6o Quadro - Industrializacao O Homem e o Cavalo · Capítulo 7 de 10
Obra Menu

6o Quadro - Industrializacao

6° Quadro

A Industrialização

A cena representa a entrada monumental da maior usina do mundo socialista — No meio do palco, sentado no asfalto com trouxas, trapos, cruzes e saudades, Pedro, Icar e Mme. Icár — Esta traz um femur pendura­ do no pescoço — Viuvez exagerada — Pe­ dro trocou o alto-falante por uma sanfona.

'f£

CENA I

Icár, Mme. Icár e Pedro

M M E . IC A R — São os homens n o v o s ... S Ã O P E D R O — Eles suprimiram o futuro e todas as ameaças do futuro. Suprimiram o inferno e o céo e se instalaraím no presente! A vida deles sobre a ter­ ra deixou de ser um combate continuo e os seus dias não são mais com o os dias de um mercenário. IC A R — M aldição! Raca! Raca! M M E . IC A R — Como o escravo suspira pela sombra e pelo fim de seu labor, contei muitas noites vasias á espera de um marido exemplar que p>artira para conquistar a estratosfera. V ocês vieram dizendo am­ bos que eram ele. Nada mudou. IC A R — Esperamos pela volta de N E P . M M E . IC A R — Quem nos concederá sermos: com o outr’ora, como nos dias em que Deus nos tinha sob a sua guarda. . . * IC A R — Deus habitava o nosso lar! S A O P E D R O — O nosso! IC A R — Eu lavava os pés em manteiga. S A O P E D R O — Eu era os olhos do c é g o . . . A gora sou um cégo sem olhos.

69 il ?

IC A R — Eu era a perna 'dt> manco. A gora não tenho pernas. M M E . IC A R — Eu tinha um marido e um lar. S A O P E D R O e IC A R — A gora tem dois maridos e nenhum lar! IC A R — Eu costumava d izer: Hei de morrer no meu ninho. Estou agonizando na rua!

CENA II Mais a 'Voz de Stalin, operários, operarias

( Um alto'-falante anuncia a irradiação do mundo socialista) .

O A L T O -F A L A N T E — Escutae ! A hora da industria­ lização. ' M M E . IC A R — Começam as blasfmiias ! O A L T O F A L A N T E — É a voz de Stalin ! Escutae. S Ã O P E D R O — Vamos ouvir. Já que o ouvido é o unico sentido que nos resta. A. V O Z .D E S T A L IN — O Socialismo é 'o poder dos Soviets mais a eletrificação. Eis o testamento de Le- !I nine. Novas cidades sairam dos desertos, das step­ pes, das planicies. D o século da madeira passamos ao século do motor e o do aço. A economia agricola repousa agora sobre a base técnica da grande pro­ dução moderna.

(S ilen cio ).

M M E . IC A R — O homem, mesmo quando possua uma ciência consumada, póde por acaso se comparar a Deus?

SÃO P E D R O — O que nasceu da mulher póde por acaso ser puro e perfeito? IC A R — A esperança dos impios perecerá. É a sorte dos que esquecem Deus. SÃ O P E D R O — Eles serão forçados a condenar a sim propria loucura. A sua confiança é como uma teia de aranha nas mãos do Senhor! Eles se apoiarão so­ bre a sua obra e ela não terá consistência. Eles que­ rerão mantel-a e ela não subsistirá!

{Turm as alegres de operários, operarias penetram na usina onde as maquinas não param. Outras turmas felizes sáem para o descanso).

A V O Z iDE STA LLN — Passar do cavalo camponês ao cavalo da industria construtora de machinas, eis o plano central do poder Soviético,. iEscutae a metá­ fora leninista. Passar de uma alimaria a outra. Da alimaria do campo, do cavalinho que convem a um paiz arruinado de camponezes ao cavalo que s> piO" letariado procura e deve procurar, o cavalo da indus

{S ilen cio).

SÃO P E D R O — Deus quando quer perder os homens, tira-lhes a razão. A V O Z D E S T A L bN — Edificae um novo m u n d o ... Sobre as fabricas entregues ao trabalhador surgiu o entusiasmo da nova sociedade. É o patos da cons­ trução ! SÃO P E D R O — Loucos !, IC A R — Sonhadores!

