Bloco VII Amar, verbo intranzitivo · Capítulo 7 de 10
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Bloco VII

Gripe danada. Apanhara-a naquela tarde fria brincando de familia com as irmãs.

Raciocinemos: O brinquedo durava fazia uma hora quando Carlos veio desmanchou a comidinha e machucou o sentimento das meninas. Fez mal. Isso não posso discutir: Carlos fez mal. Si chegasse porém no princípio da familia teria escangalhado tudo do mesmo geito. Porém Maria Luisa não apanharia a rebordosa. O raciocínio me deixou consternado. Não devia te-lo feito. Imoralissimo. Mas também agora a minha consternação é inútil, não adianta nada. A dos Sousa Costas é bem razoavel. Permite acentuar o lado bom daquela gente e uma linda união familiar. Brasileira. Portanto registremos com largueza: Estão consternados com a doença de Maria Luisa: Sousa Costa pai, dona Laura Carlos Laurita • Aldinha. Não: Fraulein também. E Tanaka e a criada-de-quarto. A cozinheira e o motorista. Nem assim o rol se completa. O proprio lar paredes janelas, vocês repararam como as luzes vivem menos impetuosas agora? as plantas a comida... Consternação geral. Sousa Costa caminha léguas do vestibulo até a porta do quarto da filha. E como anda silencioso! êle que pesa nos passos fortes bem gosados... Lê que todo o lote novo de novilhas foi inscrito no Herd-Book sem rejeição duma só. Bota a carta no bolso ou deixa na escrivaninha. Diabo! aonde botei essa carta!

dirá quando puder gosar com ela. A carta existe.

Porém não sabe o que conta e aonde a pôs. Si lhe telefonassem, do clube? do clube, avisando que.

Ora deixemos de imoralidades! Sousa Costa nunca teve aventuras, nunca mais terá aventuras, todos os sacrifícios porém que minha filha sare!... Sousa Costa pensa em Deus.

— Ela dorme.

— Sossegadinha?

— Está. De certo agora vai milhorar.

A resposta veio de Fraulein sentada na porta do quarto de Maria Luisa. Quem ajuda a moça nos serviços de fora do quarto? E’ Carlos sempre solícito incansável esperando as ordens cumpridas num atimo. Dona Laura, a pobre! sentou-se na cadeira de balanço do hol agarrada nas filhas menores. Assim pensa que Maria Luisa sarará depressa com as lagrimas maternas e suspiros arrancados quasi sangrando. Deus nos ajude! E os pensamentos de dona Laura sobem ao atá pra céus muito vagos e rezam de mistura pra Nosso Senhor, santa

Maria Luisa e o Coração de Maria que é a igreja mais perto. E fica assim panema calmando as pecurruchas. Estas de tanto abrirem os olhos na espectativa medrosa esqueceram o geito de fechar as palpebras. Tem quatro pupilas dum branco azul rolando nhampans no hol.

— Mamãi, será que está doendo muito pra ela?

— Não, minha filha!

— Eu não queria que Maria Luisa sofresse» mamãi...

— Mamãi! posso dar a minha boneca de celulóide pra Maria Luisa, posso!

— Pode, minha filha.

— Mamãi, quando que eu, posso ver Maria Luisa, heim?

— Mamãi, mas depois você me dá uma boneca de louça pra mim?...

Clave de fá:

— Minhas filhas, vocês estão amolando sua mãi!

— Como vai ela!

— Sossegadinha. Está muito milhor.

Carlos, zuúm! que nem bala montado no corremão.

— Não lhe falei que não montasse mais na corremão!

— Pra não fazer bulha, papai! Ela acordou! Está com muita sêde! Fraulein falou pra você fazer um chá!

E dona Laura se transfigura. Junto da doente morrem todas as coragens dela, se põe choranda amalucada quer se mover e não atina com o que vai fazer. Porém sabe fazer chás! Ah! nenhuma das mãis dêste mundo bem doloroso fará mais perfeito o chá de canela ou de erva-cidreira! Dona Laura parte alvoroçada triunfante.

