8o Quadro - O Tribunal
8." Quadro
O Tribunal
A cena representa a sala do ex=*preniio No= bel, erigida em Tribunal Revolucionário — Ao fundo, grande porta abrindo sobre a paisagem classica do Qolgota, com duas cru= zes somente.
rv CENA I
Mme. Icar, São Pedro, Icar, a Verônica
(A o fundo soldados romanos, mulheres, apostolos, escravos — a multidão que es teve na casa de Pilatos.
A Verônica está secando algumas fo to grafias de grande form a to).
S Ã O P E D R O — Eu acho que conheço a senhora. . . A V E R O N IC A — Conhece s im ... S Ã O P E D R O — Não mie lembro donde. Sou um des memoriado. A V E R O N IC A — Eu me lembro. Foi naquele frege do Calvaria ha vinte séculos (volta para fren te a fotogra fia que tem nas mãos e onde aparece A d olf Hitler crucificado na Srvastika). O senhor era dos n o sso s... S A O P E D R O (reconhecendo a fotographia) — Mas esse é Cristo! Cristo rei! A V E R O N IC A — Perfeitamente! O chancelier Cristo, a ultima encarnação do anti-semitismo.
M A D A L E N A — É aqui que vae ser feito o julgamento do filho de David! A V E R O N IC A — Qual deles? M A D A I.E N A — Esse que está aí nesse retrato. A V E R O N IC A — A h ! O ultimo Deus ariano! M A D A L E N A — Eu sou testemunha. S Ã O P E D R O (Icvantamlo-se) — Madalena! Minha que rida filha! M A D A L E N A — •Quem é o senhor? S Ã O P E D R O — Eu sou o velho Pedro. M A D A L E N A — O pescador de Genesaré? A V E R O N IC A — Estamos todos juntos de novo. Eu, com as fotographias, você com os perfum es. . . M A D A L E N A — Você continua a me fazer concorrência, V eron ica! V E R O N IC A •— Absolutamente! Estou aqui em fun ções administrativas. Estou preparando a carteira de identidade dos acusados que devem comparecer hoje perante o Tribunal Vermelho. M A D A L E N A — V ocê matou a arte na Judéa. A V E R O N IC A — Fui apenas a precursora da industria do retrato. M A D A L E N A — Continiía estragando a verdadeira arte. Nem a Renascença poude com você. Aliou-.se aos pa dres para inundar o mundo de santinhos sofredores! A V E R O ,N IC A — H oje. Dedico-me ao cinema. .. M A D A L E N A — Assisti. O Rei dos Reis. Bòa droga! A V E R O N IC A — Engano. Estou a .serviço do cinema de Estado Evolui. Sou o progresso em pessoa. M ADALENA • Pois eu continuo a ser a arte pela arte.
A V E R Ô N IC A — Ainda é modelo de atelier? M A D A L E N A — Como na Judéa. Se você não apare cesse, teriamos uma arte nativa semita que fortifica ria a unidade sentimental da Diaspora. Isso talvez produzisse as maiores consequências politicas. Um povo disperso e sem arte dá nisso. . . SÃ O P E D R O — Madalena, te desconheço. V ocê parece imia deputada de classe! M A D A L E N A — Claro! Eu surgi para vocês com o uma prostituta analfabeta do século primeiro. Aquilo tudo era fita. Como fita foi a Paixão, a Cruz, a Resurrei- ção e 0 r e s to .. . N ós mantinhamos a luta tenaz contra o Imperialismo R om an o. . . A luta idealista ! SÃ O P E D R O — A s cantigas sobre a sua rua! Gostava mos tanto! A V E R Ô N IC A — V ocê recitava uma poesia futurista que o Rabi a d ora v a ... SAO P E D R O — Recite para recordarmos. Recordar é viver ! M A D A L E N A {recitando) ; —
Minha rua Minha rua em Madala Cheia de meretrizes Roidas de doença Inundadas de perfume Mortas de fom e Ninguqm vive na minha rua P or querer Nem eu Nem as outras infelizes Os fariseos frequentam A minha rua Estreita Cheirando incenso e esperma
mmm
O.S homens da lei passam por ela Eles sabem que o trabalho honrado Não rende A mulher e a filha do pobre Só arranjam alguma nota Na minha rua P or isso a minha rua está cheia Por isso choro de noite Na minha rua Quando me lembro de mim.
