9o Quadro - O Planeta Vermelho
9.“ Quadro
O Estratopprto
A cena representa uma sala de espera da Gare Interplanetária na Terra Socialista — Passageiros chegam e saem — Num banco Icar, Pedro e Mme. Icar.
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CENA I
Icar, Mme. Icar e São Pedro
S A O P E D R O — É inutil. Os bolchevistas não são trouxas. ,Vocês viram a demagogia que eu desen volvi na revisão do processo. Estava certo de que acabava comissário do povo para a Marinha. V o cês viram o resultado. Não me mandaram para a Judéa nem para o Volga, ateirdendo á minha decre pitude. 'Nisso eles são corretos. Mas sou com vocês dois um viandante perdido nas estradas do novo planeta, (apontando o cachorrinho Szi^endem- b org ). Para nos guiar, restituiram-me este traste do céo. IC A R — Somos o proletariado de lama de M A R X . .. S Ã O P E D R O — N o Planeta Verm elho! IC A R — A burguezia está liquidada na terra. O radio anunciou o suicidio de Hitler e o empalamento de Chan-K ai-Chek. . . S A O P E D R O — Mussolini fugiu para a lua com o rei 1 IC A R — N ão creio. |Não vê que ele ia ficar num su búrbio da te r r a .. . S Ã O P E D R O — Talvez esteja escondido em M a r te ... IC A R — O Partido Comunista de lá já é f o r t e .. . E
ha muito anti-facista! Qualquer dia liquidam ele! S A O P E D R O — Se ele chegou a Marte está salvo. Lá não admitem campanha anti-guerreira. . . IC A R — É o tipo do planeta reacionário! Mme. IC A R — Melhor é nos cavarjnos um passe para onde ainda esista cortezia e gente que tomou chá em creança. Quem sabe se nas vizinhanças de Marte eu encontro a ossada de meu finado esposo. .. S Ã O P E D R O — Pendurada numa nuvem ! Mme. IC A R — Na Via Látea! IC A R — Continuas não me reconhecendo, Mariquinhas! Mme. IC A R — Depois da analise do femur, fiquei mais confusa ainda. S A O P E D R O — Entregaram o resultado? Mme. IC A R {batendo no fem ur que traz argolado ao p escoço). Descobriram que esta reliquia é de um fóssil. . . IC A R — Eittão, meu não é ! Mme. IC A R — De um fossil biblico. . . IC A R — É você Simão P e d ro ! Mme. IC A R — Ou de um fossil medievo! S A O P H D R O — É você, professor! Mme. IC A R — Continuo perplexa e bigama!
CENA II
I '' i: Os mesmos, a Baroneza de Monte de Venus
S A O P E D R O {a turista) — Uma esm ola! Pelo amor do Deus das esferas. .. {tira uns sons de sanfona). A B A R O N E Z A {aproxim a-se comovida) — Pobres! ,São muito infelizes, sim? O S T R E S — Muito infelizes.
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A B A R O N E Z A — Tiveram um lar, crcados, rendimen tos, salas de banho? S Ã O P E D R O — Tive uma fazenda, senhora! Mme. IC A R — Agora é o proletariado que se lava. Nós andamos sujos. S Ã O P E D R O — Não tom o banho ha 20 séculos! lí.
Desde que fui batizado no Jordão ! IC A R — Estamos cheirando mal, A B A R O N E Z A — A revolução deixou-nos assim! SÃO PED RO — Prontos! IC A R — Lisos! Mme. IC A R — Sem této! A B A R O N E Z A — Barbaridade! IC A R — Se quizer, podemos lhe contar a nossa terrí vel historia ao som da sanfona. A B A R O N E Z A — Não convem. Sabem? A Guepéu enxerga. Mas eu sei de tudo o que se passa.. . Já li o Paraizo Terrestre. Depois, a Imprensa de Marte está in form a d a ... Mme. IC A R — A fidalga é de Marte? A B A R O N E Z A — N ão sou. Sou a baroneza do M on te de Venus. Mas morei muito tempo em Marte. Depois na Lua. Sou ate lunatica naturalizada. Para estar mais á vontade aqui. Felismente, con servo-me fiel aos principios Marcianos. Fui edu cada no Convento das Irmas Venereas! V ou dei- xal-os. Podem desconfiar, {joga-lhes uma moeda) Deus os proteja e salve a Santa Mãe Terra! A V O Z D O E M P R E G A D O D A G A R E — Vae partir! Marte, o Sol! Não pára na Lua! Recebe passa geiros em correspondência para Jupiter, Venus, U rano!
