Maioridade Macunaíma · Capítulo 2 de 19
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Maioridade

II

MAIORIDADE

Jiguê era muito bobo e no outro dia apareceu Puxando pela mão uma cunhã. Era a companheira nova dele e chamava Iriquí. Efa trazia sempre um ratão vivo escondido na massaroca dos cabelos e faceirava muito. Pintava a cara com araraúba e genipapo e todas as manhãs passava coquinhos de nssaí nos beiços que ficavam itotalmente roxos~ De- ·· pois esfregava limão-de-caiena por cima e os bei- ços viravam totalmente encarnados. ( Então l'riquí se envolvia num manto de algodão listrado com Preto de acariúba e verde de tatajuba e aromava os cabelos com ess·e nda de umir~, era linda. Ora depo llaíma a fome bateu no rnocarnbo, -Caça, ninguem não pegava caça mais, nem algum tatu-galinha apa- recia! e por causa de Maanape ter matado um bolo Pra comerem, o sapo cunaurú chamado Maragui- gana pai do boto ficou enfesa.do. Ma.ndou .. a enchen-

te e o milharal apodreceu . ....Comeram tudo, até a cruei:ra dura se acabou e o fogaréu de noite e dia não moqueava nada não, era só pra remediar a friagem que caiu. \Não havia prá gente assar nele nem uma isca de j ohá. · Então Macunaíma quis se divertir um pouco. Falou ,pros manos que inda tinha muita piaba wui- tc, jejú muito matrinchão e jatuaranas, todos êsses peixes do rio, fossem bater timbó l'Maanape disse: - Não se encontra mais timbó. Macunaíma ,disfarçando secundou: - Junto daquela grata onde tem dmheiro en- terrado enxeriguei um despotismo de timbó. - Então venha com a genite pra mostrar onde que é. Foram. A margem estava traiçoeira e nem se achava bem o que era terra o que era rio entre as mamoranas copadas. Maanape e Jiguê procuravam procuravam enlameados até os dentes degringo- lando juque l nos barre:iros ocultos pela inundação. E pulapulavam se livrando dos buracos, aos ber- ros, com as mã1os pra trás por causa dos candirús safadinhos querendo entrar por êles. Macunaíma ria pOT dentro vendo as micagens dos manos cam- peando timbó. Fingia campear tambem mas não

Então Macunaíma sentou numa barranca do rio e batendo com os pés nagua espantou os mos- quitos. E eram muiitos mosquitos, p iúns maruins

arurús tatuquiras muriçocas meruanhas borrachu- dos varejas, toda essa mosquitada. Quand,o foi de-tardezinha (}S manos vieram buscar Macunaíma tiriricas por não terem topado com nenhum pé de timbó. O heroi teve medo e disfarçou: - Acharam? - Que achamos nada! - Póis foi aqui mesmo que enxerguei Hmbó. Timbó já foi gente um dia que nem nós ... Presen- ciou que andavam campeando êle e so,v erteu. Tim- bó foi gente um dia que nem nós ... Os manos se admiraram da inteligencia do me- nino e voltaram os tres prá maloca. Macunaírna estava muito contrariado por cau- sa .da fome. No ou,!TO dia falou prá velha: - Mãi.i, quem que leva nossa casa prá outra banda do rio lá no teso, quem que leva? Fecha os olhos um bocadinho, velha, e pergunta assim. A velha fez. Macunaíma pediu pra ela ficar niais tempo com os olhos fechados e carregou teju- par marombas flexas piquús sapiquás corotes uru- l)emas redes, todos êsses trens pra um aberto do Inato lá no teso do outro lado do rio. Quando a Velha abriu os olhos estava tudo lá e tinha caça 22 MA.RIO DE ANDHADE

peixes, bananeiras dando, tinha comida 'po:r de- mais. Então foi onrtar banana. - Inda que mal lhe pergunte, mãi, porquê a senhora arranca tanta pacova assim! - Levar pra vosso mano Jiguê com a linda Iriquí e pra vosso mano Maanape que estão pade- cendo fome. Macunaíma fioou muito contrariado. Maginou maginou e disse prá velha: - Mãi, quem que leva nossa casa prá outra ' banda do rio no banhado, quem que leva? Per- gunta assim! A velha fez. Ma,cunaíma pediu pra ela ficar com os olhos fechados e levou todos -os carregas, tudo, pro lugar em que estava de já-hoje no mon- dongo inundado. Quando a velha abriu os olhos tudo estava no lugar de dantes vizinhando com os tejupares de mano Maanape e de mano Jiguê com a linda Iriquí. E todos ficaram roncando de fome

