O Nome no Copo O Quarto que Não Existia · Capítulo 10 de 12
Obra Menu

O Nome no Copo

Renata voltou pelo espelho com a caixa de metal, o livro de hóspedes e a certeza de que a água servia ao contrário do que Marta ensinara. Não se tratava de dar de beber ao quarto. Era preciso devolver cada copo ao nome correto e fechar a saída em branco. Dona Elza ajoelhou diante do livro ao ver a letra da irmã surgir fraca na página antiga. Tereza Lima aparecia entre Abel Nobre e uma paciente chamada Amália Costa, todos presos à mesma anotação. Água entregue. Renata colocou os treze copos sobre a cômoda de Marta, em linha, enquanto Caio abria os contratos queimados na parte que ainda podia ser lida.

Cada copo trazia um nome gravado no fundo, visível apenas quando a água parava. Abel Nobre, Tereza Lima, Amália Costa, Rui Lemos, Célia Prado, João Araripe, Odete Vaz, Samir Haddad, Lourdes Pina, Bento Sales, Iracema Moura, Helena Alves e Caio Nobre. O último fez Dona Elza perder a voz. Renata pegou o copo de Helena com cuidado. A avó tinha escapado, e ainda assim o quarto mantivera o nome dela em cobrança, esperando a neta aparecer. A água dentro do copo estava limpa, sem cheiro de mofo, com pequenas bolhas subindo do fundo.

Renata abriu o livro na página de Abel e despejou a água do copo dele sobre a frase de Marta. A tinta escorreu, soltando a anotação da página. O nome permaneceu. A palavra saída surgiu ao lado, escrita pela mesma letra antiga, agora firme. Do espelho veio o som de uma porta destrancando. Abel apareceu no vidro, sem bandeja, e inclinou a cabeça para Caio. Dona Elza pegou o copo de Tereza com as duas mãos. Antes de derramar, pediu perdão por ter ficado viva. A água caiu sobre o livro, e uma mulher jovem surgiu atrás dela no reflexo, sorrindo com tristeza cansada.

Eles seguiram nome por nome. A cada copo, uma porta abria dentro do espelho, e o corredor interno ficava menos escuro. Quando chegou em Helena, Renata hesitou. A página da avó não tinha saída em branco. Tinha a frase voltou com criança. Marta cobrara a sobrevivência dela durante cinquenta anos. Renata despejou a água e falou o nome completo que aprendera na certidão antiga da família. Helena Maria Alves. A pulseira de identificação se partiu sozinha sobre a cômoda. Do outro lado do espelho, uma mulher de vestido claro levou a mão ao ventre e sorriu para Renata antes de desaparecer.

Restava o copo de Caio. A água nele escurecia rápido. Marta surgiu no reflexo, furiosa, dizendo que herdeiro não recebe saída antes de pagar dívida. Caio pegou o copo e virou sobre a própria ficha. A tinta resistiu. Renata abriu a caixa de metal, tirou o contrato original da clínica e colocou a assinatura de Marta sobre a ficha dele. A água atravessou o papel, apagando a entrada de Caio. Marta enfiou a mão para fora do espelho e agarrou o pulso de Renata. A pele dela ficou gelada até a chave azul cair no chão, longe demais para alcançar com os dedos.

1/1
Menu

Fazer anotação