Bloco IV Amar, verbo intranzitivo · Capítulo 4 de 10
Obra Menu

Bloco IV

Um dia Fraulein apareceu diante de mim e se contou. O que disse aqui está com poucas vírgulas vernaculização acomodaticia e ortografia. E’ minha a fusão dos tês gemeos e a metamorfose em efes dos pês-agás. E’ também minha esta propensão pra reticências e admirações. Os personagens, é possível que uma disposição particular e momentânea do meu espirito tenha preparado as somas por eles apresentadas, essa toda a minha culpa porem asseguro serem criaturas já feitas e que se moveram sem mim. São os personagens que escolhem os seus autores e não êstes que constroem as heroinas deles. Virgulam-nas apenas pra que os homens da Terra possam ter delas conhecimento suficiente. Sinão passariam despercebidas. E’ tudo.

Segunda e mais forte razão: Afirmarem que

Fraulein não concorda consigo mesma... Mas eu só quero saber neste mundo misturado quem concorda consigo mesmo! Não tem não. Somos misturas incompletas, assustadoras incoerências metades tres-quartos e quando muito nove-decimos. Até afirmo não existir uma só pessoa perfeita de São

Paulo a São Paulo a gente fazendo toda a volta deste globo com expressiva justeza adjetivadora chamado de terráqueo. Mesmo scientistas já afirmaram isso também. Desde Gley, Chevallier e

Fliess se acredita que os seres foram de primeiro hermafroditas. Antes dêsses senhores Darwin estivera a escrever coisas pros leitores inteligentes

do tal de globo terráqueo. Então se começou a falar em seleção e outras espertezas que permitiram este saborosíssimo schisma em seres imperfeitos machos e femeas imperfeitas. Que invento admiravei o schisma! Pouco depois da “Origin of Species”, corriam os anos, nasceu na Alemanha uma criancinha. Mamava que nem as outras, berrava sonoramente e trocava os dias pelas noites pra dormir. Com o acumular dos meses foi crescendo. Inevitável. Falava já o “papa”, “mamã” e se tornara o enlevo das visitas. So übsch. Mein Liebling. Escutando essas melodias agradaveis a criancinha continuava crescendo. De “übsch” passou a “mein Bürschlein”. Veio em seguida com a queda dos dentinhos a idade ingrata em que as crianças se tornam antipaticas e notáveis excrescencias. E o menino foi na escola. Principiou a estudar. E já sabia alemão!... Felizardo! Não teve que andar depois como eu errando os plurais da quarta e feminina declinação. Não careceu de decorar a lista copiosa dos mais incríveis verbos irregulares que o genio trapalhão desta humanidade inventou!... Pois emquanto eu decorava tais verbos e errava aqueles plurais o menino já estava mocico. Um belo dia se diplomou. Mandou vaidosamente imprimir uns cartões de visita. Batia. Entregava o cartão. Era introduzido pelo criado na ante-sala e emquanto tirava o sobretudo e as luvas pretas o outro levava o cartão ao dono da casa, geralmente sabio

de valor. Este lia wagnerianamente no bilhete:

SIGMUND FREUD. Ah, faça entrar, falava satisfeito. Com muito mais satisfação que Hunding abrigando o Wolsung lendário. O joven diplomado entrava e alí mesmo no laboratorio a conversa durava horas estiradas e scientificas. Depois o joven diplomado se desipedia e voltava pensativo pra casa. Como desse em seguida pra escrever coisas espantosas os alemãis principiaram a lhe chamar

Herr Professor Freud. Pois essa criancinha... que criancinha! essa plantinha inicial, essa Schachtelhalm que nem na teoria do Physicus de Franz

Werfel, pois essa plantinha inicial inda veiofortificar mais as escrituras de Fliess, de Kraff-Ebbinjg sobre a nossa imperfeita bizarria! Afirmou que uma certa porção de hermafroditismo anatômico é ainda normal! Incrivel! Incrível e desagradável. A tanta sciencia e tão pouca anatomia eu prefiro aquela idea contada pelo padre Pernetty: “Les femmes ont plus de pituite et les hommes plus de bile... Certains philosophes ne craindraient pas d’affirmer que les femmes ne sont femmes que par un défaut de chaleur”. E si quiserem ainda coisa mais grata é lembrar a fabula discreta contada por Platão no Banquete... Porem o que importa são as afirmativas daqueles alemãis sapientissimos aqui evocados pra validar a minha asserção e lhe dar aparência scientifico-experimental:

NÃO EXISTE MAIS UMA ÚNICA PESSOA INTEIRA NESTE MUNDO E NADA MAIS SOMOS QUE DISCÓRDIA E COMPLICAÇÃO.