E desapareceu. Macunaíma assuntou p deserto e sentiu que ia chorar. Mas não tinha ninguem por ali. Não chorou não. Criou coragem e botou pé n a estrada, tremelicando com as perninhas de a·rc o. Vagamundou _ao atá µma semana até que to·p o ·1 com o Currupira moquean do carne acompanhado do cachoITo dele Papamel.. E o Currupira vive no :grêlo do tucunzeil"o e pedé fumo prá gente. Mact - naíma falou: - Meu avô, dá caça pra mim comer? - Sim, Currurpira fez. CoTtou carne da perna moqueou e deu pro menino, perguntando: - O que você está fazendo na ,c apoeira, r n- 'f)aiz ! - Passeando. - Não diga! - Pois é, passeando ... Então contou o castigo da m ãi por causa dele ter sido malevolo pros manos. E contando o por-te da casa de novo prá de caça deu uma grande gargalhada. O Currupira olhou pra êle e resmungou: , . - Tu nã,o é mais curumí, rapaiz, tu não t~ rnais curumí não .. , Gente grand e que faz isso . .. Macunaíma agradeceu e p ediu pro Currupira ensinar o caminho pro mocambo dos Tapanhumas O Currupira estava querendo mas era comer o he- roi. Ensinou falso: - Tu vai por aqui, menino-home, vai por

aqui, passa pela frente daquele pau, quebra a mão esquerda, vira ·e volta por debaixo dos meus uaiari- quinizês. Macunaírna foi fazer a volta porêm chegado na frente do pau, coçou a perninha e murmuro~: - Ai! que preguiça! ... e seguiu direito. O Currupira esperou bastante P'orêm-curumim não chegava ... Pois então o monstro amontou no viado, que é o ,c avalo dele, fincou o 'p é redondo na virilha do corredor e lá se foi gritando: - Carne de minha perna! carne de minha perna! Lá _de dentro da barriga do heroi a carne res- p,ondeu: - Que foi? Macunaíma apertou o passo e entrou correndo na caa1tinga porêm o Currupira corria mais do que êle e o menino isso vinha que vinha acochado pelo outro. - Carne de minha perna I carne de minha perna! A carne secundava: O p i

mento da raposa e a velha Vei, a Sol, relampeava nas gotinhas da chuva debulhando luz feito milho. Macunaíma chegou perto duma pôça, bebeu agua de lama e vomitou a carne.

- Carne de minha perna! carne de minha perna I que o Currupira vinha gritando. - Que foi? secundou a ,c arne já na pôça. Macunaíma ganhou os bredos pro outro lado e escapou. Legua e meia adiante por detrás dum formi- gueiro escutou uma voz cantando assirµ: "Acutí pitá canhem ... " lentamente. Foi lá e topou com a cotia fa1,inhando man- dioca num tipití de jaciitara. - Minha vó, dá aipim pra mim comer? - Sim, ootia fez. Deu aipim pro menino, perguntando: - Quê que você está fazendo na caatinga, llleu neto? - Passeando. - Ah o quê! - Passeando, então I Contou como enganara o Currupira e deu uma grande gargalhada. A cotia olhou pra êle e resmun- gou: - Curumí faz isso não, meu neto, curumí faz isso nã,o ... Vou te igualar o corpo ,c om o bestunto. Então pegou na gamela cheia de caldo envene· nado de aipim e jogou· a lavagem no piá. Macuna- irna fastou sarapantado mas só conseguiu livrar a cabeça, todo o resto do corpo se molhou. O heroi deu urn espirro e botou corpo. Foi desempenando cres- cendo fortificando e ficou do tamanho dum homem

