As tres Normalistas
XI
AS TRES NORMALISTAS
No outro dia o heroi acordou muito constipado. Era porquê apesar do calorão da noite êle dormira de roupa com medo da Caruviana que pega indi- viduo dormindo nú. Mas estava muito gangento com o sucesso do discurso da véspera. Esperou im- paciente os quinze dias da doença resolvido a con- tar mais casos pro povo. Porêm quando se sentiu bom era manhãzinha e quem conta história de dia cria ,r abo de cotia. Por isso convidou os manos pra caçar, fizeram. Quando chegaram no bosque da Saúde o heroi murmurou: .- Aqui serve. Dispôs os m anos nas esperas, bolou fogo no bos- que e ficou lambem amoitado esper a ndo que saís- se algum , iado m a teiro pra êle caçar. Porêm não iinha nenh um viado lá e quando queimada aca- bou, j acaré saiu? pois n em viado mateiro nem via- do catingueiro. Saíram só dois ra tos chamuscados. Então o heroi caçou os ;r atos chamuscados, comeu- os e sem chamar os manos voltou prá pensão. Lá chegado ajuntou os vizinhos, criados a patroa
cunhãs dactilographas estudantes empregados-pu- blicos, muitos empregados-publicos ! todos êsses vizinhos e contou pra êles que tinha ido caçar na feira do Arouche e matara dois ... - . . . mateiros, não eram mateiros não, dois catingueiros que comi com os manos. Até vinr.a tra- zendo um naco pra vocês mas porêm escor,reguei na esquina, eaí derrubei o embrulho e cachorro comeu tudo. Toda a gente se sarapantou com o sucedido e desconfiaram dro heroi. Quando Maanaipe e Jiguê voltaram, os vizinhos foram perguntar pra êles si era verdade que Macunaíma caçara dois catinguei- ros na fei1ra do Arouche. Os manos ficaram muito enquisilados porquê não sabiam mentir e excla- maram irritadis.s imo,s : - Mas que catingueiros êsses ! O heroi nunca matou viado ! Não tinha nenhum viado na caçada não! Gato miador, pouco caçador, gente! Em vez foram dois ratos chamuscados que Macunaíma pe- gou e comeu. Então os vizinhos perceberam que tudo era men- tira do heroi, tiveram raiva e entra1ram no quarto dele pra tomar sa-tisfação. Macunaíma estava to- cando numa flautinha feita de canudo de mamão. Parou o sôpro, aparou o bocal da flautinha e se admirou muito s·o ssegado: - Praquê essa gentama no meu quarto, ago- ra! ... Faz mal prá saúde, gente l Todos perguntaram pra êle: MACUN AfMA 151
- O que foi mesmo que você caçou, heroi? - Dois viados mateiros. Então os criados as cunhãs estudantes emprega- dos-ipublicos, todos êsses vizinhos principiara m rin- do dele. Macunaím a sempre aparando o bocal da flautinha. A patroa cruzando os braços ralhou as- sim: - Mas, meus cuidados, praquê você fala que fo- ram dois viados e em vez foram dois ratos chamus- cados! Macunaím a pal'lou assim os olhos nela e secun- dou: - Eu menti. Todos os vizinhos ficaram com cara de André e cada um foi saindo na maciota. E André era um vizinho que andava sempre encalist,r ado. Maanape e Jiguê se olharam com inveja da inteligenci a do mano. Maanape inda falou pra êle: - Mas praquê você mentiu, heroi ! - Não foi por querer não .. . quis contar o que 7inha sucedido prá gente e quando reparei estava tnentindo ... Jogou a flautinha fora ·p egou no ganzá pigarreou e descantou. Descantou a tarde inteirinha uma mo- da tão sorumbatic a mas tão sorumbatic a que os olhos dele choravam a cada estrofe. Parou porquê os soluços não deixaram mais continuar. Largou do ganzá. Lá fora a vista era um tristura de entar- decer dentro da cerração. Macunaím a sentiu-se desinf eliz e teve saudades de Ci a inesquecível,
Chamou os manos pra se consolarem todos juntos. Maanape e Jiguê sentaram junto dele na cama e os tres falaram longamente da Mãi do Mato. E es- palhando a saudade falaram dos matos e cobertos cerrações deuses e barrancas traiçoeiras do Ura- ricoera.,Lá que êles tinham nascido e se rido pela primeira vez nos macurús. . . Encostados nas ma- quiras pra lá do limpo do mocambo os guirás can- tavam o que não dava o dia e eram pra mais de quinhentas as famílias dos guirás. . . Perto de quinze vezes mil especies de animais assombravam o mato de tantos milhões de paus que não tinha mais conta ... Uma feita um branco trouxera da terra dos ingleses, . dentro dum sapiquá gótico, a constipação que fazia