Bloco III Amar, verbo intranzitivo · Capítulo 3 de 10
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Bloco III

Fraulein tinha poucas relações na colonia. Achava-a muito interesseira e inquieta. Sem elevação. Preferia ficar em casa nos dias de folga relendo Schiller, canções e poemas de Goethe. Porém com as duas ou tres professoras a que mais se ligava pela amizade da instrução igual discutia Fausto e Werther. Não gostava muito dêsses livros. Porém tinha a certeza que eram obras-primas.

Também com essas amigas alguns camaradas, um pintor professores saia nalgum domingo raro em piqueniques pelo campo. A’s vezes também o grupo se reunia na casa de Fraulein Kothen professora de piano linguas e bordados. Depois do café embaçado com um pingo arisco de leite a conversa mudava de alegria. Todos sinceros. E de Wagner de Brahms de Beethoven se falava. Uma frase sobre Mahler associava á conversa a idea de política e dos destinos do povo alemão. O tom baixava. O mistério penoso das inquietações baritonava aquelas almas inchadas de amor pela grande Alemanha. Frases curtas. Elipses. Queimava cada lábio, saboroso, um gôsto de conspiração. Que conspiram êles? Sossegue, brasileiro. Não conspiram

nada. Mas a França... Tanta parolagem bombástica, Humanidade, Liberdade, Justiça... Não sei que mais! E estraçalhar um povo assim... Lhe dar morte lenta... Porquê não matara duma vez quando pediu armistício o invencido povo do Reno?— die Fluten des Rheines.

Schützen uns zwar, doch ach! was sind nun

Fluten und Berge...

Jenen schrecklichen Volke, das wie ein Gewitter daherzieht!... Versos de Goethe não faltam na ocasião. Fremiam de amor. Não conspiravam nada. Desconversava um pouco a sociedade.

Porém um pouco só porquê alimentava aqueles exilados a confiança do futuro. Por isso criticavam com justeza a figura do Kaiser. Todos republicanos. Porquê a Alemanha era republicana. Mas ao concordarem que o Kaiser devia ter morrido não é que ecoa na voz deles insopitavel quasi soluçante o pesar por aquele rei amado, rei tão grande, morto em vida e de morte chué!

— Devia morrer!...

— Devia morrer.

Esconde as lagrimas, Fraulein. E’ verdade que são duas apenas. Os olhos vibram já de veneração e entusiasmo sem critica. Alguém no silêncio fala da. vida e obras de Bismark. Frau Benn trouxe a citara. Pois cantemos em côro as canções da velha

Alemanha. Vibra a sala. O acorde admiravel sobe lentamente, se tranforma pesadamente, cresce cresce, morre aos poucos no pianissimo grave cheio de unção. Os homens cantavam milhor que as mulheres.

Levara as meninas na missa. Ao voltar por desfastio dominical perturbara o sono egipicio da biblioteca de Sousa Costa. Viera pro jardim sob a pergola entender aplicadamente uma elegia de Camões. O Sol de Dezembro escaldava as sombras curtas. No vestido alvissimo vinham latejar as frutinhas da luz. O rosai estalava duro gotejando no ar um cheiro pesado que arrastava.

Carlos descera do bonde e entrava no jardim. Vinha do clube. Fraulein vira êle chegar como sem ver escondida na leitura. Ele hesitou. Enveredou prá pergola.

— Bom dia, Fraulein!

— Bom dia Carlos. Nadou muito?

— Assim.

Agora sorria com êsse sorriso engeitado dos que não agem claro e... procedendo mal, porquê? Passara a perna esquerda sobre a mesa branca semi-sentado. Balançava-a num ritmo quasi irregular. Quasi. E olhava sobre a mesa uma folha perdida com que a mão brincava. Os desapontados se deixam olhar. Fraulein examinou Carlos. Essa foi

-sem que pra isso tivesse uma razão mais forte a •imagem dele que conservaria nitida por toda a vida. O menino derrubara o braço desocupado sobre a perna direita retesa. Assim, ao passo que um lado do corpo rijo quasi reto dizia a virilidade guapa duma fôrça crescente ainda, o outro apoiado na mesa descansando quebrado em curvas de braço e joelho tinha uma graça e doçura mesmo mulheris.

