Bloco X
Carlos aguentou o inverno galhardamente. Primeiro cruzou os braços. (Se vê bem quanto a predisposição pros cruzamentos era intuitiva nele). Se amolou olhando assim pela janela e não vendo nada. Apenas o toucinho interminável da geada.
Reagiu. Ora pinhões, gastemos o tempo! falou. E se pôs ganhando o tempo lendo nos livros, estudando inglês, aprendendo o mundo, ensaiando comer na mesa, treinando futebol, como se dá lugar pra uma senhora no bonde, escutando contar por acaso que existe um Ser talvez extraordinário muito longínquo que não perturba quem não se importa com Ele, observando como o cafezal dá dinheiro, como o homem «rico é feliz, como papai era bom dentro de casa e considerado fora de
casa... Como. Aprendeu. Que engraçado! Estava só mas porem eram dois Carlos no quarto. Livres um do outro e camaradas. Assim em companhia a gente mata milhor o tempo e evita os conselhos maus da solidão. Carlos I dava um sôco em Carlos II. Carlos II agradecia e elogiava a fôrça crescente de Carlos I. Depois contava pra êste que nas mulheres e nos crilas não deverá bater, isso é covarde. Vil. A sociedade o ensina. Carlos I agradecia e elogiava a sabença crescente de Carlos II. E os dois passaram todo o tempo-das-aguas vestindo respetivamente as roupas necessárias das forças musculares e dos provérbios civilizados. Carlos duplo se aguentou bem. Nenhuma gripe nenhuma tosse nem amígdalas inchadas. Dez anos. Onze. A primavera vai chegair... Mas não tem lutas. Nenhuma turbulência. Nada fará parar o desenvolvimento. A nova estação virá de mansinho. O inverno cederá sem resistência. Sem perfidias. Vaite embora, peste! Ele obedece que nem cachorro batido, rabo entre as pernas, murcho humildemente. Fatalmente. Carlos nem careceu de ir na fazenda ver trabalhos de touros naturalistas, qual! um dia aprendeu a ver com os olhos, isso sim. De repente a geada foi derretendo sumindo... Só porquê êle viu com os olhos. Fóra com a visão extraretiniana! Ver de olhos abertos eis o supremo segrêdo. A suprema ventura! Ver-porquê de sopetão as palpebras se abriram e as retinas foram impressionadas pela cor morena fantasticamente equatorial de Rosinha. Carlos com treze anos e tanto.
Passaram a tarde inteira brincando todos juntos.
Jardim. De repente num atimo as retinas de Carlos foram impressionadas. Porquê? Não sei não. Talvez porquê chegou o momentinho do Sol bater naquele corpo noruega. Tudo se clareou de sopetão! Também aqueles cabelos esborrifados crespos da menina!... Passou correndo. Ele. quê que havia de fazer? guardou Rosinha nos braços.
— Me deixe!
— Mamãi, Carlos está machucando Rosinha!
— Que modos são êsses, heim! Deixe Rosinha, vamos!
Carlos deixou Rosinha. Deixou-a porquê encafifou. Encafifou porquê não sabe o que sucedeu porém o fato é que Carlos I e Carlos II vieram numa disparada formidável um em sentido contrario ao do outro, páa! puxa! que trompaço! Entraram um no outro. Se fundiram. Carlos I enrolou um desejo nascente na amizade com que Carlos II segurara Rosinha. Carlos II enrolou uma admiração madirigalesca no gôso com que Carlos I agarrara Rosinha. Resultado: de 'tão enrolados se fundiram.
E nas assombrações da memória do desejo da esperança se repete agora incansavelmente a imagem que impressionara as retinas dele. Rosinha?
Não! Essas assombrações são mais condescendentes e menos exclusivas, sintese mais universal: a cunhã!
Tantos acidentes num tempo só... Carlos ficou atarantado. Que bulha vai dentro dele! Segue mecanizado. Senta-se num banco. Qualquer. Rosinha já pôe o chapéu e é visita de longe em longe. E’ indiferente pra êle que ela vá-se embora. Espia milhares delas entre as flores socós barboletas etc. da capoeira sem geada agora. Primavera!...
