O Incêndio Pequeno
Caio chutou a bandeja antes que a mão obedecesse ao chamado. Os copos tombaram sem quebrar, e a água correu pelo piso em direção às portas fechadas. Marta gritou o nome dele com a autoridade de quem mandara no prédio por décadas. O corredor tremeu. Renata abriu o livro de hóspedes na página de Abel e percebeu que a tinta se movia, fugindo das linhas sempre que a água chegava perto. A saída não estava na porta física. Estava no registro. Marta mantinha os mortos presos porque os nomes permaneciam sem baixa, repetidos noite após noite dentro de um arquivo que nunca terminava serviço.
Abel apontou para uma porta menor, escondida atrás da pia. Renata abriu com a chave azul e encontrou uma saleta chamuscada. Ali começara o incêndio antigo. Havia restos de recibos queimados, prontuários da clínica, caixas de remédio e uma lata de querosene vazia. Caio entrou logo atrás dela, respirando pela manga da camisa. Nas paredes pretas, marcas de mãos subiam até a altura de uma janela inexistente. Abel não tentara destruir a pensão por vingança cega. Tentara queimar o arquivo antes que Marta usasse outro hóspede para alimentar o quarto.
Renata encontrou sob a mesa uma caixa de metal protegida do fogo. Dentro estavam contratos da clínica, listas de pacientes e cartas assinadas por Marta Nobre. Uma delas citava Helena Alves e a criança que ela carregava, anotada como risco de denúncia futura. Renata leu apenas o suficiente para guardar o documento junto ao corpo. A raiva veio limpa, sem discurso. O quarto chamava a neta de uma mulher que escapara grávida, e Caio carregava o sangue de quem lucrou com aquilo. Ele entendeu antes que Renata dissesse qualquer coisa. Ficou diante dela e prometeu entregar cada papel à polícia, mesmo que o sobrenome dele virasse notícia.
Marta apareceu na porta da saleta e bateu a bengala no piso. A água derramada voltou para os copos, subindo em filetes obedientes. Renata pegou um recibo da clínica, aproximou da chama fraca de um lampião antigo e deixou queimar dentro da bandeja de prata. O fogo cresceu pouco, azul nas bordas, iluminando os nomes nas portas. Marta recuou pela primeira vez. O incêndio que ela chamara de acidente tinha servido para esconder crime. Agora, uma chama pequena fazia o contrário. Cada papel queimado revelava uma palavra no reboco, saída, baixa, nome, água devolvida.
Caio puxou Renata para longe quando a saleta começou a se fechar. Eles correram pelo corredor interno enquanto as portas batiam de ambos os lados. No caminho, Renata segurou a caixa de metal contra a barriga, e Caio protegeu a nuca dela com o braço. O gesto terminou com os dois caindo perto do espelho rachado. Dona Elza gritava do quarto de Marta, chamando por Tereza. Antes de sair, Renata viu a fumaça desenhar no teto o nome de Helena Alves, inteiro e escuro, seguido por uma seta apontando para o livro de hóspedes aberto.