Ursa Maior Macunaíma · Capítulo 18 de 19
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Ursa Maior

XVIII

URSA MAIOR

Macunaíma se arrasfou até a tapera sem gente agora. Estava muito contrariado porquê não com- preendia o silêncio. Ficara defunto sem chôro, no abandono ·c ompleto. Os manos tinham ido-se em- bora transformados na cabeça esquerda do urubú- ruxama e nem siquer a gente encontrava cunhãs p,or ali. O silêncio principiava cochilando a beira- ria do Uraricoera. Que enfaro ! E principalmente, ah!. . . que preguiça!. .. Macunaíma foi obrigado a abandonar a tapera cuja última parede trançada com palha de catolé estava caindo. Mas o impaludismo nã,o lhe dava coragem nem pra construir um papirí. Trouxera: a rede ,p ro alto dum teso onde tinha uma ;p edra com dinheiro enterra.do por debaixo. Amarrou a rede nos dois cajueiro,s frondej ando e não saiu mais dela por muitos dias dormindo caceteado e comendo .c ajús. Que solidão! O proprio sequito sarapintado se dissolvera., Não vê que um ajurú- catinga passara muito afiobado por ali. Os papa- gaios perguntaram pro parente onde que ia. - Madurou milho na terra dos ingleses, vou :pra lá! 268 11AR10 DE ANDRADE Então todos os papagaios foram comer milho na terra · dos ingleses. Porêm primeiro viraram pe- :riquitos porquê assim, comiam e os periquitos leva- vam a fama. Só ficara um aruaí muito falador. Ma- cunaíma se consolou pensamenteando: "O ma·i ga- nhado, diabo leva... paciencia." Passava os dias enfarado e se distraia fazendo o passaro repetir na fala da tribu os casos que tinham sucedido pro heroi desde infancia. Aaah ... Macunaíma bocejava escorrendo cajú, muito mole na rede, com as mãos pra trás fazendo cabeceiro, o casal de legornes em- poleirado nos ipés e o papagaio na barriga. Vinha a nóite.[ Aromado pelas frutas dos ,cajueiros o he- roi ferrava no sono bem. Q:U ando a arraiada vinha ;0 papagaio tirava o bic'6 · da asa e tomava o café

da manhã devorando as aranhas que de-noite fia- vam as teias dos ramos pro corpo do heroi. Depois falava: - Macunaíma ! O dorminhoco nem se mexia. - Macunaíma ! ôh Macunaíma ! - Deixa a gente dormir, aruaí. .. - Acorda, heroi ! E' de-dia 1 - ,Ah. . . que preguiça!. .. - Pouca saúde e muita saúva, Os males do Brasil são!. .. Macunaíma dava uma grande gaxigalhada e coçava a cabeça cheia de pixilingn que é piolho- de-galinha. Entã-0 o pa1pagaio repetia o easo apren-

tas glórias passadas. Dava entusiasmo nele e se punha contando pro aruaí outro caso mais pansu- d9. E assim todos os dias. Quando a Papaceia que é a estrêla Vesper apa- recia falando prás co~~as irem dormir, o papagaio zangava por causa da história 1p arando no meio. Uma feita êle insultou a estrêla Pap'aceia. Então Macunaínia contou: - Não insulta êla não, aruaí ! Taína-

No outro dia quando Taína..1Cã pulou da rede todos se sarapantaram. Era um coroca enrugado enrugado, tremelicando tanto feito a luz da estrêla Papaceia. Vai, Imaerô falou: - Cai fora, coroca l Vê lá si vou casar com velho l Pra mim ha-de ser um moço mui brabo mu- cudo e de nação carajá! Taína-Cã ficou jururú jururú e principiou ima- ginando na injustiça dos homens. Porêm a filha mais nova do mo.r ubixaba Zozoiaça teve pena do coroca e falou: - Eu caso com você. Taína-Cã brilhou de gôso. Ficaram ajustados. Denaquê preparando o enxoval cantava noite e dia: - Amanhã por estas hora:s, furrum-fum- fum . .. Zozoiaça respondia: - Eu tambem com vossa mãi, furrum-fum- fum ... Depois que se acabaram os dedos das vossas mãos, papagaio, que são de espera pra noivo, na rede trançada por Denaquê se brincou dança de amor, furrum-fum-furn. Nem bem o dia estava rompendo a barra, Taí- na-Cã pulou da rede e falou prá companheira: - Vou derrubar mato pra fazer roçado. Ago- ra você fica no mocambo e nunca não vai na roça me espiar. - Sim, ela fez.

