Carta pras Icamiabas
IX
CARTA PRAS ICAMIABAS
A's mui queridas súbditas nossas, Senhoras Amazonas.
Trinta de Maio de Mil Novecentos e Vinte e Seis, em São Paulo.
Senhoras: Não pouco vos surpreenderá, por certo, o en- derêço e a literatura desta missiva. Cumpre-nos, entretanto, iniciar estas linhas de saudade e muito amor, com desagradavel nova. E' bem verdade que na boa cidade de São Paulo - a maior do univer- eo, _n o dizer de seus prolixos habitantes - não sois conhecidas por "icamiabas", voz espúria, sinão que pelo apelativo de Amazonas; e de vós, se afirma, 1~avalgardes ginetes belígero,s e virdes da Hélade c:lássica; e assim sois chamadas. Muito nos pesou a nós, lmperator vosso, tais dislates da erudição, porêm heis de convir conosco que, assim, ficais mais heroicas e mais conspícuas, tocada,s por essa plá- tina respeitavel da tradição e da pureza antiga. Mas não devemos esperdiçarmos vosso tempo
fero, e muito menos conturbarmos vosso entendi- mento, com notícias de mau calibre; passamos pois, imediato, ao relato dos noss·os feitos por cá. Nem cinco sois eram passados que de vós nos partíramos, quando a mais temerosa desdita peso~ sobre nós. Por uma bela noite dos idos àe Maio do ano translato, perdíamos a muiraquitã; que ou- trem grafara muraquitã, e, alguns doutos, ciosos de etimologias esdrúxulas, ortografam muyrald- tan. Haveis de saber que êsse vocábulo, tão f ami- liar ás vossas trompas de Eustaquio, é quasi desco- nhecido por aqui. Por estas paragens mui civis, os guerreiros chamam-se polícias, grilos, guardas-ci- vicas, boxistas, legalistas, masorqueiros, etc.; sen- do que alguns dêsses termos são neologismos ab- surdos - bagaço nefando, com que os desleixados e petimetres conspuricam o bom falar lusitano. Mas não nos sobra já vagar para discretearmos "sub tegmine fagi", sobre a lingua portuguesa, tambem chamada lusitana. O que vos interessará mais, por sem dúvida, é saberdes que os guerreiros de cá não buscam mavorticas damas para o enlace epitala- mico; mas antes as preferem doceis e facilmente trocaveis por pequeninas e volateis folhas de papel a que o vulgo chamará dinheiro - o "curriculum vitae" da Civilização, a que hoje fazemos ponto de honra em pertencermos. Assim a palavra mui- raquitã, que fere já os ouvidos latinos do vosso Im- perador, é desconhecida dos guerreiros, e de todos em geral que por estas partes respiram. Apenas
alguns "sugeitos de importáncia em virtude e le- tras", como já dizia o bom velhinho e clássico frei Luis de Sousa, citado pelo doutor Rui Barbosa, ain- da sobre as muiraquitãs projectam as suas luzes, Para aquilata-las de medíocre valia, originárias da Asia, e não de vossos dedos violentos no polir. Estavamas ainda abatido por termos perdido ri nossa muiraquitã, em forma de sáurfo, quando talvez p,o.r algum influxo metapsíquico, ou, qui lo sá, provocado por algum libido saudoso, como ex- plica o sábio tudesco, doutor Sigmund Freud, (lede Froide), se nos deparou em sonho um ar,c anjo ma- ravilhoso. Por êle soubemos que o talismã perdido, estava nas dilectas mãos do doutor V cnceslau Pie- t110 Pietra, subdito do Vice-Reinado do Perú, e de origem francamente florentina, como os Cavalcan- tis de Pernambuco. E como o doutor demorasse na ilustre cidade anchietana, sem demora nos par- timos para cá, em busca do velocino roubado. As nossas relações actuais com o doutor Venceslau s~o às mais lisongeiras possíveis; e sem dúvida tnui para breve recebereis a grata nova de que he- tnos reavido o talismã; e por ela vos pediremos alviçaras. Porquê, súbditas dilectas, é incontestavel que Nós, Imperator vosso, nos achamos em condição Precária. O tezouro que d'aí trouxemos, foi-nos de 1llister converte-lo na moeda corrente do país; e tal
conversão muito nos ha dificultado o mantenimen-