A V O Z D E S T A L I N — Ê preciso sonhar! Quem vos falava assim era o camarada Lenine. Ele ensinou^ que o vosso sonho deve sobrepujar o curso natural dos acontecimentos. Sonhar não vos faz nenhum mal. O sonho sustenta e anima. O desacordo entre o so­ nho e a realidade nada tem de perigoso se quem so­ nha crê sériamente em seu sonho, se trabalha con­ 'II:. scientemente para a realização de seu sonho. Quan­ do ha contáto entre o sonho e a vida tudo vae bem. M M E . IC A R — O tal de Lenine ! SAO PED RO Para nós nem o sonho é permitido. IC A R — Vivemos do passado. M M E . IC A R — E de Deus. IC A R Quando me deito pergfunto que irei fazer quan­ do me levantai. Quando me levanto indago que irei fazer até á noite. 1. M M E . IC A R — Deus não nos escuta. S A O P E D R O — Somos o fim de um mundo. A V O Z D E .STALIOM — N ão tinhamos industria side­ rúrgica, agora temos ! Não tinhamos industria mecâ­ nica, agora temos ! N ão tinhamos industria de tra­ tores, ag-ora tem os! N ao tinhamos industria de automóveis, agora tem os! Não tinhamos industria quimica, agora tem os! N ão tinhamos maquinas agrí­ colas, agora tem os! Não tinhamos liberdade, agora temos !

CENA ÏII

Menos a Voz de Stalin

SÃO PED RO A liberdade de pecar. r r IC A R — E de ofender a Deus, m M 72

M M E . IC A R (irônica) — A sabedoria morrerá com eles. S Ã O R E D R O — Ignoram que é a mão de Deus que faz todas as coisas. Interrogae os animaes eles vos ins­ truirão ! Consultae o.s passar os do céo e os peixes do mar eles vos revelarão. Falai á terra, ela vos responderá!

CENA IV

Os mesmos, a voz de Eisenstein

( 0 alto-falante reenceta a irradiação).

O A L T O -F A L A N T E — Escutae! É a voz do camarada Eisenstein. M M E : IC A R — O utro! S A O P E D R O — E ’ o homem do cinema. IC A R — Escutemos. A V O Z D E E IS E N S T E IN — Eu vos apresento os d o­ cumentos da transformação do mundo. A vitoria en­ carniçada do proletariado na frente camponeza, na frente industrial. Nem bandeiras ao vento nem gri­ tos nem canhões! Mas as cargas da cavalaria-vapor, na construção do socialismo!' Interrogae a terra. Concursos de galinhas poedeiras, estábulos calidos, o trabalho quotidiano na neve primaveril ou no calor do verão! O esterco fertilizante, os rebanhos, as ma­ quinas agricolas, tudo escripturado aumentando as estatisticas. Nem o incêndio da revolta nem a grande luta revolucionaria. Mas depois da luta e da vitoria, a vida quotidiana dos que trabalham e constroem um mundo melhor. A contabilidade, as usinas leiteiras, as grandes creações de aves, as incubadeiras. Nem

amor da patria nem Deus, nem a ipocrisia honesta. 'Mas os rebanhos que se organizam, os mapas da seleção de sementes, os diagramas do progresso. O trabalho diário e anonimo com o touro reprodutor e com o arado mecânico. É a frente pacifica que faz esquecer a frente de guerra. A historia dos pioneiros da revolução agricola. A floresta cáe e rescende. Edi­ ficamos. Na nossa gota de agua se reflete o hori­ zonte infinito da nova era social. Estações experi- mentaes. Fazendas modelos. Laboratorios, escolas. O operário estudante, o camponez estudante. A repro­ dução consciente e selecionada das especies animaes, O fim da magia. O trator. Inaugura-se por toda a ter­ ra coletivizada a época do vapor e da eletricidade. O patético da desnatadeira coletiva. Da desnatadeira ao reprodutor. Deste ao arado mecânico a 10 a 100, a milhares de arados mecânicos. Fazemos a Industria­ I iI lização. {S ilencio).

CENA V

Menos a voz de Eisenstein ^1 ll .

S Ã O P E D R O — Que vale tudo isso sem Deus? IC A R — Só nos resta a esperança da N B P e a saudade do capitalismo.' M M E . IC A R — E esta meia garrafa de vod'ka. S Ã O P E D R O — É um mundo que começa. IC A R — É Deus que acaba. M M E . IC A R — B lásfem os! IC A R — Pedro, toque alguma coisa nesse realejo. M M E . IC A R — Para recordar. Recordar é viver!

IC A R — Para nos distrair. S A O P E D R O {levantando-se) — Vamos rezar pela .Santa Mãe Rússia {tom a a sanfona) — Lá vae a Ave Maria de Schubert!

{A musica velha cambalhoteia. . . A\s se­ reias da Usina abafam o solfejo inútil do passado).

PANO

1/1
Menu

Fazer anotação