4o Quadro - A Barca de Sao Pedro O Homem e o Cavalo · Capítulo 5 de 10
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4o Quadro - A Barca de Sao Pedro

4° Quadro

A Barca de Sáo Pedro

A cena representa a barca de Pedro — E’ o Vaticano sobre uma jangada — No pri= meiro andar um dancing — Entre altares, hermas falantes — Lord Capone e Mister Byron. Cartazes identificadores.

CENA I

Lord Capone e Mister Byron

M IS T E R B Y R O N — Eu sei. Era uma fita de tou­ rada. Tinha um carneiro. L O R D C A P O N E — Não dá palpite! V ocê não viu a fita! Não tinha nada de tourada. Nada! E ra uma fita sacana. Propaganda terrorista. Contra a guer­ ra. E contra os coitados dos gangsters. Fiquei puto! A h ! Minhas metralhadoras de C hicago! Eu começava por v o c ê .. . Fuzilava o prezado con­ frade. .. M IS T E R B Y R O N — Mas eu também sou do seu clube! Ora es'sa! Faço parte da frente unica contra a U. R. S. S. L O R D C A P O N E — O senhor não passa de um ator­ mentado, inexperiente e impetuoso jo v e m ! I k M IS T E R B Y R O N — Defeitos de educação de landlord. Que saudades de minha m ã e! L O R D C A P O N E — Complexosinho de Edipo! Já s e i ... As classes nobres sofrem disso! M IS T E R B Y R O N — Não senhor. Nada. Eu queria era cuspir nela! L O R D C A P O N E — Continua landlord! Bravos!

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M IS T E R B Y R O N — Estou vendo que nos entendemos melhor do que pensava! Gosta de cerveja? L O R D C A P O N E — Para vender. Só bebo champanhe. ; Sou com o meu amigo Ford que anda de Rolsroyce I M IS T E R B Y R O N — Beber é um direito social. Em nada prejudica a coletividade! Andar de Rols tam­ bém. L O R D C A P O N E — Nada disso faz mal algum. O que estraga a sociedade é a imoralidade nos hotéis. A h ! Isso sim! Voilâ I’ enem i! O meu programa eleito­ ral é esse — suprimir a sexualidade por ta x i! M IS T E R B Y R O N — Nos hotéis? L O R D C A P O N E — Sim senhor! Bastava isso para salvar a sociedade. N ão precisava mais nada. O homem que entrasse num hotel com uma mulher, tinha que entrar sempre com a mesma. M IS T E R B Y R O N — Ora essa! I LORD* C A P O N E — Perfeitamente. Ele se cansava logo e ia beber de raiva nos b a rs! M IS T E R B Y R O N — O senhor me desculpe, mas é genial! L O R D C A P O N E — Á i ! A i ! M am ãe! M IS T E R B Y R O N — Que é isso? L O R D C A P O N E — Também estou com vontade de cuspir na cabeça de minha progenitora. A ultima vez que cuspi foi no sujeito que me prendeu por causa do imposto sobre a renda. M IS T E R B Y R O N — Foi um escandalo en orm e! L O R D C A P O N E — Primeiro eu quiz compral-o. Era um juiz como qualquer outro. Mas ele fez chiquê! Eu então berrei: — Quem é você, seu arcanjio de merda! Quer levar a minha nota? Chantagista! Fedido! Filho d is t o .. . M IS T E R BYROtN — Que dôr de ouvido!

