Epílogo Macunaíma · Capítulo 19 de 19
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Epílogo

EPÍLOGO

Acabou-se a história e morreu a vitória. Não havia mais ninguem lá. Dera tangolo- mangolo na tribu Tapanhumas e os filhos dela se acabaram de um em um. Não havia mais ninguem lá. Aqueles lugares aqueles ,campos furos platós aqueles matos misteriosos, tudo era a solidão do deserto. Um silêncio imenso dormia a beira-rio do Uraricoera. Nenhum conhecido sobre a Terra não sabia nem falar na fala da tribu nem contar aqueles casos tão pansudos. Quem que podia saber do h eroi? Agora os manos virados na sombra leprosa eram a segunda ca-beça do Pai do Urubú e Macu- naíma era a constelação da Ursa Maior. Ninguem jamais não podia saber tanta história bonita e a fala da tribu acabada. Um silêncio imenso dormia a beira-rio do Uraricoera. Uma feita um homem foi lá. Era madrugadi- nha e Vei mandara a:s filhas visar o passe das es- trêlas. O deserto tamanho matava os peixes e os

passarinhos de pavor e a propria natureza des- maiara e caíra num gesto largado por aí. A i-,,.u- dez era tão imensa que espichava o tamanhão dos paus no espaço. De repente no peito doendo do homem caiu uma voz da ramaria: - Currr-pac, papac ! currr-pac, papaic! ... O homem ficou frio de susto feito piá. Então veio brisando um guanumbí e boleboliu no beiço do homem: - Bilo,' bilo, bilo, lá. . . tetea ! E subiu apressado prás árvores. O homem se- guindo o vôo do guanumbí, olhou ipra cima. - Puxa :rama, boi! o beij aflior se riu. E es- cafedeu. Entã,o o homem descobriu na ramaria um pa- pagaio verde de bico doirado espiando pra êle. Falou: - Dá o pé, papagaio. ·O papagaio veio pousar na .cabeça do homem e os dois se acompanheir aram. Então o passara principiou falando numa fala mansa, muito nova, muito! que era canto e que era cachirí com mel-de- pau, que er.a boa e possuía a traição das frutas des- conhecidas do mato. A tribu se acabara, a família virara sombras, a maloca ruira minada pelas saúvas e Macunaíma subira pro céu, porêm fi.cara o aruai do sequito da- queles tempos de -dantes em que o heroi f ôra o grande Macunaíma imperador. E só o papagaio no silêncio do Ura.r icoera preservava do esquecimen- l\1ACUNA1MA. 283

to os casos e a fala desaparecida. ~ó o paipagaio conservava no silêncio as frases e feitos do heroi. Tudo êle contou pro homem e depois abriu asa rumo de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei p~a vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, heroi de nossa gente. Tem mais não.

FIM

Dezembro de 1926 Janeiro de 1927

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