Jovialidade!

De repente entregou os olhos prá moça. Trou•xe-os de novo prá brincadeira da folha e da mão.

Fraulein sabia apreciar tanta meninice pura e tão sadia. Felizes ambos nessa intimidade.

— Vou trocar de roupa!

Na verdade êle fugia. Não tinha ainda a sciencia de prolongar as felicidades. Talvez nem sou-besse que estava feliz. Fraulein sorriu pra êle inclinando de leve a cabeça bruna manchada de Sol. ■Carlos se afastou com passo marinheiro balançado bem apoiado no chão. A cabeça bem plantada na touceira do sueter. Entrou na casa sem olhar pra trás.

Mas Fraulein o enxerga por muito tempo ainda ■se afastando. Vitorioso. Sereno. Como um jovem

Siegfried.

Depois as crianças foram na matinê do RoyalEstou falando brasileiro. Fraulein acompanhou-asCarlos acompanhou. Acompanhou quem?

— E’! Você nunca vinha na matinê e agora vem só pra amolar os outros! Vá pro seu futebol que é milhor! Ninguém carece da sua companhia. ..

— Que tem, Maria, eu ir também!

— Olhe o automovel como está! Machuca toda o vestido da gente!

Com efeito o automovel alugado é pequeno pra cinco pessoas. Se apertaram um pouco. E como sãojuntinhas as cadeiras do Royal!

Carlos não repara que tem entreatos nos quais os ra-pazotes saem queimar o cigarro, engulir o refrêsco. Si êle não fuma... Mas não tem rapazoteque não goste de passar em revista as meninotas. Carlos não fuma. Se deixa ficar bem sentadinhoPouco se mexe. Olha sempre pra diante fixo. Vermelho. Distraído. Isso: quebrado pelos calores deDezembro. Nada mais razoavel. O espantoso é perceber que ela derrubou o programa. Ergue-o com servilidade possante.

— Está gostando, Fraulein?

Ao gesto de calor que ela apenas esboça faz: questão de guardar sobre os joelhos o jérsei verdeTudo com masculina proteção. Isso a derreia. Como está quente! O certo é que o corpo dela ultrapassa o limite da cadeira. Todo o mundo se queixa.

das cadeiras do Royal. Ha, talvez me engane, um contacto. Dura pouco? Dura muito? Dura toda a matinê. Vida feliz foge tão rapida 1... Principalmente quando a gente acompanha uma senhora e tres meninas. De repente Carlos quasi abraça.

Fraulein debruçando pra ver si do outro lado dela as irmãzinhas, portem-se bem, heim!... Compra; balas. Ajuda as meninas a descer do automovel na volta.E tão depressa que ainda paga o motorista, antes de Fraulein. Subindo a escada por que arroubos de ternura não sei abraça de repente Maria;

Luisa, lhe afunda uns lábios sem beijo nos cahelos.

— Ai, Carlos! Não faça assim! Você me machuca!

Desta vez êle não machucou. Machucou sim»

Porém nas epidermes da vaidade que Maria Luisa se pensa mocinha e se quer tratada com distinção.

Porém o menino já está longe e agora havemos de segui-lo até o fim. Entrou no quarto. Mais; se deixou cair sem escolha numa cadeira qualquer.

A boca movendo numa expressão de angustia divina. Querería sorrir... Querería quem sabe? um pouco de pranto, o pranto abandonado faz muitos, anos, talvez agora lhe fizesse bem... Nada disso.

O romancista é que está complicando o estado-dealma do rapaz. Carlos apenas assunta sem ver o* quadrado vazio do céu. Uma final sublime estranha

sensação... Que avança aumenta... Sorri bobo no ar. Pra não estar mais assim esfregando lentamente fortemente as palmas das mãos uma na outra aperta os braços entre as pernas encolhidas musculosas. Não poude mais. Faltou-lhe o ar. Todo o corpo se retesou numa explosão. Pensou que morria. Pra se salvar murmura:

— Fraulein!

