Bloco VIII
Na volta do Rio recomeçaram os encontros noturnos. Que bom! Carlos evoluía rápido. Fraulein tinha já despeitos. Pequenas desilusões. Por exemplo: Êle demonstrava já de quando em quando preferencias brasileiras e outras individuais que contrastavam com a honestidade classica do amor tese. Tese de Fraulein. Si eu contasse tudo, a verdade mesmo dosada viria catalogar êste idilio entre os descaramentos naturalistas. Isso é impossível. Não quero. Ninguém negará no emtanto que Carlos prefere a orelhinha direita da amada pros beijos de após ventura. Tal preferencia existe. Nada tinha em Carlos de perverso isso não porém se tornara conhecido de si mesmo. Tinha exigências risonhas por instinto demonstradas com despotismo calmo satisfeito muito seguro de si. Criança ainda e desageitado, embonecava nele o homem latino, vocês sabem: o homem das adivinhações. Olhem como êle cruza as pernas, ara!... Fraulein não apreciava essa concepção da felicidade. Os homens alemãis quando não são práticos e animais
no amor guardam sempre um certo geito de obediência ás leis naturais mesmo dentro do requinte e da excepção. Parece tão natural aquilo neles!...
Isto é segrêdo de alemãis. Os latinos nunca alcançam tais extremos. Em verdade êles divagam no amor, não acha? O alemão fica. Ponto-final. O latino ondula. Reticência. E a gente então, os brasileiros misturados!... Não acredito nas avataras indianas. Não acredito nessas vidas anteriores em que a gente foi -um xeque das Arabias. Entretanto tantanam no fundo do mato... Negros pesados dansando o cururú. Silencio grosso de cheiros de cernes folhas flores terra carnes queimaqueimados pelo Sol. Olhos relampeando na escureza da noite sem sono. Então a imaginativa trabalha. De primeiro surgiram teogonias fantasiosas produto das multiplicações pelo Deus inicial. Depois fantasmas lendas. Destas lendas provieram primeiro os animais as plantas as linfas todos munidos dum poder de alem, sacro quasi impossível. A imaginativa tinha aonde manobrar á larga. O deserto era imenso.
O deserto das areias das florestas e das aguas.
Quando tudo se povoou de milagres as lendas pariram a casta dos homens rúins e a casta dos homens bons. Coisas impossíveis ainda. Dessas divisões vieram a guerras. Guerra ou paz. Tudo pretexto pra cantigas esculturas dansas. Tinem colares chacoalham cores vivas. Deuses lendas artes... Porem quando não se dorme num mato ou quando a imaui lyiiiai from
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ginativa não pode mais ultrapassar o recesso das tabas, a terra pisada das ocas pra assuntar alem das picadas através das embiras porquê agora já se está dormindinho numa cama bem gostosa da avenida Higienopolis (que bem pode ser uma rua de Recife uma praça de Porto Alegre) quando... meu Deus! a frase está muito longa, comecemos outra: O brasileiro misturado não carece mais de criar teogonias tranzandinas nem imagina descender dum notável jaboti nem crê nas castas dos homens rúins e dos homens bons nem nas oferendas votivas nem na estilização duma efígie divina nem por emquanto se preocupa com cafezais por plantar nem mesmo sonha com a roupa nova que o pai lhe dará do alfaiate da rua Quinze. Tem-se dezasseis anos. Um amor facil. A gente se levanta. Pé por pé. Chega na porta de Fraulein. Tantam... Dormia, Fraulein? Estou sem sono, vim pra cá. Porém a imaginativa não abandonou as abundancias dela, não pense! Quer se gastar e faz muito bem. Praquê mais anhángas jananairas e batatões? Rudá protege bem os namorados. E estamos na rua do Recife. Não tem perigo nenhum. Medo praquê! O velho deve de estar dormindo. Risinho. Até parece que o outro é bobo. Dormir? Tão gostoso amar! Suspiro. E uma boquinha na orelha esquerda de Fraulein. Não. Se prefere a direita. Não é a mesma coisa. Porquê meu Deus! Por amor da invenção. Preferencia. Livre-arbitrio. Aqui a latiniDiütiWb^
dade se confunde com os indios sorugamongas e a negralhada relumeante.
Está claro que Carlos não imaginou nada disso.