O que chama-se vulgarmente personalidade é um complexo e não um completo. Uma personalidade inteiriça e concordante, milagre! Pra criar tais milagres o romance psicologico apareceu. De então começaram a pulular nas mil-e-uma noites das historias infantis os figurinos mecânicos. Figurinos que por serem assim agiram mais tarde fatalmente assim. Membros cerebros figados de latão que por serem de latão se moveram com a vulgaridade e gelidez prevista do latão. Oh! positivistas da fantasia! Oh ficções monotonas e resultados já sabidos !... Fraulein é senhorinha modesta e um pouco estúpida. Não dama nem padre de Bourget. Pois uma vez em defesa própria afirmou: “Hoje a filosofia invadiu o terreno do amor”. Que surpresa pra nós! Ninguém esperava por isso não é verdade? D’ai uma sensação de discordância eminentemente realista.

Eu sempre verifiquei que nós todos, os do excelente mundo e os da ficção quando excelente temos os nossos gestos e ideas geniais— Vocês tomem essa frase de Fraulein por uma idea genial que ela teve. E tanto assim que produziu uma surpresa nos leitores e outra em Sousa Costa e dona Laura. De tal fôrça que os abateu. Estão faz quasi um minuto mudos e parados. Sousa Costa olha o

chão. Dona Laura olha o této. Ah! criaturas, criaturas de Nosso Senhor, quão dispares sois! As Lauras olharão sempre o céu. Os Felizbertos sempre o chão. Alma feminina ascencional!... E* o macho apegado ás imundicies terrenas. Ponhamos imundicies terráqueas.

— Mas Laura você devia ter falado comigo primeiro!

— Mas quando é que eu havia de imaginar!...

A culpa foi de você também!

— Ora essa é boa! Eu fiz o que devia! E agora ela vai-se embora!

A lembrança de que Fraulein partia lhes deu o sossêgo desejado. O mal foi dona Laura acentuar:

— E êle é tão criança!

— Tão criança? você não vê como êle está!

Sousa Costa não vira quasi nada ou coisa nenhuma. O argumento porém era fortíssimo.

— Lamento profundamente que Fraulein váse embora. Carlos me preocupa... Está ai o filho do Oliveira! E tantos!... Eu não queria que Carlos se perdesse assim!

Viram imediatamente o menino mais que tremulo empalamado bebedo e jogador. Rodeavam-no ponhamos tres amantes. Uma era morfinomana outra eteromana outra cocainomana. Os dois conjuges, tremendo horrorizados. Carlos desencabeçara duma vez. Nojento e cachorro. E o imenso amor verdadeiro por aquele primogênito adorado cresceu dentro deles estrepitosamente. Dona Laura abaladissima desafogava as memórias:

— Você não imagina... Passa o dia inteira junto de Fraulein. Dela não me queixo não... Porta-se muito discretamente. Eu seria incapaz deadivinhar! As crianças têm progredido muito... Maria Luisa já fala bem o alemão... Pois até elas, já perceberam! Você sabe o que são essas crianças de hoje. Toda hora mandam Carlos ir bolir com Fraulein!

Sousa Costa gostou da inteligência das filhas— E’!... Pestinhas!

Depois se assustou. Crianças não devem saber dessas coisas. Principalmente meninas. Lembrou remedio decisivo:

— Você proiba elas de falarem isso! Também agora Fraulein parte!... Acaba-se com isto!

Suspirou. A idea de que Fraulein partia lhes, deu o desassossêgo.

— A historia é Carlos...

— Eu também tenho medo!...

— Laura, as coisas hoje têm de ser assim. A gente não pode mais proceder como no nosso tempo. O mundo está pèrdido... Olhe: contam tantas dêsses rapazes... Não se sabe de nenhum que não.

tenha amante! E vivem nos lupanares! Jogadores! isso então? não tem um que não seja jogador!. .. Eu também não digo que não se jogue... afinal... Um pouco de noite depois do jantar...

