Bloco IX
Fraulein não age mais e não sentirá mais. Apenas si uma recordação cada vez mais espaçada pensamento cada vez mais sintético lhe dirá que viveu ano e pico na casa da familia Sousa Costa.
Não, isso não lhe dirá. Dirá que teve um Carlos
Alberto Sousa Costa na vida dela. Rapazola forte simpático que se aproxima dela sob a pergola do jardim. Depois se afasta com a cabeça bem plantada na gola do suéter, vitorioso sereno como um jovem Sigfried. E só isso. Já tomou posse de si mesma. As citações lhe voltam á memória. Mais oito contos por colocar. E havia de vencer. Pra isso trabalhava sem ferias. E basta de reflexões.
Wer zuviel bedenkt, wird wenig leisten, não dissera Schiller no Guilherme Tell? Dissera. Pois então?
De que vale agora pensar em Carlos?... Ah...
Bocejava. A paisagem se esfriava resvalando entre morros infantis. A chapada começava se arripiando já, com medo de cair no mar. Os primeiros aterros escureciam o ambiente do trem. Davam impressão de crepúsculos intermitentes numa cidade escura na Alemanha. Moço magro pálido acurvado pelo trato quotidiano dos manuscritos...
Mês de Outubro já frio. Ainda frio aqui. Fraulein vestiu o jérsei verde. Ele voltava da... do estudo.
Jantariam... Alto da Serra. Foi tomar café. Sentou-se de novo. Estava tudo arrumado... Guardara a louça... Pusera a toalha... A maleta? Estava ali. Frases espaçadas no vagão. Alguém tossiu.
Tossia sempre... Resguarde-se que esta neblina daqui é perigosa. Iremos passar uns dias de ferias numa praia... Volta da Tijuca. O guarda veio pedir a passagem. Ela guardava os bilhetes pro concêrto do dia seguinte... Iria enxugar a louça__
Punha a toalha na mesa... Cantarolou.
Am Holderstrauch, am Holderstrauch
Wir sassen Hand in Hand;
Wir waren in der Maienzeit...
Bocejava. Aterro N.° 12. Talvez vá pro RioQue montanhas admiráveis.
... Maienzeit,
Die glücklichsten im Land.
0 idilio acabou porem si quiserem seguir Carlos maisí um poucadinho voltemos prá avenida
Higienopolis. Eu volto.
A casa esteve imóvel nesse dia. Todos sofriam.
Porquê Carlos sofria. O proprio Sousa Costa. Porém era homem e achava certa graça no caso.
Aquilo passava. Os outros imaginavam que não passava. Isto é: não se preoccupavam com êsses futuros muito condicionais. O importante era o presente. E no presente pirassunungava a dor macota de um. Todos sofriam. Até as meninas que sem saberem porquê estavam calmas. A própria curiosidade má de Maria Luisa deixara de exercer seus direitos de vida. Uma redoma descera sobre a casa
j SJ' 1. separando aquela gente da maquinaria da Terra. Carlos não saira do quarto. Dona Laura deixara o filho com os soluços ali pelas oito quando o retirou da janela. Mais de hora no mesmo lugar! E’ a que lhes digo. O almoço foi um pretexto pra ela subir de novo. Carlos não tinha fome. Então choraram juntos muito tempo. Depois o chôro acabou. Ele poude beber o chá que dona Laura preparou. A’ noitinha apareceu na mesa da janta. Que decepção prás meninas! Não se via nada! Comeu pouco é verdade muito digno sem fraqueza sem feminilidade. Não se via nada porém se percebia que estava outro. Estava homem. O bom homem que tinha de ser honesto forte vuligar. Que seria mesmo sem Fraulein só que um pouco mais tarde. Secundava com calma ao que lhe perguntavam os outros meio com medo. Lhe espaçava a fala aquele ondular dos vácuos interiores. Num momento Maria Luisa distraída botou o cotovelo sobre a toalha. Carlos corrigiu o gesto dela sem irritação mas. com justiça. Maria 'Luisa voltou-se pra êle assanhada. Porém aqueles olhos tão de quem sabe as coisas, serenos. Maria Luisa obedeceu. Que lindo!
Acabada a janta êle foi buscar o chapéu.
— Vai sair, meu filho!
— Andar um pouco.
