A Maçaneta Quente
Renata desceu do terceiro andar com a foto aberta no celular e a mão ainda marcada pelo calor da maçaneta. Caio esperava no saguão, discutindo com Dona Elza sobre contas antigas de água. Ele parou quando viu o rosto dela. Renata não mostrou a imagem de imediato. Abriu a planta sobre o balcão, marcou a posição da porta nova e pediu que Caio assinasse a vistoria daquele ponto antes de qualquer obra. O pedido deixou o herdeiro irritado. Ele queria orçamento, prazo e uma solução limpa para vender o prédio. Ela queria registro, porque porta que aparece depois da medição costuma virar processo, prejuízo ou assombração.
Caio subiu com ela de volta, levando uma lanterna grande e o molho de chaves da avó. A placa trezentos e treze continuava na porta, escurecida nas bordas, com pequenas gotas de água formando uma linha vertical até o chão. Renata fotografou de novo. Desta vez, a tela do celular mostrou o corredor vazio. Caio tocou a maçaneta e soltou um palavrão baixo. Estava quente também para ele. Dona Elza surgiu no começo do corredor e mandou os dois descerem antes das onze e meia. A voz dela não tinha medo teatral. Tinha cansaço de quem já repetiu o mesmo aviso para gente que voltou pálida depois.
Renata pediu o livro antigo de hóspedes. Dona Elza recusou, dizendo que dona Marta trancara tudo no escritório do térreo. Caio respondeu que a pensão agora era dele e exigiu a chave. A zeladora entregou uma menor, de bronze, evitando encostar nos dedos dele. No escritório, havia armários de ferro, recibos amarrados por elástico e caixas com toalhas bordadas. O livro de entrada ficava dentro da gaveta inferior, envolto em papel pardo. Renata abriu na última página antes do incêndio. Doze quartos ocupados. Nenhum registro do trezentos e treze. No canto da folha, porém, alguém escrevera o nome de um hóspede sem número. Abel.
Caio reconheceu o nome antes de Renata perguntar. Abel Nobre era irmão de sua avó, desaparecido no prédio quando a pensão ainda recebia viajantes de estrada. A família dizia que ele fugira com dinheiro de hóspedes. Dona Elza, parada na porta do escritório, corrigiu sem entrar. Abel não fugiu. Foi chamado para levar água no terceiro andar e nunca saiu de lá. Renata fechou o livro devagar. Na foto do celular, o homem de terno antigo segurava uma bandeja com copo cheio. A semelhança com Caio era suficiente para incomodar qualquer explicação racional.
Às onze e vinte e oito, o primeiro sino tocou em algum lugar dentro da parede. Não havia relógio de torre perto da praça. O som veio seco, interno, seguido por três batidas no teto do escritório. Caio pegou a lanterna e correu para a escada antes que Renata pudesse impedir. Ela foi atrás com o livro de hóspedes preso contra o peito. No terceiro andar, a porta trezentos e treze estava aberta por uma fresta. De dentro vinha cheiro de roupa molhada e sabonete antigo. No chão do corredor, diante da entrada, havia uma bandeja de prata com dois copos cheios de água.