Porem o beijo existe. E pra provar que existe de fato com existência real e não como fantasia literária de escritor me vi obrigado a ir incomodar os coitados dos negros dansando no fundo do mato ao tantam. Agora todos escutaram o beijo. Fraulein é que não compreende esse divagar sublimado. Corrosivo, ela pensa. No dia seguinte principia a matutar com o desfecho. Vem vindo a hora de acabar.
Cumpriu a missão dela. O que sabia ensinou. O homem-da-vida e o homem-do-sonho passeiam braços-dados. Quatro contos pra cada um. Vamos tomar um chôpe. Fraulein sente uma fraqueza. Se ri de amorosa. Pobre Carlos vai sofrer... Vem uma revolta: Que sofra! e ela então? Grande Alemanha sem recursos. Desmantelada. Tudo rapidamente.
Porém permanece um desejo mole pelo rapaz. Talvez arrependimento. O homem-da-vida afirma:
Não. E vira o chôpe. Mas agora se fala tanto nos sentimentos sequestrados... 0 subconsciente se presta pra essas novas teogonias. Fantasia? Ninguém o saberá jamais. Minha vingança é que Freud não pode ter sensações de tantans no fundo do mato. Nem pode sentir indios pesados com dinamismos de ritual dentro das gambias. Aliás nem
Fraulein. Por isso que falando de Carlos fui poeta» inventei. Falando agora de Fraulein de Freud de
Friedrich pra usar unicamente éfes endurece-me a pena um decreto de sciencia alemã. De sciencia alemã.
Entre Sousa Costa e Fraulein se convencionara desde o princípio que aquilo não podia acabar sem violência. A maior lição estava mesmo no susto que Sousa Costa pregaria no coitado. E então lhe mostraria os perigos que nessas aventuras de amor pecaminoso, pecaminoso? correm os inexperientes. Vocês todos já sabem quais são. Isso divertira muito Sousa Costa. Representar a scena lhe deu um gostinho. Sousa Costa queria muito bem o filho. Naturalissimo. Porém isso de amores escandalosos dentro da própria casa dele lhe repugnava bastante. Não é que repuignasse propriamente... Fazia irritação. Está certo: irritava Sousa Costa. O filho era dele. Lhe pertencia. Que se entregasse a uma outra e êle sabendo, teve ciúmes, confesso. Se sente como que corneado. Tal era a sensação inexplicável de Sousa Costa pai. Com o susto se vingava. O ante-sabor da comedia lhe multiplicou os momentos de sorriso. Não se esquecera mais. “Depois pregamos um bom susto nele” falara prá mulher naquela inquieta scena de explicações com Fraulein. Porem agora diante desta na biblioteca
pensava milhor. Aquilo traria incomodos. Caceteação! O menino ia fazer barulho naturalmente...
E êsse malestar que as estreas sempre dão...
— Mas Fraulein, não seria possivel acabarmos de outra forma?... Mansamente. Meu filho vai sofrer muito. E’ tão amoroso! Depois... depois eu falo tudo pra êle.
Porém Fraulein jà sabe que Sousa Costa promete e não cumpre. Insistiu. Demais assim violentamente a lição ficava mais viva no espirito, isto é, no corpo de Carlos. O corpo tem muito mais memória que o espirito, não é? E’. Alem disso por mais burguês e vulgar que seja um alemão sempre de quando em quando lhe rebrota no deus encarcerado um desejo de tragédia inútil, êsse mesmo que fez a renúncia de Werther e o mais inútil ainda sacrifício de Franz von Moor. Sem confessar isso Fraulein desejava a tragédia mesmo com o sacrifício da memória dela na recordação de Carlos. O que Carlos ficava pensando dela... Porém como que isso lhe nobilitava o trabalho anterior.
Lhe redimia a profissão. De quê?! Ah, consciência, consciência... O trabalho e a profissão de Fraulein eram bem nobres. A moça tinha certeza disso.
Tinha certeza. Porém. Então ela se falava: Si o -senhor Sousa Costa não ensinar agora não ensina mais. E’ preciso que ensine. O meu dever é não sair daqui sem que êle primeiro indique pra Carlos os perigos. Mesmo com o meu sacrifício.
