2o Quadro - O Interior do Icaro I O Homem e o Cavalo · Capítulo 3 de 10
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2o Quadro - O Interior do Icaro I

2 ° Quadro

o Interior do ícaro I

A cena representa o interior da estratonave — Vasta janela ao fundo, aberta para os es­ paços interplanetários — Uma figa mons­ truosa pende do teto.

CENA I

Os personagens do quadro anterior, menos o Divo, Icar e Pedro

E T E L V L N A — A rre! Que deixamos aquela pasma­ ceira. Devemos o nosso regres'so á terra a esse ma- niaco que conseguiu atravessar a estratosfera... M A L V I N A — E cair no céo! QUERUBI)NAf/>flra o Poeta-Soldado) — Porque é que você o matou, querido! P O E T A -S O L D A D O — Eu não o matei! O desen­ carnei ! Ha muita diferença. O que vocês queriam suas messalinas modernas, era pilhar um preto no fcéo! Para estragar a raça! E T E L V I N A — Mas ele não era preto! Era chocolate ariano. O P O E T A -S O L D A D O — Gom aquela cara! E T E L V I N A — Ficou preto porque passou perto do sol. A tres léguas! Era natural que amorenasse! P O E T A -S O L D A D O — N ão quero saber! Em ne­ gocio de raça, eu não transijo! Nada de misturas. Não sofro de delicadezas! V ou matando logo. V o ­ cês sabem que as almas são brancas. Com o os es­ queletos dais baratas! São arianas! Ora, ele mes-

mo, descascado como está agora, já vae sentindo as ivantagens incalculáveis do arianism o! Se você fa ­ lasse a ele, antes da desencarnação, na necessidade que a gente branca tem de submeter, explorar e humilhar a gente de côr, ele talvez não comiprehen- desse. Agora comprehende. Já discreteamos sobre Civilização, Cultura, Imperialismo, Capital, Raça e outros temas brancos. Olhem, outro sujeito que me injiriza é esse ju d e u .. . M A L V I N A — São Pedro, coita d o! O PO ETA-SOLD AID IO — Coitado porque? Eu por mim dava cabo dele! Cristão n ovo! M A L V IN A — ' iNão faça isso! Deus castiga! O P O E T A -S O L D A D O — Deus? V ocê não salDe que 'Deus nosso Senhor foi crucificado pelos judeus! Pedro, antes de ser naturalizado cristão, era judeu. E judeu pobre! O que é inadmissivel! Bolas! Somos ou não somos arianos? O lhe! Se vocês quizerem, tenho um plano diabolico, terrivel.

(T od os se aproximam)

A S Q U A T R O —* D iga! Fale! O P O E T A -S O L D A D O — Vocês não denunciam? Pos- •so contar com a alvura dos vossos sentimentos ra- ciaes?

CENA n

Os mesmos, São Pedro

S Ã O P E D R O — Que galinhagem é essa? O P O E T A -S O L D A D O — Nada, almirante! Estáva­ 1^ mos querendo pregar uma partida ao professor IC Á R ! Brincadeira de balão!

S A O P E D R O — Isso é g ra v e! IC A R não pode ser toca­ do. Nem cheirado! Até aportarmos á terra. Vocês estão vendo como ele vae dando conta do recado. Nos momentos que sucedem á morte, o espirito custa a tomar conhecimento do seu estado e desen­ volve os impulsos que o agitavam em vida. Foi graças a isto que obtivemos até agora a sua brilhan­ te ação na cabina de comando. Sem os conhecimen­ tos dele, não poderiatnos nunca ter abandonado nesta nóz o velho céo dos nossos paes! E muito menos ter atravessado sem acidente esses cincos dias de coalhada aerea.,., M A L V I N A — A via-latea I S A O P E D R O — Teriamos talvez nos esborrachado con­ tra qualquer bico de estrela. .. P O E T A -S O L D A D O — De fato. Não se pode ne­ gar que o homem vae como uma luva no comando. Estamos longe dos perigos brancos do equador inter astral E breve nos aproximaremos da velha terra de nossos anceios! E T E L V I N A — Ainda temos muito tempo. Dá até pra fazer um joguinho! Q U E R U B IN A —• Boa ideia! Vam os jogar para passar o tempo depressa. S A O P E D R O — Impossivel, minhas garças! Com a pressa, esqueci o baralho. .. A V O Z D E IC A R — Fechem a janela! Calafçtem os ocu los! Cometa a boroeste ! S A O P E D R O (ao P E T A S O IJ D A D O ) — Fecha a ja- nela, lerdo! A í vem um cometa! (o P O E T A -S O L ­ D A D O e as 4 garças obedecem ). A S Q U A T R O — ’ Vamos rezar? S A O P E D R O — Mas que brincadeira! Um cometa a estas horas. Vamos debelar o p erig o! De joelh os! E u agarro na figa ! Vamos implorar!