I C A R — Pobres desgraçadas ! Dá pena ! Devia se re gulamentar isso! ' i A V E R Ô N IC A — É a monogamia que as produz. N o Estado Socialista eles pertencem ao Museu Historico. '4 IC A R — Mas a vida sem elas perde a poesia. . . A V E R Ô N IC A — A. poesia da tuberculose e das ruelas atraz das catedraes ! M A D A L E N A — • A poesia que eu explorava ao lado do Rabi com o arma nacionalista! A V E R Ô N IC A — A ch o inútil você querer dar um chei rinho politico ao seu caso comí o Cristo. M A D E L E N A — Infelismente foi verdade. Quando esse homen apareceu sujo nas estradas me virou a cabeça. Acreditei nele. Fui perfumar-lhe os pés chagados. Era medico recem-vindo do Egito, F or mara-se no curso de magia. Pensei com o Barão em ganhal-o para a nossa causa. S Â O P E D R O — Que barão? M A D A L E N A — Bar-tá-Bás, A V E R Ô N IC A — O protetor da tal Academ ia! O fi lantropo yanke! M A D A L E N A — Sim ! O nosso complot nacional fun cionava na Academia Secreta de pintura que tinha o espantoso nome de "'O pecado pelo pecado” . Que-
riamos encobrir num movimento de arte a nossa revolução contra Roma. A V E R Ô N IC A — V ocê pelo menos teve uma coragem. lEra modelo nú ! M A D A L E N A — Para tapear e seduzir. Trazia para a nosas causa os rudes homens do interior, curiosos da minha nudez. IC A R — A senhora continua m odelo? M A D A L E N A — H oje sou patrona da arte ilegal. Entre os Judeus, quando só se permitia o cubismo e a arte sem assunto, eu posava toda núa. É verdade que os artistas pintavam tudo menos o meu corpo. Ra- faéis, Murilos, Rubens. IC A R — Comprehende-se. M A D A L E N A — H oje sou cubista.
CENA III
Os mesmos, o Soldado Vermelho de John . Reed
O S O L D A D O V E R M E L H O — O que é que a senhora quer aqui ? M A D A L E N A — Vim depôr na revisão do processo de Cristo. A V E R O N IC A — Vae bancar a Frinéa para ver se salva o amante secular. M A D A L E N A — Não. Sou nudista por higiene. O SO LD A /D O V E R M E L H O — Aqui todos vestem com o querem. O importante não é este negocio de roupa. É eliminar as duas classes. Atenção ! Os acusados! ,Os juizes! A camarada Verdade! V ão entrar Jesus Cristo e sua senhora.
(Som de orgão lá fóra. Cântico de\ ig r e ja ).
m. V O Z E S D E EUNUiCOS E V E L H A S : — \
Vestido de hranco i Chegou a fin a l! Trazendo na cinta Pistola e punhal!
Pra dar na cabeça D o pobre e do mau Gentil Bernadete % Pegando no p au !
{G ritos. Urros h istéricos).
V O Z E S — Viva o Chanceler ! V iva! P éo! Péo ! Tira o chapéu! Tira, Flavio! Lincha! M ata! A V O Z D E U M E N G E N H E IR O — Evidenteniente, coagido pela força bruta, -vencido pelo numero, vejo- me forçado a continuar o meu caminho sem chapéu. Mas -esse puto me paga !
{S om de castanholas. Tum ulto).
