O Livro de Entrada O Quarto que Não Existia · Capítulo 4 de 12
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O Livro de Entrada

Renata puxou Caio de volta antes que ele entregasse o copo à cama vazia. A porta destrancou no mesmo segundo, abrindo para o corredor escuro. Os dois saíram com a maleta, o livro de hóspedes e as fichas escondidas entre a planta baixa. Dona Elza os esperava perto da escada, pálida, segurando o próprio molho de chaves contra o peito. Não pediu desculpa. Disse apenas que a água nunca deveria ser entregue dentro do quarto, porque quem aceitava servir ficava devendo ao prédio. Caio tentou responder com raiva, porém a voz falhou ao olhar para as próprias mãos. A água do copo havia deixado marcas vermelhas nos dedos dele.

No salão térreo, Renata espalhou o livro de entrada, as fichas e a planta sobre uma mesa antiga. Caio fechou as portas da rua. Dona Elza ficou de pé perto da cozinha, vigiando a escada. O padrão surgiu rápido. A cada ano, sempre no mês de agosto, um hóspede aparecia no livro sem quarto registrado. Alguns eram viajantes, outros cobradores, duas mulheres usavam sobrenomes apagados. Todos tinham uma anotação pequena ao lado do nome, feita com a mesma letra de Marta Nobre. Água entregue. Renata copiou as datas no canto da planta e viu que o primeiro registro era de Abel.

Caio encontrou uma página cortada no meio do livro, presa apenas por um pedaço de cola escura. Renata removeu com cuidado e revelou uma folha dobrada. Era uma planta antiga do terceiro andar, assinada por um engenheiro que trabalhara na reforma de mil novecentos e setenta e seis. Nela, havia um espaço estreito depois do quarto trezentos e doze, marcado com a palavra serviço. A área não deveria receber cama, pia ou janela. Alguém transformara um vão de manutenção em quarto e depois retirara a área das plantas oficiais. Caio passou a mão pela testa. A pensão que ele queria vender começava a parecer documento de crime.

Renata perguntou por que Dona Elza continuava ali. A zeladora demorou a responder. Disse que entrou na pensão com dezesseis anos, contratada por Marta, e que ficou porque a própria irmã desapareceu no terceiro andar depois de servir água para uma hóspede febril. Marta prometeu resolver tudo, depois trancou o livro e mandou a jovem voltar ao trabalho. Dona Elza nunca viu a irmã sair. Só encontrava, de vez em quando, um pente, um lenço ou uma xícara deixada diante da porta trezentos e treze. Renata anotou o nome da irmã. Tereza Lima. No livro, o nome aparecia sem quarto, marcado com a mesma frase.

A campainha da recepção tocou sozinha perto da meia-noite. O som veio antigo, de metal, embora o balcão já não tivesse campainha havia décadas. Sobre a madeira surgiu uma ficha nova, preenchida com letra úmida. Nome Renata Alves. Quarto trezentos e treze. Entrada hoje. Saída em branco. Caio pegou a ficha antes dela e tentou rasgar. O papel cortou a pele dele como lâmina. Dona Elza gritou para não pingar sangue no livro. Tarde demais. Uma gota caiu sobre a página de Abel e se espalhou pela assinatura antiga, deixando o sobrenome Nobre escuro e vivo.

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