Não faz mal. E quando se tem dinheiro, note-se!

E juizo. Essa gente de hoje?!... Depois dão na morfina, é o que acontece. Veja a cor do filho do

Oliveira! aquilo é morfina!

— Meu Carlos...

Sousa Costa se extasiando com o discurso:

— Fraulein preparava êle. Depois isso não tem consequência... Quem me indicou Fraulein foi o

Mesquita. O Zézé Mesquita, você conhece, ora! aquele um que está morando no Rio agora...

— Ah.

— Se utilizaram dela creio que pro filho mais velho. E o pior perigo é a amante! São criançolas, levam a serio essas tolices, principiam dando dinheiro por demais... e com isso vêm os vicios! O perigo são os vicios! E as doenças! Porquê que êsses moços andam todos desmerecidos moles?... Por causa das amantes! e depois você pensa que Carlos si não tivesse Fraulein não aprendia essas coisas da mesma forma? Aprendia sim senhora! Si já não aprendeu!... E com quem! Bom! o milhor é não se falar mais nisso, até me dá dor-de-cabeça. Está acabado e pronto.

Porém agora os dois convencidíssimos de que aquilo não podia acabar assim. Aliás desde que

Sousa Costa empregara por reminiscencias românticas a palavra lupanar. Eu já falei que Ioda a gente tem ideas geniais! Careciam de Fraulein. Pra sossego deles Fraulein devia ficar.

— Quem sabe... você falando com ela... ela ficaria...

— Eu acho milhor, Laura. Francamente: acho. Fraulein falava tudo pra êle, abria os olhos dele e ficavamos descansados. Ela é tão instruída! Depois pregavamos um bom susto nele. (Se ria). Ficava curado e avisado. Ao menos eu salvava a minha responsabilidade. Depois não é barato não! Tratei Fraulein por oito contos! Sim senhora: oito contos fora a mensalidade. Naturalmente não barateei. Mais caro que o Caxambú que me custou seis e já deu um lote de novilhos estupendos. Mas isso não tem importância, o importante era o nosso descanso.

Pausa.

— Você proíba as crianças de falarem mais nisso.

— Pois é. Talvez ela fique... Você fala com ela amanhã...

Se ergueram. Entraram no hol. Mas aquilo continuar... Era bem milhor que Fraulein partisse. E depois ora! êle que se arrume! Boa educação, tivera. Bons exemplos em casa... E o mundo não era tão feio como parecia. E Carlos nenhum

arara... E as crianças já tinham percebido.... que espertas!

Avançavam no peso do ambiente. Dona Laura estava pensando também assim mais ou menos.

Apesar disso largou mais uma vez, arrependida já do que falava:

— Amanhã você fala com ela... Talvez resolva ficar...

— Ah! mas eu falar!?... Preferível você! Vocês são mulheres lá se entendam!

— Mas eu estou envergonhadíssima com ela,

Felizberto! Com que cara agora vou pedir pra ela ficar!

— Por isso mesmo! Você arranjou o embrulho...

— Como você está áspero hoje!

— Mas você compreende que uma coisa destas não é nada agradavel pra mim!

— Nem pra mim, então!... Sabe duma coisa? si quiser falar com ela, fale, eu não falo. O que eu posso é depois pedir desculpas pra ela... E também não quero saber mais disso, lavo minhas mãos. Você é que acha milhor Fraulein ficar...

Sousa Costa não achava mais milhor Fraulein ficar. Porém tinha achado. Enfiou as mãos nos bolsos e convicto:

— Eu... eu acho. Falo com ela amanhã.

Exaustos, mbrtalmente tristes, os conjuges vão dormir.

Duas horas da manhã. Vejo esta scena.

No leito grande entre linhos bordados dormem marido e mulher. As brisas nobres de Higienopolis entram pelas venezianas. Servilmente aplacam os calores do verão. Dona Laura com o colo livre das colchas ressona boca aberta apoiando a cabeça no braço erguido. Braço largo achatado nú. A trança negra flui pelas barrancas moles do travesseiro, cascateia no álveo dos lençóis. Concavamente recurvada a esposa toda se apoia no esposo dos pés ao braço erguido. Sousa Costa completamente oculto pelas cobertas enrodilhado se aninha na concavidade feita pelo corpo da mulher. Ronca. O ronco inda acentua a paz compacta.