Baixam rápidos do Empireo os anjos do Senhor. Asas, muitas asas. Tatalam produzindo brisa fria que refresca as carnes exasperadas do menino. As massagens das mãos angélicas pouco a pouco lhe relaxam os musculos espetados. Carlos se larga todo em beata prostação. Os anjos roçam pela epiderme dele esponjas celestiais. Essas esponjas apagam tudo, sensações estranhas, ardencias e mesmo qualquer prova de delito. Na alma e no corpo. Ele não fez por mal! São coisas que sucedem. Porém apesar de sozinho Carlos encafifou.

Acham muita graça nisso os anjos lhe passando nos olhos aquela pomada que deixa seres e vida •tal-e^jual a gente quer.

São Rafael nos céus escreve:

N.o 9.877.524.953.407:

Carlos Alberto Sousa Costa.

Nacionalidade: Brasileiro.

Estado social: Solteiro.

Idade: Quinze (15) anos.

Profissão: —

Intenções: —

Observações extraordinárias: — “REGISTRO DO AMOR SINCERO”

Outro dia Fraulein voltou duma dessas reuniões na casa da amiga com um masso de revistas e alguns livros, üm médico recemchegado da Alemanha e convicto de Expressionismo lhe emprestara uma coleção de Der Sturm e obras de Schikele,

Franz Werfel e Casimiro Edschmid.

Fraulein quasi nada sabia do Expressionismo nem modernistas. Lia Goethe, sempre Schiller e os poemas de Wagner. Principalmente. Lia também bastante Shakespeare traduzido. Heine. Porém

Heine caçoara da Alemanha. Lhe desagradava que nem Schopenhauer. Só as canções. Preferia Nietzsche mas um pouquinho só. Era maluco, diziam.

Em todo caso Fraulein acreditava em Nietzsche.

Dos francezes admitia Racine e Romain Rolland.

Lidos no original.

Seguiu página por página livros e revistas.

Compreendeu e aceitou que nem alemão mediocr& aceita primeiro e depois compreende. O que existe deve ser tomado a serio. Porquê existe. Aquela procissão de imagens afastadissimas e continuo adejar por alturas filosóficas metafísicas, aquela eterna grandiloquência sentimental... E a sintese, a palavra sôlta desvirtuando o arrastar natural da língua. .. De repente a mancha realista ver um bombo pam! de chofre... Eram assim. Leu tudo. E voltou ao seu Goethe e sempre Schiller.

Si dessem pra ela nova coleção de mensario inovador, mais livros, leria tudo página por página. Aceitaria tudo. Compreendería tudo? Aceitaria tudo. Pra voltar de novo a Goethe. E sempre Schiller.

O caso evolucionava com rapidez. Muita rapidez pensava Fraulein. Mas Carlos era ardido. Tinha, pressa. Por outra: não é que tivesse pressa exatamente porem não sabia somar.

A Aritmética nunca foi propícia aos brasileiros. Não somamos coisa nenhuma. Das quatro operações unicamente uma nos atrai, a multiplicação. Justamente a que mais raro frequenta os sucessosdêste mundo vagarento. Multiplicamos tudo. Inútil avisarem que a vida só comporta somas e principalmente subtrações... Nós multiplicamos. Desde •eras de colonia. A distribuição das sesmarias, o bandeirismo, o mapa se gretando em estados da -segunda metade do século dezoito pra diante, a conjuração mineira, 1822, treze de Maio, proclamação antecipada da Repüblica, constituição pra estrangeiros... Tudo multiplicações. Aliás a natureza da nossa terra vive a nos encaminhar pra êsse delirium multiplicans. Só nos falta o Gaurisancar. "Que penal Temos na fauna a sucurijú. e o peixeboi e si não caçamos elefantes na Amazônia — única parte do globo em que o terreno inda está em formação! — ao menos pernoitou sub tegmine dos jequitibás o mais multiplicado e gigantesco dos parnasianismos. No resto apesar da falta que nos fazem -os elefantes a natureza indigena... que eloquente multiplicar! Nossos rios são os maiores do mundo. Nossas cascatas as maiores cascatas. Nossas florestas as mais virgens. Nossas costas as mais largas. Exceptue-se a Rússia. Assim mesmo: Rússia e Japão, Brasil e Paraguai... Porém os livros dizem que nós vencemos o Paraguai... E’: a Rússia inda tem costas mais largas que as nossas. Que pena! Rio de Janeiro é a maior baia do mundo. E a mais bela. Nossas ressacas não espantam, estragam. As secas por aqui não emagrecem, matam. Oiro e pedrarias quando surgem dão pra macadamizar cidades. Por isso multiplicamos na poesia mais languorosa do Cosmos:

Si esta rua fosse minha

Eu mandava ladriá, Yayá

Com pedrinhas de diamante

Pra meu bem passiá.

Porém oiro e pedrarias quando desaparecem não voltam mais. Mas resta Rui Barbosa que foi a maior cabeça da América latina. Que digo! maior cabeça da América inteirinha, das duas Américas, de todas as Américas, não tem só uma Maria na Terra, hom’essa! Mas Rui Barbosa é um só, maior cabeça do universo em todos os tempos. Em compensação ninguém mais tem cabeça. Os exemplos se multiplicam. Ora diante de tal natureza feracissima nada mais justificável que a multiplicação sentimental. Não tem dúvida: o Brasil é o maior povo do mundo. Criança, nunca verás país nenhum como este! Nossos campos têm mais flores! Nápoles, meu pátrio Niterói te excede em galas! Patria latejo! mas é como mulher que te desejaria apertar junto ao peito e beijar bem na boca!

... como mulher que eu te desejaria apertar. .. Nossa vida tem mais amores, isso é que não tem que guerê nem pipoca! Não me alembra agora que príncipe gracioso da Igreja Romana observava sermos os brasileiros boas pessoas honestos caritativos inteligentes religiosos... “mas o sexto!” êle falava. E* um desastre isso da gente não ser omnisciente pra penetrar nos desígnios assús do Criador!

A’s vezes eu me ponho imaginando e fico admirado.

Incrivel isso de por o sexto entre os pecados mortais! Não tem nada milhor que o sexto! Não tem nada mais compatível com o brasileiro que o sexto!

A gente pode afirmar até que o brasileiro gira em. torno do sexto. Nós carecemos do sexto todos os dias e cada momento, um sexto realizado eternoinfinito imortal. Viva o sexto! O sexto é brasileiro.

E a multiplicação também.

De resto eu e o leitor já sabemos que Carlos, estragava tudo. Castigos da multiplicação. Ele compreendeu enfim devido àquele fato lamentável, apagado pela esponja dos arcanjos que gostava mesmo de Fraulein. Principiou não querendo mais sair de casa. De primeiro era o dia inteirinho na rua. Futebol lições de inglês de geografia de nãosei-que-mais e natação, tarde com os camaradas o inda por cima depois da janta cinema. Agora? Vive na sáia de Fraulein. Sempre desapontado, que dúvida! mas porém na sáia de Fraulein. Sorri aquele sorriso engeitado, geralmente de olhos baixos, cheio< de mãos. De repente fixa a moça na cara destemido pedindo. Pedindo o que? Vencendo. Semvergonha!

Mas na verdade Carlos nem sabia bem o que queria. Fraulein é que sentia-se quebrar. Tinha angustias desnecessárias, calores. Fraqueza. Em vãoo homem-do-sonho trabalhava teses e teorias. Em vão o homem-da-vida pedia vagares e método, queestas coisas devem seguir normalmente até o cume do Itatiaia.

— Fraulein, largue disso! Venha tocar um pouco pra mim!...

Voz queixosa. Voz cantante. Voz molenga.

— Não posso, Carlos. Preciso pregar estes botões.

— Ora venha!... Você ensina piano pra mim, «ensina?

— Carlos, não me incomode.

— Então me ensine a pregar botões, vá!... me dá a agulha...

— Você me perturba, menino!