— Como vai nhã Maria Luisa?

— Está milhor, Matilde, obrigada.

— A senhora pode deixar eu preparo o...

— Eu faço o chá!

Não se ofenda, Matilde. Mãi com filha doente não pensa em ares de educação. Está certo. Dona

Laura volta com a mais carinhosamente preparada das pussangas. Sobe as escadas exaustivas. Faz questão de levar ela mesma a bebida pra Fraulein.

Só pra Fraulein que na porta do quarto lhe amolecem as pernas fica boba os olhos se cegam de lagrimas.

— Ela vai bem, dona Laura. Mais alegrinha até. E quasi sem febre.

— Deus a ouça, Fraulein! Eu espero a chicara aqui. Não tenho coragem pra ver minha filha sofrer!

E espera recurvada. Qual! assim não pode ser!

Enrija o corpo, lhe riscam fuzis de temeridade no» olhar novo, entra no quarto.

— Minha filha está milhor!

Maria Luisa tira da porcelana as fitinhas brancas dos beiços e sorri no martírio. Dona Laura petrificada. O vidro fosco da brancarana espaventa-a. Pensa que a filha vai morrer. Recebe a chicara quasi sem gesto. Emquanto Fraulein ageita de novo a doente nas cobertas parte sem dizer nada..

Mas outra vez não sabe o que a domina e move.

Bota a chicara numa cadeira qualquer, vem ajoelhar junto da filha. Rosto a rosto. Filhinha!... Em soluços convulsos parte arrebatada. Maria Luisa se espanta primeiro. Depois pretende se rir que já conhece as manias da mãi. Porem sempre fica essa dúvida...

— Fraulein...

— Que é, Maria Luisa?

— Fraulein, diga mesmo... eu vou morrer, é!

— Que idea, Maria Luisa. Não vai morrer não. Você já está muito milhor.

Tem uma raiva dessas mãis exageradas. Brasileiras. Fala com tão ferrea certeza aquele “você já está muito milhor” que Maria Luisa quasi sente-se boa. A enfermeira enxuga o rosto da menina lavado pela manha materna. Lhe dá novo arranjo nas cobertas.

— Carlos.

— Pronto, Fraulein!

— Leve essa chicara que sua mãi deixou aí.

Carlos atira um sorriso de conivência pra Maria Luisa e vai. Escrevi conivência... De caso pensado. Conivência é duma exatidão psicológica absoluta. Carlos se mostra alegre despreocupado. Não vê a doença e vai-se embora. O que não é visivel existe?

— Fraulein, fique no quarto comigo.

Não responde. Puxa uma cadeira junto da cama. Vê mais uma vez si tudo assenta na ordem. Não, Maria Luisa não carece de mais nada. Senta

e abre o livro na marca. Relê Die Weise von Liebe und Tod. Se embrenha na melodia deliciosa pronta a abandona-la a qualquer momento sem a minima impaciência.

São duas semanas de maternidade pra ela. De maternidade integral. Teve momentos gm que parecia mãi de todos talqual o dedo maior da mão da gente. Até de Sousa Costa. Todos pareciam nascer dela, dela se alimentar. Menos Carlos, recalcitrante, com intuitiva repugnância por incestos.

Servo cachorro-de-guarda isso sim. Nada pedia.

Sossegara. Porem como servo estava sempre ali.

Como filho nunca! Maria Luisa então nem podia ver Fraulein se afastar. Não tanto por causa do bem-estar. Mas me deixem que afirme: Fraulein era uma certeza de salvação. E sabia se dedicar.

Quando preciso o sono se adia pra noites mais desimpedidas. Muito bem. Não direi que ela gostasse da menina não. Pelo contrário, lhe tinha certa antipatia. Muito natural pois si raramente adoecia.