Estes dois seres tão unidos tão apoiados um no outro tão Baucis e Filamão creio que são felizes. Perfeitamente. Não tem raciocínio que invalide a minha firme crença na felicidade destes dois cidadãos da Republica. Aristóteles... me parece que na Política afirma serem felizes os homens pela quantidade de razão e virtude possuídas e na medida em que por estas regram a norma do viver... Estes conjuges são virtuosos e justos. Perfeitamente. Sousa Costa se mexe. Tira um pouco pra fora das cobertas algumas ramagens do bigode.

Apoia milhor a cara no sovaco gorduxo da mulher.

Dona Laura suspira. Se agita um pouco. E se apoia inda mais no honrado esposo e senhor. Pouco a pouco Sousa Costa recomeça a roncar. O ronco inda acentua a paz compacta. Perfeitamente.

Quando veio pro café na hora de sempre suponho que Sousa Costa e mulher inda dormiam.

Justíssimo. Reparavam o esfôrço gasto. Não encontrou ninguém e Tanaka se aproveitou disso pra .servi-la mal. Nem pôs reparo na escaramuça do japonês. Pensava. Isto é... Pensaria?

Estava muito pouco Fraulein no momento. Se derramava de si mesma, como um excesso, pela região terrestre dos homens alemãis. Se espalhava por vales e florestas vilas e cidades. Atingia a beira da Alemanha. Parava ante o Mar do Norte e quebrando o impeto ascencional já esguia junto da

Dinamarca criava novo impulso numa disparada pelas praias do Baltico. Podia assim saltar a mão com que a nostalgia da Polonia pelo mar fraccionara as terras alemãs. Pois saltava pra ir se alastrar na ilhada Prússia Oriental. Não basta. Contei que extravasando da sua restrita personalidade ela abarcava os limites da patria... Falo de todos os limites da Alemanha atual. Fraulein se via pois obrigada a pular de novo terras polacas. Ia deszendo em curva porém cedia depois, se machucando de encontro ao pulso agudo da TchecoEslovaquia. Descendente ainda se esgueirava outra vez destrançando os cabelos brunos nas agulhas vegetais da Bõhmer Wald. Entestava com a Áustria fraterna. Minha irmã... Subia então os Alpes bavaros mal pondo os olhos no idiliosentimental do Tirol. Não tinha tempo agora pra gosar idilios mesmo sentimentais, ia depressa. Meu Deus! tropeçou de sopetão, escorregou! Veio se batendo tombando pelos itaimbés até mergulhar nolago Constança. Bordejava aguas de Suissa. Detestável Spitteler! e finalmente galopava subindo pra terrenos muito sabidos. Sabidos! ? Que é isso!... Nova tricolor de listras verticais!... R. F. Monogramas só em roupas brancas ficam bem... E foi nosso... Até um dia, Alzacia! Até quando, Lorena?... Galgava Luxemburgo e Bélgica maldita. E enfim se encontrava a si mesma junto das areias baixas da Holanda. Cobria agora toda a Alemanha. Si complexa em si a personalidade isolada, agoraabrangendo uma patria que será? Pois não basta ainda. Não basta rezar no Platt-Deutsch das planuras setentrionais as orações católicas dos araxás e vales abertos do sul. Fraulein inda mais se avoluma e cresce gorgulha freme e desborda dos limites da Alemanha se espalhando pela Europa Asia África... Velho Continente. Não basta. E vai nos mares e penetra chãos americanos e de repente

assim se irradiando assim tudo cobrindo se encontra consigo outra vez e se confunde em si mesma.

Agora ela é a terra inteirinha. Agora basta.

Esta imagem é pra contar uma coisa afinal muito simples e de poucas palavras: Fraulein sofre. E porquê sofre está alem de Fraulein alem de alemã alem de europea: é um pequenino ser humano.

Por isso turtuveei no falar que ela pensava.

Sofre. Não pensa bem poiquê sente por demais..

Acumula apenas farrapos de pensamentos. Farrapos não! Palavra que insulta... Lembra Bethmann

Holweg. Que culpa tem Fraulein dos “farrapos de papel” de Bethmann Holweg? Nenhuma. Retiremos os farrapos. Ela apenas acumula ponhamosmigalhas de pensamentos. Não. Antes prelúdios de pensamentos que fica mais musical. Simultâneos brotam na consciência dela desenhos inacabados,, isto é, prelúdios de ideas. Umas dolorosas outras dolentes outras macabras. Até? Até macabras. Zum

Henker! Um chacoalhar de ossos mal presos anuncia que por detrás a morte passa calçuda e masculina pros que pensam em alemão, der Tod...

