A Noite da Reforma O Quarto que Não Existia · Capítulo 7 de 12
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A Noite da Reforma

Renata recusou chamar equipe para aquela noite. Nenhum pedreiro entraria na Pensão Santa Marta sem contrato novo, seguro assinado e explicação que coubesse num relatório técnico. Caio queria arrombar a porta do trezentos e treze de uma vez, ainda com a ficha dele molhada entre os dedos. Ela tomou a ficha, colocou dentro de um saco plástico e mandou que ele buscasse ferramentas no depósito. Dona Elza ficou no corredor do térreo, vigiando a escada com o terço na mão. A campainha invisível chamava de tempos em tempos, sempre três toques secos, sempre seguida por água correndo dentro de paredes sem encanamento.

No depósito, Caio encontrou marretas, uma furadeira antiga, lanternas de obra e lonas cheias de pó. Renata escolheu as ferramentas com precisão de quem queria abrir parede sem derrubar viga. Ele observava as mãos dela, a calma dura nos movimentos, a blusa grudada pelo suor na nuca. Quando tentou pedir desculpa por tê-la colocado naquela pensão, Renata só pediu que segurasse a lanterna direito. A resposta trouxe um quase sorriso ao rosto dele. Por alguns segundos, entre madeira podre e ferrugem, a proximidade dos dois ganhou corpo. Caio afastou uma mecha de cabelo da testa dela, e Renata deixou antes de voltar para a planta.

Eles começaram pelo quarto trezentos e doze. A parede do fundo dava para o espaço que faltava na fachada, e Renata queria chegar ao vão por trás da porta proibida. A furadeira entrou na alvenaria com dificuldade. Saiu pó cinza, depois barro úmido, depois um cheiro antigo de remédio barato. Dona Elza começou a chorar quando a primeira abertura mostrou azulejos brancos do outro lado. Aquilo tinha sido uma área de serviço ligada à clínica, transformada em passagem secreta entre quartos e consultórios improvisados. Caio enfiou a lanterna pelo buraco e iluminou prateleiras de metal cobertas de copos limpos.

Renata aumentou a abertura com golpes controlados. Por trás da parede havia uma passagem estreita, baixa demais para uma pessoa andar em pé, com marcas de arrasto no piso e números pintados perto do rodapé. Treze marcas, cada uma acima de um nicho. Dentro do sétimo nicho, ela encontrou uma pulseira de identificação com nome que fez a mão dela parar. Helena Alves. A data batia com uma história que a mãe de Renata repetia em voz baixa, a avó grávida levada para uma clínica de caridade e devolvida para casa dias depois, febril, sem falar do que vira. Renata nunca ligara o caso à pensão.

Dona Elza reconheceu o nome. Helena escapou porque Tereza abriu a porta errada e mandou a moça correr pela cozinha. Marta descobriu depois, castigou Tereza com plantão no terceiro andar e registrou a irmã no livro de entrada. Renata segurou a pulseira de Helena junto ao peito, por instinto, e entendeu por que a ficha dela aparecera no balcão. O quarto não chamava somente curiosos. Chamava retorno. Caio tocou o ombro dela, sem palavra pronta. Renata encostou a chave de Marta no buraco aberto da parede. Do outro lado, todos os copos das prateleiras vibraram ao mesmo tempo.

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