Por tudo isso insistiu. Assim a consciência adormece. Geht zur Ruhe! Sousa Costa já amolado prometeu.
Dona Laura avisada aceitou. Suspirando. Matutou assim: Afinal Fraulein partir... Que massada! Tomara ao menos que eu arrange depressa governanta nova! Até de novo se acostumarem todos juntos... E estavam tão bem assim!... Ninguém desconfiava de nada. As meninas progrediam tanto... Maria Luisa já tocava a Marcha Turcai bem direitinho até. Quasi que não parava.
Mas dona Laura teria pensado mesmo tanta, coisa! Não pensou. Eu também por mim não pensei. Então quem foi? Volta aqui o limiar da consciência andando que nem badalo pra cá pra lá. Inconsciência... Subconsciencia... Consciência... Pra cá, pra lá... E’ aqui! Então é consciência. Juro que não! Então o limiar é mais pra longe. Será?... Pra cá, pra lá... Dona Laura não falou nada daquilo nem pensou. Porém aquelas ideas existem. A psicologia também existe. Pra cá, pra lá... E Fraulein partia mesmo. Inútil se lastimar.
— Paciência!
Carlos entrara no quarto de Fraulein. Mal tivera tempo de. Porém já machucara a amante cruzando as pernas sentado. Tátão, tão, tão!
— Abra!
Meu Deus! entra Sousa Costa.
— Que está fazendo aqui, diga!
— Nada, papai...
Flebil flebil nem se ouvia. Sousa Costa acreditou que era um grande artista dramatico. Voltouse pra Fraulein. Por lembranças românticas franziu a testa.
— Ela não tem a culpa!
De pé agora relampeando em nitida franqueza heroico.
— O senhor tenha a bondade mas é de ir já pro seu quarto! Já vou lá também!
Carlos baixou a cabeça. Partiu. Francamente: não soube que partia. Não soube que chegou no quarto. Não soube que se encostou na guarda-dacama sinão caia mesmo, plorúm! desmanchado no chão. Não soube o tempo que passou. Nada. Enxergou a porta se abrindo. Ergueu a cara pro pai:
— Ela não teve a culpa, papai!
Não relumeava mais. Sem implorações também. Emperrado apenas na própria verdade: quando uma mulher erra só o homem é que tem a culpa. E sem nenhuma temeridade corajoso.
— Você está louco! Você sabe quem é essa
mulher! E si ela agora te obriga a casar! Está muito bonito!
Carlos aterrado. Casar! Que explosão de luz essa no cerebro! Luz rúim. Mas o apego a Fraulein subjuga todos os preconceitos. Sociedade e futuro desaparecem. Só Fraulein, o conchêgo de Fraulein fica. E ainda um pouco de coragem, cabeçudo. Fle« bil flebil:
— Eu caso, papai...
— Bobo! Você não está vendo que é uma aventureira !
— Não é uma...
— Cale-se!
— Papai! mas ela não é uma aventureira!
Agora implorava. Que dó fazia na gente!
— Carlos, você é uma criança, Carlos! E não sabe nada, ouviu! E agora! E si tiverem um filho, como é! diga!! maluco...
Ah isso acabou Carlos. Caiu numa cadeira. Chorou. Sousa Costa já estava cansado também. Sentou-se. Falou manso. Pouco tempo. Nem reparou que não ensinava nada. Viu o filho chorando e teve amor. Consolou. Felizmente êle estava ali pra acabar com aquilo. Porém que tivesse cuidado pra outra: não tem tantas mulheres sem perigo por aí, não o obrigasse mais a gastar dinheiro com essas coisas. Carlos tira a cara das mãos. Quer ver si o dinheiro é verdade. Não é atoa que a Verdade traz na frente o verbo ver...
— Ela não recebeu dinheiro!
— Ah?! então você pensa que ela partia assim,, sem nada, não é!...
— Quando!
Que dinheiro nem baixezas! Fraulein partia [ só isso Carlos escutou.
— Quando!
— Quando?! esta é muito boa! o mais depressa possível, amanhã cedo.
— Não papai! não! Eu não faço mais nada!
— Como é! então você...!!! Mas Carlos você está maluco duma vez! Parte! E é pena que não possa partir já, agorinha mesmo!
Perdia terreno. Voltou á idea do filho com que vencera de já-hoje. Carlos recomeçou a chorar.
