3o Quadro - Debout les Rats
3“ Quadro
Debout Les Rats
A cena representa um local abandonado do Derby de Epson, com palissada ao fundo — Passagem para o campo de corridas — O palco liga=se á platéa.
CENA 1
O Cavalo de Troia, o Cavalo branco Napoleão
O C A V A L O IDE T R O I A — P loc! P loc! P loc! Sae da frente! V ê lá se eu caibo nesta estrebaria! (desen volve-se pela cena) O C A V A L O B R A N C O D E N A P O L E Ã O — P ’lalá! P ’lalá! P ’lalá! (dá um trote, passarinha.) E h ! E h ! Potrinho de lu x o ! Está com vontade de ganhar o grande^premio! O C A V A L O D E T R O I A — N ão preciso, besta de car roça! O C A V A L O B R A N C O D E N A P O L E Ã O — O senhor é um cavalo revoltado? O C A V A L O D E T R O I A — Não senhor! Sou um ca valo conservador. Sou o cavalo de T roia! Quando me abriram, depois da ultima guerra, eu tinha den tro do meu b o jo um cavalinho de Troia — o trata do de V ersalhes! O C A V A L O B R A N C O D E N A P O L E Ã O — E dentro dele o que é que encontraram? O C A V A L O D E T R O I A (rinchando) — O chanceler H itler!
O C A V A L O B R A N C O D E N A P O L E Ã O — Pelo que vejo, o senhor é muito importante! O C A V A L O D E T R O I A — Sou o unico cavalo da historia! O meu verdadeiro nome é Tratado de Paz. Apareço sempre no fim das guerras. O CAVALO BRANCO DE N A PO LE Ã O — A h ! A h ! Ah! A h! Ah! A h! Ah! O C A V A L O IDE T R O I A — O que é que o senhor está rinchando ahi? T ipo difuso, entre centauro e veado! O C A V A L O B R A N C O D E N A P O L E Ã O — Cavalo! O unico cavalo da istoria, sou e u ! Em todas as ba talhas 'do mundo, tenho tomado parte. ,Sou o cavalo que não m orre! 'O cavalo do comandante! O C A V A L O D E T R O I A — O senhor tem um cartão? O C A V A L O B R A N C O D E N A P O L E Ã O — • A minha côr é o meu cartão. Eu sou o cavalo branco de Napoleão! O C A V A L O D E T R O T A — Ora essa! O senhor é uma anedota! ^ O C A V A L O B R A N C O D E N A P O L E Ã O — N ão se nhor ! Sou um teste! Um teste de primeira ord e m ! O C A V A L O D E T R O I A (rindo) — Para creanças de dois anos e meio! O C A V A L O B R A N C O D E N A P O L E Ã O — Pois então advinhe de que côr eu s o u ! O C A V A L O D E T R O I A — Ora essa! Ora essa! O C A V A L O B R A N C O D E N A P O L E Ã O — ÍDiga se for capaz! . Il O C A V A L O D E T R O I A — Branco! O C A V A L O B R A N C O D E N A P O L E Ã O — N ão se nhor ! O C A V A L O D E T R O I A — Com o? ( ) C A V A L O B R A N C O D E N A P O L E Ã O — Sou ru sso! Russo branco!
D C A V A I jO d e T R O I A (encabulado) — Com igo é só no trote inglez! ,
(Saem num trote largo e fumegante. Clamor im enso).
CENA II
São Pedro, Icar, o Tratador de Cavalos
O T R A T A D O R — Que freje! Que desordem! San to Deus! Esses fantasmas reviraram tudo! Mas quem são os senhores ? Donde vieram ? S Ã O P E D R O — Eu sou da marinha! IC A R — Eu sou da quinta arma! O T R A T A D O R — E esses m alucos! Esses cami solas íque avançaram sobre os jokeis, em plena disputa do Grande Prêmio e penetraram neles! S Ã O P E D R O — Trata-'.se de uma encarnação fascista. .. IC A R —•Eles aproveitaram-se da corrida de cavalos para cumprir os altos designios da Providencia! O T R A T A D O R — Tinha um meio bebedo com uma co roa de louros no cocoruto. .. S Ã O P E D R O — Aquele é o D IV O . IC A R — Ele se enganou de caminho, coitado! O T R A T A D O R — Entrou no cavalo em vez de entrar no J o k e y ... S Ã O P E D R O — Mas quem dirige tudo ainda é a sua voz de o u r o .. .