Desejos indistintos de soalheiras
Inda por viver por gosarl...
Sol calmo
Cheio de sombras alviçareiras...
Ela anda pelos milhais vastos...
Ele guarda na preguiça clara das sombras Às trepadeiras dos abraços
E na boca beijos milhares de beijos
Ver um bolso cheinho de pitangas.
Ela anda pelos milharais vastos...
Ele vê ela colher as espigas de milho,
E Sol florindo nos cabelos pesados
Ela ondula se aproxima enorme espiga prometida!
Você é o milho!
Calores por sentir...
Vagas imagens sensuais...
Juventude insone se mexemexendo na cama.
E’ muito tarde já.
Os cheiros entram pelas venezianas, se entrelaçam molemente.
Os homens experientes voltam da noite tarda.
Desejos indistintos de soalheiras...
E o cachorro do vizinho que uiva
No desmaio da noite sem ar. Carlos está impaciente. Vira de lado na cama. Funga forte. Fecha os olhos cansados. Qual! sotno não vem não. A solidão pela primeira vez lhe doi na carne. Carlos mastiga barulhento. Mastiga essa dor que a solidão está dando pra êle. Não deseja mais os acalantos da infancia. As ambições se arripiam. Voluntarioso. Vencedor. Quero prazer, o máximo! Êxtase.
Espasmo. União. Será feliz porquê aspira o que deseja. E os filhos hão-de vir, palavra de honra.
Porém — são coisas dêste mundo incompreensível — apesar do inspetor-de-quarteirão ter permitido os deleites incestuosos de dona Laura e filha êste sofrerá castigo por causa do crime. Homessa! pelo RLF, art. 1.® § 1.® o que praticou é licito! Não tem que licito nem mané licito, o castigo está ai.
Carlos podia amar os onze anos de Rosinha. Lhes preferiu os 35 de Fraulein. Inda delírios da seleção?
Ninguém o saberá jamais. Encubramos a realidade com o manto, que tudo resolve da tradição divina: CASTIGO.
Outra pergunta: Então porquê esperou aqueles quinze dias do princípio do livro? Não esperou nada! Os calores começaram imediatamente. Lá
por dentro. Ninguém tem culpa do corpo ser mau condutor. 'Agora já vimos o desenvolvimento normal do menino. Me deixem apontar mais algumas circunvoluções do cerebro dele. Eu falei que Carlos não tinha vergonha de pessoa alguma. Nem medo. Vocês se alembram daquela scena, faz isso tantos meses! em que êle encontrou Fraulein pela primeira vez? Encabulou porquê ela viu êle brigar com a irmã. Porém não teve medo nem vergonha da desconhecida. Se dirigiu firme pra ela deu mão grossa pouco amiga de apertar:
— Bom-dia. A senhora é a governanta?
O mango, o envergonhado nunca procederia assim. Convenhamos: Carlos não tem medo nem vergonha de ninguém. Mas agora aparece a circunvolução original do cerebro dele. Tem muita vergonha só duma pessoa. De si mesmo. Todas as reações dele que viemos seguindo por êste capitulo saboroso se originam principalmente disso: Carlos tem muita vergonha de si mesmo. Lhe seria insuportável olhar no espêlho depois duma falcatrua indecorosa. Se respeita mais que tudo. E* puro por vergonha. Falo puro sob certa consciência lá dele pois que Fraulein existe, a gente já sabe, e Carlos continua se olhando no espêlho. Porém só nos raros momentos, uma vez por dia, duas no mais, em que se penteia. Pelo mesmo sentimento de vergonha terá mais tarde aquela honestidade capilar com
que geralmente se decora no mundo social o homem-de-bem. Isto é: roubará o Estado quanto puder ou fazendo passar as suas compras pela Alfândega sem pagair direitos ou diminuindo os cobres paternos no inventário ou iludindo a limitação dos cafés dele por meio de presentinhos utilissimos ao chefe da estação ou do tráfico etc. Continuará se penteando diante do espêlho. Também saberá sousacostar ás vezes extra-muros sem que a mulher sofra. Coitada, 'talvez nem dê por isso!
