Bloco II Amar, verbo intranzitivo · Capítulo 2 de 10
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Bloco II

Carlos abaixou o rosto brincabrincando com a página:

— Não sei... Papai quer que eu estude Direito ...

— E você não gosta de Direito?

— Não gosto nem desgosto. Mas praquê? Ele já falou uma vez que quando eu fizer vinte-e-um anos me dá uma fazenda... Então praquê Direito!

— Quantos anos você tem?

— ... fazer dezasseis.

— Ich bin sechzehn Iahre alt.

Carlos repetiu encabulado.

— Não. Pronuncie milhor. Não abra assim as vogais. E sechzehn.

— Sechzehn.

— Isso. Repita agora a frase inteira.

— Em inglês eu sei bem! I’m sixteen years old!

Fraulein escondeu o movimento de impaciência. Não conseguia prender a atenção do menino. O inglês e o francês eram familiares já pra êle. Principalmente o inglês de que tinha aulas diarias desde nove anos. Mas alemão!... Já cinco lições e não decorara uma palavrinha só. Burrice! Nesta aula que acabava Fraulein já fôra obrigada a repetir tres vezes que irmã era Schwester. Carlos aluado. As palavras alemãs lhe fugiam da memória assustadiças num tilintar de consoantes agrupadas. Pra salvar a vaidade respondia em inglês.

Machucava a professora lhe dando uns ciúmes inconscientes. Porem Fraulein se esconde num sorriso:

— Não faça assim. Ich bin sechzehn Ihare alt. Repita. Só mais uma vez.

Carlos repetiu molemente. A hora acabava.

Se livrar daquela biblioteca!...

Encontraram Maria Luisa no hol. Carlos parou pernas fincadas peitaria ressaltada impedindo a passagem da irmã.

— Mamãil venha ver Carlos!

Fraulein puxava-o pela mão.

— Carlos, já começa...

Segurava-o com doçura, se rindo. Ele deu risinho curto. Desapontava sempre. Ao menos desenhava no geito a aparência do desapontamento.

Nenhuma timidês porém. Muito menos ainda desconfiança em si mesmo. Desapontava no sorriso horizontal mostrando a fimbria dos dentes grandalhões irregulares. Desapontava no olhar pondo olheiras na face com a sombra larga das pestanas. Agora por causa da munheca presa entre as mãos dela. Se desvencilhava aos poucos. Ela forcejou.

— Você não é mais forte do que eu.

— Sooooou! um minuto durou o indicativo presen/te. E foi um brinquedinho se livrar. Sem aspereza. Subiu a escada pulando de quatro em quatro os degraus.

Fraulein ficou imóvel. Deliciosamente batida.

Não vejo razão pra me chamarem vaidoso si imagino que o meu livro tem neste momento cincoenta leitores. Comigo 51. Ninguém duvide: êsse um que lê com mais compreensão e entusiasmo um escrito é autor dele. Quem cria vê sempre uma Lindoia na criatura embora as indias sejam pansudas e ramelentas. E só por essa observação a gente pode afirmar que o Universo é obra-prima. Pra nós racionalissimos mortais a obra-prima do Criador nem parece tão prima assim. Porém Deus é omnisciente e tudo o que vemos de mundos a rolar por espaços inimagináveis e de serzinhos a lutar dentro dêsses mundos e de doencinhas e dorzinhas a vibrar dentro dos serzinhos pode muito bem ser que pareça obra-prima ao Poeta Infinito. E Ele que terá razão pois omnisciente. Nosso julgamento do mundo é precário pois somos apenas racionalissimos mortais.

Volto a afirmar que o meu livro tem 50 leitores. Comigo 51. Não é muito não. Cincoenta exemplares distribuí com dedicatórias gentilissimas. Ora dentre cincoenta presenteados não tem exagêro supor que ao menos 5 hão de ler o livro. Quando não seja pelo autor ao menos pela dedicatória. Cinco leitores. Tenho, salvo omissão de que desde logo me desculpo, 45 inimigos. Esses lerão meu livro, juro. E a lotação do bonde se completa. Pois toquemos prá avenida Higienopolis I

No bonde começo a me preocupar com a cambada de inimigos que em recordação muito rapida me dei. Que injustiça! Os queixadas são mais numerosos. Muito mais! Tem por exemplo aquele que. O do Rio que. Em Campinas o. Em Santos os.