IC A R — V oz die anjo ! O T R A T A D O R — Eu é que não entendo nada! Os senhores não são daqui? S Ã O PEIDRO — Soimos do oéo! O T R A T A D O R — Onde ha anjos ? S Ã O P E D R O — O unico anjo que existe é Pegaso. 1'CAR — Foi nele que o D IV O p en etrou .. , S Ã O P E D R O — Ele guiará a tempestade I O T R A T A D O R — E quem é aquele careca que mon tou nele? S Ã O P E D R O — O poeta-soldado.
TS ( O clamor aumenta. O uve-se a trom pa heróica de Lohengrin. Os très es piam ).
O T R A T A D O R — Mas o que é que eles vão fazer? Olhem só que barulho! São Patricio. Toda a po licia de Londres não chega para d om in a l-os.. . S Ã O P E D R O — Vamos escutar! E ’ a voz do P O E T A -S O L D A D O ! O T R A T A D O R — A policia aderiu’ A V O Z p o P O E T A -S O L D A D O - Eu prego a puri ficação pelo sangue ! Ó mundo está preso aos laços da iniquidade ! lE preciso revolvel-o até as entra nhas. Pelo ferro, pelo fo g o e pelos gazes m ortífe ros! Contra um e contra todos ! Basta e não basta! S Ã O P E D R O — Que m istiforio! TCAR — .E’ um clássico da guerra ! A V O Z D O P O E T A -S O L D A jD O — E ’ precizo estar sempre pronO ! Armar-se e obedecer. Qual é o ava- rento que não dá o seu sangue pela Patria! Quem lá dirige a batalha é o espirito. Eu sou o Espirito ! A v o z D O D IV O (cantando) :
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Malbourough s’en-va-t-cn guerre M ironton! M ironton! M irontain«! Malbourough s’en-van-t-en guerre Tará-tatará-tatá !
O T R A T A D O R — E ’ o cavalo que está falando pela ÜDunda! Eu vou ver de perto!
(Sae, deixando os outros trepados na palissada).
CENA II Os mesmos, menos o Tratador
S Ã O P E D R O — Vamos assistir. E ’ um espetáculo em polgante. H a buracos na trincheira. Espia! IC A R —* P refiro trepar. S Ã O P E D R O — Preciso de alento para tomar o meu posto nesta hora istorica. A minha velha barca ba tida pelos ventos desses últimos séculos precisa içar de novo o pavilhão de comando do m undo! Feliz mente abandonei o céo estafermo e retrogado. Vinte séculos de ascensor!
( Algazarra, O tumulto cresce na dis- tancía).
IC A R (trepado na palissada) — Que emoção form idável! Mulheres e creanças ajoelham-se chorando. A jo e - ' lham-se e choram homens provados em todas as ba talhas da vida! Os que sempre esperaram um P O E - T A -S O L D A D O . E nele enxergam o heroe de todas as patrias. Coniparam-no a Sebastião de Portugal.
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S Ã O P E D R O - - A unica vitima distinta das guerras coloniaes! IC A R —• E ’ Aquiles e Garibaldi! Sobieski e Carlos Martel! E ’ o genio irascível da guerra! Legionari os formidáveis estabelecem cordões de isolamento para salval-o da ebria m ultidão! Todos querem bei- jal-o na calva!
