A Porta no Espelho
Renata decidiu usar o espelho de Marta antes que o terceiro andar chamasse outra vez. A chave da fita azul reagia ao vidro, ao buraco da parede e à ficha de Caio. A porta física podia prender quem entrasse com água na mão. O espelho parecia oferecer entrada por rota diferente, uma passagem comandada pela dona antiga da casa. Caio discordou de imediato. Disse que ela já tinha prova suficiente para acionar polícia, imprensa e prefeitura. Renata apontou para o próprio nome na ficha molhada. Prova nenhuma impediria o quarto de voltar à noite seguinte, agora sabendo o caminho da família dela.
No quarto de Marta, o espelho trincado devolvia a imagem do terceiro andar vazio. Renata colocou sobre a cômoda a pulseira de Helena, a ficha de Caio, a foto de Marta com Abel e o livro de hóspedes. Dona Elza ficou perto da porta, segurando uma garrafa de água sanitária aberta por superstição antiga. Caio fechou as cortinas e pediu que Renata prometesse sair se ele mandasse. Ela recusou com um movimento curto de cabeça. Ele riu sem alegria, tocou o rosto dela com os dedos ainda marcados pelo corte e beijou sua boca com urgência contida, de gente que escolhe viver antes de obedecer ao medo.
A chave entrou na rachadura do espelho com um som de fechadura molhada. O vidro amoleceu em volta do metal, abrindo uma fresta escura que cheirava a lençol guardado e álcool de hospital. Renata passou primeiro, levando a lanterna presa ao pulso. Caio veio logo atrás. O quarto de Marta desapareceu. Eles estavam num corredor igual ao terceiro andar, porém sem janelas, com portas dos dois lados e uma pia no fundo. Cada porta tinha um copo vazio no chão. Atrás das portas, pessoas batiam devagar, sem gritar. A luz da lanterna não chegava ao teto.
Abel apareceu junto à pia, usando o mesmo terno da fotografia. O rosto tinha cor de papel molhado, e os olhos seguiam Caio com pena antiga. Ele apontou para a bandeja de prata. Sobre ela havia treze copos, cada um marcado por dentro com um nome. Abel empurrou o próprio copo para Renata e tocou o livro de hóspedes. A regra ficou clara sem explicação longa. Quem servia água aceitava a dívida da casa. Quem devolvia o nome ao livro podia abrir saída. Renata perguntou por Tereza. Uma das portas bateu duas vezes, e Dona Elza respondeu do outro lado do espelho com um soluço.
Marta Nobre surgiu no fim do corredor, vestida de luto, a mesma chave pendurada no pescoço. Parecia velha e jovem ao mesmo tempo, alternando rosto a cada piscada da lanterna. Ela falou com Caio usando voz de avó ofendida, chamando a pensão de herança e obrigação. Disse que a família sempre pagou suas dívidas com aquilo que ninguém viria cobrar. Caio avançou, e todas as portas abriram uma fresta. Renata segurou o braço dele. Marta sorriu para a ficha na mão de Renata e ordenou que o herdeiro servisse o primeiro copo. A bandeja deslizou sozinha até os pés dele.