— Perturba!... (risinho) Ora, Fraulein! Perturba no que! Imagine! estou perturbando Fraulein! (baixinho churriando) toca sim?... deixa de enjoamento!...

— Você é impossivel, Carlos.

Ia pro piano. Folheava os cadernos sonoros. Atacava suponhamos a op. 81 ou os Episoden de Max Reger. Aplicadamente. Não errava nota. Não mudava uma só indicação dinamica. Porém fazia milhor o diminuendo que o crescendo...

Carlos muito atento debruçado sobre o piano. Na verdade êle não escutava nada todos olhos prá pianista esperando o aceno dela pra virar a página. Pouco a pouco — não ouvia mas a música penetrava nele — pouco a pouco sentia pazes nasceníes. Os anseios adquiriam perspetivas. Tinha espaço distâncias planos calmas... Placidez.

Fraulein para. Volta prá costura. Carlos solitariamente macambúsio sem pensar em nada se afasta. Jardim. Passeia as mãos pelas folhas e flores. Agora não estraga mais nada. Considera o céu liso. Não está cansado. Incapaz de fazer coisa alguma. Maria Luisa passa. Ele estira a perna. Movimento reflexo e pura memória muscular. Maria

Luisa se viu obrigada a pular.

— Conto pra mamãi bruto!... Vá bolir com

Fraulein!

Ele apenas sorri na indiferença. Não quer agir.

Não sente o gôsto de viver. Fosse noutro momento

Maria Luisa não saia dali sem chorar. Porém Carlos -agora apenas si existe. Existirá?

Aquilo dura tempo. Bastante tempo.

Tem todo um estudo comparativo por fazer entre a naftalina Max Reger e os brometos em geral.

Agora qualquer passagem mais pequena pro «ditado. Estavam mais silenciosos que nunca. Prolongavam as lições e pelas partes em que estas se dividiam observavam machucados a aproximaição do fim. No emtanto eram horas de angústia

aquelas! Em trinta dias partira êsse bom tempinho de amor nascente no qual as almas ainda não se utilizam do corpo. Porquê nada sabem ainda. Osdois? Ponhamos os dois. Fraulein notava que desta feita era diferente. E quando a lição acabava, saindo da biblioteca, surpreendia os dois aquela como consciência de libertação. Arre! Si fosse possivel renovariam a angústia imediatamente, era tão bom!

Fraulein folheou o livro. A página cantou uns. versos de Heine. Servia.

— Esta.

Carlos voz grave quasi lassa murmurou:

Du schônes Fischermâdchen

Treibe den Kahn ans Land;

Komm zu mir und setze dich nieder^

Wir kosen, Hand in Hand.

Leg’an mein Herz dein Kôpfchen

Und furcht dich nicht so sehr;

Vertraust du dich doch sorglos

Taglich dem wilden Meer!

Mein Herz gleicht ganz dem Meere,

Hat Sturm und Ebb und Flut,

Und manche schône Perle

In seiner Tiefe ruht

— Entendeu, Carlos?

Ela repetia sempre “Carlos”. Era a sensualidade dela. Talvez de todos. Si você ama, ou por outra: si já deseja no amor, pronuncie baixinho o nome desejado. Veja como êle se moja em formas transmissoras do encosto que enlanguece. Esse ou essa que você ama se torna assim maior. Mais poderoso. E se apodera de você. Homens mulheres fortes fracos... Se apodera.

E pronunciado assim como ela faz em frente do outro, sai e se encosta no dono, é beijo. Por isso ela repete sempre como de já-hoje inutilmente:

— Entendeu, Carlos?

E êle jogando un dos tais risinhos alastrados com que desaponta sempre:

— Quasi! mas adivinhei!

Eis ai uma das coisas com que Fraulein não se dava bem. Pra ela era preciso entender sempre. Carecia de saber o significado das palavras. Sinão não compreendia mesmo. Estes brasileiros?!... Uma preguiça de estudar!... Qual de vocês seria capaz de decorar que nem eu página por página o dicionário de Michaelis pra vir pro Brasil? Não vê! Porém quando careciam de saber sabiam. Adivinhavam. Olhe agora: Que podia Carlos entender si ignorava o sentido de muitas daquelas palavras?