Era horrível! casar ainda, mas ter um filho... ÜM
FILHO! Não! Era impossível! Que medo! E como!
Depois! Meu Deus! um filho... Um filho...
— E agora o senhor vai-me deitar e nada de barulhos, ouviu? Eu já falei que arranjo isso. Mas fique aí bem quieto e durma!
Saiu.
Um filho...
Um filho.
Um filho...
Um... filho?
Meu Deus! UM FILHO.
Se atira na cama.
... um filho
Horroroso! Não raciocinava, não pensava.
... um FILHO...
Nem assombrações amedrontam assim! E Carlos não acredita em assombrações. Carlos espaventado, exausto. Antes morrer!... Um filho?! Mas viria mesmo um filho?... Fraulein teria um fi... Fraulein partia... Vem a figura de Fraulein. Mata ■o filho. Que filho nem nada! Fraulein! 0 desejo de Fraulein. O desespêro por ela! Não tem nada, tem Fraulein! o corpo dela o calor dela... Carlos vai. Praquê precauções? Vira o trinco. Porta fechada naturalmente. Empurra-a. Sacode-a com fôrça. Se lembra de bater e bate.
— Fraulein!
Evidentemente ela não dormia.
— Quem é.
— Abra esta porta!
— Carlos, não posso. Vá dormir.
— Abra esta porta, já disse!
— Meu Deus! seu pai escuta, Carlos. Vá embora!
— Eu arrebento esta porta! Fraulein! abra a porta!
— Meu filho, que é isso! Não faça assim!
— Mamãi me larque! me largue! eu quero abrir esta porta, já disse!
— Mas meu filho tenha pacienc...
— Abra a porta, Fraulein!!
Clave de fá:
— Ocê está louco, Carlos! Não lhe disse...
— Não sei si estou louco! Abra esta...
— Meu filho você acorda suas...
— ... porta!
— ... irmãzinhas!
— Vamos embora!
Sousa Costa foi parar na parede.
— Fraulein!
— Carlos! você faz assim pra seu pai!...
Piam! pampam! piam!...
— 'Este menino... dou nele ainda!...
Sousa Costa apanharia. Isto é: não apanharia anais. Carlos está se cansando. Desilude-se. Tudo está perdido mesmo... Não vale a pena lutar, brasileiro... Mãi e pai seguram êle. Não carecia. "Guiam aquelas pernas sem vontade. Isso carecia.
— Fraulein, mamãi...
Nos seios de Dona Laura é levado.
— Agora eu vou mas é fechar você a chave aqui!
— Felizberto, tenha um pouco de paciência!
Meu filho! não chore assim!
— Vamos embora Laura, deixe êle aí!
— Felizberto!
Sousa Costa foi prá cama. Ele bem tinha falado que o menino havia de fazer um barulhão. Estas alemãs que vão pro diabo que as carregue!
Dona Laura acalma o filho. Chora o filho chora a mãi. Os dedos dela alisam os cabelos de
Carlos. Ele nos braços maternos molhando a mãi de lagrimas exasperadas. De quando em quandoi o soluço:
— Fraulein...
Flebil flebil.
Aldinha com seis anos dormia. Certos barulhos não acordam as crianças de seis anos. Porém Laurita com oito e Maria Luisa com treze. Esta assuntando da porta olhos grudados na escureza engole com volúpia os barulhos. Aprende. Laurita também escutava. Não entendia nada. Deitadinha muita reta com medo, sem falar um isto. Pensava? Laurita pensava que havia uma história ‘triste. Fraulein com Carlos. Talqual na fita da Gloria Swanson. Mais atrás papai com mamãi. Depois vinham elas. Todos chorando. Carlos pagava o automovel e apareciam todas as pessoas que costumavam visitar mamãi. Carlos não ia mais no futebol. Elas ficavam com muita vergonha das visitas. Tudo muito embrulhado vago com sono. De repente Laurita pensou nitido que si papai pegasse ela acordada e Maria Luisa na porta tomavam um pito grande. Teve medo e principiou a chorar porquê desta vez papai teria razão. Adormeceu chorando.