O P O E T A -S O L D A D O — Quem ? S A O P E D R O — O deus da zona, sei lá! Vam os {decla­ m ando). Minhas almas benditas! Que morreram degoladas!

E aquelas tres Que morreram a ferro frio ! E as tres pesteadas! Juntas todas tres! todas seis! E todas nove Para darem tres pancadas T oc! T oc! T oc!

TO D O S — T oc! T oc! T oc! S A O P E D R O — N o coração do perigo A m en ! T esconjuro! T esconju ro! T esconju ro! A V O Z D E IC Á R '— Podem abrir! O animal de rabo desapareceu. ,Era uma estrela! M A L V I N A — Qual? A V O Z D E IC A R — Greta Garbo! E T E L V I N A — • Passou o perigo! Vambs festejar com um joguinho, sim ? < M A L V I N A — Eu prefiro recitar. S A O PEÍDRO — Declamação. Estamos em .sociedade! E T E L V I N A — E o radio? S A O P E D R O — O radio, depois do a lm oço! V ocê, i'Malvina! A {recitando) — P or isso afirm o que o amor para a mulher é sofrimento e lagrimas e para o homem um passa-tempo, um divertim en to.. . Homem sinonimo de Belzebúth! is T O D O S {rindo) — A h ! A h ! A h ! S A O P E D R O — V ocê pensa que ainda está no céol

o P O iE T A -S O L D A D O — Isso é poesia de céo! Onde está o D I V O ? Podia cantar n!m hino guerreiro; S Ã O P E D R O — O D IV O ? Tom ou um porre danado! Está dormindo. Q U E R U B IN A —• Porre de que? Onde é que tem uisque ? S Ã O P E D R O — 'De eter! Fez um buraquinho no balão e começou a sorver o eter da estratosfera! M A L V I N A — Que pirata! S Ã O P E D R O — Ia fazendo o balão dar um looping. Quasi que rompeu o equilibrio. M A L V I N A — Que i>erigo ! E nós que não temos pa­ raquedas ! Q U E R U B IN A — E ’ mesmo. E T E L V I N A — Vamos jogar. T O D O S — • V am os! Mas o que? O que? S Ã O P E D R O — Si vocês estão mesmos dispostos, eu invento um jo g u in h o .. . Joguinho do céo! T O D O S — Sim, São P edro! Conte! C om o é ? S Ã O P E D R O — Está aberto o jo g o ! E ’ o joguinho dos planetas. Não ha tribofe. A gente aposto qual é que passa perto do balão. O professor, lá da cabina, an u n cia.. . T O D O S — V am os! Façam as paradas! S Ã O P E D R O — Está aberto o jo g o ! M A L V I N A — Eu jog o em Jupiter! O P O E T A -S O L D A D O — Cincão em M arte! S Ã O P E D R O — Vamos V er! Tem duas em Venus, très em Jupiter, uma em M e rcú rio .. . O P O E T A -S O L D A D O — C orvo preto! Corvo preto! Sabado! Sabado! Elefante! S Ã O P E D R O — Isso dá azar ! O P O E T A -S O L D A D O — Corvo preto! Corvo preto! A V O Z D E IC Á R — U rano!

S A O P E D R O — T odos perderam! Refaçam o jo g o ! Jupiter dois! V ocê? O P O E T A -S O L D A D O — M arte! I n s is t o ... M A L V I N A — Jupiter! O P O E T A -S O L D A D O — Corvo preto ! Salta aqui ; Salta acolá! A V O Z D E IC A R — Parece a lua! S Ã O P E D R O — isto é tribofe! N ão é possivel? Já estamos no suburbio? V ou ver!