Caminhou reto prá frente por ruas desconhecidas, não, por ruas inexistentes. Se sentindo marchar na alma. Veio a fadiga. Sono. Então voltou.
Entrando no quarto se fechou por dentro. Que a mãi não viesse amolar... Sentou-se pesado sobre a cama. Querería andar mais. Não tem sono. Uma desocupação grande. Olhando a luz.
A gente vê uma casa. A casa dorme no silêncio.
Noturno.
Paz.
Silêncio.
Porem o desespêro dum corpo na casa.
Paz.
Silêncio.
E um punho raivoso que arranca o této quebra tudo e busca expulsar Deus dos céus malditos.
Céus pacíficos.
Depois um chôro soluçado.
A gente vê uma casa...
Paz.
A casa dorme no silêncio.
Porem antes de contar como Carlos se ajudou a sofrer não quero que Fraulein principie outro serviço sem discutir uma questão pansuda. Quais foram de deveras as relações entre Fraulein e o criado japonês? Inimigos? Qual de vocês me falou que êles se compreendem? Pois é. Castro Alves cantava que na última contingência da calamidade quando a queimada galopa destruindo matos sacudindo as trombas curtas de fogo no ar, a corça e o tigre vão se unir na mesma rocha. Não sei em que país do mundo Castro Alves viu a Queimada dele... Talvez nalgum Edem bíblico ou nas bíblicas proximidades da moradia de Tamandaré depois do dilúvio. O certo é que tinha lá em promiscuo farrancho um tigre uma corça alem de iraras e cascavéis. Não esqueçamos também o perdigueiro. Porém essa fauna panterrestre não tem importância nenhuma pra êste idilio. Já Veronese aliás vestia venezianamente as Madonas dele e os mestres flamengos em geral madonizavam as mãis-defamilia desgraciosas de então. Também os substantivos pouco geograficamente zoologicos do condoreiro não tem importância aqui pois não trata-se de corça nem de tigre. Estou falando de Fraulein e do criado japonês. Mas da relação intima que
entre os quatro possa existir inda me resta que falar. Não sei porém porquê igualar Fraulein a uma corça... A comparação tomava assim uns ares alusivos de pureza que não ficam bem. Nós todos já sabemos que. O japonês então, gente guerreira aquela! é que de todo não podia ser a tímida viadinha... Demais confesso que não vejo entre os brutos escolhidos por Castro Alves pro mesmo habitat conciliatorio mais que antitese inócua. Nem são tão opostos assim! Mais inimigos ainda, mas muito mais! são o tigre e o tigre. Porém seria evidente injustiça também chamar Fraulein de tigre... E o mesmo penso do criado japonês... Escudrinhando bem só vi dois tigres em vida minha: Friedenreich e eu. Friedenreich o elástico supimpa futeboler emulo da socó na esbelteza, irmão do caboclo cearense na resistência, Friedenreich, fraco pra se ver, franzino e docil mas porém tão herói e tantas vezes salvador, viva Friedenreich! nos campos de jôgo, a frase está comprida por demais, principiemos outra. Friedenreich foi apelidado EI Tigre. Bem merece o apelido. Merece digo não pelo que de qualidades físicas e morais êle tenha do tigre indiano porém pelo que de qualidades de Friedenreich a gente queira dotar o tigre ideal rei dos matos da nossa fantasia. Quanto ao outro tigre, pois não é que o senhor Ivan Goll se lembrou de botar esta dedicatória no livro dele que agorinha mesmo me ofereceu! pois é:
A’ Mario de Andrade, poète-tigre de la nouvelle tristesse americaine, dont le coeur neuf (liane cueillie) s’altère au contact des pierres, bien amical salut.