V O Z E S — Viva la grad a! Otro toro! M icago en D ios! Viva o senhor do sabado! Tira o chapéu, Flavio! P éo! P éo! F ora! N ão tira! Deus da burguezia! F ora! Põe o chapéu! Desacata esse veado! F ora! F ora!
CENA IV
Os mesmos, Mme. Jesus, Cristo, povo, os personagens da platéa
Mme. JE S U S — {empurrando Cristo que vem armado com as armas de todas as edades. Camisa evange- lico-facista e mochila. Capacete de espinhos. Tu nica alvíssima. Guarda chuva preto.) — Anda hom- b r e ! Y o te quiero mostrar como tiengo cohones delante de las guardias ro ja s !
CENA V
Os mesmos, o Tigre do Mar Negro, a Ca marada Verdade
O T IG R E — {tomando logar na mesa ao lado da Ca marada Verdade que se conserva de pé. A V ero nica coloca-se do lado oposto. Madalena toma po sição de modelo, no primeiro plano, atraz de Cristo.) — Não temos tempo a perder. . . /Vamos! O S O L D A D O V E R M E L H O — Silencio! O T IG R E — A construção socialista exige todas as aten ções. Mas como este tipo popular ainda preocupa as massas em atrazo, vamos liquidal-o. Faça os interrogatories. O S O L D A D O V E R M E L H O — A senhora primeiro.. .Seu nome? Mme. JE SU S — Teressa! O S O L D A D O V E R M E L H O — De que? Mme. JE SU S — De J^esus, todavia!
o S O L D A D O V E R M E L H O — Teresa ou Teresinha? Mnie. JE S U S — Teresinha. es mi hija con el Espirito- Santo. O S O L D A D O V E R M E L H O — Deixa de magica! Sua profissão? Mme. JE S U S — Capanga de mi esposso!
{Chegando-se para a platéa e a ela se dirigindo).
Para defenderlo contra los comunistas. Se hai al- guno en la sala que se presente! H om b re! O S O L D A D O V E R M E L H O — Atenção, Madame, Isto aqui não é campeonato de b o x ! U M E S P E T A D O R {da platéa) — Viva usted e viva su amante I Mme. JE S U S — Viva la g r a d a .. . de D ios! Se yo non bancasse su interventor, já lo habriam destrozado pobrecito! Mire usted Veronica. Su corona de espinos se transformo em capacete de aço! Haga um g ru p o ! O T IG R E {a Cristo) — O .senhor é Deus? C R IS T O — D iz e m .. . O T IG R E — O senhor é acusado de ser um elemento insuflador em todas as guerras. Em todos os hinos r ♦' e besteiras nacionaes, o senhor aparece. Os alemães quándo querem matar gente dizem G O T M I T U N S ! Os francezes dizem D l E U G A R D E L A F R A N C E ! Os inglezes G OD S A V E T H E K I N G ! Mme. JE S U S — Peró la guerra nos molesto tambien. Como nó ? Los aeroplanes e los cânones destrui ram dos casitas-bengalós que teniam os! O S O L D A D O V E R M E L H O — Proprietários, hein? Mme, JE S U S — Por cierto! El fué el primer minis tro socialista que hubo en el mundo!
o T IG R E — O senhor não nega ser agente da II." Internacional. C R IS T O — P edro! Pedro, vem em meu auxilio! O SO LD A iD O V E R M E L H O (a São P ed ro) — O se nhor conhece esse homem? S Ã O P E D R O — N ão!
(U m galo canta lá fó r a ). {*0
C R IS T O — Havias de me negar outra vez! Safado.
(D iversos galos cantam).