Esse esgotar lento e invisível de forças e gastar de tentativas dia a dia... Súbito que cansaço!

Ah!... Não milhora mesmo! E achará casamento?... A brigar se aviltar por oito contos... Tanaka... Correio Paulistano... Se aviltar não. Abandonava Carlos... Isto lhe doia, doia. Não nega

não. E aonde ir agora?... Quartinho de pensão... E nova espera... Mal-e-mal ia dobrando os vestidos retirados da guarda-roupa. Àbria malas. Recordava em corisco os dinheiros ajuntados... H. Blumenfeld & Comp. Do Rio de Janeiro... E’ certo que podia em breve descansar... Ai... Casava... De tarde ele voltava do trabalho... Jantavam... Muito magro, oculos sem aro... A Pastoral ?-A Pastoral... Universidade... Assim mesmo o Brasil não fôra muito propicio pra ela não... Frau Benn pedira de emprestado 60 milreis... Imaginava bem mais fáceis progressos ao abordar imigrante a terra americana... Passara uma vez quasi dois anos sem encontrar o trabalho dela, de casa em casa professora de alemão e piano... E devia se calar. Si acaso se propunha a algum chefede-familia a recusa vinha logo... Rispida. Falta de entendimento e de prática... Deste povo inteiro. E era sempre aquilo: no outro dia a senhora vinha muito saxea e... Mas é mesmo possivel que uma pessoa olhe pros outros de cima altivamente?... Só porquê tinha dinheiro?... Lhe entregava o envelope com a mensalidade. E quando não descontavam as lições que inda faltava dar... Agora os meninos iam descansar um pouco, mais tarde quando fosse pra recomeçar avisariam... Praquê mentir?... Preciso comprar meias brancas. Como eram complicados os latinos. Cansativos...

Fraulein achava desnecessária tanta mentirada. E bobo tanto preconceito. De primeiro isso irritava bastante o deus encarcerado. Era um berreiro de atordoar dentro do corpo dela. Achava que o ideal da honra era repetir aquela frase que

Schiller botara na boca de Joana D’Arc: “Não posso aparecer sem minha bandeira”. Ser sincera. Mas qual, as mãis brasileiras quando se tratava dos filhos eram pouco patriotas. Fraulein foi obrigada a guardar a bandeira. E não sei si o deus encarcerado acabou se adaptando também, sei que não fez mais chinfrim. Só ficou aquele pensamento de que podia ser bem mais sincera na Europa.

E na Alemanha então?... Porém sofria-se muito agora, lá. Fraulein não gostava de sofrer. As noticias chegavam cada vez mais tristes. A última carta do irmão eram dois braços implorantes prá América... América desilusoria. Afinal nem tanto assim. Não se morria de fome. Trajava boas fazendas. Sobretudo comia bem.

Fraulein começou arranjando com mais atenção os vestidos. Porém sabia que chegando a hora de descansar só lhe seria possível o sossêgo na velha patria alemã.

— Patrão está chamando.

Esperança! Onde estava Sousa Costa? Correu prá porta.

— Tanaka...

Ninguém mais no corredor.

— Pôbel.

Se apressou diante do espelho. Deu um toque nos cabelos. Concertou a blusa. Sousa Costa esperava no hol. Fez ela entrar na biblioteca.

— Fraulein... antes eu tenho de lhe apresentar as nossas desculpas. Laura não sabia de nada e foi precipitada. Ela é mãi, Fraulein... Mas está muito arrependida do que fez.

— Não tem dúvida, senhor Sousa Costa. O mal foi o senhor... E’ verdade que o senhor se esqueceu.

— Esqueci, Fraulein... esqueci. Tantos negócios ! E’ impossivel a gente se lembrar de tudo mas Laura fez mal. Fraulein... ha-de concordar comigo. .. o que passou passou não é assim? Laura está convencida de que a senhora... Deve abandonar a idea de ontem, Fraulein. Eu... nós lhe pedimos que fique.