agora Macunaíma tan- to chorar de sodades ... E a consti1pação tinha ido. morar no antro das formigas mumbucas mui pre- tas. Na escureza o calor se amaciava como saindo das aguas; pra trabalhar se cantava; nossa mãi fi- e;ara virada numa coxilha mansa no lugar chama- do Pai da Tocandeira .. . Ai, que preguiça... E os tres manos perceberam pertinho o murmurejo do Uraricoera ! ôh ! como era bom por lá ... O heroi se atirou pra trás chorando largado na carna. Quando a vontade de chorar parou, Macunaíma afastou os mosquitos e quis espairecer. Se lembrou de ofender a mãi do gigante com uma bocagem novinha vinda da Australia. Virou Jiguê na máqui- na telefone porêm o mano inda estava muito con- fundido com o caso da mentira do heroi e não MACUNAtMA 153
houve meios de ligar. O aparelho tinha defeito. En- tão Macunaíma fumou fava de paricá pra ter so- nhos gostosos e adormeceu bem. No outro dia lembrou que precisava se vin- gar dos manos e resolveu passar um pealo neles. Levantou madrugadinha e foi esconder no quarto da patroa. Brincou pra faze,r tempo. Depois voltou falando afobado pros manos: 1
- Oi, manos, achei rasto fresco de tapir bem na frente da Bolsa de Mercadorias 1 - Que me diz, perdiz I - Pois é. Quem que havia de dizer! Ninguem inda não matara tapir na cidade. Os manos se sarapantaram e foram com Macunaíma caçar o bicho. Chegaram lá, principiaram procu- rando o rasto e aquele mundão de gente comer- ciantes revendedores baixistas matarazos, vendo os tres manos curvados ·p ro asfalto procurando, prin- cipiaram campeando tambem, todo aquele mun- dão de gente. Procuraram procuraram, você achou? nem êles ! Então perguntaram p,ra Macunaíma: - Onde que você achou rasto de tapir? Aqui não tem rasto nenhum não! Macunaíma não parava de campear falando sempre: - Tetápe dzónanei pemonéite hêbê zeténe ne- taite. E os manos regatêes zangões tequeteques ma- dalenas hungaros recomeçavam procurando o ras-
to. Quando cansavam e paravam pra perguntar, Macunaíma campeando sempre secundava: - Tetápe dzónanei pemonéite hêhê zeténe ne- taHe. E todo aquele mundão de gente procurando. Era já perto da noite quando pararam desacorçoa- dos. Então Macunaíma se desculpou: - Tetápe dzónanei pemo ... Nã,o deixaram nem que êle acabasse, todos perguntando o que significava aquela frase. Ma- cunaíma respondeu: - Sei não. A,prendi essas palavras> quando era pequenino lá em casa, E todos se queimaram muito. Macunaíma fas- tou disfarçado falando: - Calma, gente! Tetápe hêhê ! Não falei que tem rasto de tapir não, falei que tinha! Agora não tem mais não. Foi pio1r. Um dos comerciantes se zangou de verdade e o repórter que estava ao pé dele vendo o outro zangado zangou tambem por demais. - Isso não vai assim não! Pois então a gente vive trabucando pra ganhar o pão-nosso e vai um individuo tira a gente o dia inteiro do trabalho só pra campcar rasto de ta - Mas eu não pedi pra ninguem procU'.rar irasto, moço, me desculpe! Meus manos Maanape e Jiguê é que andaram pedindo, eu não! Culpa é deles! Então o povo que já estava todo zangado virou :\1ACUNA1MA 155
contra Maanape e contra Jiguê. Já todos, e eram muitos! estavam com vontade de armar uma briga. Então um estudante subiu na capota dum auto e fez discurso contra Maanape e contra Jiguê. O povo estava ficando zangadissimo. - Meus senhores, a vida · dum grande centro urb~no como São Paulo já obriga a uma intensi- dade tal de trabalho que não permite-se mais den- tro da magnifica entrosagem do seu pi·ogresso si- quer a passagem momentanea de seres inocuos. Ergamo-nos todos una voce contra os miasmas de- leterios que conspurcam o nosso organismo social e já que o Govêrno cerra os olhos e delapida os cofres da Nação, sejamos nós mesmos os justiça- dores ... - Lincha! lincha! que o povo principiou gri- tando. - Que lincha nada! exclamou Macunaíma to- mando as dores pelos manos. E todos se viraram contra êle outra vez. E ago- ra já estavam zangadissimos. O estudante conti- nuava pra si: - - ... e quando o trabalho honesto do povo é perturbado por um desconhecido ... - O quê! quem que é desconhecido!! berrou Macunaíma desesperado com a ofensa. - Você! - Não sou, 'tá'í ! - Ora vá desmamar jacú com alpiste, moço!