Yvan Goll
Paris, juin, 1923
Não sei si Friedenreich se orgulhará do par-' ceiro que assim lhe dão. Deve descontar o entusiasmo inflamável dos poetas. Eu por mim me envaideço da trela. Mas pra voltar ao assunto confesso que não me cansou ainda a curiosidade que tenho pelos tigres o ser eu proprio o segundo dêsses bichos que em minha vida bem difícil conhecí. E por tanta ignorância me vejo apertado .pra equiparar Fraulein e Tanaka aos dois felinos que já vi. Porém está entendido que trato de tigres no sentido simbolico e ideal. Então a equivalência me parece mais possível e a metafora pode convir. São tigres pois, no sentido que mais convier a cada um a ex-governanta e o criado japonês dos Sousa Costas. Esta analogia vai surgir muito evidente agora que disponho-me a explicar porquê lembrei o verso de Castro Alves. Mas devo antes insistir nesta verdade: Não se esqueçam de que a corça foi substituída por outro tigre. Assim ficaram dois tigres. Uma parelha de tigres. Em que horrorosa
companhia a gente Sousa Costa foi se meter! Porém no Brasil é assim mesmo! Nada se pode milhorar mais! Os empregados brasileiros rareiam. O brasileiro só serve pra empregado-público. Aqui o copeiro é sebastianista quando não é sectário de Mussolini. Porém os italianos preferem guiar automóvel fazer a barba da gente ou vender jornais. Si é que não partiram pro interior em busca de fazendas por colonizar. Depois compram um lote nos latifúndios tradicionais desmembrados em fazendas e estas em lotes de dez mil pés. Um belo dia surgem com marmon na porta do palacete luisdezasseis na Avenida. Quem é, heim? E’ o ricaço Salim Qualquer-Coisa que não é nome italiano mas como verdade é também duma exatidão serena. Porém si o copeiro não é fascista a arrumadeira-de-quartos é belga. Muitas vezes suissa. O encerador é polaco. Outros dias é russo. Principe russo. E assim aos poucos o Brasil fica pertencendo pros brasileiros, graças a Deus! Dona Maria Wright Blavatsky. Dona Carlotinha não-sei-que-lá Manolo. Quando tem doença em casa vem o dr. Serapião de Lucca. 0 engenheiro do bengaló neo-colonial (Asia e duas Américas! Pois não: Chandernagor, Bay Shore e Tabatinguera) é o snr. Pery Sternheim. Nas mansões tradicionalistas só as cozinheiras continuam ainda mulatas ou cafusas, gordas e pachorrentas negras da minha mocidade!... Brasil, ai, Brasil! Falemos dos tigres. O japonês arripiou logo o pelame eletrico. Grunhiu zangadíssimo. Mais uma estrangeira na casa que êle pretendia conquistar, êle só... O tigre alemão se reconhecendo muito superior tanto na gerarquia solarenga como na instrução ocidental lhe secundou ao grunhido com muchocho desdenhoso. O tigre japonês curvou a cabeça muito servilmente.
Porém 'toda casta de picuinhas fazia pro outro.
Quando era pra dar um recado batia na porta do outro e:
— A senhora está chamando.
E não dava o recado. O tigre alemão tinha que descer as escadas e ir saber o que dona Laura queria. Na mesa muitas vezes o niponico deixava de servir o tudesco ou esbarrava nele com pêso e malvadez. Mas o tigre alemão se vingava e o senhor ou a senhora Sousa Costa ali, ordenava ao inimigo tal serviço. O tigre japonês obedecia servilmente.
Era na alma que rosnava tiririca. E assim os dois tigres se odiavam. Viviam se arranhando em continua rivalidade. Cada um se acreditava o dono daquela família o conquistador da casa e do jardim o quem sabe? futuro possuidor do Estado e proximo rei da terra brasileira toda do Amazonas ao Prata. Odiavam? Que estou falando! Quando os Sousa Costas grandes iam no teatro ou no baile
Fraulein deitava as pequenas. Depois entrava no quarto. Não sei si lhe pesava a solidão... Descia.
Sentava-se no hol e abria um livro sem vontade.
Virava pouco a pouco as folhas sêcas que ringiam machucadas no chão frio. Devia de estar alguma fera no arredor... O luar coava solitário da alta rama das árvores. Quiriri. De repente os cipós se entreahriam. Dois olhos espantados relampeavam na escureza e a carantonha chata do tigre japonês aparecia glabra polida pelo reflexo lunar. Com o passo enluvado cauteloso êlq rondava á espera dum carinho. E o carinho chegava fatalmente. Fraulein fingindo indiferença fechava o livro.
— Muito serviço, Tanaka?
— Nem tanto senhora, êêê... na terra era pior.
— Você é de Tokio?
— Êê... senhora, não.