O da rua. Ah! Ia me esquecendo que no Pará um. •59, 60, 61... 70, 71, 72... 77. Agora não me lembro de mais ninguém. Deve ter outros.

Si êste livro conta 77 leitores sucede que neste lugar da leitura já tem 77 Elzas. Com a minha 78.

Que engraçado! logo depois da primeira scena cada um tinha a Fraulein dele na imaginação. Contra isso não posso nada e teria sido indiscreto si antes de qualquer familiaridade com a moça a minuciasse em todos os seus pormenores físicos. Não o fiz. Outro mal apareceu. Cada um criou Fraulein •segundo a própria fantasia e temos atualmente 78 heroinas pra um só idilio.

78, com a minha que também vale. Vale porem não tenho a mínima intenção de exigir de vocês o abandono de suas Elzas e impor a minha como unica de existência real. Não. O leitor continuará com a dele. Apenas por curiosidade vamos co teja-las agora. Pra isso mostro a minha nos 35» atuais janeiros dela.

Já mandei Tanaka chama-la. Vamos esperar nos vimes almofadados do hol. Se está bem aqui, não? Tanto calor lá fora! Ué! que é isso... chovendo. .. já! E eu que nem trouxe capa!

— E’ assim mesmo! a gente não sabe mais, como sair na rua...

— E o frio de ontem de noite! Pleno inverna em meados de Setembro!

— Insuportáveis estas nossas primaveras!

— E’ mesmo. Si não fossem as rosas... Porém tenha paciência: as rosas salvam tudo! Outrodia passei pela rua das Palmeiras noitinha já. Você sabe... aquele jardim na esquina da rua Conselheiro Brotero?... Meu Deus! o cheiro era tão...

— Seu doutor tem que esperar. Dona Fraulein manda dizer que está no banho.

— Mais essa agora! E a chuva está passando... A gente podia aproveitar a esteada... Si subíssemos!

— Uma idea.

— Tem coragem?

— Ora! não seria a .primeira.

Minha chave de autor abre essa porta.

Si não fosse a luz excessiva diriamos a Betsabé de Rembrandt. Não a do banho que traz bracelete e colar, a outra, a da “Toilette” mais magrinha, traços regulares. Não é clássico nem perfeito o corpo da minha Fraulein. Pouco maior que a média dos corpos de mulher. E cheio nas suas partes. Isso o torna pesado e bastante sensual. Longe porém daquele pêso divino dos nús renascentes italianos ou daquela sensualidade das figuras de

Scopas e Leucipo. Isso: Rembrandt quasi Cranach. Nenhuma espiritualidade. Indiferente burguesice. Casasse com ela mais cedo, o marido veria no fim da vida a terra e os cobres repartidos entre

21 generaisinhos infelizes. Disse 21 porquê me lembrei agora da filharada de João Sebastião Bach.

Generaisinhos porquê me lembrei do fim de Alexandre Magno. E infelizes? Ora porquê qualifiquei os 21 generaisinhos de infelizes!... Pessimismo 1 amargura! ah!...

Isso do corpo de Fraulein não ser perfeito em nada enfraquece a história. Lhe dá mesmo certa honestidade espiritual e não provoca sonhos. Si renascente e perfeito o idilio seria o mesmo.

Fraulein não é bonita, não. Porém traços muito regulares coloridos de cor real. E agora que se veste a gente pode olhar com mais franqueza isso que fica de fora e ao mundo pertence. Agrada, não agrada? Não se pinta. Quasi nem usa pó-de-arrôs.

