú ! O D IV O — Conversas de cé o ! A h ! A h ! A h ! M A L V I N A — Cala a boca demente precoce! O D IV O — Cala a boca, bundinha seca !
V CENA IV
Os mesmos, Pedro
S A O P E D R O — Que frege é este? Querubina, Etelvina, Malvina, Balduina, as minhas quatro garças, não vos transformeis em latejantes fúrias do oéo! Res- peitae a quarta dimensão do Paraizo. Se destruir € mos este reduto da eterna mudança, o mundo mer-
gulhará no materialismo historico! Sou São P edro; São Pedro na era da maquina! AS Q U A T R O S — Viva o céo! S Ã O P E D R O — O brigado! Vivem os no unico céo possi- vel, acima das camadas estratosfericas! O céo fisico do meu compatriota Einstein — o céo no tempo. A lgo se m ove! Outro dia, quando acabei o' meu ultimo pistolão, vocês me pregaram uma vaia, suas cadeli- nhas! Se fosse no tenqx) da minha festejada virili dade, eu tinha respondido — miquiou, este! ÍE pre gado uma bôa banana. Mas já se foi a era das suntuosas festas do céo, quando faziamos correr a grande loteria da Graça, quando se celebrava entre mártires frescos e virgens garantidas, o dia dos anos de D e u s! A S Q U A T R O S — Nós somos virgens! O D IV O — Eu tam bém ! S Ã O P E D R O (enternecido) — Minhas bichanas? As ultimas das onze mil uvas que encheram de recalques o Paraizo antigo? E T E L V I N A (assoando-se) — Eu estou um pouco gri pada . .. O D IV O — Acabou a asparaizina. S Ã O P E D R O — O clima do céo está mudando. . . E T E L V I N A — Está esfriando! Ja não é o mesmo. O P O E T A -S O L D A | D O fm transe) — A felicidáde do homem é uma felicidade carniceira! A ultima coisa que resiste no cadaver é o dente! Eu, O P O E T A - S O L D A D O , sou o genio oficial da guerra! E em verdade vos digo que é preciso restaurar a lança e o cavalo. A guerra com a intervenção de Deus, com a intervenção do raio! A guerra quimica com ou sem ven to! E ’ preciso resolver a crise de desem prego das fúrias e dos raios! Raios públicos, raios
impróprios para menores, raios die circumstancia, raios de Casanova! Quem quizer me entender, me enten da ! Quem tiver ouvidos, o u ça ! D i\ ^! Desenrola como um tapete a tua gargantinha de cim a ! O D IV O — Giovinezza não sei cantar! O P O E T A -S O L D A D O — Com o? Desconheces a obra- prima do bel-canto, salafrario! B o fé ! Eu fui m or dido em creança pelo Cavalo de Atila! Precisamos tomar as terras dos povos fracos e catequizados e entrega-los como escravos aos poderosos arianos, que têm esqueleto de a n jo! AS Q U A T R O — Muito b em ! E T E L V IN A — Oilá um balão!
(Swendenborg, late)
S A O P E D R O — Tais-^toi Swendemborg! Q U E R U B IN A — Escuta o discurso, lu lú ! O P O E T A -S O L D A D O — Eu sou o companheiro de leito da m orte! A morte é o cabaço da necessidade! Como é que um espermotozoide pretende ser im ortal! Que és tu, espetador, sinão um espermatozóide de colarinho! E por isto te recusas a conhecer a ver- i ,dade que a guerra traz nas artérias. Cantemos o nosso h in o! Entoemos a nossa lo a ! K ip ! Kip ! Bur V. ra! {bate na bolsa que traz a tiracolo). A S Q U A T R O S — K ip ! K ip ! Burra! O P O E T A -S O L D A D O — Pela Camisa do R epouso! A camisa onde o homem dortne! T O D O S (em coro) — A camisa de M o rfe u ! K ip ! K ip ! B urra! O t^ O E T A -S O L D A D O — Pela Camisa da G u erra! rJê* Preta, parda, multicôr! T O D O S (em coro) — A Camisa de M arte! K ip ! K ip ! B u rra!
o P O E T A -S O L D A D O — Pela Camisa do Am or que move o m undo! T O D O S (em coro) — A Camisa de Venus! K ip ! K ip ! B u rra! M A L V I N A — E ’ um balão! E ’ um balão! Olha d ’aque- le la d o! (Sivendemborg late desesperadamente).
Q U E R U B IN A Um ba lão! E T E L V I N A — Charuto! B A D D U IN A — Pra festejar ,São P e d ro ! Q U E R U B IN A — H a quanto tempo que via um balão! E T E L V I N A — A primeira que viu fui eu! Q U E R U B IN A — • Foi Sw endem borg! Ele latiu! B A L D U IN A — Deu sinal! M A L V I N A — Eu fui a segunda! Q U E R U B IN A — Cae aqui! B A L D U IN A — Vem caindo! M A L V I N A — C ae! Cae! Balão! O IDIVO — Eu vou pegar ele! Ninguem se meta! M A L V I N A — 'N ã o! Quem pega e São P e d ro ! O D IV O — Então eu rasgo! Q U E R U B IN A — Sou eu que pego! O D IV O {alucinado) — Pega! Pega! Saparia! Poeta! M e empresta a lança? M A L V I N A — Vem cahindo! E T E L V I N A — E ’ meu! B A L D U IN A — lE’ m eu! T O D O S (tumultosamente) — E ’ m eu! E ' meu! Larga! ,Pega! D eixa! O D IV O >— P ega! Pega! S Ã O P E D R O — Não rasga, heim! Deixa cair! Que bicho! Não rasga! D eixa! (para o Poeta Soldado
que fo i buscar rolos de nuvens) — N ão atira pedra heim? ( 0 balão desce, pousa. E' uma bola de aluniinio. Todos se acercam em circulo. Uma portinhola se abre. Uma cara m o rena, sob mn chapéu de escafandro, surge).
O R E C E M C H E G A D O — Que povo bonitinho!
{Surpresa. Silencio).
— Eu sou o professor IC A R .
PANO