CENA III
Os mesmos menos a Baroneza
JC AR — Os meus balões! S Ã O P E D R O — Bonito! Nos deu mii dolar de M arte! Agora é que são elas. Como é que vamos trocar esse dinheiro? Precisamos arranjar o visto da Fis calização Bancaria! IC A R — Não vê que eles nos dão! iMme. rCAR, — Ha uns vendedores de cambio por a i. . . S Ã O P E D R O {com o dedo nos lábios) — Psiu! Cam bio negro. IC A R — Eu conheço um. Tomei batida com ele outro % dia. Mme. IC A R Porque é que chamam de cambio negro? IC A R — Foi um preto que inventou. . . SÃO PED RO Olha! La vem um dos taes. Mme. IC A R — Vamos chamal-o.
CENA IV
Os mesmos, o Vendedor de Cambio Negro
IC A R {chamando) — Faz favor, cavalheiro! O V E N D E D O R — Chamou? IC A R — Pode nos dispensar um minuto de atenção? O V E N D E D O R — Ãs suas ordens. .. IC A R Esse meu amigo recebeu uma herança. O V E N D E D O R — Herança? IC A R — Sim, uma herança telegráfica. De Marte O V E N D E D O R — Cheque ? IC A R — Não. D olar!
o V E N D E D O R — Já sei. Querem trocar. Não. Não faço deases negocios. Impossivel. N ão me dao cobertura. IC A R — Mas tenha paciência. Escute. N ão somos delatores. O V E N D E D O R — Impossivel.- Fuzilam-me se des cobrirem. Eu não vou me arriscar a isso . . . Ê na certa. P ro m uro! S Ã O P E D R O — Damos 15 % 1 O V E N D E D O R — Inútil. IC A R — Vinte e cinco! O V E N D E D O R — O senhor sabe que para nós que não nos conformamos com o novo regimen, os tem pos estão duros. Não fazemos parte das coopera tivas e temos que pagar caro o nosso protesto. IC A R — Somos do mesmo setor social. Comprehende- mos que precisa ganhar. Sentimos muito não lhe poder dar maior lucro. O V E N D E D O R — Onde está a moead? V ou ver se posso fazer alguma coisa. I C A R (mosfrando-a) — É um ddlar de M a r te ... O V E N D E D O R — 'Dou dois mil r é is ... IC A R — Mas vale vinte! O V E N D E D O R — Então, troque noutro lo g a r .. . IC A R — Mas isso é absurdo. O seu lucro é fantástico! iNão pode ser. O V E N D E D O R — Meu caro senhor somos os últi mos burguezes da terra. Entre nós tem que ser assim. A liberdade de comercio e de lucro! Eu arrisco o meu ca p ita l...
(O uve-se lá fóro. uma descarga).
CENA V
Os mesmos, o agente da Quepeou
O A G E N T E — E a tua cabeça! Continuas a iludir, que res ainda negociar clandestinamente ? Espião da pro- piedade privada! Ouviste a descarga. Foi o teu companheiro de balcão. ^ VENDEDOR • Eu tenho familia I Eu tenho filhos. Pelo amor de Deus ! O A G E N T E — Inútil. És um reincidente! iDtevias sa- ter que o que não convem ao enxame não convem á abelha. Vem dai. O V E N D E D O R — Eu pago! Eu entrego todo o meu lu cro! Eu tenho dinheiro. O A G E N T E — N o nosso regimem, quem se vende tem a^ tua sorte! O lh a ! Os pés dos que te fúzilarão ja estão naquela porta. M archa!