■O trem partia ás seis e trinta. Escolhera Santos. Bem que podia ficar em São Paulo, a cidade era bastante igrande pros dois porém o acaso dum encontro possivel só pensar nisso lhe prolongaria aquela ternura por Carlos. O irremediável consola mais depressa. E Fraulein se aborrecera de São
Paulo. Por causa de Carlos. Não sei mas tinha um sentimento de humildade diante dele. Lhe parecia muito serio isso. Careciam do irremediável.
Pois então Santos. Ao menos pra partir: Santos..
Campinas um segundo lhe passou na geografia..
Possivel a profissão dela em Campinas? Talvez; voltasse pro Rio. Seis horas no hol. Devia partir.
Como vencer a ternura! Pediu pra Sousa Costa que lhe deixasse ver Carlos. Como negar? Dona Laura subiu chorando já.
— Meu filho... acorde, meu filho!
— Que é mamãi...
Se ergueu sobressaltado. Ainda sem pensa» mento.
— Meu filho, Fraulein vai-se embora... Você, não quer se despedir dela? Mas seja homem, Carlos!
Carlos de pé. Mal calçou os chinelos. Se arranjar praquê! Sujo de sono se atirou na porta desceu as escadas. Ficaram perdidos no abraço. Chorandoéle mergulhava a cara nas roupas desejadas. Nem lhes gosava o cheiro lavado. Fraulein entre lagrimas sorriu assim:
— Meu filho...
Sousa Costa repuxava os bigodes. Bolas! Porém lhe doia a dor do filho. Dona Laura descia os últimos degraus. Um dos chinelos de Carlos estava ali.
Era preciso partir.
— Adeus, Carlos. Seja... muito feliz, ouviu? .adeus...
Beijou-o na testa. Na testa tal-e-qual fazem as mãis. 0 beijo foi comprido por demais.
Se desvencilhava. Dona Laura ajudou.
— Filhinho... não faça assim!...
Os braços dele foram ficando vazios. Os braços dele ficaram compridos no ar. Ficaram compridissimos. Foram descendo cansadíssimos. Teve uma vaga lembrança de que nem a beijara. Não, só um verbo naturalista: não aproveitara. E agora nunca mais. Porta que fecha. Sonolência. Não chorava. Foi andando. Parou calçando o chinelo. Subia os degraus.
Fraulein sacudida pelos soluços nervosos entrou no automovel. Partiam mesmo. Debruçou-se ainda na portinhola:
— Meu Carlos...
Nada. Só Tanaka fechando o portão, se rindo.
E uma casa fechada, toda num amarelo educado senhorial. VILLA LAURA. Quis lutar. Tolice sofrer sem causa. Derrubou-se pra trás largada desinfeliz.
Sousa Costa olhava pra ela sem compreender.
No primeiro andar a janela se abriu. Que rompante! Carlos enguliu a avenida buscando ver querendo ver vendo o automovel que sabia sem saber •estava longe nunca mais. Deserto só. Não estendeu os braços. Não gritou. Porém o olhar turvo escorreu pela avenida até onde! meu Deus...
Os raros 'tranzeúntes da aurora viam na janela um mocinho chorachorando coitado! de certo perdeu a mãi...
Na estação Sousa Costa foi comprar o bilhete.
Fez Fraulein entrar no vagão.
— Muito obrigada, senhor Sousa Costa. E... acredite, oh! acredite... desejo a felicidade de
Carlos!
«— Acredito, Fraulein. Muito obrigado.
Exausta meia triste ela olhava sem reparar a carreira das campinas. Estação de São Bernardo? Pensava. Quasi sofria. Carlos. Era muito sincero. Corajoso. Ora! E a raiva contra todos os homens quasi que fez ela se rir prevendo o desastre. Afastou com energia o odio inútil. Se protegeu contra a imaginação pensando no dinheiro. Assegurou-se de que a maleta estava ali. Estava. Oito contos. Mais dois ou tres serviços e descansava. Apesar de tudo, Carlos., que alma bonita. Um homem. Tomou-a novo relaxamento de vontades. Doia. Talvez o amasse? Fraulein murmurou severamente o “não”. Quasi que os outros escutaram. Sorriu. Uma ternurinha só. Muito natural: era um bom menino. E não pensemos mais nisso. Estava muito calma.
E o idilio de Fraulein realmente acaba aqui. O idilio dos dois. 0 livro está acabado.
FIM