Se aproximava. Vinha felinamente estacar em frente do germânico. Então eles conversavam. Falavam longamente. Comovidamente. Se contavam as maguas passadas. Confiantes, solitários. Doloridos. Se contavam as maguas exteriores. As infâncias passavam lindas inocentes. Brinquedos primavera mamãi... Algumas vezes mesmo uma lagrima iluminava tanta recordação tanta alegria. Tanta infelicidade. Batia sobre êles o luar e os santos olios da Lua como que lhes redimiam as maldades pequeninas. Se olhavam comovidos. O tigre alemão longo desgracioso espiritual ver um Schongauer. O tigre japonês chato contorcido ver um Shuntai. Depois das recordações vinham as esperanças. E
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das esperanças tão lentas de se realizar! derivavam os exaspêros e as revoltas. Até calúnias, tão eficientes pra consolar. A roupa suja da familia se quotidianizava ali. Os defeitos da patria emprestada eram repassados com exagero. Principalmente o niponico falava, que o alemão tinha as pernas mais altas do estudo pra se rojar no lamedo. PoTêm se percebia que escutava com prazer. E os dois tigres se aproximavam olhos húmidos. Eram irmãos. Si a distância lhes impedia pra sempre o beijo sem desejo insexual mas fisico de irmãos êles se davam, não tem dúvida, aquele beijo consolador espiritual, redentor e reunidor das almas desinfelizes e exiladas. Apalermados pela miséria, batidos pelo mesmo anseio de salvação, sofrenados pelo fogaréu do egoismo e da inveja na mesma rocha vão trêmulos se unir. A queimada esbraveja em torno. Os guarantãs se lascam em risadas chocarreiras de reco-recos. A cascavel chocalha. A sussuarana prisca. As labaredas lambem a rocha. Pula uma irara. Que susto! Peroba tomba. O repuxo das fagulhas dansarinas vidrilha de ouro o fumo lancetado pelas cuquiadas dos guaribas. Os dois tigres ofegam. Falta de ar. Sufocam. Meu Deus! Deus?
Porém que deus? Odin de drama lirico, saxeo Budá no contraforte das cavernas? Mas porém sobre a queimada Tupã retumba inda mais mucudo, de lá ■dos araxás de Tapuirama. Por emquanto. Creio mesmo que vencerá. Os dois tigres acabarão por
desaparecer assimilados. Mesmo o japonês? Homem, não sei. Enxergo Gobineau fraudulento a estudar o facies de Tupã. Odin e Budá inda Tupã podia vencer que em brigas entre iguais a vitória parece discutível. Mas Gobineau é homem, homo europeus, e sempre constatei que os homens são muito mais fortes que os deuses. Gobineau vencerá, pra maior gôso de alemãis. Mas que bem importa isso prá familia Sousa Costa já livre do tigre alemão? Não importa nada nem dona Laura tem que ver com os futuros da patria, francamente. Só o presente é realidade. Qual será o futuro? Paradigma de que conjugação seguirá? Ou irregular?’ Ou não tem futuro e familia e patria são defetivas?... Ninguém o saberá jamais. Voltemos pro idilio.
Agora que as relações entre os dois tigres ficaram esclarecidas só me resta aconselhar aos leitores o seguinie: A gente não deve culpar nem Fraulein nem o criado japonês. Não adianta nada nem são tão culpados assim. E têm isso de imensamente comico que no fundo se odeiam. Mas ali estão unidos por causa da Queimada de Castro Alves. Por amor das recordações, do exilio e da esperança. Todos os exilados afinal têm direito a recordações e a esperanças. E enviados pro Brasil aonde iraras pulam, cascavéis chocalham, onças, jaguarandis, tatús-pebas, peixes-bois e tigres, pois nãol tigres também se assanham, inda por cima vieram
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adquirir essa coisa tristonha e desagradavel que de portuguêses herdámos, a saudade.
Vocês se alembram daquele passo em que contei as caminhadas de Fraulein de Carlos e irmãzinhas pela praia do Leme? Discutindo o alcance dos> vagalhões verifiquei que de medo de ficar infecundo insulado dos homens eu saltara o dique abandonara os palhaços do palco pra me tornar palhaço da platea. Tudo isso me parece agora um geita muito vago e suave de confessar que alcançara, novo conceito mais humano e tradicional de arte.