to, devido ás oscilações do Cámbio e á baixa do cacau. Sabereis mais que as donas de, cá não se derri- bam á pauladas, nem brincam por brincar, gratui- tamente, senão que á chuvas do vil metal, repuxos hrazonados de champagne, e uns monstros comes- tíveis, a que, vulgarmente dão o nome de lagostas. E que monstros encanta dos, senhoras Amazonas!! Duma carapaça polida e sobrosada, feita a modo de casco de nau, saem braços, tentáculos e cauda remígeros, de muitos feitios; de modo que o pesado engenho, deposto num prato de porcelana de Sê- vres, se nos antoja qual velejante trireme a bor- deisjar agua de Nilo, trazendo no bojo . o corpo inestimável de Cleó,patra. Ponde tento na acentuação dêste vocábulo, se- nhoras Amazonas, pois muito nos pesara não pre- f erisseis conosco, essa pronúncia, condizente com a lição dos clássicos, á pronúncia Cleopátra, dicção mais moderna; e que aJguns vocabulistas leviana- meu'te subscrevém, sem que se apercebam de que é ganga desprezível, que nos trazem, com o enxur- ro de França, os galiparlas de má morte . .Pois é com êsse delicado monst110, vencedor dos mais delicados véus paladinos, que as donas de cá tombam nos· leitos nupciais. Assim haveis de compreender de que alvíçaras falàmos; porquê as lagostas são caríssimas, caríssimas súbditas, e al- gumas hemos nós adquir1das p,or sessenta contos e mais; o que, convertido em vossa moeda tradi- :\lACUNA fMA 119
cional, alcança a vultuosa soma de oitenta milhões de bagos de cacau. Bem podereis conceber, pois, quanto hemos já gasto; e que já estamos carecido do vil metal, para brincar com tais difíceis donas. Bem quiseramas impormos á nossa ardida chama lUna abstinéncia, penosa embora, para vos poupar- :rnos despesas; porêm que ánimo forte não cedera ante os encantos e galanteios de tão agradaveis pastoras! Andam elas vestidas de rutilantes jóias e pa- nos finíssimos, que lhe acentuam r() ·donafre do por- te, e mal encobrem as graças, que, a de nenhuma outra cedem pelo formoso do torneado e pelo tom. São sempre alvíssimas as donas de ,c á; e tais e tan- tas habilidades demonstram no brincar, que enu- mera-las, aquí, seria fastiento porventura; e, cer- tamente, quebraria os mandamento s de discreção, que em relação de Imperator para súbditas se re- quer. Que beldades! Que elegancia ! Que cachet! Que degagé flamífero, ignívomo, devorador!! Só Pensamos nelas, muito embora não nos descuide- lnos, rela1Jso, da nossa muiraquitã. Nós, nos parece, ilustres Amazonas, que assás ganharíeis em aprenderdes com elas, as condescen- dencias, os brinoos e passes do Amor. Deixaríeis f:Utão a vossa orgulhosa e s-olitária Lei por mais a:rnavcis mesteres em que o Beijo sublima, as Vo- lúpias encandecem, e se demonstra gloriosa, "urbi et orbe", a subtil força do Odor di Femia, como escrevem os italianos.
E já que nos detiveinos neste delicado assunto, não no abandonaremos sem mais alguns reparos, que vos poderão ser úteis. As donas de São Paulo, sobre serem mui formosas e sábias, não se con- tentam com os dons e excelencia que a Natura lhe concedeu; assás se preocupam elas de si mesmas; e não puderam acabarem consigo, que não man- dassem vir de todas as partes do globo, tudo o que de mais sublimado e gentil acrisolou a sciencia f e- minina das civilisações avitas. Assim é que cha- maram mestras da velha Europa, e sobretudo de França, e com elas aprenderam a passarem o tem- po de maneira bem diversa da vossa. Ora se alim- pam, e gast~m horas nêsse delicado mester, ora encantam os convívios teatrais da s,o dedade, ora não fazem coisa alguma; e nêsses trabalhos pas- sam elas o dia fã.o entretecidas e afanosas que, em chegando a noute, mal lhes sobra vagar para brin- carem e presto se entregam nos braços de Orfeu, como se diz. Mas heis de sa,ber, senho.ras minhas, que por cá dia e noute divergem singularmente do YO,sso horário belígero; o dia começa quando para vós é o pino dêle, e a noute, quando estais no quar- to sono vosso, que, por derradeiro, é o mais re- parador. Tudo isso as donas paulistanas aprenderam com as mestras de França; e mais o polimento das unhas e crescimento delas, bem como aliás ''hor· resco referens", das demais parles corneas dos seus )I A C U N A í 11 A 121