CENA III
Os mesmos, o Vendedor de Jornaes
O V E N D E D O R D E J O R N A E S — O Tim es! Ultima edição (o fe r e c e ) Quer jornal? Uma trajedia na es tratosfera! IC A R — Escuta, pae P E D R O ! Já noticiaram tudo. O V E N D E D O R D E J O R N A E S — Suicídio ou crime. Um femur caiu da estratosfera! Foi encontrada ao lado uma pratinha de 2$000. Olha o Tim es? A viuva IC A R reconhece o femur do esposo! IC A R —• Minha patroa! O V E N D E D O R D E J O R N A E S — Quem quer o T i mes! Ultima edição. O desaparecimento do pro fessor IC A R na estratosfera. Pesquizas do Inteli gente Service para a descoberta do resto da ossada. IC A R A minha ossada! Sou um pobre desencarna do. S Ã O P E D R O — ^Tenha coragem ! ! I IC A R Quando penso na familia que perdeu o seu chefe, custo a resistir. S Ã O P E D R O — Agora são orfãos de guerra. A fi lantropia cuida deles. IC A R Então vão morrer de fo m e ! ( chora) O V E N D E D O R IDE J O R N A E S — O Tim es! Uma € esquadrilha de estratoviões a procura dos dentes .do
malogrado cientista. O balão de IC A R deve ter atingido um planeta desconhecido. S A O P E D R O — O céo! O V E N D E D O R D E J O R N A E S — O malogrado in ventor teria sido devorado pelos martibaes!
(S a e).
CENA IV
Os mesmos menos o Vendedor
IC A R — Minhas creancinhas ficaram sem pão e sem rem edio! S Ã O P E D R O — Sús! Coragem'1 Não podemos desani mar. V ocê vae ganhar o prêmio Nobel. E ’ um már tir da ciência. Não banque o pequeno-burguez sen timental. A hora da guerra soou. A hora grave da guerra. E scuta!
(Alaridos. G ritos).
A V O Z D O P O E T A -S O L D A D O — Que cada um tome posição nas estradas ferozes do Destino. Fa çamos a felicidade das fa ca s!
(Aclam ações. Sons de trombeta).
S Ã O P E D R O (trepado na palissada) — Venha ver! 'Os cavalos estão chegando! São os cavalos mitolo- gicos! Os cavalos da historia e da fabula. O P O E T A levantou a multidão e a conduz para a guerra. Que espetáculo!
(Tumultos. Relinchos. Cavalgadas. A cla m ações).
IC A R — Eu penso no meu lar destruído! S Ã O P E D R O — E ’ Bucefalo. Marcha contra o sol! !E’ a luta contra a Quimera da P az! Seguem-n’os as Amazonas e os Centauros ! Venha ver os cava los corcundas da lenda! IC A R (reanimado, espia por uma pequena abertura) — Um camelo! S Ã O P E D R O — E ’ o cavalo de M ahomet! IC A R — O burro de Sancho Pança botando fog o pelas narinas. S Ã O P E D R O — E ’ o delirio guerreiro da burguezia! IC A R — Daquele lado estão concentrando a Cruz V er melha ! S Ã O P E D R O — A s amantes dos padres. A s mulas sem cabeça. Prestam grandes serviços á causa da guerra ! IC A R — Olá que lindo casal ! S Ã O P E D R O — Ariel na garupa de Pedro o Eremita. Adeante très reis. São os reis magos. Menelick, Tamerlão e A lfon sito! IC A R — Olha 'N IE T Z S C H E com aquele frajola ! S Ã O P E D R O — E ’ Parsifal ! Reconciliaram-se. Nietzs che converteu-se na luta! IC A R — E aquele m oço chibante ! E ’ o Messias. O que deve vir ! E ’ Siegfried !
(Aclam ações. Urras).
V O Z E S — Pim -pão! Pim -pão! Pim -pão !Pim -pão! IC A R — Está no cavalo branco de N apoleão! E ’ o co mandante !
