Ci, Mãi do Mato
III
CI, MÃI DO MATO
Uma feita os quatro iam seguindo por um ca- lllinho no mato e estavam penando muito de sêde longe dos igapós e das lag.oas. Não tinha nem mes- lllo umhú no baÍrro e Vei, ã Sol, esfiap·a ndo por entre a folhagem ,g uascava sem parada o lombo dos andarengos. Suavam feito numa pagelança em que todos tivessem besuntado o corpo com azeite de piquiá, ma·r chavam. De repente Macunaíma pa- nou riscando a noite · do silêncio com um ges imenso de alerta. Os outros esta.caram. Não se es- cutava nada porêm Macunaíma sussurrou: - Tem coisa. D~ixaram a linda Iriquí se enfeitando sentada nas raízes duma samaúma e avançaram cautelosos. Já Vei estava farta de tanto guascar o lombo dos ~res manros quando legua e meia adiante Macun~- 1ll1a escoteiro topou com uma cunhã dormindo. Era Cit. Mãi do Mato. Logo viu pel() peito dextro seco dela que fazhl. parte dessa tribu de mulheres s,ozi- 11has parando lá nas praias da lagoa Espêlho da Lua ,c oada pelo Nhamundá. A cunhã era linda com O corpo chup·a do pelos vicios, colorido oom geni-
Papo.
Macunaíma se a,tirou por cima dela pra brin. car. Ci não queria. Wez lança da flexa tridente en· quanto Macunaíma puxava da pageú. Foi um pega tremendo e por debaixo da copada reboavam os berros dos briguentos diminuindo de medo os cor- pos dos passaTinhos. O heroi apanhava. Recebera já um murro esborrachando no sangue do nariz e um lapo fundo de txara no rabo. A, icamiaba não tinha nem um arranhãozinho cada gesto que fa. zia era mais sangue no corpo heroi soltando ber- ros formidandos que dirninuiam de medo os cor- pos do·s passarinhos. Afinal se vendo nas amarelas porquê não podia mesmo com a icamiaba o heroi deitou fugindo ,c hamando pelos manos: - Me acudam que sinão eu mato I me acudam que sinão eu mat0il Os manos viernm e agarraram Ci. Maanape trançou os braços dela por detrás enquanto Jiguê com a murucú lhe dava uma porrada no coco. E a icamiaba caiu sem auxilio nas samambaias da ser- raipilheira. Quando ficou bem imovel, Macunaíma st aproximou e brincou com a Mãi do Mato. Vie- ram então muitas jandaias, muitas araras verme- lhas tuíns coricas periquitos, mui!tos 11apagaios sau- dar Macunaima, o .novo ImperadO'r . do Mato-Vir- gem. E os tres manos seguiram com a companheira nova. Atravessaram a cidade das FJores evitaram o rio das Amarguras passando pc ,r debai:x:O\ do salto da Felicidade, tomaram a estrada dos Praze-
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res e ·chegaram no capão de Meu Bem que fica nos cerros da Venezuela. Foi de lá que Macunaíma jm- peirou sobre os matos misteri;osos enquanto Ci co- tnandava nos assaltos as mulheres empunhando txaras de tres pontas. O heroi v.ivia soss·egado. Passava os dias ma- rupiara na rede matando formigas taiocas, chupi~ tando giolinhos estalados de pajuarí e quando agar, rava cantando acompanhado pelos sons gotejan- tes do cotcho os matos reboavam com doçura ador- lnecendio as cobras os carrapatos os mosquitos as formigas e os deuses rúins. De-noite Ci chegava rescendendo l!'esina de lH1u, sangrando das brigas e trepava na rede que ~la mesmo tecera com fios do cabelo. Os dois brm- cavam e depois ficavam rindo um pro outro. '\\ Ficavam rindo longo tempo, bem juntes. Ci aromava tanto que Macunaírna tinha tonteiras de lnoleza. - .Puxa! como v-0cê cheira, benzinho ! que êle murmuriava gosado. E escancarava as narinas mais. Vinha uma tonteira tão macota que o sonio principiava pingando das palpebras dele. l>orêrn a Mãi do Mato inda não estava satisfeita não e com. um geito de rede que enlaçava os dois con- Vidava o companheiro pra mais brinquedo. Morto de soneira, inf ernisado, Macunaíma brincava pra llào desmentir a fama só, porêm quando Ci queria rir com êle de satisfação:
- Ai I que preguiça! ... ~ Rio '1 dri Jan i ro 0 1 34 :MA.RIO DE ANDRADE