companheiro s legais. Deixai que passe esta florida ironia! E muito ha que vos diga ainda sobre o geito com que cortam as comas, de tal maneira gracioso e viril, que mais se assemelham elas a éfebos e An- tinous, de perversa memória, que a matronas de tão dü,ecta progénie latina. Todavia, convireis co- nosco, no desacêrto de longas tranças por cá, si atenderdes ao que mais atrás ficou ditd; pois que os doutores de São Paulo não derribam as suas re- questadas pela f ôrça, senão que a trôco de oiro e de locustas, as ditas comas são de somenos; acrescen- do ainda que assim se amainam os males, que tais comas acarretam, de serem moradia e pasto habi- tual de insectos mui daninhos, como entre vós se Pois não contentes de terem ;aprendido de França, as subtilezas e passes da galantaria á Luís XV, as donas paulistanas importam das regiões lllais inhóspitas o que lhes acrescente ao sabor, tais .como pezinhos niponicos, rubis da índia, de- senvolturas norteamerica nas; e muitas outras sa- hedorias e tezoiros internacionai s. Já agora vos falaremos ainda, bem que por ulto, dum nitente armento de .senhoras, originárias da Polónia, que aqui demoram e imperam gene- rosamente. São elas mui alentadas no porte e mais numerosas que as areias do mar oceano. Como vós, senhoras Amazonas, tais damas formam um gine- ceu; estando os homens que em suas casas delas 1'>') .'.IIARlO ])E Ai'i:DHADE
habitam, reduzid.os escravos e condenados ao vil ofício de servirem. E por isso não se lhes chamam homens, sinão que á voz espúria de garçons res- pondem; e são assás polidos e silentes, e sempre do mesmo indumento gravebundo trajam. Vivem essas damas encasteladas num mesmo local, a que chamam por cá de quarteirão, e mes- mo de pensões ou ''zona estragada"; sobrelevando notar que a derradeira destas expressões não ca- beria, por indina, nesta notícia sobre as coisas de São Paulo, nã,o f ôra o nosso anseio de sermos exa- cto e conhecedor. Porêm si, como vós, formam es- sas queridas senhoras um clan de mulheres, muito de vós se apartam no físico, no género de vida e nos ideais. Assim vos diremos que vivem á noute, e se não dão aos afazeres de Marte nem queimam o dextra seio, mas a Mercúrio cortejam tão somen- te; e quanto aos seios, deixam-nos evolverem, á feição de gigantescos e flácidos pomos, que, si lhes não_ accrescentam ao donaire, s·e rvem para nume- rosos e ár,duos trabalhos de excelente virtude e prodigiosa excitação. Ainda lhes difere o físico, tanto ou quanto monstruoso, bem que de amavel monstruosidade, por terem elas o cérebro nas partes pudendas, e, como tão bem se diz em linguagem madrigalesca, o coração nas mãos. Falam numerosas e mui rapidas línguas; são viajadas e educadíssimas; sempre todas obedien- tes por jgua1, embora ricamente dispares entre si, :.VJAC NAf.MA 123
quais lo.iras, quais morenas, quais fosse maigres, quais rotundas; e de tal sorte abundantes no nú- lllero e diversidade, que mu'ito nos preocupa a ra- zão, o serem todas e tantas, originais dum país só- lllente. Acresce ainda que a todas se lhes dão o excitante, embora injusto, epíteto de "francesas". /\. nossa desconfiança é que essas dama~ não se originaram todas na Polónia, porêm que faltam á Verdade, e são iberas, itálicas, germanicas, turcas, .irgentinas, peruanas, e de todas as outras partes férteis de um e outro hemisfério. Muito estimariamos que compartilhasseis da nossa desconfiança, senhoras Amazonas; e que convidasseis tambem algumas dessas damas para demorarem nos vossas terras e Imperio nosso, por C!Ue aprendais com elas um moderno e mais ren- doso género de vida, que muito fará avultar os tezoiros do vosso Imperador. E mesmo si não qui- serdes largar mão da vossa solitária Lei, sempre a existéncia de algumas centenas dessas damas en- tre vós, muito nos facilitará o "modus in rebus",