A pele se estica discretamente polida com os arrancos da carne sã. O embate é cruento. Resiste a pele. O sangue se alastra pelo interior e Fraulein toda se rosêa agradavelmente. O que mais atrai nela são os beiços. Curtos. Bastante largos. Sempre

encarnados. E inda bem que sabem se rir: entremostram apenas os dentinhos dum amarelo sem frescor. Olhos castanhos pouco fundos. Se abrem grandes muito claros verdadeiramente sem expressão. Por isso duma calma quasi religiosa. Puros. Que cabelos mudaveis! ora loiros ora sombrios dum pardo em fogo interior. Ela tem êsse geito de os arranjar que estão sempre pedindo arranjo outra vez. E’ engraçado! Bem alemã! Até nos cabelos. Só uma coisa os alemãis têm desta sapeca vivacidade latina: os cabelos que em geral os latinos trazem arrumados com regularidade alemã. A’s vezes as madeixas de Fraulein se apresentam embaraçadas sôltas de forma tal que as luzes penetram nelas e se cruzam como numa plantação nova de eucaliptus. Ora é a mecha mais loira que Fraulein iprende e cem vezes torna a cair...

0 menino aluado como sempre. Fixava com insistência um pouco de viés... Seria a orelha dela? Mais pro lado, fora dela, atrás. Se volta. Não vê nada. O batalhão dos livros na ordem de sempre. Então era nela. Talvez a nuca. Não se desagradou do culto. Porém Carlos com o movimento da professora viu que ela percebera a insistência do olhar dele. Carecia explicar. Criou coragem mas encabulou encafifado de estar penetrando intimidades femininas. Não foi sem comoção que venceu a própria castidade e avisou:

— Fraulein, seu grampo cai.

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O gesto dela foi natural porquê o despeito se guardou. Porem se fechou duma vez. Quinze dias já e nem mostras do mais leve interesse, arre!

Será que não consegue nada!... Isso lhe parece impossível. Estava trabalhando bem... Que nem das outras vezes. Até milhor porquê o menino lhe interessava. Era muito... muito... simpatia? a inocência verdadeiramente esportiva? Talvez a ingenuidade... A serena fôrça. Und so einfach, nem vaidades nem complicações... Atraente.

Fraulein principiara com mais entusiasmo que das outras vezes. E nada. Veremos. Ganhava pra isso e paciência não falta a alemão. Agora porêim está fechada por despeito. Dentro dela não penetra ninguém. Si quiser podemos ir. Parou a chuva.

— E’, vamos.

Tanaka abre o portão. A Light devia correr mais bondes nesta linha. A avenida é de prata.

Junto da calçada o corguinho do enxurro a murmulhar. Pingo de chuva despenca das folhas nascentes, peteleca na palheta do leitor. Fica trêmulo dansando, rabiscado com a sangueira macambusia do Sol.

— Uhm... a noite vai ser fria...

Agora leitor conheça Fraulein sozinho. Nunca descrevi nada com relevo. Me atrapalham as memórias e boto Ticiano Rembrandt e Basilio da Gama pra fora dos tumulos veneráveis.

Justamente por causa destas assombrações não sei si já falei porem o meu maior desejo era ser boróro. Como boróro imaginar falar e escrever embora pareça provado que os tais praticam só o segundo daquele terno humano de verbos. Porem si eu como boróro pudesse imaginar falar e escrever talvez então deixasse páginas bem minhas.

Também já desapegadamente cedi o corpo de Fraulein pro leitor... Não insisto no meu. Cotejei por desfastio. A mim cabe contar a cor das vogais, alma de Fraulein!... Mas pra isso não basta um capitulo. E’ o livro.

Fraulein se sentiu logo perfeitamente bem dentro daquela familia imóvel mas feliz. Apenas a saúde de Maria Luisa perturbava um tanto o cansaço de dona Laura e a calma prudencial de Sousa Costa. Servia de assunto possivel nos dias em que depois da janta Sousa Costa queimava o charuto no hol como que tradicionalmente revivendo a cerimônia tupi. Depois se escovava pigarreando circunspeto. Vinha dar o beijo na mulher.

— Adeus papai!

— Até logo.

— Até logo papai!

— Boa inoite.

Dona Laura ficava ali mazonza numa quebreira gostosa quasi deitada na poltrona de vime. Balanceando manso uma perna sobre a outra. Isso ■quando não tinham friza segundas e quintas no República. Folheava o jornal. Os olhos dela descendo pela coluna termometrica dos falecimentos e natalicios, vinham descansar no clima temperado do folhetim. A’s vezes ela acordava um romance da biblioteca morta. Mas os livros têm tantas páginas... Folhetim a gente acaba sem sentir. Não cansa a vista. Como Fraulein lê!... As crianças foram dormir. Vida para. Os estralos espaçados ■dos vimes assombram o cochilar de dona Laura.