Menos teoria mais sentimentalismo. Disso nasceu uma inquietação. Duas. Â segunda é um raciocínio sceptico. A primeira um cinico.
Pela segunda me perguntei: Quem estará com a razão? esse um que faz arte-pura desinteressada integral, que antepõe teoria a sentimento buscando* refletir assim a civilização tão epidérmica da humanidade? eu, que me fiz selvagem retornei prá. mata-virgem e principiei em pinchos rituais desteorizado malcriado desinteligente pretendendo tocar a selvageria que se entocaia dentro dos homens?. .. Quem que tem razão? Os cubistas os sturmistas vivem. Têm ilusões. Eu vivo. Tenho ilusões. Me atiram: Covarde! Lhes sorrio: Perdularios! E de todos nós a dor zomba fazendo que sonhemos todos, homens pensativos dêste mundo aonde reis e pariás se equiparam na credulidade dos Raimundos os mesmissimos sonhos -de prazer e de vitória. Sim, sonhos que nada mais são que saudade do Alem e substrato da nossa formação divina... Nesse caso toda a gente tem razão? Ou milhor: somos uns iludidos e nenhum não tem razão? Ninguém o saberá jamais. Só perdura essa fórmula interrogativa que é a vida e de que a morte não é sinão um dos pousos. Penúltimo? Penúltimo. •Agora a primeira inquietação, mais importante. Os que estão da outra parte do dique me chamaram de covarde. Lhes chamei perdulários. E a consciência me certifica de que neste ponto toda a .gente tem razão. Eles perdulários. Eu covarde. Vocês dirão que a metade pior é a minha... Com efeito: pela verdade dos homens em geral, desperdício é apenas fraqueza, covardia é defeito. Inda resta muita boniteza no perdulário. Na covardia tudo é avacalhamento e ruina. Lhes dei mais um motivo de exaltação. Me deram apenas o conhecimento duma vergonha. Enriqueci-os. Desnudaramme. Assim decreta a verdade dêsses homens coletivos.
Porem doutra forma reage a verdade particular que me pertence. Coragem? Covardia? Nobrezas e demeritos... Aonde a nobreza? Demento
porquê? A covardia, suposto que a Inteligência já principiou a governar êstes seres racionais pode perfeftamente se mascarar com os mulambos da virtude. Pode se transfigurar numa coragem até;
Afinal: não carece muita valentia não prá gente ser corajoso. Muito mais coragem carece êsse um que se propõe covarde. Desde que vocês saibam refletir, se compreende. Sinão vejamos:
O ato de coragem (falo coragem, manifestação intelectual que não se confundirá jamais com a temeridade que é manifestação do pavor) o ato de coragem se encarrega de nos dar em seguida ao minuto do gesto essas gloriolas todas entre as quais uma, possivelmente a menor, se chama Consideração Alheia.
Covardia. Forma-se depois um prestito de vaias guspes e espantalhos. O menorzinho é o desprêzo dêsses homens coletivos. Está bem. Querem que exemplifique? Alguém nos calunia. A gente adquire no sufragante a consciência do insulto e a volição da desforra. O insultado carece de se alimpar da mancha não é? Porém como se alimpará? Pelo sôco, em tempos muito de dantes. Depois pelo machado. Depois pela acha polida. Pela espada certo século. Ontem pela garrucha. Hoje... pelo revolver? Que engraçado! Alguns falam que apenas pela bengala. A grande maioria crê que basta o sôco outra vez. Então voltámos pra aqueles tempos de dantes? Não quero secundar. Não pretendo insultar a civilização do Tratado de Versalhes. Porem o insultado que' raciocine. Tire a vingança. Minuto apenas de cansaço terá. Ponhamos de dor fisica. Acresce que na briga ninguém apanha sómente. Dá também. Até pros menos filosofos isso é já uma consolação, me parece... Mas a dor fisica é igualzinha á moral: passa. Fica a honra lavada, pois não. Isto é: fica o verdadeiro estigma da honra lavada que em bom brasileiro se chama Consideração Alheia. Consideração Alheia e aquele museu de igloriolas de que falei atrás. Pros colecionadores. E fica ainda dentro da gente que gostosura! o sentimento do dever cumprido. Suponhamos agora que a gente ignore a vingança. Pavor da machuca dura? ôh não! a gente sabe raciocinar! Conhece experimentalmente o tranzitorio da machucadura... E adivinha o que virá depois... (O tal de museu). Então porquê não desforrou-se? Por cinismo. Por desprêzo. Orgulho. Tem muitas causas diferentes. E por covardia também. E suportaremos agora a procissão dos espantalhos. Pros religiosos. Por longo tempo. Talvez por uma vida. O desdem alheio não se cansa não. O coração intermitente não se restabelece. E sobretudo êsse desgôsto da gente essa desilusão desesperança martelando que nem araponga da miséria interior... Puxa! carece muita coragem pra um indivíduo ser covarde!