— Mas senhor Sousa Costa...

Esperou. Sousa Costa também esperou. D’aí nascer um silencio. Aproveitemo-lo pra observar o> seguinte: Fraulein não hesitava como fez parecer. Queria ficar. Estava certa de ficar. Então porquê hesitou? Porquê é de praxe se fazer de rogada a pessoa vulgar. E’ preceito desta não voltar atrás sem muita insistência dos outros. Se compreende pois o abandono em que vive a bandeira de Joana D’Arc.

E porquê Sousa Costa esperou? Porquê a hesitação da moça lhe dava esperança nova. Si ela recusasse... Que bom! Acabava-se com aquilo! Que eram oito contos pra êle! Nada. Por isso não insistiu. Esperou. Porém ela foi mais forte. Ascendência de raça superior. Sousa Costa principiou a ter vergonha do silêncio. Ascendência de boa educação. Insistiu:

— Desista de partir, Fraulein.

— E’ que...

Agora Sousa Costa se calou duma vez. Cumprira com o dever. Assim ela não se dobrasse ás razões que dera!... Fraulein não percebeu isso mas ficou com medo de hesitar mais. Ele podia aceitar aquilo como recusa. E devemos ser francos nesta vida. Sempre fôra simples e franca. Si aceitava devia falar que aceitava e deixar-se de candongas. Sempre fôra como a Joanna de Schiller que não podia aparecer sem a bandeira dela. Emendou logo:

— Bom, senhor Sousa Costa. Como o senhor e sua espôsa insistem eu fico.

Ora, Fraulein, vá saindo! Ninguém insistiu tanto assim. Não. E* certo que Sousa Costa e dona

Laura insistiram, esta com o marido e êle com

Fraulein. Mas porquê insistiram si não queriam?

Ninguém o saberá jamais. Insistiram simplesmente. Fraulein é que ficará por causa da insistência.

Por causa disso. Será milhor dizer que por adaptação. Isso: por adaptação. Também se pode pensar no desejo vigiando... sensualidades... Vamos pra diante!

Como tombam as espectativas! A alma espera. A postura da espera é estar suspensa. A alma parece então um pinheiro do Paraná. Todos os ramos em corimbo erguidos pra cima. Os ramos se sustentam muito bem ascendendo pro alto espectantes. Enrija-os a seiba da esperança, que é forte. Depois falha a e&pectativa. O pinheiro do Paraná vira pinheiro da Suécia. E os ramos descendentes uns nos outros se apoiando até que os mais de baixo se arrimam no chão.

O pinheiro da Suécia volta macambusio pro quarto conjugal. Dona Laura, pinheiro do Paraná:

— Recusou?

— Aceitou.

Dona Laura pinheiro da Suécia. Sousa Costa suspira e:

— Assim é milhor, Laura.

— Muito milhor, Felizberto.

Os dois agora estão convencidos de que o caso resolveu-se bem. Si Carlos de perdesse... Satisfeitos. Vão se vestir. Vão viver. Que sossêgo esta vida boa!...

E que gostosura liquidar um caso! Quasi todos conservam a impressão de ter vencido.

Susto. Os temores entram saem pelas portas fechadas. Chiuiíji... Ventinho apreensivo. Grandes olhos espantados de Aldinha e Laurita. Porta bate. Mau agouro?... Não... Pláaa... Brancos mantos... E’ ilusão. Não deixe essa porta bater! Que sombras grandes no hol... Porquês? tocaiando nos espelhos nas janelas. Janelas com vidros fechados... Que vazias! Chiuiiii... Olhe o silêncio. Grave. Ninguém o escuta. Existe. Maria Luisa procura. Toda ouvidos ao zunzum dos criados. Porquê falam tão baixo os criados? Não sabem. Espreitam. Quê que espreitam? Esperam. Quê que esperam?... Carlos soturno. Esta dorzinha no estômago... O inverno vai chegar...

Ninguém sabe de nada. Si ninguém escutou nada! Mas a vida está suspensa nesse dia.

Andando por êstes mundos apenas descobri uma profissão á qual o alemão não se adapta. A do garçon. O alemão não sabe, não pode ser garçon. Mostre-se embora rápido e solicito, simpático, feliz não é eficaz. Essas mesmas qualidades indispensáveis no garçou se transformam no alemão em motivos de afastamento.