Porém apresentou-se a enfermeira sonhada: severa sadia solicita pra usar só esses. Maria Luisa fixa os olhos nela. Fraulein lê. Fraulein vela. A doentinha redorme encorajada. Quando acordar traz fôrças novas. Que coisa misteriosa o sono! Só aproxima a gente da morte pra nos estabelecer milhor dentro da vida... Reque... reque... atrás. Fraulein nem se volta. Sabe que Carlos vela também.

Porém porquê não se voltou! Deitada sobre o asOriginal 447 Q urigmai rro

soalho no desvão da porta a cabeça dele. Isso Fraulein havia-de ver. E que dois olhos grandes a adoravam.

Os frios de Julho se temperavam mais agradavelmente no Leme e as brisas salinas mornas confortáveis convidavam pra caminhadas de branco na praia. Plena felicidade pros amantes. Plena? Fraulein dorme no quarto de Maria Luisa. Porém pelas manhãs depois do banho esta se deixava ficar no terraço do hotel quasi cansada no convalescer feliz desapressado. Então Fraulein saía com as pequenas. Carlos acompanhava as irmãs. Perfeitamente. Andava-se rápido no começo pra diante. As crianças corriam falando alto discutindo. Que discutiam? Discutiam incansavelmente a fôrça das ondas. A fôrça das ondas. Você está escutando bem? As crianças discutiam incansavelmente todo santo dia o ponto da praia que as vagas irão atingir. Porquê discutem assim? Por divertimento. Por jôgo, brincadeira. Pra adivinhar. Só pra isso. E depois ficavam maravilhadas porquê erravam. Que bonito! luta infantil inútil sem meta... Coisa de muita boniteza. Brincalhonas!

Não e não. Infelizmente. Nem estavam maravilhadas nem era inútil o brinquedo. Repare nos olhos de Aldinha, Laurita de lábios trementes.

— Chiíi! Laurita! aquela!!... Aposto que chega até aqui!

— Não chega!

— Você quer ver como chega!

E vinha o triunfo de Laurita:

— Está vendo!... Eu disse que não chegava!

Por jogo discutem as crianças. Mas também por avidez e briga. Aldinha sentia-se batida e sofria. Muito? Muito. Porém depois gosava com a reflexão: Antes assim! si a onda chegasse até junto dela, meu Deus! teria medo... Antes assim!

Substituamos êstes seis anos por trinta-e-cinco anos. Permissivel e facil substituição pois que são crianças sinão homens pequeninos? Que são homens sinão crianças multiplicadas? Pois o homem feria não jâ temor porém receio que é a manifestação ativa do temor. O medo se reconhece inerme.

O receio se defende e reage. O homem tem receios e reage. Reage porquê sendo criança multiplicada por crianças tem a fôrça que provêm dessa penca de piás ajuntados. A união faz a fôrça. Consciente dessa verdade o homem reune as crianças dele em assemblea e discute o alcance das ondas. Estas sim: vão e vêm por brincadeira felizes e inconscientes. Porém como o homem se arreceia da brincadeira delas a assemblea decreta a construção dos diques. Muito bem! Salve-se a humanidade! E’ imprescindível que nenhum vagalhão atinja mais que tantos metros de praia. Por isso a França inscreveu nas armas dela tão manchadas como as das outras nações: E’GALITE’. Ah, Laurita, Aldinha, vosso brinquedo me melancoliza... Não sois, meninas, sinão multiplicandos e multiplicadores de cabelos á americana! Brincais... O producto brinca também... Mas não brincais por brincadeira ... Brincaes por treino exercendo em diminutivo a angustiosa adivinhação da existência.