mas mui fogosas e livres; bem pudera pesar-lhes em demasia o sequestro inconsequente em que vi- veis, e, por não perderem elas as sciéncias e segrê- dos que lhes dã,o o pão, bem poderiam ir ao extre- mo de utilisarem-se das bêstas feras, dos bogios, dos tapires e dos solertes candirús. E muito mais ainda nos pesaria á consciéncia e sentimento nobre do dever que vós, súbditas nossas, aprendasseis com elas certas abusões, tal com,o foi com as com- panheiras da gentil declamadora Saf ô na ilha ró- sea de Lesbos - vícios êsses que não suportam crítica á luz das possibilidades humanas, e muito menos o escalpelo da rígida e sã moral. Como vedes, assás hemos aproveitado esta de- mora na ilustre terra anchietana, e si não descui- dàmos .do nosso talismã, por certo que não pou- pàmos esforços nem vil metal, por aprendermos as coisas mais principais desta evitcrna civilisação la- tina, por que iniciemos, quando for do nosso re· torno ao Mato Virgem, uma série de milhorameo- tos, que, muito nos facilitarão a existencia, e mais espalhem nossa prosápia de nação culta entre as mais cultas do Unfrerso. E por isso agora vos di- rem,os algo sobre esta nobre cidade, pois que pre· tendemos construir uma igual nos vossos domínios e Irnperio nosso. E' São Paulo construida sobre se le colinas, á feição tradicional de R,o ma, a cidade cesárea, "ca· pita" da Latinidade de que provimos; e beija-Jhe os pés li- grácil e inqui.cla linfa do Tiêtê. As aguas MACUNAíMA 125
são magníficas, os ares tão amenos quanto os de Aquisgrana ou de Anverres, e a área tão a êles igual em salubridade e abundáncia, que bem se podera afirmar, ao modo fi~o dos cronistas, que de tres AAA se gera expontaneamente a fauna ur- harta. Cidade é belíssima, e grato o seu convívio. To- da oortada de ruas habilmente estreitas e tomadas por estátuas e lampeões graciosíssimos ' e de rara escultura; tudo diminuindo com a:stúcia o espaço de forma tal, que nessas artérias não cabe a popu- lação. Assim se obtem o efeito dum grande a cúmu- lo de gentes, ao qual nenhum se comparara entre as demais cidades terrestres; ao mesmo tempo que os edis dispoern de largo assunto com que ganhem dias honrados e a admiração de todos, com surtos de eloquéncia do mais puro estilo. e sublimado la- vor. As ditas artérias são todas recamadas de rico- cheteantes papeisinbos e velívolas cascas de frui- tos; e em principal duma finíssima poei,r a, e mui dansarina, em que se despargem diariamente mil e uma e5tPécimens de vorazes macróbios, que dizi- lllam a população. Por essa forma resolveram, os no&.s·os maiores, o problema da circulação; pois que tais insectos devoram as mesquinhas vidas da ralé e impedem o acúmulo de desocupados e operários; ~ assim se conservam sempre as gentes em número igual. E não contentes com essa poeira ser erguida Pelo andar dos pedestrianistas e por urrantes má-
quinas a que chamam "automoveis" e "electricos", (empregam alguns a palavra Bond, voz espúria, vinda certamente do inglês) contractaram os dili- gentes edis, uns antropoides, monstros hipocentau- reos azulegos e monótonos, a que congloba o título de Limpeza Públka; que "per amica silencia lu- nae", quando cessa o movimento ·e o pó descansa foócuo, saem das suas mansões, e, com os rabos gi- rantes a modo . de vassouras cilíndricas, puxadas por muares, soerguem do asfalto a poeira e tiram os insectos do sono, e os concitam á actividade com largos gestos e grita f orrnidanda. ~stes afa- zeres nocturnos são discretamente conduzidos por pequeninas luzes, dis1p ostas de longe em longe, de maneira a permanecer quasi to.tal a escuridade, não perturbem elas os trabalhos de malfeitores e ladrões. A cópia dêstes se nos afigura realmente exces- siva; e temos que são a única usança que não se coaduna com nosso temperamento, orddro e pací- fico de seu natural. E a vós, senhoras Amaz·o,nas, hemos por bem confessarmos que se nos antojaria mais grata a vida nocturna desta 'urbs, si expulga- da ~e tão agressiva grei. Porêm, longe de nós qual- quer reproche aos dominadores de São Pauio, pois sabemos muito bem que aos valorosos paulistas, são apraziveis tais malfeitores e suas artes. São os ,paulistas 1gente ardida e avalentoada, e muito afei- ta ás agruras da guerra. Vivem em combates si~gu- lares e colectivos, todos armados da cabeça aos .,1 A C U N A ( M ,\ 12i