Qual! Fraulein não podia se sentir a gôsto com aquela gente! Podia porquê era bem alemã. Tinha êsse poder de adaptação exterior dos alemãis que é mesmo a maior razão do progresso deles. No filho da Alemanha tem dois seres: o alemão propriamente dito, homem-do-sonho; e o homem-da-vida, especie prática do homem-do-mundo que Sócrates se dizia. O alemão propriamente dito é o cujo que

sonha trapalhão obscuro nostalgicamente filosofo, religioso, idealista incorrigível, muito serio, agarrado com a patria com a familia, sincero e 120 quilos. Vestindo o tal aparece outro sujeito, homemda-vida, fontemente visível esperto agil e europeamente bonitão. Em princípio se pode dizer que é matéria sem forma. Dútil H2,0 se amoldando a todas as quartinhas. Não tem nenhuma hipocrisia nisso. Nem máscara. Se adapta o homem-da-vida. Faz muito bem. Eu si pudesse fazia o mesmo. E você, leitor. Porém o homem-do-sonho permanece intacto. Nas horas silenciosas da contemplação se escuta o suspiro dele gemido espiritual um pouco doce por demais que escapa dentre as molas flexíveis do homem-da-vida que nem o queixume dum deus paciente encarcerado. O homem-da-vida é que a gente vê. Ele criou no seu negócio artigo tão bom como o do inglês. Cobra caro. Mas não vê que um comprador saiu com as mãos abanando por causa do preço. Adapta-se o homem-da-vida. No dia seguinte o freguês encontra artigo quasi igual ao outro, com o mesmo aspeto faceiro e de preço alcançavel. Sai com os bolsos vazios e as mãos cheias. O bife da fábrica vizinha, ali mesmo, só atravessar um estirão de agua zangada, não vendeu o artigo dele. Não vendeu nem venderá. E continuará sempre fazendo-o muito bom. Eu admirava mais o inglês si só êste conseguisse manipular a mercadoria excelente porém o alemão homem-da-vida tambem milhora as coisas até a excelencia. Apenas carece que alguém vá na frente primeiro. Isso o própria Walter de Rathenau observou. Grande homem !... Homem-do-sonho. Os outros que inventem. O alemão pega na descoberta da gente e a desenvolve e milhora. E a piora também, estabelecendo uma tabela de preços a que podem abordar bolsas de todos os calados. D’ai aos poucos todo o mundo ir preferindo o comerciante alemão. Os países de exportação industrial viam o fenomeno com cara feia. O homem-da-vida observava a raiva da vizinhança... E si lá nas trevas interiores adonde se reunem as assombrações familiares o homemdo-sonho também cantava o seu “Home, sweet home” que a nenhuma raça pertence e é deseja universal o homem-da-vida se adaptava ainda.

Construía canhões pelas mãos brandas duma viuva.

Armazenava gases asfixiantes. Afiava lamparinas pra cortar futuramente os imaginários bracinhos de quanto Haensel e quanta Grâtel imaginários e franceses produz o cagaço razoavel de Chantecler.

Que selvagem! Aceitemos mesmo que engordasse a idea multissecular universal e secreta da posse da mundo... Não culpe-se por ela o homem-do-sonho.

O da-vida é que se observando vitorioso no munda concluía que era muito justo lhe caber a posse da tal. Quem que errou forte e incorrigivelmente? Só

Bismark. Alguém chamou êsse homem de “última

Nibelungo”... Nibelungo, não tem dúvida. Conseguiu Alzacia, ouro do Reno, pela renúncia do amor. Emquanto isso todos os paises da Terra abraçados se amavam numa promiscua rede comum, não é? Estavamos no primeiro decenio deste século que deu no vinte. Todos os abraçados perdiam terreno. O homem-da-vida ganhava-o. Por adaptação? E’. Será? Vejo Serajevo apenas como bandeira. Nas pregas dela brisam invisíveis as ambições comerciais. Pum! Taratá! Clarins gritando baionetas scintilando desvairado matar, hecatombes de uniformes trincheiras pestes cemitérios... Soldados desconhecidos. A culpa era do homem-da-vida, não é? Porém a guerra foi inventada pelos proprietários das fábricas vizinhas, isso não tem que guerê nem pipoca! Não foi.