E a gente... os que no século vinte brincamos... Fomos procurar na brincadeira das Aldinhas a fórmula encantada do brinquedo sem razão, livre da vida, unicamente dando sensações de prazer... Está escutando? Nem siquer “arte pela arte” outra máscara egoistica da ambição, porém o gôso puro maravilhado sem alegrias nem sofreres terrestres, terráqueos! sensação livre unicamente artística extase divinização desinteressada alem das ansias práticas. Lauritas, vosso brinquedo me melancoliza... Aldinhas, nós errámos todos juntos! A culpa não é nossa. A culpa é das assembleas. E também porquê nós outros, os piás multiplicados, nos baseámos com excesso nos laboratórios de experiencia esquecidos dos lábios trementes e do olhar cúpido. Se deu então o grande receio dos homens. E principiou a pavorosa separação. Dique. Dum lado a humanidade que dá ou nega seus amores e aplausos. Do outro lado os brincalhões os artistas sem tema brincando fora da vida. A humanidade estava muito acostumada a sofrer

e só via na arte um bom (mau) conselho pra cultivar a dor. Alem disso, sejamos sinceríssimos: a vida é uma horizontal (linha horizontal) muito interessante muito bela riquíssima dá presentinhos a todo instante pros gigolôs dela. Muito facil é a vida pra que a possamos abandonar. Mas então êsses brincalhões do século vinte que abandonaram tantas delícias e convites por demasiado desinteresse, se fizeram uns santos! Qual santos! se tornaram infecundos isso sim. Essa a verdade verdadeira. Virgens. Porem que valor pode ter essa virgindade ascencional diante da vida que é uma horizontal (linha) que tudo iguala aplaina e quer se reproduzir e perpetuar protegida das ondas?!...

Ah! não posso mais ficar desta parte do dique! Não sou onda! Sou um afogado! Me acudam! Tenho saudades da vida! Ela é mais sábia nos amores!...

Nela quero gosar soíjrer ser negadb, aplaudido vencer perder insultar odiar amar sofrer chorar despresar aporrinhar fingir amar detestar sofrer ferir me ferir me envenenar envenenar morder beijar amar sofrer amar abraçar mentir suportar aguentar tolerar por dispor querer sofrer amar amar pecar cantar gritar berrar... E quero também por minha vez em terra firme adivinhar são no sêco e a salvo pra usar unicamente esses a fôrça vária das ondas. Eis-me dentro da humanidade.

Outra vez reintegrado na vida. Outra vez em chãos terráqueos. Saltei o dique. São sequinho a salvo

da Silva escrevo nas minhas armas as letras francesas E’GALITE’ e me ponho avidamente a adivinhar o alcance dos vagalhões. Porém... Porca la miséria! Pois não é que principia a me amargar uma saudade desses palhaços do outro lado e que ponho-me desejando de novo brincar as palhaçadas infecundas dêsses pândegos! Ah! tudo isso me inquieta e me melancoliza... Tenho noites de muito verão em que os penambís pererecas das pálpebras tlá-tláa... insones não param... Pra que lado vou? Praquê e pra quem caminho dentro das picadas da Terra? Estou inquieto... A alegria já me abandona ás vezes... Sofro.

Sofro. Me fiz por isso filosofo que é um geito rápido da gente se iludir. Me fiz cinico e a modos que assim espanto os males. Porém a inquietação de alma é uma dor-de-dente. Só passa com a alavanca odontologica. Por isso continuo a sofrer. Quero chorar. Não sei mais. E tenho vergonha de mim. E tenho medo do dentista!... Que fazer!...

Ora não faz mal!... Sou homem-feito, sou curumins em assemblea: é natural que tenha os meus receios pois que Laurita Aldinha êsses homens pecurruchos têm os seus medos também!

