A Chave de Dona Marta
Dona Elza levou Renata e Caio até o quarto antigo de Marta Nobre, no fundo do térreo, onde ninguém entrava desde o enterro. O cômodo estava limpo demais para abandono, com colcha esticada, espelho coberto por lençol e uma cômoda de madeira escura diante da janela. A zeladora disse que Marta dormia ali com a chave do trezentos e treze pendurada no pescoço. Quando morreu, a chave sumiu antes do corpo deixar a casa. Caio abriu a primeira gaveta e encontrou luvas, santinhos, contas antigas e um envelope sem remetente. Dentro havia uma fotografia de Marta jovem diante da porta sem número, sorrindo ao lado de Abel.
Renata virou a foto e leu uma data escrita a lápis. Agosto de mil novecentos e setenta e seis, o mesmo ano da reforma clandestina. No canto inferior, quase fora do enquadramento, aparecia uma mulher de jaleco segurando uma prancheta da clínica particular. Caio reconheceu o sobrenome no carimbo da prancheta. A clínica pertencia a um tio distante da família Nobre, apagado das conversas depois de um processo por maus-tratos. A pensão não era só esconderijo. Era parte do negócio. Marta recebia pacientes, registrava como hóspedes comuns e usava o quarto sem número para sumir com quem morria, falava demais ou tentava fugir.
Dentro da segunda gaveta, Renata encontrou um fundo falso. A madeira levantou com a ponta da espátula e revelou uma chave escura presa a uma fita de cetim azul. A peça estava quente, igual à maçaneta. Caio tentou pegar, e a chave queimou a ponta dos dedos dele. Renata enrolou num pano e sentiu o calor passar mesmo assim. Dona Elza disse que só Marta conseguia abrir a porta sem ser chamada. Os outros entravam quando o quarto queria. Renata olhou para a chave, para a foto de Abel e para o livro de hóspedes. Se a casa ainda obedecia a algum comando antigo, a chave talvez fosse resto de autoridade.
O espelho coberto por lençol começou a bater contra a parede. Caio retirou o pano antes que Renata pudesse impedir. No vidro, o quarto de Marta não aparecia. O reflexo mostrava o terceiro andar, a porta trezentos e treze aberta e uma fila de pessoas segurando copos vazios. Tereza estava entre elas, usando uniforme de zeladora jovem. Abel vinha no fim da fila, com a bandeja de prata nas mãos. No centro do reflexo, Marta Nobre olhava para fora do espelho, usando a chave no pescoço. A boca dela se mexeu sem som. A fita azul na mão de Renata ficou molhada.
Renata encostou a chave no vidro. O espelho trincou de alto a baixo e a imagem do corredor desapareceu. No chão do quarto de Marta caiu uma ficha antiga que não estava ali antes. Nome Caio Nobre. Entrada hoje. Saída em branco. Caio pegou a ficha e empalideceu. A pensão havia deixado de chamar apenas Renata. Agora queria o herdeiro também. Dona Elza disse que sangue Nobre abria porta e fechava dívida. No terceiro andar, a campainha invisível tocou três vezes, chamando por água.