E ficou na rede, matutando gosada naquele velhinho esquisito que dera pra ela a noite mais gostosa de amor que a gente imagina. Taína-Cã derrubou mato, botou fogo em todos os macurús de formiga e preparou a terra. Na- quele tempo inda a nação carajá não conhecia as plantas boas. E:va só peixe e bicho gue carajá comia. . ,~ Na outra madrugada Taína-Cã falou- prá com- panheira que ia buscar sementes pra semear e re- petiu a proibição. Denaquê ficou deitada na rede inda um bocado, matutando nas gostosuras valen- tes das noites de amor que o bom do coroca dava pra ela. E foi fiar. Taína-Cã deu uma chegada até o corgo Berô, fez oração e botando uma perna em cada barreira do corgo esperou assuntando a agua. D'ai a poueo vieram vindo no pêlo da aguinha as sementes do milho cururuca, o fum,o, a maniveira, todas essas plantas boas. Taína-Cã apanhou o que passava e foi no roçado ,plantar. Estava trabucando na Sol quando Denaquê apareceu. Era por causa que ela de sodosa quis ver o companheiro dando gostosuras tão valentes pra ela nas noites de amor. Denaquê deu um grito de alegria. Taína.. Cã não era coroca não! Taína-Cã era mas um rapaz muito brabo mu- cudo e de nação carajá. Fizeram um macio de fumo e de maniva e brincaram pulado na Sol. Quando voltaram pro mocambo muito se rin-- do um pro outro, Imaerô ficou tiririca. Gritou:

- Taína-Cã é meu! Fqi pra mim que êle veio do céu! - Sai azar! que Taína-Cã falou. Quando eu quis você não quis, pois agora brinque-se! E trepou na rede ,com Denaquê. Imaerô desin- feliz suspirou assim: - Deixe estar jacaré, que a lagoa ha-de se- car '

E saiu gritando pelo mato. Virou i{a a~e ara~· iponga que grita amarelo de inveja no quirirí do inato diurno. Desde então por causa da bondade de Taína- Cã é que carajá come mandioca e milho e possui fumo pra se animar. Tem mais )lão." O papagaio dormia. Uma feita janeiro chegado Macunaíma acor- dou tarde com o pio agourento do tincuã. No en- tanto era dia feito e a cerração já entrara pro bu- raco ... O heroi tremeu e apalpou o feitiço que tra- zia no pescoço, um ossinho de piá morto pagão. Procurou o aruaí, desaparecera. Só o galo com a galinha brigand·o ,por causa duma aranha derra- deira. Fazia um ,calorão parado tão imenso que se escutava o sininho de vidro dos gafanhotos. Vei, a Sol, escorregava pelo corpo de Macunaíma, fazen- do cosquinhas, virada em mão de moça. Era mal- vadeza da vingarenta só por causa do heroi não ter s~ amulherado com uma das filhas da luz. A .mão de moça vinha e escorregava tão de manso

tão! no corpo. . . Que vontade nos musculos pela primeira vez espetados depois de tanto tempo! Ma- cunaíma se lembrou que fazia muito não brinca- va. Agua fria diz que é bom pra espantar as vonta- des ... O heroi escorregou da rede, tirou a penugem de teia vestindo todo o coripo dele e descendo até o vale de Lagrimas foi tomar banho num sacado perto que os repiquetes do tempo-àas-aguas ti- nham virado num lagoão. Macunaíma depôs com delicadeza os legornes na praia e se ,chegou prá agua. A lagoa estava toda coberta de oiro e prata e descobriu o rosto dei- xando ver o que tinha no fundo. E Macunaíma enxergou lá no fundo uma cunhã lindíssima, alvi- nha e padeceu de mais vontade. E a cunhã lindís- sima era a Uiara. Vinha chegando assim como quem não quer,