Culpa de um culpa de outro tornaram a vida insuportável na Alemanha. Mesmo antes de 14 a existência arrastava dificil lá. Fraulein se adaptou. Veio pro Brasil. Rio de Janeiro. Curitiba. Não teve que fazer. Rio de Janeiro. São Paulo. Agora tinha que viver com os Sousa Costas. Se adaptou. —...der Vater... die Mutter... Wie geht es ihnen?... A patria em alemão é neutro: das Vaterland. Será! Vejo Serajevo apenas como bandeira. Nas pregas dela brisam... etc. (Aqui o leitor recoaneça a ler êste fim de capítulo do lugar em que a frase do etc. continua. E assim continuará repetindo o cânone infinito até que se convença do que afirmo. Si não se convencer ao menos convenha comigo

que todos êsses europeus foram uns grandecissimos canalhões.)

— Minhas filhas já falam o alemão muito bem. Ontem entrei na Lirial com Maria Luisa...

Pois imagine que ela falou em alemão com a caixeirinha! Achei uma graça nela!... Fraulein é muito instruída. Lê tanto! Gosta muito de Wagner.

Você foi no Tristão e Isolda? Que coisa linda! Gostei muito. Também: quatrocentos milreis por mês!

E continuava falando que Felizberto não se importava de gastar contanto que os meninos aprendessem etc.

De repente Carlos começou a estudar o alemão. Em 15 dias fez um progresso danado. Quis propor mesmo um . aumento nas horas de estudo porém não sabendo bem porquê, não propôs. Lhe interessava tudo o que era alemão. Comprava revistas de Munique. Andava com elas e depois dava-as pra Fraulein. Soube de-cor a população da

Alemanha aspeto geral e clima. Até longitude e latitude que não sabia bem o que eram. A potamografia alemã lhe era familiar. Ah! os castelos do Reno... Viver lá!... Seguia com interesse a ocupação» da Alemanha pelos franceses. Aplaudia o procedimento da Inglaterra, pais ás direitas. Um dia afirmou no jantar que Goethe era muito maior que Camões. Maior genio de todos os tempos!

Tivera nesse dia uma cançãozinha de Goethe pra traduzir. Historia dum pastor que vivia no alta das montanhas. Se entusiasmara. Lindíssimo! De' corava-a.

E falou pro pai que estava com vontade de aprender piano também.

Sousa Costa não dava atenção. Corresse o caso» bem depressa! desejava. De quando em quando lhe roncavam azedos na idea uns borborigmos de arrependimento.

Fraulein é que percebeu muito bem a mudança do curumim. Finalmente! Carecia agora se reter um pouco. Mesmo voltar pra trás. Avançara por demais porquê êle tardava. Devia guardar-se outra, vez. As coisas principiam pelo principio.

— Bom dia, Fraulein!

— Bom dia, Carlos.

— Wie geht’s ihnen?

— Danke, gut.

— Fraulein! vamos passear no jardim com as crianças!

— Não posso, Carlos. Estou ocupada.

— Ora, vamos! Maria Luisa também vai! Ela precisa! Aldinha! Laurita! vamos passear no jardim com Fraulein!

— Vamos! Vamos! as crianças aparecem correndo.

Baixinho:

— Vamos hein!...

— Carlos, eu já disse que não posso. Vá você.

Levar as crianças no jardim... Ora essa! êle não era ama-seca! foi.

E’ coisa que se ensine o amor? Creio que não.

Pode ser que sim. Fraulein tinha um método dela.

O deus paciente o construira talqual os prisioneiros fazem essas catitas cestinhas cheias de flores e de frutas coloridas. Tudo de miolo de pão. Tão mimoso! O amor deve nascer de correspondências, de excelencias interiores. Espirituais pensava. Os dois se sentem bem, juntos. A vida se aproxima.

Repartem-na pois quatro ombros podem mais que dois. A >gente carece trabalhar... Os quatro ombros trabalham igualmente. Deve-se ter filhos...