S Ã O P E D R O — Faça o obséquio de mandar esses galos ficarem quietos. O SOLIDADO V E R M 'E L H O — Impossivel. Tem uir, galinheiro ai atraz! S Ã O P E D R O — Pois então eu quebro a minha mudez milenaria! Eu falo. Quando neguei este homem, fil-o concientemente! Ele é que era um traidor! C R IS T O — N o entanto, trabalhamos juntos na Inter nacional das Catacumbas! S Ã O P E D R O — De facto. Mas foi você quem entre gou esse movimento á reação no século I I I . .. C R IS T O — E u ! > , S Ã O P E D R O — Quem foi Constantino? Era você proclamado imperador! E que fez Constantino.'' Inventou o celebi'e derivativo dos facismos históricos — Façamos a revolução antes que o povo a fa ç a ! C R IS T O — Fui eu que criei com João Batista a grande senha do Reino do Céos! S Ã O P E D R O — N o nosso comitê apostolico o Reino dos Céos tinha de fato uma significação revolucio naria. Concreta e terrena. iEra o poder que que- riamos teimar com as massas oprimidas. Quando
il Roma perdeu a Dacia e foi batida em Teuteburg, ,a mão de obra em carência ameaçou o latifúndio. Mas a revolução agraria se processou em torno da pequena propriedade. A s massas encaminhadas para a servidão viram o latifúndio se reconstituir com o feudalismo. E ficaram esperando até hoje pelo Reino dos Céos! C R IS T O — Estás inbuido de materialismo historico, P edro! Nem parece que vieste das celestes para gens de meu pae I S Ã O P E D R O — Sim. Vim do céo I Dum paiz de bor boletas, abelhas, colibris ! Um paiz sem saúvas. Para creanças ricas. O céo, meus senhores, é uma tapeação de classe. Eu sou um rude homem terre no. Fui pescador, fui ba rq u eiro.. . V O Z E S — Abaixo a demagogia ! O S O L D A D O V E R M E L H O — Baixjueiro você vae ser agora. Barqueiro do V olga! C R IS T O — Pedro, eu te tirei do cárcere em Jérusalem, no dia em que Tiago foi morto á espada. S Ã O PEIDIRO — Tirou o que! C R IS T O — Um anjo te libertou! S Ã O P E D R O — Tapeação! A n jo nenhum! Foi o ca pitalista Arimatéa que mandou embebedar os guardas e abriu o xadrez. Viviamos de magia. Teretetê, a n jo! C R IS T O — Eu sempre falei jx)r parabolas! O T IG R E — Porque? C R IS T O — Para não ir preso. O S O L D A D O V E R M E L H O — Q ual! Na Judéa você sempre foi protegido pela gente grossa! C R IS T O — Não nego. Enverguei diversas vezes a minha túnica de soirée. Era convidado. S Ã O P E D R O — E deixava os apostolos lá fóra !
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0 T IG R E — A comissão de textos evangélicos, exami- inando o seu caso, chegou ás seguintes conclusões: as suas parabolas foram todas reacionarias. A con sagração da injustiça e do arbitrio. D o salarie ini- quio. A incitação á usura e aos juros altos. Por exemplo : o servo que ganhou cem por cento, pre miado. .. Lições contra o divorcio e a favor do adultério. O plano quinquenal da sabujice e da il jmentira. O senhor foi um espermatozóide feroz da burguezia e mais nada. Ela tinha razões de sobra para endeusal-o. A s suas declarações foram aliás positivas. Não. veiu revogar a lei, mas cumpril-a. O Sermão da Montanha era uma provocação clara. Preparava o Imperialismo Romano. Não pode ne gar as suas ligações secretas com Pilatos. O pro- ,v'ocador Judas e o famoso centurião convertido eram as pontes. lEstavam todos interessados no monopo- lio do azeite. C R IS T O — Eu queria o bem ! 0 T IG R E — E por isso resuscitava herdeiras ricas! UM R O M A N C IS T A IN G L E Z {Falando da plaféa) — E doentes. A resureição anti-cientifica. O contra rio da eutanasia !
CENA V
Os mesmos, Fu*man=chú
(O chinez brota do sólo num espaço da plat é a ) .