lagoão e o heroi tinha medo do frio. Vei sabia que t, moça não era moça não, era a Uiara. E a Uia.ra vinha chegando outra feita com muitas danças. Que boniteza que ela era!. .. Morena e coradinha que nem a cara do dia e feito o dia que vive cer- cado de noite, ela enrolava a cara nos cabelos cur- tos negros negros como as asas da graúna. Tinha no perfil duro um narizinho tão mimoso que nem servia pra respirar. Porêm como ela só se mos- trava de frente e fastava sem virar Macunaíma não via o buraco no cangote por onde a perfida respirava. E o heroi indeciso, vai-não-vai. Sol teve raiva. Pegou num rabo-de-tatú de ,c alorão e guas- cou o lombo do heroi. A dona ali, diz-que abrindo os braços mostrando a graça fechando os olhos molenga. Macunaíma sentiu fogo no espinhaço, es- tremeceu, fez pontaria, se jogou feito em cima de- la, juque ! Vei chorou de vitória. As lagrimas cai- ram na lagoa num chuveiro de ouro e de ouro. Era o pino do dia. Quando Macunaíma voltou na praia se perce- bia que brigara muito lá no fundo. Ficou de bru- ços um tempão com a vida dependurada nos res- piras fatigados. Estava sangrando com mordidas pelo corpo todo, sem perna direita, sem os dedões sem os cocos-da-Baía sem orelhas sem nariz sem nenhum dos seus tezouros. Afinal poude se erguer. Quando de_u tento das perdas teve odio de Vei. A galinha cacarejava deixando um ovo na pra.ia. Ma- cunaíma pegou nele e chimpou-o no carão feliz MACUN.!'\.1MA 275

da Sol. O ovo esborrachou bem nas bochechas dela que sujou-se de amarelo pra todo o sempre. En- tardecia. Macunaíma sentou numa lapa que já fôra ja- boti nos tempos de dantes e andou contando os tezouros perdidos em baixo dagua. E eram muitos, era uma perna os dedões, eram os cocos-da-Baía, eram as orelhas os dois brincos feitos com a má- quina pathek e a máquina smith-wesson, o nariz, todos êsses tezouros.. . O heroi pulou dando um grito que encurtou o tamanho do dia. As piranhas tinham comido tambem o beiço dele e a muira- quitã ! Ficou feito louco. Arrancou uma montanha de timbó de assacú de tinguí de cunambí, todas essas plantas e enve- nenou pra sempre o lagoão. Todos os peixes mor- reram ·e ficaram boiando barrigas azuis barrigas amarelas barrigas rosadas, todas as barrigas sarapintando a face da lagoa. Era · de-tardinha. Então Macunaíma destripou todos êsses pei- xes, todas as ,p iranhas e todos os botas, caqueando a muiraquitã nas barrigadas. Foi uma sangueira mãi escorrendo sobre a terra e tudo ficou tinto de sangue. Era a boca-da-noite . . Macunaíma campeava campeava. Achou os dois brincos achou os dedões achou as orelhas os nuquiirís o nariz, todos êsses tezouros e prendeu todos nos lugares deles com sapé e cola de peixe. Porêm a perna e a muiraquitã não achou não. Ti-

nham sido engulidos pelo monstro Ururau que não morre com timbó nem pau. O sangue coalhara ne- gro ,cobrindo a praia e o lagoão. E era de-noite. Macunaíma campeava campeava. Soltava gri- tos de lamentação encurtando com a bulha o ta- manho da bicharada. Nada. O heroi varava o cam- po, saltando na perna só. Gritava: - Lembrança! Lembrança da minha marva- da ! não vejo nem ela nem você nem nada! E ipulava mais. As lagrimas pingavam dos olhi- nhos azuis dele sobre as florzinhas brancas do campo. As florzinhas tingiram de azul e foram os miosotis. O her~i não podia mais, parou. Cruzou os braços num desespêro tão heroico que tudo se alargou no espaço pra conter o silêncio daquele penar. Só um mosquitinho raquitiquinho inferni- sava inda mais a disgra do heroi, zumbindo fini- nho: "Vim di Minas ... vim di Minas ... " Então Macunaíma não achou mais graça nesta terra. Capêi bem nova relumeava lá na gupiara do céu. Macunaíma scismou inda meio indeciso, sem saber si ia morar' no momento pensou mesmo em morar na cidade da Pedra com o energico Delmiro Gouveia, porêm lhe faltou ânimo. Pra viver lá, assim como tinha vivido era impossível. Até eraJ por causa disso mesmo que não achava mais graça na Terra ... Tudo o que f ôra a existencia dele a1pesar de tantos casos tanta brincadeira tanta ilusão tanto sofri- mento tanto heroísmo, afinal não f ôra sinão um MACUNAíMA 277