Os quatro ombros carregam os filhos. Quantos a fecundidade quiser. Assim cresce a Alemanha. De noite uma ópera de Wagner. Brahms. Brahms é grande. Que profundeza, seriedade. Tem concertos de orgão também. E a gente pode cantar em côro... Os quatro ombros frequentam a Sociedade Coral. Têm boa voz e cantam. Solistas? Só cantam em côro. Gesellschaft. Porém isso é pra alemãis. E pros outros? Sim: quasi o mesmo. Apenas um pouco mais de verdade prática e menos Wagner. E se trata de homens. O homem tem de ser apegado ao lar. Dirige o sossego do lar. Manda. Porém sem domínio. Provê. E’ certo que a mulher o ajudará. Mas isso quando se é alemã. Pois então o homem é que deve prover.

Fraulein engole quasi um remorso porquê se apanha a divagar. Queixumes do deus encarcerado. O homem-da-vida quer apagar tantas nuvens. Afirma ríspido que não trata-se de nada disso. A profissão dela se resume a ensinar primeiros passos. Abrir olhos de modo a prevenir os inexperientes, da cilada das mãos rapaces. E evitar as doenças que tanto infelicitam o casal futuro. Profilaxia. Não. Porém deverá parolar quando mais chegadinho o convívio sobre essas “meretrizes” que chupam o sangue do corpo são. O sangue deve ser puro. Vejam por exemplo a Alemanha. Que-dê raça mais forte? Nenhuma. E justamente porquê mais, forte e indestrutível neles o conceito da família. Os filhos nascem robustos. As mulheres são grandes e claras. São fecundas. O nobre destino do homem é se conservar são e procurar esposa sã. De raça superior. Os negros são de raça inferior. Os indios também. Os portugueses também. Mas esta última.

verdade Fraulein não fala pros alunos. Foi decreto lido a vez em que um trabalho de Reimer lhe passou pelas mãos. Afirmava a inferioridade dos latinos. Legítima verdade pois quem é Reimer?

Reimer é um grande sabio alemão. Os portugueses fazem parte duma raça inferior. E então os brasileiros misturados? Também isso Fraulein não pofalar. Por adaptação. Só quando entre amigos de segredo. E alemãis. Porém os indios os negros quem negará que sejam raças inferiores? Belo o destino do casal superior. Sossego e trabalho. Os quatro ombros trabalham sossegaaamente. Ela no lar. 0 marido fora do lar. Pela boca-da-noite êle chega da cidade escura... Vai botar os livros na escrivaninha... Depois vem dar o beijo na testa dela... Beijo calmo... Beijo preceptivo... Todo de preto com o alfinete de ouro na gravata... Nariz longo quasi diafano bem raçado... Todo êle é claro transparente... Tossiría arranjando os oculos sem aro... Tossia sempre... E a mancha irregular do sangue nas maçãs... Jantariam quasi sem dizer nada... Como passara... Assim, e êle?...

Talvez mais tres meses e termina o 2? volume de “O Apêlo da Natureza na Poesia dos Minnesânger”... Lhe davam o lugar na Universidade... A janta acabava... Ele ia pro estudo... Ela arranja de novo a toalha sobre a mesa... Temos concêrto da Filarmônica amanhã. Diga o programa. Abertura de Spohr, a Pastoral de Beethoven, Strauss,

igitized by Hino ao Sol de Mascagni e Wagner. A Pastoral? A Pastoral. Que bom. E de Wagner? Siegfried-Idill c Gôtterdâmmerung. Siegfried-Idill? Siegried-Idill. Ah! Podiam dar a Heróica... Já ouvimos cinco vezes a Pastoral êste ano... Podiam levar a Heróica... Mas a Heróica... Napoleão... Em todo caso a gente não pode negar: Napoleão foi um grande .general... Morreu preso em Santa Helena...

Aqui Fraulein repara que aos poucos o homemdo-sonho se substituira de novo ao homem-da-vida. E’ porquê êste aparece unicamente quando trata-se de viver mover agir. O outro é interior eu já falei. Ora, pois o pensamento é interior. Nem siquer é volição que participa já do ato. O homemda-vida age não pensa. Fraulein está pensando. Nem o homem-da-vida propriamente lhe disse que ela ensina apenas os primeiros passos do amor, dá a entender isso pela maneira com que obstinada e mudamente se comporta. Franqueza: o que pratica é isso e apenas isso.