(S a e)

CENA III

Menos Pedro

o P O E T A -S O L D A D O — T rib ofe velh o! M A L V I N A — E o complot? O P O E T A iS O L D A D O — Contra o judeu? A S Q U A T R O — V oce afinal não nos d is s e ... O P O E T A -S O L D A D O — Voces não topam! I A S Q U ATRjO — T opam os ! O ra ! O P O E T A -S O L D A D O — Escutem! V oces sabem que estamos sujeitos nos espaços interplanetários ás leis da Relatividade. Podemos chegar á terra amanhã como ante-hontem. Isso depende só da velocidade que levarmos. Se o Professor quizer, fuzilamos São Pedro sem fazer um gesto. A S Q U A T R O '— Com o? Com o? O P O E T A -S O L D A D O — Inaugurou-se ha dois dias na Alemanha de Hitler a campanha de niorticinio con­ tra os ju d e u s .. . Vocês ouviram pelo r a d io ... pois é só fazer o balão apressar a marcha, depassar a ve-

Sr

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locidade da luz e aterrar em Berlim ante-ontem, no meio do autonda-fé! M A L V I N A — G ozado! E T E L V I N A — Que idéa mãe! A V O Z D E P E D R O — Terra! E ’ a terra! A V O Z D E IC A R — A Inglaterra! O P O E T A -S O L D A D O — Que pena! Na Inglaterra nunca mataram Judeus! Só escondido.

CENA IV Os mesmos, Pedro

S Ã O P E D R O —• Vejam a paizagem ! Que maravilha, meus filhos ! Venham ver o mappa-mundi! M A L V I N A (í/a janela) — Que ventania! O P O E T A -S O L D A D O — Bôa para a guerra quimica! Q U E R U B IN A — Estou enjoando {vom ita a um canto) M A L V I N A {deixando a janela) — Não olhem, dá ver­ tigem ! A V O Z D E IC A R — E ’ aqui que se engendra o granizo e se encaroçam as n e v e s .., S Ã O P E D R O — O mar lá em b a ix o ! Cheio de p eixes! O P O E T A -S O L D A D O — E ’ a região dbs trovões! E ’ preciso fascizar o mundo! {trepa a uma mesinha) Desafiae o Destino! Desprezae a morte! Conduzi vossa esperanças para lá de toda sabedoria, de todo medo, de todo pudor! (o radio fala). SÃ O P E D R O {alarmado) — Escuta! Cala essa boca: M eetingueiro! V ocê não ouve o radio ? .. . Parece que qualquer coisa de grave está se passando lá em baixo. Na America do Sul. Eu distingui. Silencio!

(T od os se tornam atentos).

o R A D IO — O oooooooooo! O povo invade, nâo res­ peita nada ! O P O E T A -S O L D A D O — Mama m ia! O R A D IO — O povo p ro te sta ... Um tiro certeiro! A policia toma posição no campo para evitar maiores d esord en s... (barulho minteligivel) S Ã O P E D R O — Parece que é uma revolução! O P O E T A -S O IJ D A D O — Que droga! «S^rá a revolu­ ção social? V olto para o céo! S Ã O P E D R O — Deve ser ! Que barulho ! O R A D IO — Ministrinho passa a bola. Com um cer­ teiro’ tiro Friedenreich marca o primeiro goal para o São P a u lo ... S Ã O P E D R O {fechando o radio) — Ora essa! E ’ uma partida de futebol no Brasil. Podemos ficar tranqui­ los. A s massas iludidas ainda se divertem com isso. O P O E T A -S O L D A D O (retomando a s m posição de co- ípicio) — Heil ! H eil! D uce! H eil! Que a maqui­ na do universo pereça na psicose da guerra! S Ã O P E D R O — Se você continua esse discurso, eu abro o radio! {a b re). O R A D IO — Terra! A terra! P. R. A . O . T . Terra firme. O objeto do trabalho humano. A s provisões. O s meios de vida. O s celeiros capitalistas ! E a f ome das massas ! O P O E T A -'S O L D A D O — E ’ uma estação bolchevista! M uda! A S Q U A T R O — Ora, vamos ouvir ! O R A D IO — Terra! Humanidade! A s trocas entre o homem e a natureza. A evolução ! O capital ! A luta contra o capital ! m A V O Z D E IC A R — Estamos caindo! A S Q U A T R O — A onde?

‘ -i-

A V O Z D E IC A R — Prognostico confirm ado! In­ glaterra ! . S Ã O P E D R O — Olhe lá em b a ix o ! Uma corrida de ca­ valos v iv o s! Eu conheço. E ’ o Derby de Epsom. O maior prado do mundo. A gora sim, vocês podem jo - .gar g ro s so ! O P O E T A -S O L D A D O — Eia! E ia! Alalá! Destrui­ ção, marcha atraz de m im ! Eu te abriçei de par em par os caminhos da G loria! 'P osspo o coração de Macbeth e a bolsa de R ock feller!

CENA V

Os mesmos, o Divo

O D IV O (aparece esgazeado, bebedo, á porta da cabina de cornando) — Acabou o eter! Estamos na atmos­ fera ! Garçon ! Um uisque !

PANO

V

it f e i . . V

t

. V .

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