F U -M A N -C H Ú — Eu sou a graciosa M orte! Sou Fu- M an-Chú! A luta individual contra o Imi:>eralismo
Inglez. O Terror de Scotland Yard. Sou o ultimo mosqueteiro. Mas não faço com o os outros, a epo- péa do servilismo! Sujeitos que viviam pulando muros para facilitar as trepadas da Rainha com Lx)rd Buckingam! Eu era Taoista! Queria rege nerar o mundo sem estrepito de vozes, sem depre dação e sem efusão de sangue! Mas o Imperia lismo me transformou numa féra cautelosa. Sou a luta contra a melhor policia do ocidente. Som F u -M an-C h ú !
CENA VI Os mesmos, Dartagnan
( 0 mosqueteiro ataca o oriental de flo rete e fal-o correr para o palco, por onde o segu e).
D A R T A G N A N —• Em guarda, chinez duma figa! iMonstro da demagogia e maus costumes ! Em guarda! F U -M A N -C H Ú Quem é esse furação de florete? DARTAGNAN Sou Dartagnan! A capacidade de serv ir! F U -M A N -C H Ú — Lacaio! Produto da domesticação das massas ! DARTAGNAN - V ilã o ! I n fie l! ,A m arelo! F U -M A N -C H Ú - Mosqueteiro páu d’agua e corrupto... D A R T A G N A N — Mas leal e vistoso! FU -M AN-^CHÚ — Inconciente! Lacaio! Defendes os gemidos de amor das putanheiras do ocidente! D A R T A G N A N — Dou o meu sangue p or uma socie dade de Buckingans e corn udos! Sou oje um feno-
meno de massa! H itler! M ussolini! Gustavo Ga- rapa! F U -M A N -C H Ú — Então sou teu parente! Sou Chan- Kai-Chek! D A R T A G N A N {avançando para espetal-o) — Nada! És de outra raça! E scravo! Em guarda! D efende-te!
(Sae pelo fundo atras de F u -M a n -C h ú ).
O S O L D A D O V E R M E L H O — Para fóra, canalha do passado! Para o Museu H istorico! Se vocês con tinuam, eu mando jogar gaz lacrim ogenio! A V O Z D E F U -M A N -C H Ú — Te ipnotiso, Lacaio! T e enveneno! A V O Z D E D A R T A G N A N — T e esgano! T e furo, saco de merda! O R O M A N C IS T A IN G L E Z — O h ! Eles acabam se reconciliando lá dentro!
CENA VII
Os mesmos, menos Dartagnan e Fu-man-chú
O S O L D A D O V E R M E L H O — Quem é o senhor para estar dando palpite assim? O R O M A N C IS T A IN G L E Z — Sou ulm romancista inglez! O S O L D A D O V E R M E L H O — Então póde! O R O M A N C IS T A IN G L E Z — Eu queria elucidar pe rante este tribunal as origens humanas do Rabi Esse homen introduziu o sobrenatural na procreação! Mas eu descobri o negocio todo! C R IS T O — Sou filho de rei! Filho de D avid !
