Pauí-Pódole Macunaíma · Capítulo 10 de 19
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Pauí-Pódole

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PAUÍ-PÓDOLE

Venceslau Pietro Pietra ficara muito doente com a sova e estava todo envolvido em rama de algodão. Passou meses na rede. Macunaíma não Podia nem dar passo pra conseguir a muiraquitã agora guardada dentro do caramujo por debaixo do corpo do ,gigante/Ímaginou botar formiga cupim llo chinelo do outro porquê isso traz morte, dizem, .Porêm Piaimã tinha pé pra trás e não usava chi- nelo. Macunaíma estava muito contrariado com aquele chove-não-molha e passava o dia na rede l'llastigando beijú membeca entre codorios longos de restilo.' Nesse tempo veio pedir pousada na pen- são o. indio Antonio santo furnos'o com a cornpa- llheira dele, Mãi de Deus. Foi visitar Macunaima, fez discurso e batisou o heroi diante do deus que havia de vir e tinha forma nem bem de peixe nem helU de anta. Foi assim que Macunaíma entrou prá religião Caruimonhaga que estava fazendo furor llo sertão da Bai a. Macunaíma aproveitava a espera se aperfei- çoando nas duas línguas da terra, o brasileiro fa- lado e o português escrito. Já sabia nome de tudo.

Uma feita era dia da Flor, festa inventada pros bra- sileiros serem caridosos e tinha tantos mosquitos caraipanãs que Macunaíma largou do estudo e foi na cidade refrescar as ideas. Foi e viu um despro- posito de coisas. Parava em cada vitrina e exami- nava dentro dela aquela porção de monstros, tan- tos que afé parecia a serra do Ererê onde tudo se refugiou quando a enchente grande inundou o mundo. Macunaíma passeava passeava e encon- trou uma cun_hatã com uma urupema carregadi- nha de rosas. A mocica fez êle parar e botou uma flor na lapela dele, falando: - Custa milreis. Macunaima ficou muito contrariado porquê r..ão sabia como era o nome daquele buraco da má- . quina roupa onde a cunhatã enfiara a flo~. E o bu- raco chamava botoeira. Imaginou esgarafunchan- clo na memoria bem ma's nunca não ouvira mesmo o nome daquele buraco. Quis chamar aquilo de buraco porêm viu logo que confundia com os ou- tros buracos dêste mundo e ficou com vergonha da cunhatã. "Orifício" era palavra que a gente escre- via mas porêm nunca ninguem não falava "orifí- cio" não. Depois de pensamentear pensamentear não havia meios mesmo de descobrir o nome da- quilo e pôs reparo que da rua Direita onde topara com a cunhatã já tinha ido parar adiante de Sã 0 Bernardo, passada a moradia de mestre Cosme, Então voltou, pagou prá moça e falou de venta- inchada: MACUNAiMA 139

A senhora me arrumou com um dia-de-ju- deu ! Nunca mais me bote flor neste ... neste puito, dona! Macunaima era desbocado duma vez. Falara lltna ooca,gem muito porca, muito! A cunhatã não sabia que puíto era (palavra-feia não e enquanto o heroi voltava aluado com o caso prá pensão, ficou se rindo, achando graça na palavra. "Puito ... " que ela dizia. E repetia gosado: "Puito. . . Puíto" ... Imaginou que era moda. Então se pôs falando pra toda a gente si queriam que ella botasse uma rosa 110 puíto deles. Uns quiseram outros não quiseram, as outras cunhatãs escutaram a palavra, a empre- garam e "puíto" pegou. Ninguem mais não falava ein boutonniere por exemplo; só puíto, puíto que se escutava. Macunaíma ficou de azeite uma semana, sem ~oiner sem brincar sem dormir só porquê desejava Saber as línguas da terra. Lembrava de perguntar Pros outros como era o nome daquele buraco mas tinha vergonha de irem pensar que êle era igno- rante e moita. Afinal chegou o domingo pé-de-ca- chimbo que era dia do Cruzeiro, feriado novo in- 'ventado pros brasileiros descansarem mais. De ma- 11hã teve parada na Mooca, ao meio-dia missa cam- Pal no Coração de Jesus, ás dezessete corso e ba- talha de conf etes na avenida Rangel Pestana e de- :tJ.oite, depois da passeata dos deputados e deso- elltpados pela rua Quinze, iam queimar um fogo-