0 mar mapiava que nem boca malcriada lançando o guspe da espuma pro céu. O andar germânico rápido de todos aos poucos se latinizava. O passeio de função virava invenção. Fraulein abaixava a cara. Disfarçava um pudor inexistente com

«êsses geitos do pé atingindo conchas entressepultas pisando o rastro das meninas adiante. E falava de .amor. Hoje repisa o assunto da vespera. Carlos carecia de reconhecer que no amor, sem sacrifício mutuo não tem felicidade nem paz, não é? Este capítulo dava sempre desgostos pra ela. No emtanto estava certa de que tinha razão. E se esmerava eloquente. Até contava o caso de Hermann e

Dorotea. Porém não impressionava nunca os discípulos. Aceitavam com facilidade, isso aceitavam.

Concordavam. Olhavam pra ela francos, olhos rasgados com o luar da abnegação, ôhl sim! me sacrificar por ti!... E chegava o malentendido. Um menino alemão é possível que entendesse bem mas éstes brasileiros húmidos... Não se lembravam mais da felicidade comum nem da tranquilidade do lar. Se sacrificar!... Era o sacrifício por ela, pela amada, isto é, pela alma da amada! Era o que entendiam éstes brasileiros húmidos. Chegava o instante do exemplo. Fraulein mostrava um sacrifício, um qualquerzinho, primeiro a chegar, abstinência de prazer por muito tempo, um dia.

Cairam na esparrela, tinham que ceder. Numa obediência escolar. Imóveis, invernos, tiriricas por dentro. Depois se aproximavam dela com alguma timidez, não tem dúvida, desapontados sorrindo. E pediam. Relavam nela femininos que nem gatos e pediam. Pediam com tanta graça punham tanta humildade (humidade) no pedir, tanta pobreza...,

Que tristura sorridente caia dos olhos deles! Porém frágeis implorantes assim enlaçavam a moça os déspotas. Fraulein se abatia. Recusava. Os déspotas apertavam. Fraulein tinha uma fraqueza. Tão gentil o pedido, tão envergonhado!... Aqueles braços vencedores, ôta! como apertavam... Olhos tão cheios dela entregues... Cedia. Seria monstruoso não ceder. Amoleciam-se os braços dela já pegajosos pro enlace e. Outras vezes emperrava na recusa. Seria monstruoso não recusar. Pois os rapazes se zangavam, meu caro! Sim senhor! Falavam alto. Soltavam uma porção de bocagens. Saiam batendo a porta. Que escutassem! Antes assim, se acabava tudo duma vez! Era a desgraça. O escândalo. Antes assim! Que importava pra êles escândalo desgraça! Fraulein? Uma... Xingavam.

Cedendo ou não cedendo todas as vezes com a mesma inalterável paciência ela sofria a mesma inalterável desilusão profissional.

Passeava-se muito no Rio. Esse dia devido ás instâncias do calor Sousa Costa concordou em tomar parte na alegria da natureza. Tomar parte não. Assistir a. Chamou um automovel. Vamos fazer a volta da Tijuca!

— Laurita, venha cá. Você também, Aldinha.

Olhem: mamãi vai fazer uma visita com papai.

Demora um pouco. Por isso vocês vão com Marina passar o dia na casa de Baby e do René, ouviram?

Si ficarem bem quietinhas mamãi traz um presente da cidade pra vocês.

— Mas... mamãi! Maria Luisa também vai na visita!?

— Também, Aldinha. Vamos todos.

— Eu queria ir também!...

— Ora! Já está fazendo feio! Assim mamãi não gosta!

— Ela traz um presente pra você, Aldinha!

— E’! Porquê você vai, sabe!... E’ passeio, agora!...

— ôh, Laurita, então eu te enganava assim!

E’ visita juro!

— Deixe eu falar, Maria Luisa! Olhem minhas filhas, fica muita gente no automovel. Baby é tão boazinha...

— Mamãi traz uma caixinha-de-música pra mim!

— Trago.

Dona Laura e Sousa Costa se olham gosando.

Caixinha-de-música... E* isso: êles sempre acharam que Aldinha tem muito geito pra música. Algum genio musical de certo... — Laura, é o que te digo: vamos ter uma Guiomar Novais... falava ás vezes Sousa Costa. Que gôsto pros pais!

