Piaimã Macunaíma · Capítulo 5 de 19
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Piaimã

V

PIAIMÃ

No outl'o dia Macunaíma pulou cedo na ubá e deu uma chegada até a foz do rio Negro pra dei- xar a consciencia na ilha de Marapatá. Deixou-a bem na ponta dum mandacarú de dez metros, pra t:ão ser comida pelas saúvas. :Voltou pro lugar onde os m,a nos esperavam e no pino do dia os tres 'l'U- lllaram prá margem esquerda da Sol. Muitos casos sucederam nessa viagem por caa- tingas rios corredeiras, gerais, corgos, corredores de tabaiinga matos-virgens e milagres do sertão. Macunaíma vinha com os dois manos pra São Pau- lo. Foi o A,raguaia que facilitou-lhes a viagem. Por tantas conquistas e tantos feitos passados o heroi não ajuntara um vintem só mas os tczouro-s her- dados da icamiaba estrêla estavam escondidos nas grunhas do Roraima lá. Dêsses tezom:os Macunaíma ªPartou prá viagem nada menos de quarenta ve- zes quarenta milhões de bagos de cacau , a moeda tradicional. Caculou com êles um diluvio de em- barcações. E fi.cou lindo trepando pelo Araguaia aquele poder de igaras duma em uma duzentas em fileira, que nem flexa na pele do rio. Na frente 56 i\fARIO DE ANDRADE

Macunaíma vinha de pé, ca,rrancudo, procurando no longe a cidade. Matutava matutava roendo os dedos agora cobertos de berrugas de tanto ~ponta- l 'f'In Ci estrêla. Os manos remavam espantando os mosquitos e cada arranco d·os remos repercutindo nas duzentas igaras ligadas, despejava uma bate- lada de bagos na pele do rio, deixando uma esteira de chocolaite onde os camuatás pirapitingas doura- dos piracanjubas uarús-uarás e bacús se rega- lavam. Uma feita a Sol cobrira os tres manos duma escaminha de suor e Macunaíma se lembrou de to- mar banho. Porêm no rio era impossível por causa das piranhas tão vorazes que de quando em quan- do na luta pra pegar um naco de irmã despeda- çada pulavam aos cachos pra fora dagua um me- tro e mais. Então Macunaíma enxergou numa lapa bem no meio do rio uma cova cheia dagua. E a cova era que nem a marca dum pé gigante. Abica- ram. O heroi depois de muitos gritos por causa do frio da agua entrou na cova e se lavou inteirinho. Mas a agua era encantada porquê aquele buraco na lapa era marca do pesão do Sumé, do tempo em que andava ·pregando o evangelho de Jesus prá indiada brasileira. Quando o heroi saiu do banho estava branco loiro e de olhos azuizinhos, agua lavara o pretume dele. E ninguem não seria capaz mais de indicar nele um filho da tribu retinta dos Tapanhumas. Nem bem Jiguê percebeu o milagre se atirou na :\iACUNA1MA 57

rnarca do pesão do Sumé. Porêm a agua já estava rnuito suja da negrura do heroi e por mais que Jiguê esfregasse feito maluco atirando agua pra todos os lados só ,conseguiu ficar da cor do bronze novo. Macunaíma teve dó e consolou: - Olhe, mano Jiguê, branco você ficou não porêm pretume f:oí-se e antes fanhoso que sem nariz. Maanape então é que foi se lavar 'm as Jiguê esborrifara toda a agua encantada pra fora da co- va. Tinha só um bocado lá no fundo e Maanape conseguiu molhar só a palma dos .p és e das mãos. Por iss nhumas. Só que as palmas das mãos e dos pés dele são vermelhas por terem se limpado na agua santa. Macunaíma teve dó e consolou: - Não se avexe, mano Maanape, não se ave- Xe não, mais sofreu nosso Ho Judas! E estava lindissimo na Sol da lapa os tres ma- nos um loiro um vermelho outro negro, de pé bem erguidos e nus. Todos os se:res do mato espiavam - assombrados. O jl!_careuna o jacaretinga o jacare- assú o jacaré-ururau de papo amarelo, todos êsses fãcarés botaram os olhos de rochedo pra fora da- gua. Nos ramos das ingàzeiras das ªningl!_s_ das ma- :nior,à nas das embaúbas dos catauaris de beira- rio o mwcaco-:prego o macaco-de-cheiro o guariba o bugio o cuatá o barrigudo o cairara, todos os quarenta macacos do Brasil, todos, espiavam ba- bando de inveja. E os sabiás, o sabiàcica o sabià-