Porém pão vestidos, mesmo assistência amorosa regular isso não faltará na casa. Carlos se penteia ainda no espêlho. Jogará no Clube sem perder nunca trinta contos numa noite. A’s duas horas nos dias de mais atraente cúncan estará de volta pro lar talqual todo homem-de-bem. Irá ver os filhinhos batisados (sim: a familia continua católica) no quarto do lado. Enternecimento. Que engraçadinhos! João está que é um pelote de gordo! Depois beijará a mulher entreacordada. Roncará honestamente familiar. O ronco inda acentua a paz compacta. Perfeitamente. No dia seguinte inda se penteia diante do espêlho. Homem cheio de virtudes humanas e ponhamos: capilares. Homem digno.
Isso de dignidade não sei que beneditino por mais ranzinza e eclesiástico lhe negará. Ora estas virtudes todas lhe vêm pela consciência reta inflexível dos deveres humanos. Porém esta consciência reta inflexível lhe vem porquê reage contra os maus
convites apetites e todas as tendências rúins. E sabemos porquê reage. Porquê tem vergonha de si mesmo e se pentear longe do espêlho é uma calamidade. Experimentem. O repartido sai torto geralmente. Os cabelos arranjados sem o rêgo no lugar de costume principiam logo doendo. Que massadal O espêlho é objeto necessarissimo. Bemditos os fenicios que descobriram o vidro! E pra se aproveitar da descoberta fenicia Carlos reage contra as tendências rúins. E se chega a esta conclusão : Carlos é homem-de-bem incontestavelmente sem Deus sem inteligência sem mérito. Por causa dos espelhos.
Os anjos estão irritadissimos. Largam da esponja, agarram borrachas energicas descem rápidos do Empireo e apagam todas as linhas comovidas dêste capitulo. Não tem mais nada. Fica o dito por não dito e Carlos continua vivendo.
Aliás os anjos não tiveram razão, não. Inda uma pergunta sobrou: Carlos é realmente honesto, homem-de-bem? E’. Não é. As reações químicas dum organismo, as reações inconscientes dos sentimentos sequestrados darão um Santo Tomás um Nobrega um Carlos Alberto Sousa Costa? Um Carlos juro que dão. Quanto aos abaetês... isso agora não sei não.
Porém ando convencido que nunca devia ter lido Freud e certos homens racionais... Agarrou uma briga tal de ideas no meu cerebro que... Já
entrou no livro outra vez! Saia daqui, escritor das dúzias! ruinzissimo escritor!
Sousa Costa seriamente preocupado. Uma semana já e nada de milhorar... O rabicho tinha ido longe por demais. Si fossem prá fazenda?... Fossem todos porquê mandar o filho só, não convinha.
Sousa Costa nunca abandonará Carlos nesse estado. Muito menos dona Laura. Não adiantavam nada porém amor brasileiro é assim. Puxapuxa.
Contrai estica mas largar não larga mesmo. O diabo era aquele fim das aguas tão chuvoso... Colheita acabada... Não tinha nada que fazer lá. A chacara não dera nenhum resultado. Foram de automovel. O caminho era quasi que um lamedo só.
Nem guiando o carro Carlos teve a aparência de quem se divertia. Sujaram o automovel se sujhram... Um desastre! E inda por cima a chuvarada na volta! E’: só fazenda mesmo. Largueza cavalos o rio criações... Diverte os rapazes. Mas a fazenda... Não tinha nada que fazer lá. Deixemos de precipitações! Milhor esperar mais um poucadinho. Si não mudar mesmo então vamos todos prá fazenda... Paciência!...
— Você carece de dinheiro?
— Não papai.
— Tome.
— Mas praquê, papai!
— Vá no teatro hoje... Divirta-se, que diabo!
Sousa Costa tocara no assunto? Não tocou. Tocou. Assim de esguelha os pais consolam nossos filhos. Carlos indiferente botou a bolada no bolso.