taludo. Porêm a cabeça não molbada ficou p1:a sempre rombuda e com carinha enjoativa de piá. Macunaíma agradeceu o feito e frexou can.tan- do pro mocambo nativo. A noite vinha bezourenta enfiando as formigas na terra e tirando os mosqui- tos dagua. Fazia um calor de ninho no ar. A velha tapanhumas escutou a voz do filho no longe cin- zado e se espantou. Macunaíma apareceu de cara amarrada e falou pra ela: - Mãi, sonhei que caiu meu dente. - Isso é morte de parente, comentou a velha. - Bem que sei. A senhora vive mais uma Sol só. Isso mesmo porquê me pariu. No outro dia os manos foram pescar e caçar, a velha f.oi no roçado e Macunaíma ficou só com a companheira de Jiguê. 'Entã,o êle virou na formiga quenquem e mordeu Iriquí pra fazer festa nela. Mas a moça aitirou a quenquem longe. Então Macu- naíma virou num pé de urucum. A linda Iriquí riu, colheu as sementes se faceirou toda pintando a cara e os distintivos. Picou lindissirna. Entã,o Ma- cunaíma virou gente outra feita e morou com a companheira de Jiguê. Quando os manos voltaram da caça Jiguê per- cebeu a troca logo, porêm Maana,pe falou pra êle que agora Macunaíma estava homem pra sempre e troncudo. Maanape era feiticeiro.Uiguê viu que a rnaloca _estava cheia de alimentos, tinha pacova tinha milho tinha macacheira, tinha aluá e cachi- rí, tinha maparás e camarins pescados, maracujá-

nüchira atta ahio sapata sapOitilha, tinl1a JJassoca de viad.o e carne fresca de cutiara, todos êsses co- llles e bebes bons ... Jiguê conferiu que não pagava a pena brigar com' o mano e deixou a linda I-riquí pra êle. Deu um suspiro catou -0s carrapa tos e dor- miu folgado na rede. No outro dia Macuna íma depois de brincar ce- dinho com a linda lriquí, saiu pra dar, uma volti- nha. Atraves sou o reino encanta do da Pedra Bo- nita em Pernam buco e quando estava chegand o na cidade de Santare m topou com urna viada parida. - Essa eu caço! êle fez. E persegu iu a via da. Esta escapol iu fadl mas o heroi ponde pegar o fi- lh!inho dela que nem não andava quasi, se escon- deu por detrás duma carapan aúba e cotucan do o viadinh o fez êle berrar. A viada ficou feito louca, esbugalhiou os .olhos parou turtuveo u e veio vindo vei!) vindo p·a rou ali mesmo defronte chorand o de muar. Então o heroi flexou a viada parida. Ela caiu esperne ou um bocado e ficou rija estirada no chão. O he:r,oi cantou vitor'i·a e foi buscar a caça. Chegou Perto da viada olhou que mais olhou e deu um gri- to, desmaia ndo. Tinha sido uma peça do Anhan- ga ...\ Não era viada não, era mas a propria mãi tapanhu mas que Macuna íma flexara e estava mor- ta ali toda arranha da ,com os espinho s das titaras e lllandac arús do mato. Quando o heroi voltou da sapituca foi chamar os lllanos e os tres chorand o muito passara m a noite de guarda bebendo olonití e comend o carimã

com peixe. MadTugadinha pousaram o corpo da velha numa rede e foram enterra-la por debaixo duma pedra no lugar chamado Pai da Tocandeira. Maanape que era um catimbozeiro de marca maior, foi que gvav,o u o epitafio. E era assim:

Jejuaram o tempo que o preceito mandava e Macunaíma gastou o itempo do jejum se lamentan- do heroicamente. A barriga da morta foi inchando foi inchando e no fim das chuvas tinha ·viTado num cêrro macio. Então Macunaíma deu a mão pra Iriquí, Iriquí deu a mão pra Maanape, Maanape deu a mão pra Jiguê e os quatro partiram por êsse mundo.

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