CENA VI
Menos o vendedor e o agente
{P ed ro toca no oco^rdeon uma nuirchi- nha militar).
IC A R Vejam a que estamos reduzidas! Mme. IC A R ~ Eu já estou conformada. O' que me preo cupa é só uma coisa, uma coisa só. . . IC A R — O que? í! Mme. IC A R Não ter visto a careta que ele fez quando Ií morreu.
IC A R — Quem ? Mme. IC A R — M eu defunto!
{Tum ulto na plataforma, Sereias de alarme) .
CENA VII K Os mesmos, o Carregador
O C A R R E G A D O R — Fugiu! E ! Condessa! Padre Eterno! Vocês hão viram passar por ai um bur- rinho ? S Ã O P E D R O — Não. O C A R R E G A D O R — Mas por onde sumiu, esta bestia! Sacramento! Isto é algum com plot! Contra a se N. gurança do Estado! Burro capitalista! IC A R — Que côr era? SÃO PE D R O — Côr de burro quando fog e! O C A R R E G A D O R — Estava endereçado á Cristian S cie n ce ... IC A R — Onde? O C A R R E G A D O R — Em Marte. Segurem ele se pas sar por aqui. Desgranhudo! Estava tão bem engra dado ! Bestia !
CENA VIII
Menos o Carregador
S Ã O P E D R O — Vocês sabem que burro é esse? O burro que ia ser deportado para Marte? IC A R — Destinado á Cristian Science?
S A O P E D R O — Perfeitamente. É o burrinho de Cristo. Mme. IC A R — O que entrou com ele em Jerusalem? S Ã O PE iD'RO — Esse burro apareceu tres vezes: N o nas cimento da creança, fazendo de aquecedor. Depois na fuga para o Egito. Burro ensinado. Conhecedor de todos os caminhos da terra ! Em Jerusalém, era ele que conduzia o M essias. . . IC A R — Porque será que ele fugiu agora? S Ã O P E D R O — Porque não é burro, é cavalo! IC A R — Não entendo. S Ã O P E D R O — V ocê se lembra de quando o poeta- soldado levantou a multidão para a guerra por oca sião do nosso desembarque? IC A R — Se me lembro! S Ã O P E D R O — Quando todos os cavalos da Historia e da Fabula acorreram ao chamado do seu alalá! IC A R — T od os! Eu vi! S Ã O P E D R O — Nessa grande festa dos cavalos reacio nários faltava um — o principal. . . IC A R — Qual era? S Ã O P E D R O — O cavalo de Átila. IC A R —•(De fato. S Ã O P E D R O — É o burro de Cristo. O que fugiu ago ra. O mesmo. IC A R — E que ele pretende? S Ã O P E D R O — Dissimulado no mais pacifico dos ani- maes, secar os corações por onde passa. Prom over na terra socialista, a reação e a desordem. IC A R — Estás ficando bolchevista, P edro! SÃO PED RO Não. E ’ o contagio da verdade. Sou um inutilizado para os esforços da socialização, mas conheço a historia do mundo! Fui M oisés no Egito, Pedro em R o m a .. . Fui a lei antiga!
{S ilen cio).
