O Hóspede do Trezentos e Treze O Quarto que Não Existia · Capítulo 3 de 12
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O Hóspede do Trezentos e Treze

Caio levantou a lanterna e chamou por alguém dentro do quarto. Nenhuma voz respondeu. Renata ficou atrás dele, com o livro de hóspedes aberto na página de Abel e o celular gravando. A porta se moveu sozinha, lenta, abrindo espaço para um quarto estreito com cama de ferro, papel de parede azul e uma pia de louça presa à parede. Nada combinava com o resto do prédio. O terceiro andar tinha quartos vazios, piso gasto e colchões retirados fazia anos. Ali havia lençol dobrado, toalha pendurada e uma mala marrom ao pé da cama. Na etiqueta da mala, o sobrenome Nobre aparecia escrito com tinta desbotada.

Caio entrou primeiro. Renata marcou a soleira com fita adesiva no chão, por hábito de obra e por medo de perder referência. Dentro do quarto, o ar parecia úmido e frio. A janela dava para a praça, embora a parede externa naquele ponto não tivesse abertura alguma. Caio abriu a mala e encontrou camisa social, cartas antigas e um relógio de bolso parado em onze e trinta. Uma das cartas era endereçada a Marta Nobre, avó dele, e acusava a pensão de esconder pagamentos de hóspedes que nunca registravam saída. Renata fotografou tudo sem tocar no papel. O quarto guardava documentos melhor que qualquer arquivo.

Na pia, o copo de água tremia sem ninguém encostar. Renata aproximou a câmera e viu no reflexo o homem de terno atrás de Caio, mais nítido do que na primeira foto. Abel tinha o rosto magro, olhos fundos e a boca aberta em pedido mudo. Ela virou depressa. O quarto estava vazio. Caio percebeu o movimento e perguntou o que ela tinha visto. Renata mostrou a tela. Ele ficou imóvel por tempo suficiente para a lanterna baixar alguns centímetros. A imagem mostrava Abel apontando para a parede ao lado da cama. No local indicado, o papel azul estava inchado por umidade e marcava o desenho de uma porta menor.

Renata retirou uma espátula da bolsa e levantou um pedaço do papel de parede. Por baixo, havia madeira antiga e marcas de unha. Caio empurrou com o ombro e abriu um armário estreito. Dentro estavam fichas de hóspedes, recibos e pulseiras de identificação de hospital. Cada ficha tinha o mesmo carimbo da Pensão Santa Marta e nenhuma data de saída. Dona Elza apareceu no corredor, respirando com dificuldade. Disse que Marta mandava registrar no livro apenas quem podia deixar o prédio. Os outros iam para o quarto depois das onze e meia. Renata perguntou quem eram os outros. A zeladora olhou para Caio antes de responder. Gente que devia dinheiro, gente que sabia demais, gente que a casa escolhia.

Quando Renata guardou as fichas na maleta, a porta do quarto bateu sozinha. Caio tentou abrir e não conseguiu. A luz da lanterna falhou. O relógio de bolso dentro da mala voltou a andar com pequenos estalos, ponteiro avançando até onze e trinta e um. Na cama, o lençol afundou no centro, desenhando o corpo de alguém deitado. Uma voz saiu da parede, rouca, pedindo água. Caio pegou um dos copos da bandeja e deu um passo para a cama. Renata segurou o braço dele antes que cruzasse o quarto. No espelho acima da pia, Abel balançava a cabeça, negando com os olhos arregalados.

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