L O R D C A P O N E — Porque? M IS T E R B Y R O N — E ’ o sen calão que fere a minha nobre trompa de Eustaquio, L O R D C A P O N E — Fiteiro ! N o Parlamento inglez di- zia-se amigos dos operários ! M IS T E R B Y R O N — Demagogia, meu caro. O cartis­ mo foi um movmiento perigoso. N o fundo, sémpre julguei a miséria uma necessidade social. Uma ar­ ma para acorrentar as classes pobres ás ocupações duras e repugnantes. A tudo que a vida tem de desagradavel e vil. Para que a nossa classe tenha dignidade, repouso e gramatica. O senhor deve co ­ nhecer as minhas origens históricas — a expropriação do camponez pela lan. L O R D C A P O N E — Confraternizemos então! Num outro continente e numa etapa mais avançada, eu sou a sua heroica imagem. O romantismo. O^ se­ nhor comia lã e cagava rimas ! E u bebo cerveja e m ijo gazolin a.. . M IS T E R B Y R O N — Sim bolicam ente... L O R D C A P O N E — Sim. Comercialmente, bancaria- mente. Somos simbolos apoiados em metralhadoras. M IS T E R BYRO.N — Para o trabalhador revoltado ha sempre um trocadilho final — a força ou a forca. . . L O R D C A P O N E — Ha melhor que isso. A pressão pa­ cifica e silenciosa da fome. Olhe, acredite, o que perde a America é a estatua da Liberdade ! M IS T E R B Y R O N — Eu só admito a liberdade da Gré­ cia! O h ! A H élade! , L O R D C A P O M E — Não fale nisso. Isso é passadis- m o! Leia os modernois! M IS T E R B Y R O N — Outra noite escutei umas pagi­ nas deliciosas de um tal Edgar Wallace. Mas os li­ vros estão caros. lO dinheiro se èscôa. Fico pissu-

do quando troco uma nota de cinco mil réis. Vae í toda em bora. . . L O R D C A P O N E — U etat c e s t m oi! A minha reali­ dade mata na cabeça qualquer livro de W alace! M IS T E R B Y R O N — Deixe estar que é impressionante. Aquele sujeito que afunda no tremedal com um gri­ to de gaivota, emquanto os raios estalam sobre a torre de Cragmir! E o outro que se esqueceu de trazer a pistola no dia da reunião do Bando Sinis­ tro. Não podia pular porque a janela era muito alta. . . L O R D C A P O N E — Detesto o romantismo policial. M e mexe com os nervos. A burguezia não me com- prehendeu. M IS T E R B Y R O N — Nem a mim. Classe desunida pela concorrência, acaba se estrepando! L O R D C A P O N E — Vamos ser francos. Ela nunca de­ via ter feito o que fez com igo! Sempre fui um imoralista, um inimigo do comunismo e ^da Russia. Ela agora me i>õe na cadeia e reconhece os soviés I B olas! M IS T E R B Y R O N — O senhor é mundialmente conhe­ cido como filantropo. LO RD ^^CAPO N E Sou a fauce do monopolio. In­ ventei os processos mais avançados de vencer a con­

corrência . .. M IS T E R B Y R O N — A ’ bala! como diria Floriano ,‘Peixoto. LORiD C A P O N E — Os que tinham olhos não me viam. Os que tinham i>ernas não me alcançavam. Os que tinham braços não me agarravam. C orpo fech a d o! M IS T E R B Y R O N — Mas como é que foi preso? m L O R D C A P O N E — Traição da pequena burguezia! Quando a gente não divide com os outros, eles se tor­ nam moralistas. Foi o que se d eu !

M IS T E R B Y R O N — E ’ verdade que continuamos na Barca de São Pedro. .. L O R D C A P O N E — Sim, a sociedade, rente que pode precisar de nós. Enquanto houver fornalhas nos po­ rões para os trabalhadores e em cima, Cleopatra di­ rigindo um dancing, somos grandes tipos. M IS T E R B Y R O N — A unica, coisa que lastimo é Cleo­

patra não ter reinado na Grécia, L O R D C A P O N E — Olha quem vem ai! M IS T E R B Y R Q L São Pedro e um demente. L O R D C A P O N E — O dono da barca e seu datilografo.