Desconhecida é a senhora vossa mãi, ouviu! - e virando pro povo: O que vocês estão pensando, heim ! Não tenho medo não! nem de um nem de dois nem de dez mil e daqui a pouco eu arrazo tudo isto aqui! Uma madalena que estava na frente do heroi, virou pro comerciante atrás dela e zangou: - Não bolina, senvergonha ! O heroi estava cego de raiva, pensou que era com êle e: - Que "não bolina" agora! não estou bolinan- do ninguem, sua lambisgoia! - Lincha o bolina! Pau nele! - Pois venham, cafagestes ! E avançou prá multidão. O advogado quis fu- gir porêm Macunaíma atirou um pontapé nas cos- tas dele e entrou pelo povo distribuindo rasteiras e cabeçadas. De reip ente viu na frente um homem alto loi;ro mui lindo. E o homem era um grilo. Ma- cunaíma teve odio de tanta boniteza e chimpou uma bruta duma bolacha nas fuças do grilo. O gri- lo berrou, e enquanto falava ·uma frase em lingua estrangeira agarrou o heroi pelo congote. - Prrrêsol O heroi gelou. - Preso porquê? O polícia secundou uma porção de coisas em lingua estrangeira e segurou firme. - Não estou fazendo nada I que o heroi mur- murava. MACUNAtMA 157
Porêm o grHo não quis conversa e foi descen- do a ladeirinha com o povo todo atrás. Outro grilo chegou e os dois falaram muitas frases, muitas! em lingua estrangeira e lá foram empurrando o heroi laderra abaixo. Um testemunha de tudo contou o sucedido pra um senhor que estava na .porta durna casa de frutas e o senhor penalisado atraves- sou a multidão e fez os grilos pararem. Era já na rua Libero. Então o senhor fez um discu11sos pros Sl'ilos, que êles não deviam de levar Macunaima Preso :porquê o h~roi não fizera nada. Tinha ajun- tado uma porção de grilos porêm nenhum não en- tendia o discurso porquê nenhum não pescava na- da de brasileiro. As mulheres choravam com dó do her.oi. Os grilos falavam por demais numa l'ingua estrangeira e uma voz gritou: - Não pode! Entã,o o povo ficou com muita vontade de pe- lear outra vez e de todos os lados agora estavam gritando: "Larga!", "Não leva!", "Não pode!" ''Não pode!", um chinfrim, "Solta!". Um fazendei- ro estava disposto a fazer discurso insultando a l>olícia. Os grilos não entendiam nada e gesticula- vam, muito atrapalhados falando em lingua es- trangeira. Formou-se um furdunço temível. Então Macunaíma se aproveitou da trapalhada e pernas l>raquê vos quero I Vinha um bonde na ca!'lreira badalando. Macunaíma pongou o bonde e foi ver como passava o gigante . .Venceslau Pietro Pietra já principiava conva·
lescendo da s·o.va apanhada na macumba. Fazia um calorão dentro da casa porquê era hora de cozi- nharem a polenta e fora a fresca era boa por causa do vento sulão. Por isso o gigante com a velha Ceiucí as duas filhas e a criadagem pegaram cadei- 1ras e vieram sentar na porta da rua pra gosar a frescata. O gigante inda não saira do algodão e es- tava talequal um fardo caminhando. Sentaram. O curumi Chuvisco andava librinando pelo bairro e encontrou Macunaírna negaceando da es- quina. Parou e ficou olhando o heroi. Macunaíma virou-se: - Nunca viu não! - Quê que você está fazendo aí, conhecido! - Estou assustando o gigante Piaimã com sua família. Chuvisco debicou: - Qual! não vê que gigante tem medo de ti! Macunaíma encarou o curumí empalamado e teve raiva. Quis bater nele porém lembrou-se de- c01r: "Quando você estiver embrabecencllo, conta tres vezes os botões da vossa roupa", contou e ficou manso de novo. Então secundou: - Quer apostar7 Eu faço e aconteço e garan- to que Piaimã vai pra dentro com medo de mim· Esconde lá perto pra escutar só o que êles falaIIl· Chuvisco avisou: - Oi, conhecido, tome tento com gigante! Você já sabe do que êle é capaz. Piaimã está fraco está fraco porém canudo que teve pimenta guarda