de-artificio no Ipiranga. Então pra espairecer Ma· cunaíma foi no parque ver os fogos. Nem bem saiu da pensão topou com uma cunhã clara, filhinha-da-mandioca bem, toda de branco e o chapeu de tucumã vermelho coberto de mangaridinhas. Foram juntos e chegaraI11 lá. O parque estava uma boniteza. Tinha tantas máqui· nas repuxos misturadas com a máquina luz ele· trica que a gente se encostava um no outro no es· curo e as mãos se agarravam pra aguentar a admi· ração. Assim a dona fez e ·Macunaíma sussurrou docemente: - Maní. . . filhinha da mandioca l ... Pois então a alemãzinha chorando comovida se virou e perguntou pra êle si deixava ela afincar aquela margarida no puíto dele. Primeiro o heroi ficou muito assarapantado, muito! e quis zangar porêm depois ligou os fatos e percebeu que f ôra muito inteligente. Macunaíma deu uma grande gar· galha da. Mas o caso é que "puíto" já entrara prás revis· tas estudando com muita sciencia os idiomas es· crito e falado e já estava mais que assente que pelas leis de catalepse elipse síncope metonímia metafonia metátese próclise prótese aférese apó· cope haplologia etimologia popular, todas essas leis, a ,p alavra "botoeira" viera a dar em puí· to, por meio dum palavra intermediaria, a voz latina "rabanitius" (botoeira - rabanitius - puíto), sendo que rabanitius embora não. encontrada nos MACUNAíMA 141

documentos medievais afirmaram os doutos que na certa existira e f ôra corrente no sermo vulgaris. Nesse momento um mulato da maior mulata- rfa trepou numa estátua e principiou um discurso entusiasma.d,o explicando pra Macunaíma o que era o dia do Cruzeiro. No céu escampado da noite não tinha uma nuvem nem Caipêi. A gente enxer- gava os conhecidos, os pais-das-árvores os pais- das-aves os pais-das-caças e os parentes manos pais mãis tias cunhadas ,cunhãs cunhaiãs, todas es- sas estrêlas piscapiscando bem felizes nesse país onde se i,g nora os males, adonde havia muita saú- de e pouca saúva, o firmamento lá. Mãcunaíma escutava muito agradecido, concordando com a fala comprida que o discursador fazia pra êle. Só depois do homem apontar. muito e descrever mui- to é que Macunaíma pôs reparo que o tal d Cru- 'zeiro era mas eram aquelas quatro estrêlas que êle sabia muito bem ·serem o Pai do Mutum moran- do no .campo do céu. Teve raiva da mentira do mu- la to e berrou : - Não é não! - ... Meus senhores, que o outro discursava, aquelas quatro estrêlas rutilantes como lágrimas ardentes, no dizer do sublime poeta, são o sacros- santo e tradicional Cruzeiro que ... - Nã:o é não! - Psiu! - . . . o simbolo mais ... - Não é não!

- Apoiadbs! - Foral - Psiu 1. . . Psiu! ... - ... mais su-sublime e maravilhoso da nossa ama-mada patria é aquele misterioso Cruzeiro lu- cilante que ... - Nã.o é não! -:- . . . ve-vedes com ... - N an sculhàmba ! - . . . suas qua .... tro claras lantejoulas de prat. .. - Nã:o é não! - Não é não! que outros gri_tavam tambem. Com tanta bulha afinal o mulato entrupigai- tou e todos os presentes animados pelos "Não é não!" do heroi estavam com muita vontade de fa- zer um chinfrim. Porêm Macunaíma tremia tão tiririca que nem percebeu. Pulou em riba da está- tua e principiou contando a história do Pai do Mu- tum. E era assim: - Não é não! Meus senhores e minhas senho- ras! Aquelas quatro esfrêlas lá é o Pai do Mutum ! juro que é o Pai do Mutum ,que para no campo vasto do céu! ... Isso foi no temJPo em que os ani- mais já não eram mais gente e sucedeu no grande mato Fulano. Era uma vez dois cunhados que mo- ravª_m muito longe um do outro. Um chamava Ca- mã-Pabimque e era catimboseiro. Uma feita o cunhado de Camã-Pabimque entrou no mato por amor de caçar um. bocado. Estava fazendo e topou