Adonde a coragem pois? Adonde a covardia?
Principalmente: adonde a virtude nisso tudo? Hoje, meses de raciocínio, depois que a Razão se viu deusa nesse incrível pais da deusa Carlota de Vaux, coragem, covardias... Apenas circunstancias fórmulas e roupas. Um escolhe a coragem. Eu me preferi covarde. Desertei dos vagalhões teoricos da arte-pura. Me fiz interessado entre êsses homens coletivos. Amo-os. Conto-os. Me importo com êles.
Tenho a virtude da covardia. Sou virtuoso. Respeitem o Tartufo que passa!
Isto me diz minha verdade num momento de besteira anatolesca. E outra vez principio a achar engraçadissima a vida. Todo êsse cinismo não vale de nada. Filosostria de elite. Me exceptuo com ela.
Ura si pulei o dique foi pra agir sentir pensar talqualmente os meus novos comparsas de suta. Pois não é que justamente éstes bailarinos pra cujo lado me baldeei me desprezam e principiam também a me chamar de covarde! Covarde! Covarde! Que gritaria, porca la miséria! Acalmem-se! Eu me passei pro meio de vocês. Aceito pois tacitamente ■as condições de vocês. E agarro de raciocinar que nem os humanos: ôh, que covarde sou! Que homem vil! Vilissimo! E nem vocês imaginam todo o ridículo e vilania que multipliquei em mim! E não me queixo de ninguém não, a culpa foi só minha. Só me desprezo a mim. Os homens são o que são. São homens. Vis■ceralmente araras. Mas é sublime ser arara! Dou
razão pros homens. Sublime é ser da Terra e evoluir que nem o cristal a fruteira e o mico. Cada homem é um Tobias. Sublime é vencer o anjo... iluminado? iluminado das forças psíquicas e subir pedestremente a rua Martim Francisco ou a avenida Angélica, é indiferente, contanto que se chegue na avenida Higienopolis, entrar de novo em casa se deitar e enfim dormir que nem Carlos fez anteontem. Porem sucede que o anjo das fôrças psíquicas, iluminado? iluminado, vence alguma vez... A psicanálise chama isso de sublimação... Vamos e venhamos: que sublimação essa tão pouco sublimizante que perverte anormaliza e exceptua a gente! Não tem que guerê nem pipoca: a sublimação é um contratempo. E o cidadão vira fenomeno e se chama Anacreonte Petrarca ou Dirceu. Monstros de feira! Como é ridículo o poeta! Ridículo imaginar coisas, gosar sofrer imaginações. Por tantos raciocínios não me rio da ararice humana porém do meu ridículo particular. Considero-o absolutamente comico. ABISSOLUTAMENTE. Olhem êste ser humano que em vez de cobrar passagens do bonde servir cocteils extraordinários ou selecionar utilmente o caracú, vive na fantasia banzando entre scismas petrecas e teorizações que não trazem pão nem mel!...,
E assim vivi e viverei... Agora já não posso mais mudar. Porém não passo dum hominho como os outros meus atuais companheiros, incomensuravelmente comico inalcansavelmente ridículo, trágico no sofrimento, grandiosamente mesquinho sofredor torturado desinfeliz. Humanizemo-nos! E principiei rindo de mim. Pantalião! Raivas. Asco.
E tais coleras me assanham agora que sou humano entre êsses homens coletivos, que não me aguento mais. Temos precisão de apagar tantos horrores!
Precisão de esconder tantas covardias! Este idilio não é jornal de escandalo! Destrua-se o monstro!
Puxa daqui, sujeito rúim! Vamos! sai do livro!