H oje sou Moisés e Pedro no século de Lenine! IC A R — A nossa desgraça devia te impedir qualquer simpatia para com os nossos inim igos. . . Mme. IC A R — Eles se apropriam de tudo que era nosso! Até dos filhos. S Ã O P E D R O — Para salval-os talvez. Eles são a lei ;nova. Cumpriram o Apocalipse. Fizeram o juizo final na terra! IC A R — V ocê é um caso perdido. Continua Judeu e profeta. Mme. IC A R — Defende os homens maus. IjC A R — Roubaram a minha invenção. Fui o primeiro homem que passou o oceano atmosf érico. Sou Icar. O inventor da estratosfera! A primeira ave que pou sou viva no céo! ;
CENA IX Mais o empregado da gare
O E M P R E G A D O D O G A R E — Que discurso é esse aí, garnizé? IC A R — Fui eu o inventor dos ícaros interplanetários. Sem mim os homens atuaes não teriam esta gare cen tral que liga os astros pela navegação. Nem você teria o seu emprego. O E M P R E G A D O iDA G A R E — De que te queixas? De teres produzido um beneficio para a humanidade? Restituiste apenas o que ela te deu. Velho idealis ta, acreditas ainda que as. invenções são obras de um só homem. Não vês como delas a humanidade se apro pria serenamente. Quem inventou o fog o? IC A R — Foi Prometeu! O E M P R E G A D O D O G A R E — Vives nos mitos. Não sabes que o inventor é apenas quem acrescenta a
ultima pedra c io edifício experimenta/ndo antes, por inúmeros trabalhadores, anonimos e sacrificados ? IC A R — Não quero saber! Fui eu o primeiro! O E M P R E G A D O D A G A R E — O ícaro 3007 vae che gar. Vem nele uma caravana de turistas de Marte para visitar a terra socialista, o Planeta Vermelho como dizem eles. Vaes ver que fauna magnífica nos arranjou a tua invenção.
CENA X
Menos o empregado da gare
{Tum ulto de chegada do navio aereo) 'V S Â O P E D R O — São eles. IC A R — Os marcianos. Mme. IC A R — Talvez eles troquem a nossa moeda! S A O P E D R O — V ocê só pensa em dinheiro, mulher! Mme. IC A R — Não vivo de brisas. ..
CENA XI
Os mesmos, os marcianos
{É um pelotão de boyscouts edosos. Bigodeiras. Cuecas de couro. Cabos de vassoura. Aparelhamento completo de campanha. São guiados por um apito que o chefe fa z soar incessantemente. N ão deixam nem por um instante o passo de marcha).
O C H E F E — Entra na fila!
Mme. IC A R — São escoteiros! S Ã O P E D R O — De bigode! IC A R — Não tem mulheres. S Ã O P E D R O — Não trazem de medo que sejam socia- lisadas. O C H E F E — Disciplina! O senhor está fóra da fila! Precisamos dar exem plo! XCAR — Mas eu li que ia chegar um balão só de mu lheres ! Mme. IC A R — Estás louquinho para ve-las, cinico! O C H E F E — Fila! V am os! Mais uma vez peço que não concedam entrevistas ! Um dois ! Um dois !
(Sae apitando na frente. Os marcianos seguem-no procurando manter-se em boa ordem ).
CENA XII
Os mesmos, menos os marcianos
S Ã O P E D R O — São todos capitalistas... Mme. IC A R — V ê-se que é gente distinta. IC A R — M ijam como nós! Mme. IC A R — A derrota transformou vocês! Só eu que me conservo fiel aos meus principios! Homens fra co s ! S Ã O P E D R O — Somos o passado. IC A R — A decadência! Mme. IC A R — Toque alguma coisa, Pedro! S Ã O P E D R O — Tocarei os nossos funeraes. Os fu- neraes de um mundo.
{E xecu ta na sanfona a marcha fúnebre de S iegfried ).
IC A R {levantando-se) — H eroe de W agner e Julio> V er ne, o meu ideal é um passe pera M arte!
{Tum ulto na plataform a).
A V O Z D O lE M P R E G A D O — íca ro 3008! V ae par tir! Marte, Jupiter, Saturno, o S ol! Larga! IC A R — O meu balão. A h ! Só ha um tumulo digno de mim — a estratosfera ! {A tira-se pela porta e desa^ parece esperneando numa corda que pende do ícaro em ascensão). % Mme. IC A R {soluçando alto) — Viuva de novo. Que irei fazer! i S Ã O P E D R O — Abriremos uma venda. O pequeno comercio é permitido. O C A C H O R R IN H O — Au ! Au ! A u ! A u ! A u ! A u ! S A O PEIDRO {levantando-se e tomando nas mãos o lulit) — Swendemborg! Fomos julgados!
PANO