Muiraquitã
XV
MUIRAQUITÃ
No outro dia de manhã nem bem Macunaíma abriu a janela, enxergou um passarinho verde. O heroi ficou satisfeitíssimo e inda esltava ficando satisfeito quando Maanape entrou no quarto con- tando que as máquinas jornais anunciavam a volta de Venceslau Pietro Pietra. Então Macunaima re·· s·olveu não ter mais contemplação com o gigante e mata-lo. Saiu da cidade e foi no mato Fulano exp-erimentar fôrça. Campeou legua e meia e afi- nal topou com uma peroba com a sapopemba do tamanho dum bonde. "Estã -serve" êle fez. Enfiou o braço na sapop-e mba, deu arranco e o pau sa,iu da terra não deixando nem sinal. "Agora sim que tenho f ôrça !" Macunaíma exclamou. Tornou a fi- car satisfeito e voltou 1prá cidade. Porém não po- dia nem andar porquê estava cheio de carrapatos. Macunaíma com muita pachorra falou pra êles: - Ara, carrapatos! vão embora, pessoal! Não devo nada pra, vocês não! Então a carrapatada caiu no chão por encanto e foi-se embora. Ca·rrapato já foi g nte que nem nós . . . Urna feita botou uma vendinha na beira da
estrada e fazia muitos neg,ocios porquê não se in- comodava de vender fiado. Tanto fiou tanto fiou, tanto brasileiro não pagou que afinal carrapato quebrou e foi posto pra fora da vendinha. Ele agarra tanto na gente porquê está cobrando as con- tas. Quando Macunaíma chegou na cidade já era noite fechada e êle foi logo tocaiar a_ casa do gi- gante. Tinha neblina sobre o mundo e a casa estava sem ninguem de tanta que era a escureza. Macuna- ima se lembrou dê procurar uma criada pra brin- car porêm tinha estacionamento das máquinas ta- xis na esquina e as cunhãs já estavam brincando por aí. _fylacunaíma se lembrou de armar arapuca pros curiós mas faltava isca., Não havia qÜe fazer e sentiu sono. · Porêm dormir não queria não por- quê estava esperando Venceslau Pietro Pietra. Ima- ginou: "Agora vou vigiar e quando Sono vier en- forco êle". Não demorou muito viu um vulto che- gando_. Era Emoron-Pódole, o Pai do Sono. Macu- naíma ficou muito parado entre os ninhos de cup'im pra nã.o espantar o Pai do Sono e poder ma- ta-lo. Emoron-Pódole veio vindo veio vindo e quan- do já estava pertinho, o he:roi cochilou, bateu com o queixo no peito, mordeu a lingua e gritou: - Que susto! O Sono fugiu logo. Macunaíma seguiu andan- do muito desapontado. "Ora veja só! não peguei mas quasi. .. Vou esperar outra vez e macacos me lambam si agora não pego o Pai do Sono e enforco MACt:,'AtMA 213
êle !" Assim que o heroi refletiu. Tinha um corgo perto com um pau caído por cima servindo de pin- guela. Mais 1pra longe uma lagoa branquejava
pelo pau . . Depois dela passar o heroi gritou prá pinguela: - Viu alguma coisa, pau? - Vi a graça dela! · - ,Quá ! quá ! quá quaquá ! ... Macunaíma deu uma grande gargalhada. En- ião seguiu atrás do par. Eles já tinham brincado e descansavam na beira da lagoa. A moça estava serrtada na borda duma igarité encalhada na praia. Toda nua inda do banho comia tambiús vivos, se rindo pro rapaz. Ele deitara de bruços na agua rente dos pés da moça e tirava os lambarizinhos da la- goa ,pra ela comer. A crilada das ondas amo.fltava nas costas dele p,o,r êm escorregando no corpo nú molhado caia de novo na lagoa com risadinhas de pingos. A moça batia com os pés nagua e era feito um repuxo rQubado da Luna espirrando geitoso, cegando o rapaz. Entã,o êle enfiava a cabeça na lagoa e trazia a boca cheia de agua. A moça aper- tava com os pés as bochechas dele e recebia o jacto em cheio na barriga. Assim. A brisa fiava a cabe- leira da moça esticando de um em um os fios lisos na cara dela. O moço pôs reparo nisso. Firmando o queixo no joelho da companheira ergueu o busto da agua, estirou o braço pro alto e ,principiou ti- rando os cabelos da cara da moça pra que ela pu- desse comer sossegada os tambiús rabejando no ar a prata do engaste. Então ·p ra agradecer ela enfiou tres lambarizinhos na boca dele e rindo muito fastou o joelho depressa. O busto do rapaz não MACUNA1:\-CA 215
teve apôio mais e êle no sufragante focinhou nagua até o fundo, a moça inda forçando o pescoço dele com os pés. Ela ia esco,rregando sem perceber de tanta graça que achava na vida. Ia escorregando e afinal a canoa virou. Pois deixai ela virar! A moça levou um tombo engraçado por cima do rapaz e êle enrolou-se nela talqualmente um aipuiseiro ca- rinhoso. Todos os tambiús fugiram enquanto os dois brincavam nagua outra vez. ' Macunaima chegava. Sentou no fundo da iga- rité virada, esperando. Quando viu que êles tinham acabado de brincar, falou pro chofêr:
- Faz tres dias que não como, Semana que não escarro, Adão foi feito de barro, Sobrinho, me dá um cigarro.