— Então diga o que é.

O menino meio enfiado vai vivendo:

— E’ que eles ficaram sentados na praia de

mãos dadas muito juntinhos. Depois êle deitou a cabeça no ombro dela. (Carlos abaixava a dele e já não ria) Depois... (lhe deu aquela vergonha de saber o que não sabia. Ficou muito azaranzado). A segunda estrofe não entendo nada! Vertraust... Quê que é vertraustl... Mas depois o coração deles principiou fazendo que nem o mar...

— Deles não, Carlos. Dele só.

— Deles! Ganz: todos! Aqui quer dizer dos dois, dela também!

— Você está adivinhando, Carlos! Mein Herz, o coração dele parecia com o mar. Ganz gleicht: parecia, era como, tal-e-qual.

— Hmm...

Desconsolado. Sensação de pobreza, isolamento...

— Não sei mais!

— Você está falando certo, Carlos. Continue.

— O coração dele estava tal-e-qual o mar.... Em tempestade...

E de repente transfigurado numa confissão de olhos húmidos arrebatou todos os simbolos murmurando :

— Mas êle tinha muitas peloras no coração!

Queria dizer pérolas porém saiu peloras. quê que a gente ha-de fazer com a comoção!

Fraulein rispida:

— Escreva agora.

Rispida porquê de outro geito não se salvava

mesmo. Carecería pra abafar o... desejo? tampar o peito com a cabeça dele. Pampampam... Acelerado. Lhe beijar os cabelos os olhos os olhos a testa muito muito muito... Sempre. Ficarem assim!...

Sempre... Depois êle voltaria do trabalho na cidade escura... Deporia os livros na escrivaninha. .. Ela trazia a janta... Talvez mais tres meses pronto o livro sobre “O Apêlo da Natureza na Obra dos Minnesânger”... Comeríam quasi em silencio ...

Carlos também escrevia letras alheias. Afobação cada vez mais forte. Intolerável já. Como respirar? Pérolas... Praquê pérolas!... Que idea de

Heine! A hora ia acabar... As letras se desenhavam mais lentas sem gôsto prolongando a miséria e a felicidade. A fala de Fraulein sêca riscava as palavras do ditado em acidas explosões navalhando a entressombra. Acabava desoladamente:

— ... Tiefe ruht.

Se levantou libertada. Porém no papel surgia em letras infelizes “tiefe ruth”. Fraulein não poude mais, se despejou sobre o menino com o pretexto de corrigir:

— Vou escrever com a mão de você mesmo» disfarçou.

O rosto se apoiou nos cabelos dele. Os lábios quasi que, é natural, sim: tocaram na orelha dele.

Tocaram por acaso, questão de posição. Os seios pousaram sobre um ombro largo musculoso agora

impassível escutando. Chuvarada de ouro sobre a barca abandonada de Danae... Carlos... êta arroubo interior, medo? vergonha? aterrorizado! indizivel doçura!... Carlos que nem pedra. Fraulein com a mão dele escreveu em letras palhaças: “Tiefe ruht”.

Não tinham mais nada pra se falar. Não tinham.

Quando sairam da biblioteca pela primeira vez uma desesperada felicidade de acabar com aquilo.

Porem só Carlos desta vez é que não sabia bem direito o que era o “aquilo”.

Pancadas na porta de Fraulein. Virou assustada resguardando o peito. Abotoava a blusa:

— Quem é?

— Sou eu, Fraulein. Queria lhe falar.

Abriu a .porta e dona Laura entrou.

— Queria lhe falar. Um pouco...

— Estou ás suas ordens, minha senhora.

Esperou. Dona Laura muito nervosa. Não sabia principiar.

— E’ por causa do Carlos...

— Ah... Sente-se.

— Não vê que eu vinha lhe pedir, Fraulein,

’pra deixar a nossa casa. Acredite: isto me custa muito porquê já estava muito acostumada com ■você e não faço má idea de si, não pense! mas...