Sempre observei o comovente compromisso trocado entre o freguês que bebe e o garçon que serve. O verdadeiro freguês não pede sómente uísque e sanduíches, traz pro restaurante um dilúvio

de pedidos inexpressos inconscientes que urge satisfazer tanto como a sêde. Quem^serve deve saber disso. O verdadeiro garçon sabe disso. Com olhar e sorriso ventando brisas de despreocupação envolve o freguês numa atmosfera intima de paz e suavidade. E deve estar sempre atento. Porém que a atenção dele, esse cuidado em servir bem e a tempo não se entremostre siquer, o freguês adquiriría a noção compressiva do minuto que passa — prejudicial ao descanso dele e á prosperidade do bar.

Outro dever principal do bom criado é saber desejar pelo freguês. Não se esqueça que êste é por excelencia o homem que pede. Pede até o proprio desejo. Em verdade si um homem senta-se ante a mesinha do Café e pede um chôpe e unicamente um chôpe é freguês perdido. Antes tranzeunte alterado cheio de trabalhos em seguida. Pois então o garçon se transfigura. Deve mostrar pressa pra que o negociante não esqueça a dele. Mas intencionalmente roçará o alvissimo frio do paletó pela mão ombro do sedento. Oh a maternal piedade dos linhos tão sadia! que nos incita a de novo trabalhar e vencer... O frescor ensalmante do brim claro como previsão de pazes futuras prá mão que tremerá daqui a pouco assinando o contrato ou recebendo os cem contos que não lhe pertencem... Porém o homem do chôpe rápido não é freguês. Este é o sem-rumo tanto no

tempo como na vontade. Vem. Se abanca. Entre os pedidos que não articula um dos mais ■preciosos é o de querer querer. 0 garçon tem de lhe propiciar o desejo. Deve penetrar-lhe no corpo conhecer-lhe num olhar os achaques. Descobrir tendências adivinhar gôstos inventar consolos recriar a alegria. Deve ir mais alem mesmo: lêr até nos segredos da sensação e sentimentos vagos enterrados no inconsciente pelos quasi tanto se sofre sem saber porquê. Me lembro do dia em que freguês penetrei num bar do Rio de Janeiro.

Não tinha nada que fazer. Banzava, meus desejos satisfeitos, sem esperanças nem saudades. Estava perfeitamente em dia comigo mesmo. No emtanto não era feliz. Porquê? Foi quando me veio servir um brasileiro talvez mulato lembrando na pele essa cor quasi palida das praias. Porém o Sol crepuscular reflete os rubores na areia das praias. Assim •êle. Que desejaria eu, Deus dos cristãos! Queria querer. Era uma das razões do mal-estar, meu tédio. Carecia dessa dinamica do desejo, causa assú pela qual a vida interessa. Veja agora como o criado me serviu. Quando me deu o boa-tarde com a deiscencia dos lábios rindo e os dentes decorativos •comecei a me interessar desde logo. Me interessar, intranzitivamente, sem complemento direto, reação. Misturadamente êle me falou da beleza da tarde e precisão em que eu estava, de outra terra «(descobrira em mim o paulista aliás coisa fácil

pelo paulista que está sempre do lado de fora dos. paulistas) precisão de ir ver a queda da noite do Pão-de-Assucar e do extraordinário cocteil propriedade da casa. Senti a delícia da hora me orgulhei de São Paulo e pedi o cocteil. Entretanto si me pusera de novo a viver já interessado, permanecia em mim a sensação de falta, pobreza, de omissão. Não estava ainda feliz. E bebia mal o cocteil tão detestável como todos os cocteils. De vez em. quando o meu garçon passava rápido mas bamboleante pelo meu olhar. Era que nem dansa habilissima que mal tocava o chão. O bailarino parecia feliz. Me regava de prazer como vaporizador benéfico. Seus olhos de tanta luz! me agasalhavam, se interessavam por mim, eu sabia...

— Já venho.

E foi levar o cocteil propriedade da casa a outro freguês. “Já venho” porquê? Não o chamara. Mas já se aproximava sem me dar tempo pra sofrer com a inquietação. Lhe percebi no olhar um. momento de intensa procura. Disfarçou dispondo milhor uma cadeira. Limpou o mármore limpo da mesa mostrando o punho suficiente. Muito calmo, arrastando o gesto.