pés; assim, assás numerosos são os distítrbios por cá, em que, não raro, tombam na arena da luta, centenas de milhares de herois, chamados ban- deirantes. PeJ.o mesmo motivo São Paulo está dotada de lnui aguerrida e vultuosa Policia, que habita palá- cios brancos de custosa engenharia. A essa Polícia
llossa geografia, na inglória tarefa de ruir por ter- :ra Govêrnos honestos; e de ,pleno gósto e assenti- lllento geral da população, como se descrimina das Urnas e dos ágapes governamentais. ~sses masor- 128 :\[ARIO DE ANDRADE
queiros pegam nos polícias, assam-nos e comem- nos ao geito alemão; e as ossadas caídas na terra maninha são excelente adubo de futuros cafezais. Assim tão bem organisados vivem e prospe- tam os paulistas na majg perfeita ordem e pro- gresso; e lhes não é escasso o tempo para construi- rem generosos hospitais, atraindo 1para cá t·oidos os leprosos sulamericanos, mineiros, puraibanos, pe- ruanos, bolivianos, chilenos, paraguaios, que, antes de ir morarem nêsses lindíssimos leprnsários, e se- rem servidos por donas de duvidosa e decadente beldade - sempre donas! - animam as estradas do Estado e as ruas da capital, em garridas comiti- vas equestres ou em maratonas soberbas que são o orgulho de nossa raça desportiva, em cujo cons- peito pulsa o sangue das heroicas b:iigas e quadri- gas latinas! Porêm, senhoras minhas! Inda tanto nos so- bra, por êste grandioso ,país, de doenças e insectos por cuidar!. . . Tudo vai num descalabro sem co- medimento, e estamos corroídos pelo morbo e pe- los miriápodes ! Em breve seremos novamente uma colónia da Inglaterra ou da America do Norte!. . · Por isso e para eterna lembrança dêstes paulistas, que são a unica gente útil do país, como bein se verifica desta noticia, nos demos a·o trabalho de metrificarmos um dístico, em' que se encerram os segredos de tanta desgraça: MACUNAtMA 129
"POUCIA, SAúDE E MUITA SIA1úVA OS MALES DO BRASIL SÃO."
tste dístico é que houvemos por bem escrever- mos no livro de Visitantes Ilustres do Instituto Bu- tantã, quando foi da nossa visita a êsse estabele- cimento famoso na Europa. Moram os paulistanos em palácios alterosos de cincoenta, cem e mais andares, a que, 'nas épocas da 1procreação, invadem umas nuvens de mosqui- tos pernilongos, de vária espécie, muito ao gôsto dos nativos, mordendo os homens ,e as senhoras com tanta propriedade nos seus distintivos, que não precisam êles e elas das cáusticas urtigas para as massagens de excitação, tal como entre os sel- vícolas é de uso. Os pernilongos se encarregam des- sa faina; e obram tais milagres que, nos bairros miseráveis, surge anualmente uma incontável mul- tidão de rapazes e raparigas bulhentos, a que cha- :tnamos "italianinhos"; destinados a alimentarem as fábricas dos áureos potentados, e a servirem, escravos, o descanso aromático dos Cresas. tstes e outros multimilionários é que ergue- ram em torno da urbs as doze mil fábricas de seda, e no recesso dela os famosos Cafés maiores do Inundo, todos de obra de talha em j acarandá fo- lhado de oiro, com embutidos de salsas tartaru- gas. Soberbos plátanos gigantes e gigantes Ficus soberbos revestem o pavimento fronteiro a êsses Caí,és, de nernoroso olor; e em chegando a estação
hiemal, milhares de lagartas habilmente criadas, Toem as folhas que a Prefeitura deixa artistica- mente sobre as ruas não só para diminuir o trau- maturgo dos veículos, como iJ)ara que os bardos cantem, nas suas harpas e liras afinadas, a bela quadra outonal. E o Palácio do Govêrno é todo de oiro, á feição dos da Rainha do Adriático; e, em carruagens de prata, forradas de peles finíssi- mas, o Presidente, que mantem muitas espôsas, pas- seia, ao cair das tardes, sorrindo com vagar. De outras e muitas grandezas vos poderiamas ilustrar, senhoras Amazonas, não f ôra perlongar demasiado esta epístola; todavia, com afirmar-vos que esta é, por sem dúv!da, a m~is bela cidade ter- raquea, muito hemos feito em favor dêstes ho- mens de prol. Mas cair-nos-iam as