— Eu quero um aparelhinho de louça!

— Trago também.

Quais seriam as tendências de Laurita? Porém os pais não se preocupavam muito com as predisposições ponhamos artísticas da outra filha. São sempre assim os pais: quando as esperanças se projetam sobre um filho o resto são sombras mal reparadas. Que vivam e Deus os abençoe! Amem.

O automovel foi levar as crianças e Marina. Tres quartos de hora depois a bandeira partia. Porém até que os verdes vençam as derradeiras audacias do urbanismo tetmos tempo farto pra umas considerações. Todos subiram contentes pro automovel. Satisfeitíssimos. Mas vejo um estirão comprido entre a alegria de Fraulein e a dêsses brasileiros. Fraulein estava alegre porquê ia se rétemperar ao contacto da terra inculta, gosar um pouco de ar virgem, viver a natureza. Esses brasileiros estavam alegres porquê davam um passeio de automovel e principalmente porquê assim ocupavam o dia todo, graças a Deus! Sem automovel e boas estradas jamais conheceríam a Tijuca. Fraulein iria mesmo marchando e de pé-no-chão. Esses brasileiros iam levar o corpo se gastar. Fraulein ia levar o corpo ganhar. 0 corpo dêsses brasileiros é fechado. 0 corpo de Fraulein é aberto. Ela se igualava ás coisas da Terra. Eles se resguardavam indiferentes. Resultado: Fraulein so confundia com a natureza. Esses brasileiros sofreriam o gôsto orgulhoso e infecundo da excepção. Ponhamos Carlos de lado. O caso dele é mais particular.

Está’contente porquê Fraulein está contente. Alegra-o estar junto da amante. Só isso. E amor satisfeito. Sinão dava em poeta brasileiro. Carlos desconhece a Tijuca. Depois do passeio continuará desconhecendo a Tijuca. Em última analise pra

Carlos como pra êsses moços brasileiros em geral:

A Tijuca só é passeiavel com mulheres. Sinão: pernada bêsta. Ora pinhões! ver arvores e terras...

Si ao menos fossem minhas... cafezal...

Fraulein parecia uma criança. Criança brasileira? Não, criança alemã. Diante da natureza eu já falei o alemão também tem as suas admirações.

Dava risadas. Se virava pra olhar mais uma vez as vistas que ficavam atrás. Voltava temendo perder as novas que passavam. Mil olhos tivesse gosaria por mil olhos mil vezes mais. Aliás mesmo que fosse feia a paisagem. Gosaria quasi da mesma forma. Era o contacto da natureza que sensualizava Fraulein mais que o gôso dos belos naturais.

Nem criança! Animalzinho. Potranca na invernada, ema seriema passarinho. Os outros olhavam pra ela espantados. Quasi escandalo. Ridícula não?

Menos Carlos. Carlos se sentia orgulhoso e sorria amparando com os olhos a feliz. Como era bonita e dele só! Ela fremia. Ela vibrava e se entregava inteira aos faunescos enlaces do cheiro e da cor.

No sorriso dela tinha as contrações dum beijo sonoroso. Que se mostrasse assim amante corajosa desavergonhada e confessada da terra Carlos não tinha ciúmes. Era inteiramente normal nós sabemos. Desprezava os sentimentos subtis. Porem eu escrevi que Fraulein era o guri do grupo... Depois corrigi pra animalzinho. Estou com vontade de corrigir outra vez. Ultima: Fraulein é o poeta da exploração. Exclama assombrada ante as aguas que escachoam desabridas em arrepios de dor com as entranhas varadas pelas itás guampudas. Porém logo deixa de olhar a Cascatinha pra se extasiar diante dum arbusto. Aplaude a velocidade dos cipós. Crédula escruta o canto misterioso adonde no meio dos troncos a sombra botou o olhar. Mas que lindas folhinhas verdes! Olhe, Carlos! Carlos! que distração essa! Olhe! parecem envernizadas! Depois teve um susto sincero nas Furnas. E verdadeiramente viu anões duendes vadios. Alberico avançou pro colo dela a mão dum cacto erriçada de unhas verdes. Murmurou:

—'Carlos...