com Pauí-Pódole e seu compadre o vagalume Ca- maiuá. E Pauí-Pódole era o Pai do Mutum. Esta- va trepado no galho alto da acapú, descansando. Vai, o cunhado do feiticeiro voltou prá maloca e falou prá companheira ·dele que tinha topado com Pauí Pódole e seu compadre Camaiuá. E o Pai do Mutum com seu compadre num tempo muito de dantes já foram gente que nem nós mesmos. O ho- mem falou mais que bem que tinha querido matar Pauí-Pódole com a sarabatana porêm 'não alcan- çara o 1poleiro alto do Pai do Mutum na acapú. E então pegou na frexa de pracuúba com ponta de taboca e foi pescar carataís.' Logo Camã-Pabimque chegou na mal oca do cunhado e falou: - Mana, o que foi que vosso companheiro fa .. lou pra você? Então a mana contou tudo pro feiticeiro e que Paui-Pódole estava empoleirado na aca,pú com seu compadre o vagalume Camaiuá. No outro dia ma- nhãzinha Camã-Pabimque saiu do papirí dele e achou Pauí-Pódole piando na acawú. Então o ca- timboseiro virou na tocandeira Bague e foi subin- do pelo pau mas o Pai do Mutum enxergou a for- migona e soprou um pio forte. Bateu um veutarrão tamanho que o feiticeiro despencou do pau, caindo nos carurús da serrapilheira. Então virou na tacurí Opalá menorzinha e foi subindo outra feita porêm Pauí-Pódole tornou a enxei,gar a formiga. Soprou e veio um ventínho brisando que sacudh1 Opalá nas trapoerabas .da serra!pilheira. Então Camã-Pa-

bimque virou na lavapés chamada Megue, peque- titinha, subiu na acapú, ferrou o Pai do Mutum bem no furinho do nariz, enrolou 0 corpico e tra- zendo o não-se-diz entre os ferrões, juque ! esgui- chou acido-formico aí. Chi! minha gente! Isso Pauí-;Pódole abriu num vôo esparramado com a dor e espirrou Megue longe! O feiticeiro nem não poude sair mais do corpo de Megue, do susto que pegou. E ficou mais essa praga da formiguinha la- vapés pra nós. . . Gente I

"Pouca saúde e muita saúva Os males do Brasil são!"

já falei. . . No outro dia Pauí-Pódole quis ir morar no céu 1pra não padecer mais com as formi- gas da nossa terra, fez. Pediu pro compadre vaga- lume alumiar o caminho na frente com as lanter- ninhas verdes bem acesas. O vagalume Cunavá so- brinho do outro, foi na frente alumiando caminho pra Camaiuá e pediu pro mano que fosse na frente !Ctlumiando pra êle tambem. O mano pediu pro pai, o pai pediu prá mãi, a mãi pediu 1pra toda a gera- ção, o chefe-de-polícia e o inspetor do quarteirão e muitos muitos, urna nuvem de vagalumes foram alumiando caminho uns pros outros. Fizeram, gos- taram de lá e sempre uns atrás dos outros nunca mais não voltaram do campo vasto do céu. E' aque- le caminho de luz que daqui se enxerga atraves- sando o espaço. Pauí-Pódole então avoou pro céu

e ficou lá. Minha gente! aquelas quatro estrêlas não é Cruzeiro, que Cruzeiro nada! E' o Pai do Mutum ! E' o Pai do Mutum, minha gente! E' o Pai do Mutum, Pauí-tPódole que para no campo vasto do Céu!. .. Tem mais não." Macunaíma parou fatigado. Então se ergueu do (POVaréu um murmurejo longo de felicidade fa- zendo rE;lumear mais ainda as gentes, os pais-dos- passaros os pais-dos-·1pcixes os pais-dos. insetos os pais-das-árvores, todos êsses conhecidos que param no campo do céu. E era imenso o contentamento daquela paulistanada mandando olhos de assom- bro prás gentes, pra todos êsses pais dos vivos bri- lhando morando no cétv E todos êsses assombros de primeiro foram gente depois foram os assom- bros misteriosos que fizeram nascer todos os seres vivos. E agora são as estrêlas do céu. O povo se retirou comovido, feliz no coração cheio de explicações e cheio das estrêlas vivas. Nin- guem não se amolava mais nem com dia do Cru- zeiro nem com as máquinas repuxos misturadas com a máquina luz eletrica. Foram pra casa botar pelego por debaixo, do lençol porquê por terem brincado com fogo aquela noite na certa que iam lllijar na cama. Foram todos dormir. E a escuridão se fez. Macunaíma parado em riba da estátua ficara sozinho ali. Tambem estava comovido·. Olhou .p rá altura. Que Cruzeiro nada! Era Pauí-Pódole se per- cebia bem daqui. . . E Paui-Pódole estava rindo

pra êle, agradecendo. De repente piou comprido parecendo trem-de-ferro. Não era trem era piado e o sôpro apagou todas as luzes do parque. Então o Pai do Mutum mexeu uma asa mansamente se despedindo do heroi. Macunaíma ia agradecer po· rêm o passaro erguendo a .poeira da neblina lar- gou numa carreira esparramada pelo campo vasto do céu.

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