faces, si ocul- táramos no siléncio, uma curiosidade original dês- te povo. Ora sabereis que a sua riqueza de expres- são intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra. Assim chegado a estas ,plagas hospitalares, nos demos ao trabalho de bem nos inteirarmos da etnologia da terra, e dentre muita surprêza e assombro que se nos deparou, por certo não foi das menores tal originalidade lin- guística. Nas conversas utilizam-se os paulistanos dum linguajar bárbaro e multifário, crasso de fei· ção e impuro na vernaculidade, mas que não deixa de ter o seu sabor e fôrça nas apóstr.ofes, e tam- bem nas vozes do brincar. Destas e daquelas nos in·teiràmos, .solícito; e nos será grata emprêsa vo-
las ensinarmos aí chegado. Mas si de tal despre- zível língua se utilizam na conversação os natu- rais desta terra, logo que tomam da pena, se des_- pojam de tanta asperidade, e surge o Homem La- tino, de Lineu, e~primindo-se numa outra lingua- gem, mui próxima da vergiliana, no dizer dum !Pª- negirista, meigo idioma, que, com imperescível ga- lhardia, se intitula: lingua de Camões! De tal originalidade e riqueza vos ha-de ser grato ter sciéncia, e mais ainda vos espantareis com saber- des, que -á grande e quasi total maioria, nem essas
Tambem temo:s feito muitos discursos de im- proviso, como é da usança de cá, em ágapes, soda- lícios e reuniões familiares. No Brazil todos são oradores natos, e falam sempre de improviso, pro- nunciando ooon facilidade graciosa de dicção e rara eloquéncia, a aluvião de palavras que lhes brotam, enternecedoras, dos lábios. Pois a êsse
costume tambem nos demos agora, e ha já quem nos compare a Silveira Martins, que ainda não co- nhecemos, e ao grande morto, o doutor Rui Barbo- sa. J3: não ;por inútil tomaríeis tal ha}?ilidade, si sou- berdes que ela assás nos ha facilitado a futura pos- se da muiraquitã. Enfim, senhoras .Amazonas, 'heis de saber ain·· da que a êstes progressos e luzida civilização, hão elevado esta grande cidade os seus maiores, tam- bem chamados de políticos. Com êste apelativo se designa uma raça refinadíssima de doutores, tão . desconhecidos de vós, que os diríeis monstros. Monstros são na verdade; e embora algo com os homens se pareçam, originam-se êles dos reais ui- rauassús e muito pouco têm de humanos. São os políticos mui afáveis no tracto e de sereno aspeito. Nenhumas das virtudes urbanas lhe falecem, re- zam todos pela mesma cartilha; e, pelas mesmas origens, sã,o todos valentes, ilustrados e despren- .
Voam regularmente, são omnívoros e de geração exp.ontánea; e nascem dentro dessas bôlsas de ven- tre, nelas mamam e evolucionam, té poderem pro- curar o patíbulo alimentar por suas próprias e doces mãos. Apesar das duas linguas que pos- suem, raro falam e quiçá conspicuamente. Alguns ha que são mudos. Obedecem todos a um impera- dor, chamado Papai Grande na gír ia f ~miliar, e (Jue demora na oceánica cidade do Rio de Janeiro - a mais bela do mundo, na opinião de todos os es- trangeiros poetas, e que por meus olhos verifiquei. Finalmente, senhoras Amazonas e muito ama- das súbditas, assás hemos sofrido e curtido árduos e constantes pezares, deipois que os deveres da nos- sa posição, nos apartaram do Imperio do Mato Vir- gem. Por cá tudo são delícias e venturas, porêm nenhum gôs~ teremos e nenhum descanso, em- quanto não reouvermos o perdido talismã. Hemos Por bem repetir entretanto que as nossas relações com o doutor Venceslau são as milhares possíveis, CJ:ue negociações estão entaboladas e perfeita- luente encaminhadas; e bem poderíeis enviar de antemão as alvíçaras que enunciàmos atrás. Com l>ouco o vosso abstémio Imperador se contenta; ~i não ipuderdes enviar duzentas igaras cheias de agos de cacau, mandai cem, ou mesmo cincoenta. Recebei a benção do vosso Imperador e mais Sa.ú.de e fraternidade. Acatai com respeito e obe- cliéncia estas mal traçadas linhas; e, principalmen-
te, não vos esqueçais das alvíçaras e das polonesas, de que muito hemos mister. Ci guarde a Vossas Excias. Macunaíma, lmperator.