o R O M A N C IS T A IN G L E Z — Filho de rei. Filho de' Herodes e Salomé ! A virgem Maria era Salomé regenerada. Deixou o palco para se casar com o marcineiro José e evitar os continuados escândalos da côrte! V O Z E S — Cristo era filho de rei ! Filho natural de Herodes ! O R O M A N C IS T A IN G L E Z — Per feitamente ! Por isso € que os pastores e os magos vieram adoral-o. Se ele fosse filho de outro, Herodes não mandaria proceder á matança dos inocentes, para exterminal-o. O S O L D A D O V E R M E L H O — Temia uma revolução que puzease o herdeiro ilegitimo no trono. E ’ isso mesmo. UM P E Q U E N O B U R G E Z (da Platéa) — Senhor! Perdoa os que te insultam ! Eu sou lün pequeno burguez sincero. Deante do teu renovado martirio, me converto. E sigo o duro caminho do teu novo Calvario ! Mme. JE S U S — Que c ’est gentil ! S Ã O ,P E D R O (a Cristo) — Messias, terás sempre idio tas a teu serviço! E u também fui aissim.! Mas aprendi á minha propria custa. Quando presidi o grupo de auto-defesa no comicio de Getsemani e cor tei a orelha do tira que te prendeu, tu a repuzeste no logar ! Traidor ! C R IS T O Eu sempre fui pela coloboração de classes! S Ã O P E D R O — Não é bem isso. A tua politica colo- boracionista era uma farça. Estava tudo mais que combinado e ensaiado por Judas com o lugar tenente de Roma, Poncio Pilatos. Ele* f ez tudo para te por na rua e sacrificar o chefe nacionalista Bar-a-Bás. Mas o povo não foi na onda ! C R IS T O — Pedro, estavas coanigo na Ceia!
S Ã O P E D R O — Na ceia, Judas foi admiravel quando, de combinação comtigo, se inculcou como o teu futuro denunciante. Foi de um enorme efeito deante dos apostolos! Os apostolos representavam a massa que queria a revolução. Tu despistaste, porque estavas a serviço de Pilatos, que depois não te poude dar mais a liberdade. Supondo fracassado o plano de entregar o paiz á Roma, Judas suicidou-se. Foi mais digno do que tu, com o disse o nobre poeta português Guerra Junqueiro ! O R O M A N C IS T A LN GLEZ — Cristo não morreu na cruz. Foi salvo de fáto pelo seu poderoso amigo Poncio Pilatos. Este permitiu, contra toda a etica iprocessual, que o businessman Arimatéa o retirasse da cruz sem a prova das penias quebradas. Ele não es tava morto ! S Ã O P E D R O — Puta merda ! É verdade ! O R O M A N C IS T A IN G L E Z — Os dois ladrões tiveram /as pernas quebradas. . . C R IS T O — Mas o centurião varou o meu lado com a lança! Eu estava morto. Resuscitei, depois. O R O M A N C IS T A IN G L E Z — Isso é boato de padre! O centurião era camarada. Fez um arranhão no lu gar da terceira costela ! Sem isso, o senhor não apa- receria dias depois comendb peixe frito no lago de Genesaré ! S Ã O P E D R O — É isso mesmo. O romano tinha embe bido na esponja um saporifero para te aliviar as do res. U m complot! O R O M A N C IS T A IN G L E Z — Era natural que o (Messias não fosse encontrado pelas mulheres no se pulcro. . . S Ã O P E D R O — lEstava no m edico!
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o T IG R E — Queremos que elucide este texto de M a teus 5 — versículo 25 — “ Harmoniza-te depressa com o adversário para que ele não te recolha á prisão” . CRIvSTO — Ensinei: — Quando alguém te esbofetear numa face, oferece a outra! S Ã O P E D R O — Em linguagem política isso quer dizer: — Se o Romano te tomar a Judéa, entrega-lhe a a Galiléa! O T IG R E — Está provado que Cristo preparava o advento do Imperialismo Romano de conquista, em Israel convulsionada ]>elos distúrbios nacionaes pos teriores a Quirinius. Poz o contribuinte entre a Igreja e o Império. jEntre Cézar e Deus! Foi um agente dissimulado de Rom a! V O Z E S L Á F Ó R A — Viva o P. R. P . ! V iv ó ! Viva a Comissão D iretora! V ivóóó ! O SOLDAIDO V E R M E L H O — Que barulho é esse?
CENA VIII
Os mesmos, Barabás
B A R A B Á S {entrando alinhadissimo, de casaca. É o tipo do capitalista internacional). — Peço a palavra! O S O L D A D O V E R M E L H O — Quem é esse figurão? B A R A B Á S — Sou o Barão Bar-A-Bás de Rotschild. Represento as aspirações sionista de meu povo! Mme. JE S U S — Es la banca internacional! S Ã O P E D R O — É o chefe nacionalista que o povo pre feriu a Jesus! Viva a minha terra! Viva a Pales tina! Viva o município de Betsaida! O S O L D A D O V E R M E L H O — Fecha o escapamento, perrepista!