— Estou aqui, Fraulein!

— Não faça assim! podem vir...

— Ficaram no automovel, Fraulein...

— Assim não! é capaz de ter alguém por aí...

E tinha. O murmulho das aguas gargalhou um Brekekekex nasal e o monstro repelente surgindo da grota espiou a moça, como em Hauptmann.

— Que é isso, Fraulein! Estou aqui.

Se ria envergonhada.

— Olhe aquela pedra! Que frio não? Carlos...

Ele nada via de admiravel na pedra. Admirou

Fraulein. O proprio frescor êle o gosava sem saber.

Carlos apenas protegia a amada dele. Era dever.

Que-dê os encantos da natureza? o ziguezague dos ramos, o segredo das socavas? Carlos protegia apenas a amada dele. Muito bem. Voltaram silenciosos pro automovel. 0 motorista fôra chama-los. Maria

Luisa curiosa daqueles sempre-juntos, que estariam fazendo? pretextara aborrecimento. Sousa

Costa de combinação com a filha mandara chamar os dois. Isso também era demais, nas barbas dele!...

— Também, Laura você devia ter trazido qualquer coisa, sanduíches... bolachas...

— Ora essa, Felizberto! Nós passamos na cidade, você podia ter comprado!

— Tudo eu, arre!... Que vocês ficaram fazendo lá dentro!

— Nada, papai, vendo! Você não sabe o que perdeu!

Si Sousa Costa explodisse explodia ali mesmo.

Mas porém era filosofo brasileiro. Sabia que a explosão prejudica inda mais a brasilite que os trastes do arredor. Olhou pro filho com uma raiva. O automóvel debralhou. Mas nem os cabelos de Fraulein estavam mais despenteados que na vespera ou no dia seguinte. E sempre a mesma escandalosa, faladora, deslumbrada. Olhe a volta que nós fizemos ! Eu morava aqui toda a minha vida! Será que

Carlos não? Sousa Costa concluiu que não. Sorriu. Chamou o filho de bobo e se acalmou já reconciliado consigo.

Até dava dó tirar Fraulein do Excelsior. Felizmente os assentos do automóvel são tão comodos. Dona Laura bocejava refarta.

Mandou chamar os sempre-juntos. Carlos veio correndo.

— Você chamou?

— Meu filho, vamos embora! Suas irmãzinhas estão esperando...

E Carlos enfim confessou a piedade dêsses brasileiros :

— Ah, mamãi... deixe Fraulein olhar mais: um pouquinho!

— Parece que ela nunca viu uma vista bonita» coitada!

— Também na Alemanha é só neve.

— Não é, papai! E o Reno é tão cutuba! Asflorestas! Em Hamburgo tem um jardim zoologico que é o mais bonito do mundo! Tem de tudo! E Berlim então?... Aposto que você não sabe o que é Friedrichstrasse!

— Ora, é uma rua!

— Ninguém perguntou prá senhora, Maria Luisa! Deixa sim, mamãi?... Vou subir outra vez!