CENA 11

Os mesmos, Pedro (de almirante), Icar

S Ã O P E D R O — Eu sou materialista. Nunca acreditei em Deus nem quando andei com ele pela Terra Santa. IC A R — Pois eu creio e espero! L O R D C A P O N E — E ’ o papel da pequena burguezia! S Ä O P E D R O — Bom dia, Capone! Esta barca anda numa vasta decadência. Vocês dois ainda .são espi- ritos superiores que salvam a fachada. Mas a ralé anda se infiltrando. Jsto sempre foi uma coberta de luxo, destinada a turistas. Agora encontro aqui ne­ gros e galegos instalados nas cadeiras de bordo. Uma anarquia! L O R D C A P O N E — A estatua da Liberdade! IC A R — O radio afixou o resultado da subscrição. .. S Ä O P E D R O — Que subscrição? IC A R — Destinada a tirar minha familia das' aflições da miséria. .Só rendeu 271$300. V eja que buraco! Minhas filhas! Os pequeninos que precisam de leite.

M IS T E R BYROiN — Eu adoro as valsas, L O R D C A P O N E — O fo x tem mais sentimento. M IS T E R B Y R O N — O h ! Paganini! IC A R — Não ha justiça nem na terra nem no oéo! Só ha paisagem. L O R D C A P O N E — H a justiça de classe. M IS T E R B Y R O N — Com o é que se ha de desmasca­ rar os capitalistas sem desmascarar o regimen? L O R D C A P O N E — E ’ dificil! V eja a form a sabia que se deu á minha prisão. N ão fui preso por ne­ nhum assassinato, por nenhum rapto. Isso só me rendeu consideração universal. Fui condenado por um crime contra o regimen capitalista — porque so- neguei o imposto sobre a renda! M IS T E R B Y R O 'N — E não quiz corromper os fun­ cionários. L O R D C A P O N E — Só de b irra ! IC A R — Para o pobre, não ha justiça nem pão! L O R D C A P O N E — Isso tudo esta a serviço do capital! IC A R — iMas os interesses da sociedade. .. M IS T E R B Y R O N — São os interesses do capital.

(Tumulto. Corre-corre, V ozes).

n V CENA III

1f Os mesmos, o Mestre da Barca

w f \ IC A R — Que frege é este? S A O P E D R O — Que v e jo ! r#. IC A R — E ’ o Mestre da B a r c a .. . (Abandonou o posto! S A O P E D R O — Que será? O M E S T R E D A B A R C A (a São P ed ro) — Finalmen- t

u

te encontrei a alta sociedade. Só falta aquela fran­ ga lá de cima! L O R D C A P O N E — Respeite Cleopatra! M IS T E R B Y R O N — Respeite a realeza! O M E S T R E D A B A R C A — Safados ! Piratas ! Parasi­ tas duma figa ! S Ã O P E D R O — Respeito!

IC A R — Respeito! O M E S T R E D A B A R C A —- Respeito sim, para os que trabalham. Vocês nos dividiram em automates. Pre­ sos á maquina, dependendo dela. Chicoteados pela fom e ! Reduziram-nos a homens fargmentarios, iso­ lados da creação e da vida! M IS T E R B Y R O N — Chama a policia! L O R D C A P O N E — Telefona! O M E S T R E D A B A R C A — Chamem todas as policias do mundo, eu saberei revoltal-as. Que são os sol­ dados senão explorados com o nós ! L O R D C A P O N E — Forma uma milicia de filhos de rico ! IC A R — N ão ha mais ricos. O M E S T R E D A B A R C A — Sucia de ladrões. O vosso dia chegará e bem proximo ! A vossa hora virá ! Ha vinte anos que trabalho 14 oras por dia sem almo­ çar. Para vocês terem vidos e doenças mentaes. Largo hoje esta bosta! Estámos á vista dos estalei­ ros. ,Vou levantar os meus irmãos. Somos márti­ res e querermos liberdade ! '

(O u ve-se um clamor imenso do caes p roxim o).

S A O P E D R O — Traidor! V ocê nots conduziu para os estaleiros da desordem ! Faça marcha ré I

o M E S T R E D A B A R C A — Traidor é você! Pesca­ dor miserável da Galilca que se tornou chaveiro da prisão religiosa das massas. L O R D C A P O N E — Socorro! M IS T E R B Y R O N — Aqui d ’el r e i!

í 0 clamor do caes aumenta. Gritos e ' vozes subversivas).

PANO

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