B A R A B Á S — Esse entusiasmo do meu povo por quem soube através da dispersão e da luta, manter alto o espirito semita, é justo. Nunca estive envolvido no caso do azeite! S Ã O P E D R O — O azeite das virgens! B A R A B Á S — iNão. O da Standard Salad I ê? Mme. JE S U S — Tilburón! T e doy con la guadachu- via en la cara! r*4 O S O L D A D O V E R M E L H O — Calma, jararaca! Mme. JE S U S — Nosotros somos pequenos burgueses. É1 hace empréstimos ! T ilbu rón ! B A R A B Á S — Nunca servi sinão o meu próprio impe rialismo ! C R IS T O — Clemencia! Paz na terra aos homens de boa vontade! O T IG R E — Só há um reimedio para vocês idealistas da usura e guias da reação. V ão se matar na Pa lestina, organizando minorias nacionais. A massa e os soviés saberão recebê-los ! C R IS T O — IDd novo, o Calvario! U M P O E T A C A T O L IC O {declamando da platéa) : — ‘‘M otorneiro do meu bonde errado. Conduze-me até 0 fim da linha !^’ B A R A B Á S — De novo as grades! {para Madalena) Vamos M ag! O S O L D A D O V E R M E L H O — N o Golgota ficaram as cruzes dos dois ladrões. Servem sob medida para vocês. Mme. JE S U S — Falta la cruz principal. La de my esp osso! O T IG R E — O Papa a vendeu aos pedacinhos. Não temos culpa disso. , S Ã O P E D R O — Eu peço para que ambos desta vez sejam crucificados como eu fui, de cabeça para b a ix o !
C R IS T O — Pedro, quein diria? Tu, pedra da minha Igreja! O T IG R E —í A humanidade viveu vinte séculos desse tro cadilho. Chega I Mme. JE SU S — Peró, es una violência. La verdad está con n osotros! V O Z E S — Que se abra a lx)ca da verdade. Que se manifeste a verdade! O S O L D A D O V E R M E L H O — A verdade! B A R A B Á S — A que Cristo calou no interrogatório de Pi latos! V O Z E S — Queremos sal^er o que é a verdade! A 1. verdade! O T IG R E — Que fale a Camarada V erd ad e! A C A M A R A D A V E R ID A D E — Eu sou a Verdade! Sou a defeza da especie. Da humanidade pobre que habita um planeta milionário. Fui a geografia de Ptolomeu e a geometria de Euclides. N o meu ca minho tortuoso, emsombrado e dialético, fui sem pre a certeza dos que trabalham. Fui a voz dos profetas biblicos que mandaram arrazar a Babylo- nia capitalista. M orei nas Catacumbas. Fui o pla tonismo e a patristica, emquanto se conservaram fieis ás reinvindicações sociaes de seu tempo. Com pareci ao tribunal de Galilêo. Humanista no século 16, eu vinha das batalhas populares da Edade- Media, onde fui a força rude dos camponez-es e a consciência de Albi. Estive na caravela de Vasco da Gama. Acompanhei a travessia de Colom bo. V O Z E S — E ’ a hipótese progressista! A C A M A R A D A V E R D A D E {continuando) — Subí á fogueira de Bruno e á de Servet. Morei com os alquimistas. Fui companheira die Cromwell e assis ti á agonia de Marat. Preparei o advento da M a-
quina. Flama do socialismo utopico, fui a base do socialismo cientifico. Morei na cabeça genial de Hegel e na de Fuerbach. H oje sou a fisica de Einstein e a ciência social de C A R L O S M A R X !
PANO
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