Encontrou Fraulein acabrunhada, com vontade de chorar. A luz delirava apressada a um vago aviso de tarde. Era tal e tanta que embaçava de.

oiro a amplidão. Se via tudo longe num halo que divinizava e afastava mais as coisas. Lassitude. Na quirirí tecido de ruidinhos abafados a cidade se movia pesada lerda. 0 mar parara azul. Em baixo, dos verdes fundos das montanhas uma evaporação rajava o escuro das grotas e o Corcovado ver um morubichaba sorumbatico e pachorrento pitava as nuvens que o calor lhe acendia no derrame. Fraulein botara os braços cruzados no parapeito de pedra. Fincara o mento aí nas carnes rijas. E se perdia. Os olhos dela pouco a pouco se fecharam. Cega duma vez. A razão pouco a pouco escampou, desapareceu por fim escorraçada pela vida excessiva dos sentidos. Das partes profundas do ser lhe vinham apelos vagos e decretos fracionados. Se misturavam animalidades e invenções geniais. E o orgasmo. A indiferença. Adquirira enfim uma alma vegetal. E assim perdida assim vibrando as narinas se alastraram os lábios se partiram contrações rugas esgar numa expressão dolorosa de prazer. Ficou feia.

— Fraulein!

Abriu lentamente uns olhos alheios. O estranho estava perto dela. E’ Carlos. Ahn. Sorriu. Numa cidade escura da Alemanha... Ele entrava de...

— Vamos.

Suspirou. Mas precisava de se retomar. Venceu a melancolia. Vieram descendo muito alegres falando alto.

— Senhor Sousa Costa eu nunca vi coisa mais linda em minha vida! ôh, muito obrigada!

Sousa Costa sorriu pra ela paternal.

— De fato, Fraulein... E uma beleza.

O automovel em disparada rolou pelas ladeiras se lançou nos abismos a pique sobre o mar.

— Si caissemos...

Carlos protegeu logo:

— Não tem perigo, Fraulein!

— Que bonita ilha! Dona Laura repare no mar! Ficou negro de repente! Nós estivemos lá em cima!

Numa das voltas olhando pra trás viu a montanha curvada. Suspenso na carcunda dela entremostrando a meio o rubido cariz o Sol mordia as ilhangas da serra. Era Loge, deus do incêndio!...

As montanhas desembestavam assustadas grimpando os itatins com gestos de socorro contorcidas.

Loge perseguia as medrosas lambido de chamas trinando. Fraulein escutou um xilofone. O tema conhecido. E o encantamento do fogo principiou para Brunilda.

O último ponto de parada foi a gruta da Imprensa. Fraulein desceu na frente saltando os degraus rapida. Carlos seguia:

— Você cai!

Dona Laura nem se erguera do auto mais. Pensava nas filhinhas. Sabia que os Camargos eram amigos porém filhas não se emprestam pra nin/Ã guem. Devem ficar junto das mãis, não é verdade?

Sousa Costa passeava na estrada. Aproveitava o descanso pra fumar. Maria Luisa inda na monotonia da fraqueza descera também. Observava o fundo da gruta pensando interrogativa nos tombos por ali. Fraulein estacara devorando pela moldura das arcadas o mar. A 'tarde caia rapida. A exalação acre da maresia, o cheiro dos vegetais... Oprimem a gente. E os mistérios frios da gruta... Tanta sensação forte ignorada... A imponência dos céus imensos... O apelo dos horizontes invisíveis....

Abriu os braços. Enervada quis inda sorrir. O corpo arrebentou. Fraulein deu um grito.

Juruviá duma vez. Semicerrara as palpebras, uma ruguinha espetada na testa. Nem enxergava mais a vista sempre nova das aguas, das montanhas. Praias largas enfim.

Tinham se assustado muito. Dona Laura quasi desmaiara. Sousa Costa correra. Viu a filha rolar pelos rochedos ferida debatendo-se. Minha filha!

O mar a enguliu. Maria Luisa inda estava palida.

Tremia. Só Carlos rira muito. Sem compreender.

Porém achara sadiamente muita graça naquilo: onde se viu dar um grito assim sem mais nem menos! que impagavel!... Agora olhava pra Fraulein

de esguelha inquieto com o burro da amada. Ela nem agradece tanta irmãdade. Passaria muito bem sem ela. Mas porém já se preocupa em comercialmente jugular uma raiva por êsses brasileiros.

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