Porém vão falar pra um alemão que êle traz consigo tal homem-da-vida... Energicamente negará. Nunca morou nesta casa. E com razão. Reconhece o homem-do-sonho porquê êste pensa e sonha. Ora de verdadeiro pro idealista só o que é metafísico. As matérias são mudas. As almas pensam e falam. Tratando-se pois de amor-tese, teoria do amor, amorologia, é o prisioneiro paciente que amassa o miolo de pão esculpe e colore oestinhas lindas pra enfeite do apartamento arranjado e limpo que Fraulein tem no pensamento. A consciência porém que não é nem da vida nem do «onho e a Deus pertence lhe mostra como atuou o homem-da-vida. Unicamente ensinou primeiros passos abriu ollios. Foi prático. Foi excelente. Porém pra Fraulein tal virtude não basta. Consequência: remorso. Porém remorsico vago muito esgarçado. E ela continuará divagando no pensamento.

Assim enfeita os gestos do homem-da-vida com o sonho serio severo e simples pra usar unicamente ésses. E sonoro. Wiegenlied de Max Reger, opus

... O quartinho é escuro. Maria embala no bercinho pobre o filho recemnascido. Janelas abertas. Nascem do chão saem por elas as duas colunas inclinadas do luar. Verão. Silêncio. Murmúrio em baixo longe das aguas sagradas do Reno. A gente respira possante fecundo imortal o aroma do ventre de Erda. A canção é pra criancinhas. E como na scisma tudo é mistura e associação á melodia de

Reger vem continuar o Lied de Kôrner:

“Geht zur Ruh’!

Schlisst die müden Augen zu!

Stille wird es auf den Strassen

Nur den Wâchter hôrt man blasen,

Und die Nacht ruft allen zu:

Geht zur Ruh’!...”

A canção não é pra criancinhas? E’. Soa severa honesta popular... A consciência de Fraulein. adormece.

E’ coisa que se ensine o amor? Creio que não. Ela crê que sim. Por isso não foi no passeio. Deve se guardar. Quer mostrar que o dever supera os prazeres da carne. Supera. Carlos desfolha uma rosa. Sob a glicinias da pergola braceja de tal geito que o chão todo se pontilha de lilá.

— Ih! Vou contar pra mamãi que você está estragando as plantas!

— Não me amole!

— Amolo, pronto! Mamãi! Mamãi! Me largue t Feio! Mamãi!

— Me dá um beijo!

— Não dou!

— Dá!

— Mamãi! olhe Car-los! ai!...

Aldinha aos berros pela casa.

Ele não fez por mal. Quis beijar e machucou. Aldinha chora. A culpa é de quem? De Carlos.

Carlos é um menino mau.

Fraulein fazia Maria Luisa estudar no piano pequenos lieder populares dum livro em quarto» com figuras coloridas. Dava inda pra ela pecinhasde Schubert e alegros de Haydn. Pra divertir fez ela decorar uma transcrição facil da Canção da

Estrela do Tanhâuser. As crianças já cantavam em uníssono o Tannenbaum e um cantar-de-estrada mais recente que pretendia ser alegre mas era pândego. Fraulein fazia a segunda voz. E falava sempre que não deviam cantar maxixes nem foxtrotes.

Não entendia aquele sarapintado abuso da sincopa.

Auf Fliigeln des Gesanges... Ritmo embalador e casto. Nazareth lhe dava uns arrepios de espinha e uma alegria... musical? Desprezível. Só Wagner soubera usar a sincopa no noturno do Tristão.

Carlos também cantava o Tannenbaum. Desafinava. Não tinha voz nenhuma. Porem descobrira o perfume das rosas. Perfume subtil e fugitivo, ôh! a boniteza das vistas!... A’s vezes se surpreendia parado diante das sombras misteriosas. As tardes, o lento cair das tardes... Tristes. Surgia esse gôsto de andar escoteiro scismando. Scismando em que? Scismando sem mais nada. Devia de ter felicidades quentes alem... Estava pertinho do suspiro sem alegria nem tristura, suspiro no silêncio amigo do luar.

— Mamãi! olhe Carlos!

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