se deixar viver; e pra parar na cidade do Delmiro ou na ilha de Marajó que são desta Terra carecia de ter um sentido. E êle não tinha coragem pra uma organisação. Decidiu: - Qual o quê!. .. Quando urubú está de cai- pora o de baixo caga no de cima, êste mundo não tem geito mais e vou pro céu. , Ia pro céu viver com a marvada. Ia ser o bri- lho bonito mas inutil porêm de mais uma conste- lação. Não fazia mal que fosse brilho inutil não, pelo menos era o mesmo de todos êsses parentes, de todos os pais dos vivos da sua terra, mãis pais manos cunhãs cunhadas cunhatãs, todos êsses co- nhecidos que vivem agora do brilho inutil das es- tre'l as. . ,·~·'i''.l'\"~!í.~ ?,:, i:,MH~~i Plantou uma semente do cipó matamatá,' filho-' da-luna e enquanto o citpó crescia agarrou numa 1tá pontuda e escreveu na lage que já fôra jabotí num tempo muito de dantes:

NÃO VIM NO MUNDO PARA SER PEDRA

A planta já tinha crescido e se agarrava numa ponta de Capêi. O heroi capenga enfiou a gaiola dos legornes no braço e foi subindo pro céu. Can- tava triste:

- "Vamos dar a despedida, - Taperá, Talequal o passarinho, 278 MAR!O DE ANDRADE

- Taperá, Bateu asa foi-se embora, - Taperá, Deixou a pena no ninho. - Taperá . . :'

Lá chegado bateu na maloca de Capêi. 'A Lua desceu no terreiro e :per,guntou: - Quê que quer, ~ací? - Abenção minha madrinha, me dá pão com farinha? .Então Capêi r.eparou que não era sací não, era Macunaíma o heroi. Mas não quis dar pensão pra êle, se lembrando do fedor antigo do heroi. Macu- naíma enfezou. Deu uma porção de munhecaços na cara da Lua. Por isso que ela tem aquelas man- chas escuras nà cara. Então Maeunaíma foi bater na casa de Caiua- nogue, a estrêla-da-manhã. Caiuanogue apareceu na janelinha pra ver quem era e confundida pelo negrume da noite e a capenguice do heroi, per- guntou: - ·Que é que quer, sací? Mas logo pôs reparo que era Macunaíma o he- roi e nem es1p erou resposta se lembrandõqUe êle cheirava muito fedido. - Vá tomar banho! falou fechando a j ane- linha. Macunaima tor~ou a enf ezar e gritou: - Vem prá rua, cafageste! MACUNA tMA 2i9

Caiuanogue raspou uµi susto enorme e ficou tremendo espiando pelo buraco da fechadura. Por isso que a bonita da estrelinha é tão pecurrucha e tremelica tanto. Então Macunaima foi bater na casa de Pauí- Pódole, o Pai do Mutum. Pauí-Pódole gostava mui- to dele porquê Macunaíma o def end~ra daquele mulato da maior mulataria na festa -do Cruzeiro. Mas exclamou: - - Ah, heroi, tarde piaste!. Era uma honra grande pra mim receber no meu mosqueiro um descendente de jaboti, raça primeira de todas ... No princípio era só o Jabotí Grande que existia na vida .. : Foi êle que no silêncio da noite tirou da barrigá. um individuo e sua cunhã. Estes foram os primeiros fulanos vivos e as primeiras gentes da vossa tribu ... DeP'ois, que os outros vieram. Che- gaste tarde, heroi ! Já somos em doze e com você a ge:o.te ficava treze na mesa. Sinto muito mas cho- rar não posso! - Que pena, sinh'Helena ! que o heroi excla- mou. Então Pauí-Pódole teve dó de Macunaíma. Fez uma feitiçaria. Agarrou tres pausinh os j.01g ou pro alto fez encruzilhada e virou Macunaíma com todo o estenderete dele, galo galinha gaiola revolver rc- logio, numa constelação nova. E' a constelação da Ursa Maior. Dizem que um professor naturalmente alemão andou falando por aí por causa da perna só da

Ursa Maior que ela é o sací. .. Não é não! Sací in- da para neste mundo espalhando fogueira e tran- çando crina de bagual. .. A Ursa Maior é Macuna- íma. E' mesmo o heroi capenga que de tanto penar na terra sem saúde e com muita saúva, se aborre- ceu de tudo, foi-se embora e banza solitario no campo vasto do céu.

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