poca o sabiàúna o sabiàpiranga o sabiàgongá que quando come não me dá, o sabiá-barranco o sabiá- tropeiro, todos êsse,s ficaram pasmos e esqueceram de acabar o trinado, vozeando vozeaódo com elo- quencia. Macunaíma teve odio. Botou as mãos nas ancas e gritou pirá natureza: - Nunca viu não! Entã e os tres manos seguiram caminho outra vez. Porêm entrando nas terras do igarapé Tietê adonde o burbon vogava e a moeda ,tradicional não era mais ,c acau, em vez, chamava arame contos contecos milreis borós tostão duzentorreis qui- nhentoiireis, cincoenta paus, noventa bagarotes, e pelegas cobres xenxens caraminguás selos bicos-de- coruj a massuni boladas, assim, adonde até liga prá meia ninguem comprava não nem por vinte mil cacaus, lVJacunaíma ficou muito contrariado. Ter de trabucar, êle, heroi !. . . Murmurou desolado: - Ai! que preguiça! ... Resolveu abandonar a emp1resa, voltando pros pagos de que era imperador. Porêm Maanape fa- lou pra êle: - Deixa de ser aruá, mano! Por morrer um carangueijo o mangue não bota lufo não l que dia- cho! desanima não que arranjo as coisas l ,' Quando ,chegaram em São Paulo, ensacou um pouco do tezouro pl'a comerem e barganhando o resto na Bolsa apurou perto de :oitenta contos de réis. Maanape era feiticeiro. Oitenta contos não MACUNAtMA 59

valia muito mas o heroi refletiu bem e falou pros manos: - Paciencia. A gente se arruma coin isso mes- in·o, quem quer cavalo sem tacha anda de a-pé .. . Com êsses cobres é que Macunaíma viveu. E foi numa boca-da-noite fria que os manos toparam com a cidade macota de São Paulo espar- ramada a beira-rio do igarapé Tietê. Primeiro foi a gritaria da papagaiada imperial se despedindo do heroi. E lá se foi o bando sarapintado volvendo Pros ma,tos do norte. Os manos entraram num cerrado cheio de ina- jás ouricurís ubussús bacabas mucajás miritís tu- ct1mãs trazendo no curuatá uma penachada de fu- mo em vez de palmas e cocos. Todas as estrêlas ti- nham descido do céu branco de tão molhado de garoa e banzavam pela cidade. Macunaíma lem- brou de procurar Ci. Eh! dessa êle nunca poderia es·q uecer não porquê a rede feiticeira que ela ar- lllara pros brinquedos era tecida com os proprios Cabelos dela e isso torna a tecedeira inesqueicivel. Macunaíma oampeou campeou mas as estradas e terreiros estavam apinhados de cunhãs tão bran- cas tão alvinhas, tão! ... Macunairna gemia. Roça- va ~as cunhãs murmurejando com doçura: "Maní! M:aní l filhinhas da mandioca . .. " perdido de gôs- to e tanta formosura. Afinal escolheu com elas na rede estranha plantada no chão, numa lllaloca mais alta que a Paranaguara. Depois, por causa daquela rede ser dura dormiu de atravessa-

do sohr.e os corpos das cunhãs. E a noite ·c ustou pra êle quatrocentos bagamtes. A inteligencia do heroi estava muito perturba- da. Acordou com os berros da bicharia lá em baixo nas ruas, disparando entre as malocas temiveis. E aquele diacho de saguiassú que o carregara pro alto do taipirí tamanho em que dormira ... Que mundo de bichos! que desproposiito de papões ron- cando, mauarís sacís e boitatás nos atalhos nas so- cavas nas cordas dos morros furados po·r grotões donde gentama saia muito branquinha branquíssi- ma, de certo a filharada da mandioca! .. : A inteli- gencia do heroi estava muito perturbada. As cu- nhãs rindo tinham ensinado pra êle que o sagui- assú não ,e ra ~aguim nã·o, 1chamava elevador e era uma máquina. De-manhãzinha ensinaram que todos aqueles piados berros cuquiadas sopros roncos es- turras não eram nada disso não, eram mas clacsons campainhas apitos buzinas e tudo era máquina. As onças pardas não eram onças pardas, se chama- vam fordes hll!pmobiles chevrolés dodges marmons e eram máquinas. Os tam:\nduás os boitatás as ina- jás de curuatás d.e· fumo l:!m v,ez eram caminhões bondes autobondes anuncias-luminosos relogios favois radios motocicletas telefones gorgetas pos- tes chaminés ... Eram máquinas e tudo na cidade era só máquina! O heroi apirendendo calado. De vez em quando estremecia. Voltava a ficar imovel escutando assuntando maquinando numa scisma a·s sombrada. Tomou-o um respeito clieio de inveja