que -0 heroi murmurava enfacrado. E dando as costas pra ela adormecia bem. Mas Ci queria brin- car inda mais. . . Convidava ,convidava. . . O herol f.errado no sono. Então a Mãi do Mato pegava na txara e cotucava ·O companheiro. Macunaíma se acordava dando grandes gargalhadas estorcegado de cocegas. - Faz isso não, oferrecida! - Faço! - Deixa a gente dormir, seu bem ... - Vamos brincar. - Ai! que preguiça l ... E brincavam mais outra vez. P.orêm nos dias de muito pajuari bebido a :VIãi do Mato encontrava o Imperador do Mato-Virgem largado por aí num porre mãi. Iam brincar e o heroi esquecia no meio. - Então, heroi l - Então o que! - Você não continua? - Continua -0 que! - Pois, meus pecados, a gente está brincando e vai você para no meio! - Ai l que preguiça ... Macunaíma .mal esboçava de tão chumbado. E procurando um macio nos cabelos da companheira adormecia feliz. Bntã o pra anima-lo Ci empregava o estratage~ ma sublime. Buscava no mato a folha,g em de fogo da urtiga e sapecava com ela uma coça coçadPira
no chuí do heroi e na nalachítchi dela. Isso Macu- llaíma ficava que ficava um lião querendo. Ci tam- bem. E os dois brincavam que mais brincavam num deboche de ardor prodigioso. Mas era nas no1ites de insorria que o gôso in- '7entava mais. Quando todas as estrêlas incendia- das derramavam sobre a Terra um olio calorento que ninguem não suportava de tão quente corria Pe~o mato uma presença de incendio. Nem a pas- sarinhada aguentava no ninho. Mexia inquieta o Pescoço, voava pro galho em frente e no milagre lllais enorme dêste mundo inventava de sopetão U:rna alvorada preta, cantacantando que não tinha fitn. A bulha era tremenda o cheiro poderoso e o calor inda mais. Macunaíma dava um safanão na rede atirando Ci longe. Ela acordava feito furia e crescia pra ci- ~a dele. Brincavam assim. E agora despertados inteiramente pelo gôS-O inventavam artes novas de brincar. Um ·geito engraçado era enrolar a rede bem e no rôlo elastico sentados frente a frente brincarem se equilibrando no ar. O medo de cai-r condimen- tava o prazer e as mais das vezes quando o equili- brio faltava ,os dois despencavam no chão ás garga- lhadas desenlaçados pra rir. Outras feitas Ci balançava sozinha na rede, es- tendida de atravessado. Macunaíma convexandc o co:rpo entre dois galhos baixos em frente buscava acertar no alvo o uaquizê. Acertava bem. E aos em- 3tl :\IARIO DE ANDRADE
balanços chegando e partindo a brincadei quentava até que não aguentando mais o impera- dor partia tambem no vôo da rede nuin embalanço final. üutras _feitas mais raras e mais desejadas o heroi jurava pela memóri,a dá mãi que não havia de ser perverso. Então Ci enrolando os braços e as pernas nas varandas da rede numa ,reviravolta fi- cava enfr.entando o chão. Macunaíma vinha por debaixo, enganchavá os pés nos pés da companhei- ra:, as mãos nas mãos e se erguendo do chão com esfôrço, principiavam brincando assim. Dava uma angustia de proibição êsse geito de brincaT. Care- cia um esfôrço tamanho nos mus-culos todos se sus- tentando, o corpo do heroi sempre chamado puxa- do pelo pêso da Terra. E quando ·a felicidade esita- va pra dar flor o heroi não se vencia nunca, mandando juramento passear. Abria alargados os braç,os e as pernas, as varandas da rede afr.ouxa- vam e os companheiros sem apôio tombavam com baque seco no chão. Era milhor que Vei, a Sol! ·Ci tiririca se erguia sangrando e dava sovas tremendas no heroi. Macunaíma adormecia no chão entre pauladas, não podendo viver mais não de tanta folicidade. Era assim. · Nem bem seis meses passaram e a Mãi do Mato pariu um filho encarnado. Macunaíma ficou de re· pouso o mês de preceito porém se recusou a jejuar, O pecurrucho tinha .c abeça chata e Macunaíma ín· ~1ACUNA1111A 37
da a achatava mais batendo nela todos os dias e falando pro guri: - Meu filho, cresce depressa pra v-ocê ir pra São Paulo ganhar muito dinheiir-0. Todas as icamiabas queriam bem o menino en- e-arnado e no primeiro banho dele puseram todas as joias da tribu pra que o pequeno fosse rico sem- pre. Mandaram buscar na Bolívia uma tezoura e enfiaram ela aberta debaixo do cabeceiro porquê sinão Tutú Marambá vinha, chupava o umbigo do Piá e o dedão do pé de Ci. Tutú Marambá vd-0, topou com a tezour:a e se enganou: chupou ,o ôlho
nenhuma das icamia·b as o curumim sem ama chu- pou o peito da mãi no outro dia, chupou mais, deu um suspiro envenenado e mOO'reu.