Obedecer... Desobedecer... Obedeceu. Era um sabado. Teatro cheio. A comedia nacional é muito engraçada. Aqueles brasileiros gesticulantes, que espevitamento! Parece até que se esforçam por falar as palavras com sutac purrtuguêss, não?’ E que pandegas! O público ria ria. Lhe deu de sopetão uma raiva tal. Não devia de estar ali. Traição prá saudade dela. Saiu no meio do ato incomodando os vizinhos sem pedir desculpa. Adonde estava Carlos II? Fugitivo. Saiu.
A noite de Outubro esgotado pingava uma garoa fria na gente. Carlos anda ao atá. Tomou mesmo o chôpe? Não sabe mais. Andava. Ah, si soubesse aonde ela estava! Cerrava os punhos batia as pernas um joelho no outro se machucando. Anúncio luminoso. Parou. Não podia mais. Jungiu o corpo com os braços ásperos querendo se partir pelo meio. Aonde ir? Restaurante MEIA NOITE. Pra casa? Pro inferno? Pro acabar duma vez com aquilo! Apertou mais o corpo. Uma palavrinha saltou: Suicídio. O subconsciente, que prestidigitador! Tira da carne as coisas mais inesperadas! A gente não pensa — Jornaes do Rio! Correio da
Manhã, Pais, Gazeta!... — não quer. Bruscamente espirra uma palavra sem razão. Suicídio? Carlos não se suicidará nunca, sosseguem. A palavra pulou sem ser chamada. Pulou. Caiu no chão. Carlos não se abaixa pra ergue-la. Quem passa enxerga aquele rapaz parado na esquina se apertando com os braços pelo meio do corpo. Que posição esquisita! Foram pensando que era dor-de-barriga. Não era não. Era geito de perguntar taquarambo uma resposta já sabida:
— Não. Não sabemos aonde Fraulein está.
No emtanto era tão facil! Jornais do Rio! Folha da Noite!... Ela estava ali mesmo perto dele á disposição dele. Só atravessar a rua mais uns passos e portar na Pensão Mme. Bianca (Familiar).
Com cem bagarotes então a gente caminha mais um pouco e a encontra no largo do Arouche novinhas bonitas italobrasileiras. E si não quer gastaros cem; cinema AVENIDA cerra aos poucos os olhos eletricos. Gente que sai. Gente nas portas.
Bulha de empregados apressados, si não quer gastar nem mesmo cincoenta ela está ali prontinha-dasilva por qualquer dez milreis, vinte na lojas de terceira ordem. Na rua Ipiranga então ela espera
Carlos em pencas de quatro e cinco em cada casa.
E com doença feia de inhapa. Está por toda a parto a gente sabe. Carlos não sabe disso.
— Psiu... Entra mocinho!
Não escuta. Cabeçudo! Não quer escutar. Será
•que cultiva a própria dor? Nunca. Só que está muito maturrango no amor. Inda não sabe. Não sabe •que Fraulein não é a governanta alemã que. Nessa idade, bem entendido. O mesmo anúncio luminoso outra vez. LAPA TERRENOS A PRESTAÇÕES. Fraulein são dois braços duas pernas tronco seios qualquer cara cabelos compridos. Nem mesmo cabelos compridos carece mais. Ofega. Ã ladeira ficou cansada. Não tem feito esportes. E’ isso: Carlos se lembra de que não tem feito esportes. Fazer esportes, ora, praquê!... Banza ainda pelas ruas rarefeitas na neblina. Viaduto. AO TATUZINHO. Taxi, patrão? Ali pelas duas horas fatigado sem cansaço ardendo abre o portão da avenida Higienopolis. Tem que se despir, é fatal.
Escuridão.
A colcha branca ondula toda, insone, por mais de meia-hora, ver terremoto de teatro. Gira dum lado pra outro. Se contorce. Vai se desarranjando, cai. Carlos principia a correr. Vai correndo cada vez mais rápido depressa 120 por hora... Pum! caiu. Dá um pulo na cama. Respira ofegante. Se ergue. Procura a colcha. Coberto outra vez.
Aigora está dormindo.