Afaste-se destas páginas pra sempre! Que está esperando! covarde! ordinarissimo! ridiculissimo escritor!. ..
Me expulsei do livro... Está muito bem, sairei dele. Porém antes me despedirei de Carlos. Fica sozinho... Sem Fraulein... sem mim... Carlos,, admiravel Carlos, adeus. Tenho por você uma admiração que nada muda. Queria abraçar você, apertar a sua mão grosseira porém você não compreende as manifestações do amigo e era capaz de falar que eu estava aporrinhando. Só murmureja por isso secamente: adeus. Qualquer coisa borbulhante em mim subindo... Abro a valvula dos lábios mançhados: Risinho sceptico agudo saiu. Ninguém dirá* que me comovo e peno. Porém si é possivel que eu safra, você não ha-de sofrer na solidão. Porquê se basta a si mesmo e embora nunca eu passasse pela sua vida nem nunca Fraulein vivesse você havia de seguir prá frente franco firme forte pra usar unicamente éfes, cumprindo o destino asfaltado e vulgar de você.
Com efeito mesmo Fraulein fôra inútil prá evolução do rapaz. Carlos será o que será suceda o que suceder. No reino da vida e especialmente no reino do amor. Porquê forte. Porquê tem gente assim que se basta a si mesmo. Carlos raciocina .pelo que vê. Age pelo que sente. Não sonhará. Não scismará. Nada anormal ou que se pareça com o anormal. Um dêsses casos do ser absolutamente normal. Os desenvolvimentos do caracter afetivo dele quais são? São:
Nasceu num 25 de Outubro.
A primeira aventura de amor que teve deu-se ao vinte-e-quatro minutos depois do nascimento. Carlos ficou amante da mãi dele. Incesto horrendo! Porquê horrendo?! Incesto quotidiano. A sociedade o permite. E si não codificam sobre êle as republicas lá está inserido no art. l.°, § l.° do Regimento Interno das Famílias. Tocaram a campainha. Quem será? E’ o inspetor-do-quarteirão. Entra e:
— Deus esteja nesta casa. Dona Laura, venho lhe comunicar que o RIF (Regimento Interno das
Famílias) permite a V. Excia. amamentar seu filho.
E Carlinhos sugava sugava... Ahn... Mexe refarto as mãozinhas cerradas. Será que já aprendeu a espreguiçar depois do gôso! Sacana!... Não digam isso! Machucador apenas. Mexer os bracinhos é um geito recemnascido de cruzar as pernas.
Porem lá envia prá derreada amante-mãi o olhar.
Extra-retiniano? Extra-retiniano. Sorri, quasi sorri com os lábios finos sem desenho branquiçados pelas sobras de leite. Ahn... e renova o dormir.
Assim fixou as fomes amorosas vinte-e-quatro minutos depois de nascer. Felizardo! Tem tanto orfão por ai que mesmo depois dos vinte-e-um anos inda não fixou as dele... Carlos, não. 0 normal neste mundo é amar e ser amado. Carlos ama.
Lhe corresponde a mãi. Até em excesso. Não é que dona Laura ia perdendo o pequeno! Tudo porquê a malvada não tem luzes de psicologia. E’ mais cega que o filho. Essa nunca verá extra-retinianamente. A razão do perigo em que Carlos se viu é a seguinte: Os volumes da maternidade afastaram um pouco Sousa Costa da mulher. Depois êle meio que se acostumou. Dona Laura se conservou honestíssima. Porém como o inspetor-do-quarteirão lhe concedera praticar a semvergonhice que está no art. 1.®, § 1.® do RIF vivia acocando o filho. Por .demais. Isso proporcionou a Carlinhos uns meses
largamente excitantes. Está perdido, se conjeturava. Quem conjeturava? Aqueles anjos que trazem esponjas do céu. Tudo por oausa de dona Laura. Eu quasi digo que por causa de Sousa Costa. Afinal resolvo não dizer coisa nenhuma porquê será inútil procurar a causa de efeitos inexistentes. Porquê Carlinhos reagiu, ôh si!... Sabia desde nascido que as mãis são nossas primeiras amantes.' e únicas legitimas professoras de amor. Aceitou por isso desde os vinte-e-quatro minutos de existência a primeira e impaciente manifestação das fomes amorosas. E satisfação delas. Porém crescia. Naturalmente. E os agrados cresciam também. £ si não cresciam de verdade ao menos se intensificavam no gracioso consciente do pecurrucho. E êle percebeu que estava todo sufocado pelas excitações e que a mãi em vez de professora util se apresentava má conselheira de pornografias e anormalidades. Ora dessas coisas Carlinhos não queria saber não. Se irritou. E uma feita chegado aos noventa dias de vida resmungou assim:
— Isto já está se tornando cacete. Ora pinhões! tantos beijos... Abraços que não acabam mais!... Me aperta que é uma calamidade! Quando vejo ela já começo tremendo. Francamente eu ainda não pratico o box nem remo ou natação nem mesmo o foot-ball, que êstes sports enrijam o corpo e tornam indolorosas as constrições. Meus bracinhos são chios. Mamãi vem e me aperta tanto!... Doi.