Creio que já percebeu o geito de Carlos... êle é tão criança!... Pelo seu lado, Fraulein, fico inteiramente descansada.... Porém êstes rapazes...

Carlos...

— Já vejo que o senhor seu marido não lhe -disse o que vim fazer aqui.

Dona Laura teve uma tontona. Escancarou jolhos parados:

— Não!

— E’ lamentável, minha senhora, o procedimento do senhor seu marido. Evitaria esta explicação desagradavel. Pra mim. Creio que prá senhora também. Mas é milhor chamar o seu marido. Ou -quer que desçamos pro hol?

Foram encontrar Sousa Costa na biblioteca.

Ele tirou os olhos da carta ergueu a caneta vendo -elas entrarem.

— O senhor me prometeu falar pra sua esposa a razão da minha presença aqui. Lamento profunmente que o não tenha feito, senhor Sousa Costa.

Sousa Costa encafifou. Desacochado pela própria falta. Riscou uma desculpa sem inteligência:

— Queira desculpar, Fraulein. Vivo tão atribulado com os meus negocios! Demais: isso é uma coisa de tão pouca importância!... Laura, Fraulein ■tem o meu consentimento. Você sabe: hoje êsses

mocinhos... é tão perigoso!- Podem cair nas mãos de alguma exploradora!, A cidade... é uma invasão de aventureiras ágora! Como nunca teve! COMO NUNCA.TEVE!... Depois isso de principiar é tão perigoso! Você compreende: uma pessoa especial evita muitas coisas. E viciadas! Não é só bebidas não! Hoje não tem mulher-da-vida que não seja eterómana, usam morfina... E os moços imitam !' Depois as doenças!... Você vive na sua casa nãosabe... é um horror! Em pouco tempo Carlos estava sifilitico e outras coisas horríveis, um perdido t E’ o que te digo, Laura, um perdido! Você compreende... meu dever é salvar o nosso filho... Por isso! Fraulein prepara o rapaz. E evitamos quem sabe? até um desastre!... UM DESASTRE!

Repetia o “desastre” satisfeito por ter chegada no fim da explicação. Passeava de canto a canto. Assim se fingem as coleras e os machos se impõem enganando a própria vergonha. Dona Laura sentara-se numa poltrona, maravilhada. Compreendia. Porém não juro que compreendesse tudo. Aliás isso nem convinha pra que pudesse ceder logo. Fraulein estava indignada. Que diabo! atos da vida nãoé arte expressionista que pode ser nebulosa ou sintética. Não percebera bem a claridade latina daquela explicação. 0 método germanicamente dela e didatica habilidade no agir não admitia tal fumarada de palavras desconexas. Aquelas frases sem dicionário nem gramatica irritaram-na inda

mais. Queria exigia sujeito verbo e complemento.

Só uma coisa julgara perceber naquele ingranzéu, e que engraçado! justamente o que Sousa Costa> pensava mas não tivera a intenção de falar: pagavam só pra que ela se sugeitasse ás primeiras fomes amorosas do rapaz.

Este circunloquio das “fomes amorosas” fica bem não acha? Evita o libido da nomenclatura psicoanalista, antipático vago masculino e de duvidosa compreensão leitoril. As fomes amorosas são muito mais expressivas e não fazem mal pra ninguém. Isto é: vir na casa de Sousa Costa unicamente pra se sujeitar ás tais de Carlos o homem-dosonho de dentro de Fraulein vê nisso um insulto e principia a chorar. Sem um gesto, bem plantadinha nos pés com a nobreza que a indignação nunca negou pra ninguém, Fraulein discursa:

— Não é bem isso, minha senhora. (Se dirigia pra dona Laura porquê o homem-da-vida estava um pouco amedrontado com o geito de Sousa Costa.

E também, sejamos francos, isto é, parece... Será que conservava uma esperancinha? Aquilo inda podia se arranjar... Homem! ninguém o saberá jamais). Não é bem isso, minha senhora. Não sou nenhuma semvergonha nem interesseira. Estou na exercício duma profissão. E tão nobre como as outras. E’ certo que o senhor Sousa Costa me tomou pra que viesse ensinar a Carlos o que é o> amor e evitar assim muitos perigos si êle fosseobrigado a aprender lá fora. Mas não estou aqui apenas como quem se vende. Isso é uma vergonha!