Por essa deusa de deveras mais macanuda que Vei a Sol, Tupã famanado que os filhos da mandioca chamavam de Máquina, mais cantadeira que à Mãi- Dagua, em bulhas de sarapantar. Então resolveu ir brincar com a Máquina pra ser tambem imperador dos filhos da mandioca. Ma'S as tres cunh;íJ;- deram muitas ir isadas e falaram que isso de deuses era uma mentirada, que não tinha deus não e que com a má,q uina ninguem, nã-o brin- ca porquê ela mata. A máquina não era d,eus não, nem possuia os distintivos femininos de que o he- roi gostava tanto. Era f eHa pelos homens. Se mexia com eletricidade com fogo com agua com vento com fumo, os honiens aproveitando as fôrças da natureza. Porêm jacaré acreditou? nem o heroi ! Se levantou na cama e com um gesto, êsse sim! bem guassú de desdem, tó ! batendo o antebraço esquerdo dentro do outro dobrado, mexeu com energia a munheca direita prás tres cunhãs e par- tiu. Nesse instante, falam, ele inventou o gesito fa- :rnanado de ofensa : a pacova. E fo,i morar numa pensão com os manos. Esta- va com a boca cheia de sapinhos por causa daquela Primeira noite de amor paulistano. Gemia com as dore'S e não havia meios de sarar até que Maanape toubou uma chave de sacra;rio e deu pra Macuna- i:rna chupair. O heroi chupou chupou e sarou bem. Maanape era f eiticeir-0. Macunaíma :p assou então uma semana sem co- ln.er llem brincar só maquinando nas brigas sem

vitória dos filhos da mandioca com a Máquina. A Máquina era que matava os homens porêm os ho- mens é que mandavam na Máquina. . . Constatou pasmo que os filhos da mandioca eram donos sem misterio e sem f ôrça da máquina sem misterio sem querer sem fastio, incapaz de explicar as infelici- dades por si. Estava nostalgico assim. Até que uma noite, suspenso no ;terraço dum arranhacéu com os manos, Macunaíma concluiu: - Os filhos da mandioca não ganham da má- quina nem ela ganha deles nesta luta. Ha empate. Não concluiu mais nada po;r quê inda não es- tava acostumado com discursos porêm palpitava pra êle muito embrulhadamente muito -! que a má- quina devia de ser um deus de que os homens não eram verdadeiramentel donos só porquê não ti- nham feito dela uma Jllra exiplicavel mas apenas uma realidade do mundo. De to,da essa embrulha- da o pensamento dele sacou bem clarinha uma luz: Os homens é que eram máquinas e as máquinhas é que eram homens. Macunaíma deu uma grande gargalhada. Percebeu que estava livre outra vez e teve uma satisfa mãi. Virou Jiguê na máquina te- lefone, ligou pira Sant'Ana encomendando lagos:ta e francesas. No outro dia estava tão fatigado da farra que a saudade bateu nele. Se lembrou da muiraquitã. Resolveu agir logo porquê primeira pancada é que mata cobra. _V enceslau Pietro Pietra morava num tejupar MACUN AfMA 63

lnaravilhos o rodeado de mato no fim da rua Ma- ranhão olhando pirá noruega do Pacaembú. Ma- cunaíma falou pra Maanape que ia dar uma che- gadinha até lá por amor de conhecer Venceslau Pietro Pietra. Maanape fez um discurso mostrando as inc\?nveniencias de ir lá porquê o re,gatão an- dava com o calcanhar prá frente e si Deus o assi- nalou alguma lhe achou. De certo um mauarí rna- levolo ... Quem sabe si o gigante Piaimã comedor de gente!. .. Macunaím a não quis saber. - Pois vou assim mesmo. Onde me conhecem honras me dão, onde não me conhecem me drurão ou não! Então .Maanaipe acompanho u o mano. Por detrás do tejupar do regatão vivia a árvore Dzalaúra-l egue que dá todas as frutas, _cajús cajás cajàmanga s mangas abacaxis abacates jaboticaba s graviolâs "sapotis pupunhas pitangas guajirú chei- rando sovaco de preta, todas essas frutas e é triui alta. Os dois manos estavam com fome. Fizeram ·um zaiacúti com folhagem cortada pe- las saúvas, esconderijo no galho mais baixo da árvore pra flexarem a caça devorando as frutas. Maanape falou pra Macunaím a: - Olha, si algum passara cantar não secunda não, mano, sinão adeus minhas encomenda s! O heroi mexeu a cabeça que sim. Maanape ati- rava com a sarabatana e Macunaím a recolhia por detrás do zaiacúti a caça caindo. Caça caia com estrondo e J.VIa,cun aíma · aparava os macucos ma-