o ardume. . . Si você nã"O tem medo mesmo, aposto. Virou numa gota e pingou rente de Venceslau Pietro Pietra com a companheira as filhas e a cria- dagem. Então Macunaíma ·p egou na primeira pa- lavra-feia da coleção e jogou na cara de Piaimã. O palavrão bateu de rijo porêm Venceslau Pietro Pietra nem se incomodou, direitinho elefante. Ma- cunaíma chimpou outra bocagem mais feia na ca.a - Pora. A ofensa bateu rijo porêrn se incomodar é que ninguem se incomodou. Então Macunaíma jo- gou toda a coleção de bocagens e eram dez mil Vezes dez mil bocagens. Venceslau Pietro Pietra falou prá velha Ceiucí, bem quieto: - Tem algumas que a gente não conhece inda não, guarda pra nossas filhas. Então Chuvisco voltou prá esquina. O heroi garganteou: - Tiveram medo ou não tiveram! - Medo nada, conhecido! Até o gigante man- dou guardar as hocagens novas prás filhas brinca- rem. De mim que êles têm medo, ocê aposta? Vá lá perto e escute só. Macunaíma virou num caxipara que é o ma- cho da formiga saúva e foi se enroscar na ,rama de 1algodão acolchoando o gigante. Chuvisco amon- tou numa neblina e quando ia passand,o em riba da família deu uma mijadinha no ar. Principiou l)eneirando uma chuva-de-pre guiça. Quando os 160 ~lARIO DE ANDRADE
pingos vieram caindo o gigante olhou pra um agar- rado na mão dele e teve paúra de tanta agua. - Vam'bora, gente! E todos com muito medo foram correndo pra dentro. Então Chuvisco desapeou e disse pra Ma· cunaíma: - Está vendo?. E assim até hoje. A familia do gigante texn medo de chuvisco mas de palavra-feia não. Macunaíma ficou muito despeitado e pergun- tou pro rival: - Me diga uma coisa: você conhece a língua do lim-pim-gua..ip,á? - Nunca vi mais gordo l - Pois então, rival: Vá-pá á-pá roer-per- da-pá ! E abriu o pala até a pensão. Mas estava muito contrariado por ter perdido a aposta. Pra disfarçar imaginou noutra coisa. Fa- zia tempo que pusera repair o num bando de cunha- tãs Perguntou e soube que aquHo eram normalistas. Dormiu sonhando com elas. No outro dia esperou com o ôlho esquerdo dormindo que os manos sais- / .sem e levantou, sem reparar, com o pé esquerdo· Tomou banho perfuma do com macaca-poranga, botou um chapeu fino de ubussú e deu uma che- gadinha no cabeleireiro prl:A pingaT essencia cte pau-rosa no cabelo)nepois foi na praça da Repu- blica muito bem disposto. Quando as cunhatãs vie- 1IACUNA1MA 161
ram saindo da máquina Escola Normal Macuna- ima ficou muito atra·p alhado não sabendo qual a mais bonita. Coração batia com saltinhos apaixo- nados e Macunaíma andava dum lado pra outro ~ussurrando suavemente: "Mani I Maní ! filhinhas da mandioca!" ... Afinal se resolveu por uma. lin- deza de normalistinha branca ver garça-real. Pe- gou nela e foi caminhando prá pensão. A cunhatã achou graça e rindo feito boba perguntou: - Aonde você me leva? O heroi exclamou: - Pra mim! - Praquê você me quer? - Pra mim! - O que você vai fazer de mim, agora! - Gostar! - Mas, meus cuidados, eu não quero ir com você não. - Que bem me importa! Então a moça deu um tapa certo na cara dele, Ajuntou um desproposito de gente. Quando Ma- cunaíma se viu naqueles assados se lembrou da Bolsa de Mercadorias. La que partiu na disparada. Chegou na pensão muito contrariado. Os manos bem que perceberam porêm Macunaíma não tugiu nem mugiu, deitou. No outro dia esperou com o ôlho esquerdo dor- mindo que os manos saíssem. Pulou da cama não reparando que punha primeiro o pé esquerdo no chão. Tomou banho de cauré cheiroso, vestiu rou-