O chofêr secundou:
Me desculpe, meu parente, Si cigarro não lhe dou; A palha o fosfre e o goiano Caiu nagua, se molhou.
Não s~ incomode que eu tenho, respondeu Macunaíma. Tirou uma cigarreira de tartaruga feita por Antonio do Rosario no Pará, ofereceu ci- garros de palha de tauarí pro moço e prá cr.iadi- nha, acendeu um fosforo pros dois e outro· pra êle.
Depois afastou os mosquitos e principiou contando um caso. Assim a noite passava depressa e a gente não se amolava com o canto da sururina marcando as horas da escuridão. E era assim: - No tempo de danltes, moços, o automovel não era uma máquina que nem hoj"e não, era a onça parda. Se chamava Palauá e pa-rava no grande ma- to Fulano. Vai, Palauá falou pros olhos dela: - Vão na praia do mar, meus verdes olhos, depressa depressa depressa I Os olhos foram e a onça parda ficou cega. Po- rêm levantou ,o focinho, fez êle cheirar o vento e percebeu que Aimalá-Pódole, o Pai da Traira esta- va nadando lá no longe do mar e gritou: - Venham da praia do mar, meus verdes olhos, depressa depressa depressa! Os olhos vieram e Palauá ficou enxergando outra vez. Passava por ali a tigre preta que era muito feroz e faJ.ou pra Palauá: - O que você está fazendo, comadre I - Estou mandando meus olhos olharem o mar. - E' bom? - P.ros cachorros ! - Então manda os meus tambem, comadre! - Mando não porquê Aimalá-Pódole . está na praia do mar. - Manda que sinão te engulo, comadre! Então Palauá falou assim: l\.1ACUNA1MA 217
- Vão na :p raia do mar, amarelos olhos de minha comadre tigre, depressa depressa depressa I Os olhos foram e a tigre preta ficou cega. Ai- malá-Pódole estava lá e juque ! enguliu os .o,lhos da tigre. Palauá maliciou tudo porquê o Pai da Traíra estava cheirando mui forte. Foi tratando de se raspar. Porêm a tigre preta que era mui fe- roz presenciou a fugida e falou prá onça parda: - Espera um pouco, comadre! - Não vê que careço de buscar janta pra meus filhos, comadre. Então até outro dia. - Primeiro manda meus olhos voltarem, co- madre, que já tomei um fartão de escnreza. Palauá gritou: · - Venham da ,praia do mar, amarelos olhos de minha comadre tigre, depressa depressa de- pressa! Porêm os olhos não voltaram não e a tigre preta ficou feito furia. - Agora que te engulo, comadre! E correu atrás da onça parda. Foi uma chis- pada mãi por êsses ma'tos que chii ! os passarinhos se tornaram pequetitinhos pequetitinhos de medo e a noite levou um susto tamanho que ficou parali- tica. Por isso que quandó faz dia em riba das ár- vores, dentro do mato é sempre noite. A coitada não pode mais andar ... Quando Palauá correu legua e meia olhou ipra trás fatigada. Porêm a tigre preta vinha perto. Vai, PaJauá chegou num morro chamado Ibiraçoi- 218 )1ARIO DE AJl.'DR1ADE
aba 'e ~o'.p ou com uma bigorna gigante, aquela uma que perte11cia á fundição de Afonso Sardinha no princípio da vida brasileira. Junto da bigorna es- tavam quatro rodas esquecidas. Então Palauá amarrou elas nos pés pra poder deslisar sem muito esfôrço e, como se diz: desatou o punho da rede outra feita. Uma chispada mãi ! A onça enguliu num atimo legua e meia de teITeno porêm isso vinha que vinha acochada pela tigre. Faziam um barulhão tamanho que os 1passarinhos estavam pe" quetitinhos pequetitinhos de medo e a noite mais sombria por causa que não podia andar ,lE a bulha inda era assombrada pelos gemidos do noitibó ... Noitibó é Pai da Noite, moços, e chorava a miseria da filha. Bateu fome em Palauá. A 'tigre na cola dela. Mas Palauá nem não podia mais correr assim com o estomago nas costas, vai, em de mais longe quan- do passou pela barra do Boipeba onde o cuizarrúim morou, viu um motor perto e enguliu o tal. Nem bem motor caiu na barriga da onça que a pobre criou f ôrça nova e chispou. Fez legua e meia e olhou pra trás. Isso a tigre preta vinha feita :pra cima dela. Estava uma escureza que só vendo por causa da malinconia da nqite e bem na frente dum f eixo a onça deu uma trombada temível no derra- me dum morrete, que por um triz, era uma vez Palauá ! Vai, ela abocanhou dois vagalumões e se- guiu com êles nos dentes pra alumiar caminho. Nem bem fez outra legua e meia olhou pra trás.
