A Parede Respirando O Quarto que Não Existia · Capítulo 5 de 12
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A Parede Respirando

O salão ficou frio depois que o sangue tocou o livro. As lâmpadas do balcão piscaram, a porta da rua se fechou com um golpe seco e a escada principal rangeu de cima a baixo. Renata enrolou a planta com pressa, pegou a ficha nova e guardou tudo dentro da maleta. Caio apertava o dedo cortado com um pano de prato, sem tirar os olhos da página onde o sobrenome Nobre escurecia. Dona Elza mandou que os dois queimassem o livro antes que a casa completasse a entrada. Renata recusou. Queimar prova podia libertar a pensão ou apagar a única lista de desaparecidos. O prédio não merecia esse benefício.

Renata decidiu medir a parede externa do terceiro andar pela rua. Se a janela do quarto aparecia dentro, deveria deixar alguma marca na fachada. Caio abriu a porta lateral com dificuldade, e os três saíram para a calçada com lanterna e trena. A fachada mostrava doze janelas, todas alinhadas, nenhuma depois do trezentos e doze. Renata esticou a trena da quina até a última abertura e comparou com a planta antiga. Faltavam dois metros e quarenta centímetros de parede. O prédio tinha perdido espaço do lado de fora. Enquanto ela fazia a conta, a alvenaria diante dela se moveu para dentro e para fora, num ritmo lento de peito dormindo.

Caio tocou a parede e retirou a mão com nojo. A superfície estava morna e úmida. Dona Elza começou a rezar baixo, porém parou quando a massa rachada desenhou letras antigas. As palavras surgiram uma a uma, formadas por água escorrendo do reboco. Abel pediu água. Tereza abriu a porta. Marta fechou. Renata fotografou tudo, sem flash, para não perder detalhe. A rachadura cresceu até formar a marca de uma maçaneta invisível. Do lado de dentro do prédio, acima deles, veio o som de um copo sendo colocado sobre madeira. Caio falou o nome da avó pela primeira vez sem carinho.

No escritório, Caio encontrou a caixa de documentos pessoais de Marta Nobre. Havia recibos de obras, cartas de cobrança e um contrato com uma clínica particular que funcionara no bairro durante os anos setenta. A clínica pagava pela pensão de pacientes sem família, todos colocados no terceiro andar durante reformas não registradas. Renata leu o contrato duas vezes. A pensão recebia dinheiro para hospedar gente que ninguém viria buscar. Quando algum paciente morria, a saída ficava sem registro. Dona Elza cobriu a boca com as mãos. Tereza tinha servido água para pessoas que já haviam sido compradas pelo silêncio de outros.

O primeiro impacto contra a porta do escritório veio de cima, embora o teto não tivesse acesso. Depois veio outro, mais forte, e uma chuva fina de cal caiu sobre a mesa. Caio pegou Renata pelo braço e a puxou para longe. Dessa vez ela deixou. O contato durou pouco, firme, sem cuidado decorativo. No forro, uma mancha úmida cresceu até formar o contorno de um rosto. Abel apareceu por um segundo, a boca aberta, a água escorrendo do queixo. A voz dele saiu pelo teto e disse um número. Treze nomes. Treze copos. Treze saídas em branco. A parede respirou outra vez, agora por dentro da casa.

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