— Mas Fraulein não tive a intenção de!

— ... que se vende! Não. Si infelizmente não sou mais nenhuma virgem também não sou... não sou nenhuma perdida.

Lhe inchavam os olhos duas lagrimas de verdade. Não rolavam ainda e já lhe molhavam a fala:

— ... E o amor não é só o que o senhor Sousa Costa pensa. Vim ensinar o amor como deve ser. Isso é que eu pretendo pretendia ensinar pra Carlos. O amor sincero elevado cheio de senso prático, sem loucuras. Hoje, minha senhora, isso está se tornando uma necessidade desde que a filosofia invadiu o terreno do amor. Tudo o que ha de pessimismo pela sociedade de agora! Estão se animalizando cada vez mais. Pela influencia ás vezes até indireta de Schopenhauer, de Nietzsche... Embora sejam alemãis. Amor puro sincero, união inteligente de duas pessoas, compreensão mutua. E o futuro de paz conseguido pela coragem de aceitar o presente.

Rosto polido por lagrimas saudosas. Quem vira Fraulein chorar!...

— ... E’ isso que eu vim ensinar pra seu filho, minha senhora. Criar um lar sagrado! Onde é que a gente encontra isso agora?

Parou arfando. “Lar sagrado” lhe fizera resplandecer o castanho dos olhos num lumeiro de anseios. Se aproximava da santa sob a figura enérgica da enfermeira. Mas convicção protestante, nobilissima não discuto porém sem a latinidade que dá graça e objetiva o calor da beleza sensual. Lembrou ainda outra vez indignada:

— Foi isso que vim ensinar pra seu filho e não me entregar. Mas vejo que sou tomada por outra mulher aqui. Deixarei a sua casa amanhã mesmo, minha senhora. E penso que não tem mais nada pra me falar.

E’ certo que Fraulein tinha esclarecido muito o que viera fazer na casa deles porém dona Laura que tinha percebido tudo com a explicação de Felizberto agora não compreendia mais nada. Afinal o que era mesmo que Fraulein estava fazendo na casa dela?

Fraulein esperou um segundo. Nada tinham pra lhe falar aqueles dois. Cumprimentou e saiu. Subiu pro quarto. Fechou-se. Tirou o casaco. O pensamento forte imobilizou-a. Comprimiu o seio com a mão ao mesmo tempo que amarfanhava a cara dela uma dor vigorosa. Incompreendida assim! Foi um minuto apenas. Dominou-se. Tinha que despirse. Continuou se despindo. E Carlos?... Minuto apenas. Varreu o carinho. Prendeu com atenção os cabelos. Lavou o rosto. Se deitou. Um momento no escuro os olhos inda pestanejaram pensativos.

Não tinha nada com isso: Haviam de lhe pagar os oito contos. Mas agora tinha que dormir» dormiu.

Aquilo de Fraulein falar que “hoje a filosofia invadiu o terreno do amor” e mais duas ou tres largadas que escaparam na fala dela só vai servir pra dizerem que o meu personagem está mal construido e não concorda consigo mesmo. Me defendo já.

Primeiro: Que mentira, meu Deus! dizerem Fraulein personagem inventado por mim e por mim construído! Não construí coisa nenhuma. Um dia Elza me apareceu sem que eu a procurasse. Nem invocasse pois de espiritismos não me valho. Sou incréu de mesas volantes e de médiuns dicazes. Aquelas não valem um tangará. Quanto a médiuns dicazes — bonito adjetivo! — é sabido que escrevem sonetos de Bilac e arengas de Pedro Lessa mais piores que um distico de versejadores de terceira plana ou exordio de oradores diplomandos em sciencias e letras. Ora si os discursos das faculdades jurídicas como vates de segundo grau já são cacetes se imagine o que engendra a facundia sonâmbula dos médiuns e dos espiritistas em geral t Dicazes.

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