A tigre junto. Era por causa que a onça parda chei- rava muito e a peste da cega tinha far,o de perdi- gueiro. Vai. Palauá ingeriu um purgante de olio de mamona, pegou numa lata da essencia chamada gazolina, despejou no x e lá foi fuomfuom ! fuom.! que. nem burro 1peidorreiro por aí. A bulha foi ta- manha que nem se escutou o tinido assombrado dos pratos partidos do morro do Asso:qio ali. A tigre preta ficou toda atrapalhada por causa que era cega e não cheirava mais a catinga da coma- dre. Palauá correu mais muito e olhou pra trás. Não enxergou a tigre. Tambem nem não podia mais correr com as fuças fumegando de quentura. Tinha ali perto um bananal macota com um pauê na faixa porquê Palauá já ·tinha chegado, no porto de Santos. Vai, .a bicha derramou agua cansada no focinho e desesquentou. Depois cortou uma folha assú de banana-figo e se escondeu botando ela por riba feito caipote. Dormiu assim. A tigre preta que era muito feroz até passou por ali. Onça nem pio. E a outra passou não presenciando a comadre. En- !ão de medo a onça nunca mais que largou ·de tudo o que tinha ajudado ela · fugir. Anda sempre com roda nos pés, motor na barriga, purgante de olio ' na garganta, agua nas fuças, gazolina no osso-de- Pai-J oão·, os dois vagalumões na boca e o capote de folha de banana-figo cobrindo, ai ai! prontinha pra chispar. Principalmente si ,pisa nalguma cor- re1çao da formiga chamada taxi e alguma trepan- do no pelame luzido morde a orelha dela , qual! 220 ~IARIO 'DE ANDRAiDE
chispa que nem Deus!. .. E inda tomou nome es- tranho pra disfarçar mais. E' a máquina automo- vel. Mas p,or causa que bebeu agua cansada Palauá teve estupor. Possuir automovel de seu é ter estu- por em casa, moços. Dizem que mais tarde a onça pariu uma ni- nhada enorme. Teve filhos e filhas. Uns machos outros femeas. Por isso que a gente fala "um forde" e fala "uma chevrolé" ... Tem màis não." Macunaíma parou. Chorava comoção pela bo- ca dos moços. Sobre as aguas a fresca boiava de barriga ,pro ar. O rapaz mergulhou a cabeça pra disfarçar a lagrima e trouxe um tambiú nos dentes rabejando danadinho. Repartiu a comida com a moça. Então lá na porta da casa uma onça fíate abriu a guela e urrou prá Lua: - Baúa! Baúa! Se escutou uma bulha formidavel e tomou con- ta do ar um pitium sufocando. Era Venceslau Pie- tro Pietra que chegava. O motorista se ergueu logo e a criada tambem. Estenderam a mão pra Macu- naíma, convidando: - Seu gigante chegou de viagem, vamos todos saber como está? Fizeram. Encontraram Venceslau Pietro Pie- tra na porta-da-rua conversando com reporter. O gigante riu pros tres e falou pro motorista: - Vamos lá dentro? l\'lACUNAfMA 221
- Pois não! Paiamã possuia orelhas furadas por causa dos brincos. Enfiou uma perna do rapaz na orelha di- reita, a outra na esquerda e foi carregando o moço nas cos'tas. Atravessaram o ,pal'lque e entraram na casaL13em no meio do hol de acapú mobiliado com sofás de cipó-titica feitos por um judeu alemão de Manaus, se via um bura·co enorn1e tendo por cima um cipó de japecanga feito balanço\ Piai~ã sen- tou o moço no cipó e perguntou pra êle si queria balançar um bocado. O moço fez que sim. Piaimã balançou balançou, de repente deu um arranco. J apecanga tem espinho. . . Os espinhos entraram na carne do chof êr e .p rincipiou escorrendo sangue no buraco. - Chega! já estou satisfeito! que o chof êr gri- tava. - Balança que vos digo! secundava Piaimã. Sangue esconendo. A caapora companheira do gigante estava lá em baixo do buraco e o sangue pingava numa tachada de macarrão que ela pre- parava pl'lo ,c omp2nheiro. O rapaz gemia no ba- lanço: - Ah, si eu possuísse meu pai e minha mãi a meu lado não estava padecendo nas mãos dêste :malvado! .. . Então Piaimã deu um arranco muito fo,r te no cipó e o .rapaz c-aiU no môlho da macarronada. Venceslau Pietro PietI·a foi buscar Macunaí-