pa chegada da lavadeira e perfumada com priprio- ca botou um chapeu brilhante de jupatí e deu uma chegada no cabeleireiro pra encharcar o cabelo com essencia de pau-rosa, bastante essencia. De- pois foi na praça da Republica muito bem disposto. Quando as cunhatãs principiaram saindo Macuna- íma tornou a se atrapalhar não sabendo escolher. O coTação dele batia com paixão ardente e Macu- naíma ia dum lado pra outro murmuriando sua- víssimo: "Maní ! Maní ! filhinhas da mandioca!"... Afinal se resolveu por uma gracinha de cunhatã corada feito pena de guará. Pegou nela e foi cami- nhando ·prá pensão. A normalista ficou muito séria e perguntou: - Aonde que você me leva? - Pra mim! - Praquê você me quer? - Pra brincar! - Como que você faz de-noite? - Faço "juque". - Quer.o não! Me assusta l - Que bem me impol'ta 1 Então a mocinha guspiu na cara dele. Ajuntou pouca gente. Macunaíma viu aquela pouca gente e matutou: "Home Chico!. .. quem foi mOTdido de cobra tem medo de minhoca, vou zarpando." E foi embora prá pensão muito acabrunhado, muito! Sentia uma dor danada no corpo e se queixou pros manos. Foram ver e era cabreiro, de certo passara
alguma cobra na roupa se enxugando no coara!. O heroi deitou e ficou muito doente. Só no fim de duas semanas se sentiu bom e nem bem Maanape e Jiguê sairam se levantou ou- tra feita com o :pé esquerdo e resolveu botar um caborge serio nas normalistas. Matou dois anuns, tirou o figado deles e socou no pilão, rezando as- sim:
Te piso te repiso Te reduzo a granizo No pilão de Salamão ! Que o Setestrelo a prenda, Lhe dê fôrça de luar Pra que possa se abrandar O seu duro coração 1 Quem isto beber Quem isto mastigar Te ha-de gosar Na Sol e na garôa, Minha boa! Xiribiribí xiribiribó, Zaz-traz nó-cego!
E mastigou a passoquinha ruun. Então mais sossegado tomou banho de perfume francês com sabão inglês, botou um chapéu finíssimo de jijija-
pa, deu uma ,c hegadona no cabeleireiro pra botar brilhantina italiana com loção alemã e passou na manicura pra polir as unhas bem, Inda passou um pouco de carajarú na cara pra ficar mais corado porquê estava desmerecido com a doença e então foi na praça da Republica muitíssimo satisfeito. As cunhatãs já estavam lá e tudo se passou como das outras feitas. O heroi geme gemia de amor olhando pra aquele desperdicio de filhinhas da mandioca. Todo o corpo dele relumeava de paixão destem- perada por causa do sabão, da brilhantina e das unhas polidas. Afinal escolheu uma gostosura de moça morena com olhos de tição ardendo, pegou nela e foi caminhando prá pensão. A normalista derramando muitas lagrimas perguntou: ~ Aon_de que você me leva l - Pra mim! - Praquê você me quer! - Pra mim! - Que prosa l me dá uma rosa, si não tem rosa, não conte prosa l - Si você vem comigo te conto um caso I - Mas o que você vai fazer comigo l - Brincar! - Do que! - Brincar de marido e mulhe,rl Então a morena ajoelhou aos pés dele e prin- cipiou arrancando os cabelos desinfeliz. Desta vez l\IACUNA1MA 165
não ajuntou nenhuma gente. Macunaíma insistiu Porém ela soluçava soluçava dizendo que não, que brincar não queria, que fosse pregar noutra fre- guesia. Macunaíma teve raiva. Virou a cunhatã na tnáquina bonde amarelo que nem papo de canindé. Trepou nele e mandou tocar ·p:ra Santo Amaro on- de contemplou a Reprêsa.