E eu agarro ficando inquieto e não durmo direito miais 1 Isto não pode continuar assim, p....! (palavrão.)
E reagiu. Quando dona Laura se aproximava dele e principiava apertos e beijos êle botava a chorar. Abria uma booa que acredito todas as inubias assopravam por aquela caixinha delicada de ressonância. 0 certo é que a casa estremecia até na espinha com o bué. Sousa Costa vinha saber o que era aquilo.
— Não é nada, Felizberto! Manha! respondia dona Laura desapontada. Acalentava o filho virtuosamente e Carlinhos recomeçava o dormir.
Foi crescendo. Dois anos. Tres. Etc. Os amores dele principiaram a divagar. E’ que dona Laura se metera noutras cavalarias. Maria Luisa recemnascida lhe tomava os momentos mais ardentes.
Com Carlinhos apenas algum randevú espaçado ás dezanove horas quando êle ia prá cama. O abandonado se voltou prá criada e pro pai. Aquela inda dava alguns prazeres mas era imaginem! holandesa. E andava de amores com Rafaello o motorista italiano. Por sinal que se chamava Rafaello Durbino sem apóstrofe nem pintura. Porém a tigre holandesa divergia das amabilidades corajosas da loba romana. Era ama-sêca. Deitava depressa o menino pra ir na janela por trás do vidro espiar
Rafaello. Carlinhos ficava jururú jururú. Muito tristinho. E viu avançarem-se longas ondulantes
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sombrias as planícies da calma, do adormecimento de amor. Latencia. Inverno. De tardinha um vento agudo bateu a caatinga deixando atrás uma nuvem unica imensa transbordante. Geou a noite inteirinha. Quando o menino acordou nada mais se enxergava da vista florida anterior. Ribeiros chacoalhantes, arvoretas venenosas, joás e cajús, flores vivas rubores amarelos desesperados, aromas verdes, bichinhos borboletas inambús socós codornizes e tiês cobras lagartixas — cios dispersos pela superfície infantil da campina — tudo desaparecera sob o esquecimento da geada. Ninguém. Nada. Geada só. Indiferença. Até se pode falar: morte exterior. As manifestações das fomes amorosas foram se resguardar lá dentro num quartinho do corpo dele. Quartinho quente confortável que a casa era de engenheiro bom. Tinha aquecimento central. Apressou também essa vinda das caatingas e do inverno o geito pouco amoroso de Sousa Costa, convenhamos.
— Felizberto, até parece que você não gosta do seu filho, credo!
— Que idea, Laura! Gosto.
— Mas coitadinho! nem pode chegar perto de você você já empurra êle!
— Vocês mãis são engraçadas! Pensam que amor é andar aos beijos e aos abraços...
— Não penso isso não senhor mas um pouco mais de carinho que custa!
Sousa Costa continuava na leitura do jornal.
Depois se levantava. Turtuveia encabulado. Faz uma festinha no filho. Sai.
Foi o contraveneno prás expansões de dona
Laura e das visitas. Acresce ainda que Carlos sendo a primeira familia não tinha irmãs mais velhas tratando dele. Essas perniciosíssimas amantes que chupam inteiramente as normalidades infantis.
Todos os caçulas são em geral tarados e o José biblico só poude se tornar um turuna na política e na adivinha porquê o odiaram os irmãos mais velhos. Ah! si todos os Josés fossem vendidos escravos o mundo não andava cheio de nevropatas e semiloucos... E* verdade.