ma. O heroi já estava se rindo com a criadinha. O gigante falou 1p ra êle: - Vamos lá dentro? Macunaíma estendeu os braços sussurrando: - Ah!. . . que preguiça!. .. - Ora vamos!. .. Vamos? - Pois sim . .. Então Piaimã fez pra êle como fizera pro cho·· fêr, carregou o heroi na costas de cabeça pra baixo prendidos os pés nos buracos das orelhas. Macn- naíma aprumou a sarabatana e assim de cabeça pra bàixo era ver um atirador malabarista de cir- -co, acertando nos ovinhos do alvo. O gigante ficou muito incomodado virou e percebeu tudo. - Faz isso não, patrício! Tomou a sarabatana e jogou longe. Macunaí- ma agarrava quanto ramo caia na mão dele. - Que você está fazendo? perguntou o giganlc xessabiado. - Não vê que os ramos estão batendo na mi- nha cara! Piaimã virou o heroi de cabeça pra cima. En- tão Macunaíma foz cocegas com os ramos nas ore- lhas do gigante. Piaimã dava grandes gargalhadas e pulava ,d e gôso. - Não amola mais, :p atrício! êle fez. Chegaram no hol. Por debaixo da escada tinha uma gaiola de ouro com passarinhos cantores. E os passarinhos do gigante eram cobras e lagartos, Macunaíma pulon na gaiola e principiou muito MACUNA.f·MA 22,3
disfarçado comendo cobra. Piaimã convidava-o pra vir no balanço porêm Macunaíma engulia co- bras contando: - Falta cinco ... E engulia mais outra bicha. Afinal as cobras se acabaram e o heroi cheio de raiva desceu da gaiola com o pé direito. Olhou cheio de raiva pro gatuno da muiraquitã e rosnou: - Hhhm ... que preguiça! Mas Piaimã insistia pro heroi balangar. - Eu até que nem não sei balançar. . . Milhor você vai primeiro, que Macunaíma rosnou. - Que eu nada, heroi ! E' facil que nem beber agua! Assuba na j apecanga, 1pron to: eu balanço! - Então aceito porêm você vai primeiro, gi- gante. Paimã insistiu mas êle sempre falando pro gi- gante balançar primeiro. Então Venceslau Pietro Pietra amontou no cipó e Macunaíma foi balan- çando cada vez mais forte. Cantava:
"Bão-ba-lão Senhor capitão, Espada na cinta Ginete na mão!"
Deu um arranco. Os espinhos ferraram na car- ne do gigante e o sangue espirrou. A caapora lá em baixo não sabia que aquela sangneirn era do
gigante dela e aparava a chuva na macarronadà. 7 Môlho engrossando. - Para! Para! Piaimã gritava. - Balança que vos digo! secundava :\iacuna- íma. Balançou até o gigante ficar bem tonto e então deu um arranco fortíssimo na jaipecanga. Era por- quê tinha comido cobra e estava furibundo. Ven- ceslau Pietro Pietra caiu no buraco berrando can- tado: - Lem lem lem.. . si desta escapar, nunca mais como ninguem! Enxergava a macarronada fumegando lá em baixo e berrou pra ela: - Afasta que vos engulo! Porêm . jacaré fastou? nem tacho! O gigante caiu na macarronada fervendo e subiu no ar un1 cheiro tão farte de couro cozido que matou todos os ticoticos da cidade e o heroi teve uma sapituc.a· Piaimã se debateu muito e já estava morre-não- morre. Num esfôrço gigantesco inda se ergueu no fundo do tacho. Afastou os macarrões que corriam na cara dele, revirou os olhos pro alto, lambeu a bigodeira: - FALTA QUEIJO! exclamou ... E faleceu. Este foi o fim de Venceslau Pietro Pietra que era o gigante Piaimã comedor de gente. ' Macunaíma quando voltou da sapituca foi bus- )1 A CU NA 1 MA 225
t:ar a muir. quilã e partiu na máquina bonde prã pensão. E chorava gemendo assim: - )1.uiraquitã, muiraquitã de minha bela, ve- jo você mas não vejo ela1 . ..