cacos micos monos mutuns jacús jaós tucanos, to- das essas caças. Porêm o estrondo tirou Venceslau Piet:ro Pietra cÍo farniente e êle veio saber o que era a·quilo. E Venceslau Pietro Pietra era o gigan- te Piaimã comedor de gente. Chegou na :porta da casa e cantou feito passairo: - Ogoró ! o,goró ! ogoró ! parecendo muito louge. Macunaíma secundou logo; - Ogoró ! ogoró ! ogoró l Maanape sabia do p erigo e murmurou: - Esconde, mano! O heroi escondeu por detrás do zaiacuti entre a caça mo,r ta e as formigas. Enitão gigante veio. - Quem que secundou? Maanape respondeu: - Sei não. - Quem que secundou '~ - Sei não. Treze feitas. D'aí o gigante falou: - Foi gente. Me mostra quem era. Maanape jogou um macuco morto. Piaimã en- guliu o macuco e falou: - - Foi gente! Me mostra quem era! Maanape jogou um macaco morto. Piaimã en- guliu-o e continuou: . - Foi gente! Me mostra quem era! Então enxergou o dedo mindinho do heToi es- condido e atirou uma baníni na direção. Se ouviu um grito gemido comprido, juuúque ! e Macunaíma ~I ,\ C (' ~ A f ~f A 65

a,gachou com a flexa enterrada no coração. O gi- gante falou pra Maanape: - Atira a gente que eu cacei! Maanape atirou gunribas picotas jaós jacús ja- c:u.tingas piaçocas, todas cssns caças por~m Piaim::í engnlia e ,tornava a pedir a gente l(UC êlC' flcxara . Maanape não

xando. Entrou na casa. Maanape desceu da árvore desesperado. Quando ia pra seguir atrás do defun- to mano topou com a formiguinha sarára chama- da Cambgique. A sarára perguntou: - O que você faz por aqui, parceiro! - Vou atrás do gigante que matou meu mano. - Vou tambem. Então Cambgique sugou todo o sangue do he- roi, esparramado no chão e nos ramos e sugando sempre as gotas do caminho foi mostrando o rasto pra Maanape. Entraram na casa atravessaram o hol e a sala- de-jantar, passaram pela copa saíram no terraço do lado ,e para1ram na frente do porão. Maanape acendeu uma escadinha negra. Bem na porta da adega rastejava a última gota de sangue. A porta estava fechada, Maanape coçou o nariz e perguntou pra Cambgi- que: - E agora! Então v.eio por debaixo da porta o carrapato Zlezlegue e perguntou pra ~-ªanap_e.; - Agora o quê, parceiro? - Vou atrás do gigante que matou meu mano. Zlezlegue falou: · - Está bom. Então fecha o ôlho, parceiro. Maanape fechou. - Abre o ôlho, parceiro. Maanape abriu e o carrapato Zlezlegue tinha virado num:1 chave yale. Maanape ergueu a chave ~fACUN AíMA 67

do chão e abriu a porta. Z1ezlegue virou carrapato outra vez e ensinou: - ·Com as garrafas bem de cima você ,conven- ce Piaimã. E desaparece u. Maanape ,tirou dez garrafas, a-briu e veio vindo um airoma perfeito. Era o ca1úm f arnoso chamado quianti. Então Maanape entrou na outra sala da adega. O gi,g anle estava aí com a conipanhei ra, uma caapora velha sempre caxim- hando que se chamava Ceiucí e era muito gulosa. Mª-ªnª-pe deu as garrafas pra Venceslau Pietro Pie- tra, um naco de fumo do Acará prá caapora e o casal esqueceram que havia mundo. O heroi picado em vinte vezes trinta torresmi- nhos bubuiava na polenta fervendo. Maanape ca- tou os pedacinhos e os ossos e estendeu tudo no ci- lb.ento p,ra refre3car. Quando esfriaram a sarara Canmgique derramou por cima o sangue sugado. Então Maanape embrulhou todos os pedacinho s sangrando, em folhas de bananeira, jogou o em- brulho num sapiquá e ,tocou prá pensão. Lá chegado botou o cesto d,e pé assoprou fumo llele e Macunaírn a veio saindo meio pamonha ain- da, 1nuito desmerecid o, do meio das folhas. Maa- nape deu guaraná pro mano e êle ficou taludo ou- tra ".ez. Espantou os mosquitos e perguntou : - O que foi que sucedeu pra mim? - Mas, meus cuidados, não falei pra você não secundar cantiga de passarinho ! falei sim, pois então! ... 68 :\IARIO DE ANnR .\DE

No oulro dia Macunaíma acordou eorn escarla- tina e levou Lodo o tempo da febre imaginando que carecia da máquina garrucha pra matar Venceslau Pietro Pietra. Nem bem sarou foi na casa dos in- ~deses .pe

de balas que Macunaima deixou cair no chão de- pois catou. - Agora uísque, falou . il

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