— O senhor desejaria... cigarros?... fosforos!

Isso. Queimara fazia pouco meu último fosforo. Em breve lá fora talvez no bonde talvez na: Atlantica sem charutarias metendo na boca o cigarro me faltaria fogo. Nem era propriamente a ante-sensação da contrariedade que me anulava o bem-estar atual e me deixava assim quasi infeliz.

Era a falta imediata de fosforos mesmo sem vontade de fumar. O fumador carece de fosforos á mão mesmo que não esteja pra fumar. Carece de fosforos. Só isso. Lá vinha êle com os fosforos. Rasgara o sêlo que tanto impertina quando a gente abre caixa nova. Fazia a caixeta correr no resguardo me livrando assim de inúteis pequenininhos esforços futuros. Fiquei completamente feliz. Jantei bem. Fui no cinema. Beijei com os olhos todas as mulheres que encontrei e.

Genial garçon! Fosse eu rico êle seria meu, meu pra sempre! meu até a morte!...

Incompetência pra adivinhar os fosforos eis o principal defeito do Kelner alemão. Nunca desejará pela gente. Jamais em tempo algum ha-de ajudar a gente a querer. Fica sentado em cima dum rochedo qual junto dum penedo outro penedo, mudo loiro frio, muito loiro e frio... Não nego tenha qualidades servis. E’ mesmo quasi sempre solicito e discreto. Mas duma solicitude que irrita e discreção que fere.

Quanto mais admiráveis os garçons franceses!

Não falo algora do criado inglês, Phipps, entidade romanesca, severo e absolutamente idiota. Impassivel. Detesto o criado portuga, burrissimo e colocador de pronomes. Abomino o espanhol, pegajoso

esguio, frequentemente de olhos verdes. O italiano seria bem mais apreciável mas tem unhas sujas — qualidade mais que inútil pra dispor sobre a mesa talher prato e a sensualidade traiçoeira das pastelarias.

A França é a terra dos poetas clássicos e dos garçons geniais. Olhe como êle se multiplica liquefaz e transcende a desordem escura da vida subjugando-a metodizando-a. Nada tem de mais clássico na França que a bem composta servilidade do garçon. A França cnou o garçon. A própria França é o garçon da humanidade. Veja a literatura dela e artes todas. Onde o Shakespeare que revela? o Dante que domina? o Cervantes que descobre? o Dostoiewsky que acabrunha? Onde o Rubens que incendeia? o Miguelanjo que alucina? o Mozart que diviniza? Não. Porem sob a capa amarela encontraremos o adivinho dos fosforos. “Un peu de chaque chose e rien du tout, a la françoise” não? Montaigne... Tem de tudo em dose humana e comedida. Divinatória solicitude, abundancia amornante, discreção camarada. Racine e Colette, Ingres e Delacroix Couperin e Massenet. Claridade risonha, felicidade e scepticismo, morte dos deuses, morte dos mistérios e da bruma, meio-termo. Meio-termo! Afastamento dos angustioso e do incomensuravel. Medida. Ordem. Clareza. Claridade!

França, filha unica da Grécia! Garçon, filho de lavadeira! Esta alimpou da truculência e misticismo barbaro da Asia a roupa branca que pelos séculos dos séculos resguardará de chuva e frio a epiderme da humanidade pensativa. Lavou genialmente. Linho mais alvo que Sócrates, Platão, Aristóteles não tem. Mas não basta a roupa não. O garçon veio preparar a janta suculenta e vária com pratos pra todos os estomagos e vinho pra todas as guelas. Riqueza carinho e comedimento. Curiosidades pra todos os curiosos, mediana calma pra todos os agitados, duchas quentes e duchas frias. Duchas escocesas. E sobretudo maravilhosamente o descobrimento dos fosforos... Eu te venero, França I ôh servidora ideal, garçon da gente!...

— Fraulein... que foi que houve, heim!

E ficou rubro rubro da coragem.

— Quando, Carlos?

Ele envergonhadíssimo. E ela não ajudava esperando ... Por último inda repetiu escangalhando o menino:

— Quando?

Ele mentiu:

— Pensei que você estava doente. Não me deu lição ontem...

— Estive doente, Carlos.

— Já sarou...

— Já. Continue a lição. Não houve nada. Futuro:

1/1
Menu

Fazer anotação