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S A O P E D R O — Viva Don Sebastião de Portugal! IC A R — Aquele outro é Job ! S A O P E D R O — E ’ Job novo rico. Está ao lado da alimaria biblica, Leviathan ! Escuta. Ele pediu a palavra. Vae falar ! A V O Z D E JO B — Eu sou Job o pedagogo. Resolvi ha trez mil anos o problema do empregado que quer ficar socio do patrão. Avacalhae-vos ! eis o meu lema. Um dia talvez Deus tenha dó ! Então ele vos dará o dobro do que tirou. A mais valia por in termédio da Providencia. E tereis de novo honras, mulheres e festins. A familia vos abandonará quan do estiverdes na miséria. Mas voltará, quando fi cardes rico outra vez. Talvez traga alguns rebentos a mais. Não faz mal. O pae é sempre o marido. A legitimidade é feita pela herança. Deus quer assim ! IC A R — Mas é a propaganda da mansidão e do servi lismo. A V O Z D E JO B — Qualquer revolta é insensata. O homem nasceu para a desgraça com o o passaro para voar! S Ã O P E D R O ^ Corno! A v o z D E JO B —- E ’ preciso adorar o arbitrio. Achar bom tudo que acontece. O arbitrio possue Behemot — Leviathan ! D io a sempre ragione ! V O Z E S (aclamando) — Be-he-mot — Le-vi-a-than ! IC A R (Em ocionado) — Desceu da tribuna! Vae pu xando pelo queixo o monstro biblico! V O Z E S — Be-he-mot — Le-vi-a-than! Dio a sempre ragione ! SÃ O P E D R O — Eles conduzem para a guerra um gran de carro. Credo! Os trabalhadores são forçados a atirar sob as rodas dele suas mulheres e filhas!
IC A R —' O desemprego e o pauperismo abrem a la s ... e recrutam as vitimas. . . S Ã O P E D R O — E ’ o carro de Djaggermat? IC A R — N ão! E ’ o rolo compressor do capital! SÃO P E D R O > — Job dirige a marcha. ,.
( Gritos. Furiosas aclamações. Corne tas).
IC A R —• Sono pazzi di vino e di sole! S Ã O P E D R O — E ’ a guerra no seu esplendor! IC A R —• Mas que mau cheiro! Parece que pisei num rato m orto. . . S Ã O P E D R O — Não é isso. São aqueles muares ali. São os cavalos de Augias . . . IC A R — E ’ verdade! O s precursores da guerra qui- mica! S Ã O P E D R O — • Agora, passam as feiticeiras videntes de Macbeth! IC A R —• E as fúrias de Walpurgis montando aspirado res eletricos! S Ã O P E D R O — Que será aquilo? IC A R — Um bicho enorme. Tem sete cabeças e dez corn os! S Ã O P E D R O — A joelha-te! E ' a Besta do Apocalipse. A mãe da guerra. Levanta o Santissimo nas patas.
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Relinchos. Troar de bombas. Relâm pagos. Sons de tem pestade). u IC A R —- Ficou um para traz. Sem cavaleiro ! E ’ R os sinante ! S Ã O P E D R O — Sancho vae montabo. E ’ a pequena
burguczia que totnou conta do cavalo idealista do D. Quixote. O facism o! A V O Z D O P O E T A -S O L D A D O — Macbeth cavalga Incitatus! M enefrego de todas as vidas humanas! A guerra é divina porque carrega consigo a ju- iventude. U M A V O Z I S O L A D A — Para a mutila
(Clamares. Sereias. Canhões. M oto- tores de avição. Ruidos de nuxrcha).
A v o z D O D IV O — Eu sou o patos da destruição! Pela raça branca ! Pela classe rica ! Pela moral cre tina ! Pelo rei com u do ! Pelo altar vendido ! Heil ! Duce ! Heil ! Heil ! Duce ! A V O Z D O P O E T A -S O L D A D O — O sangue espirra na ponta das nossas espadas! IC A R — Felizmente eu deixei de ser preto. S Ã O P E D R O — E eu sou judeu batisado! A V O Z D O D IV O — H eil! H eil! D uce! H eil! H eil! IDuce ! A v o z D O P O E T A — Somos a herança de Roma. A salvaguarda da Civilização ! Debout les rats !
(Grande silencio).
S Ã O P E D R O — N o campo deserto e imenso, passa uma pobre mulher, curvada, procurando alguém. . . IC A R — E ’ a mãe do soldado desconhecido!
( Ouve-se na distancia a trompa eroica de Lohengrin. Uma Walkiria nua, masca-
rada contra gases asfixiantes atravessa a Platéa e o palco, montada sobre um cavalo de guerra, protegido também pela mascara) .
S A O P E D R O — Salve Imaculada Conceição! IC A R — E ' a guerra quimica!
PANO
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