Mais de meio-dia. O estafermo desce pro almoço. As meninas emudecem os flautins.
— Carlos, você não quer levar as suàs irmãzinhas no circo? Tem Piolin.
— Não mamãi. Fico em casa.
Piolin... Esse Carlos não quer ver. E’ divertido. No teatro foi. Tinha certeza de não rir. Mas
Piolin?... Quem deixará de se rir do impagavel!
Rirá. E lhe parece uma traição prá memória dela.
Não vai.
As meninas ficam satisfeitíssimas. O estafermo escangalhava o prazer delas. Andam medrosas assombradas pela casa. Derretería todo o gôsto do espetáculo. Graças a Deus não vai com a gente!
Mas têm dó do estafermo. Vão se despedir dele no jardim. Laurita Aldinha Maria Luisa beijam Carlos. O estafermo se deixa beijar.
A caridade faz milagres, faz. Aldinha entre as pernas do irmão puxando a cara dele:
— Carlos! você não foi! Estava tão bonito!
Que engraçado!...
Ri riso espetaculoso sem verdade só pra ver si êle ri também. Carlos sorri. Meia medrosa:
— O palhaço, sabe? veio num automovinho...
— Não é palhaço, Aldinha! é Piolin!...
— Eu que conto! Veio num automovinho, sabe? grande mesmo! Depois pegou na buzina...
— Primeiro êle levou um tombo, Aldinha!
— Um tombão! Engraçado não? Caiu de perna pra cima... Laurita! como foi que êle falou!
— Viva a Republica!
— E’! Depois êle pegou na buzina buzinou, sabe? e a buzina não buzinava! Então Piolin espiou dentro da buzina...
— Não foi assim!
— Foi!
— Primeiro o dono do circo ficou parado no meio do circo...
Carlos brinca os beiços vadios na cabeleira de Aldinha. Esta agora escuta vivendo-o o caso do palhaço. Pronta pra corrigir Laurita que:
— Então Piolin amontou de novo no automovinho...
— Tão bonito, Carlos! Olhe! dêste tamanho!
— ... e queria passar mas o dono do circo estava parado na frente.
— Ele não via, Laurita!
— Pois é, o...
— O dono do circo estava olhando do outro lado. Então o palhaço, sabe? apertou assim na buzina e a buzina não buzinava. Então êle foi buscar o anzol e enfiou êle dentro da buzina, imagine o quê que êle pescou! Um pé de botina velha mesmo 1 Ihih... Então êle calçou a botina no pé. Tinha uma meia toda escangalhada e... Como é mesmo que êle gritava?...
— Arre, Aldinha! Viva a Republica!
— Viva a Republicaaa...! e saiu no automovinho, sabe?...
— O dono...
— ... do circo levou um tombo tão engraçado! Sujou toda a casaca dele! E Piolin foi-se embora muito contente dizendo adeus prá gente com o lencinho amarelo tinha também ih!... um cachorrinho, sabe?...
— Minha filha, você está caceteando seu irmão. ..
— Não está, mamãi. Deixe ela.
E as meninas contam uma porção de casos engraçados. Carlos sorri. Passeia os beiços desempregados na cabeleira da irmã.
— Não foi assim, Aldinha!
— Foi! Deixe eu contar! A japonesa, Carlos?...
Quando aquilo acaba Carlos se ressente. O flautim o reconto a anedota... Isso afasta. Afasta o que? Não sei. Carlos não quer afastar coisa alguma. Aceita corajoso toda dor. Porem que pena a pararaca ter parado de falar!... O flautim o reconto a anedota... Não tem dúvida: isso afasta.
As imagens da saudade entulham tanto o caminho!... Varra isso d’ai! Tenho pressa e a vida inteira ainda por viver...
Carlos sentiu que já estava de luto aliviado. Ao abatimento, surdo e desespero dos primeiros dias continuara uma tristeza cheia da imagem de Fraulein. Quer dizer que a amante principiava a ser idealizada. Breve se chamaria Nize, Marilia, Salutaris Porta e outros nomes complicados. Não. Isso pra Carlos é impossivel. Breve Fraulein irá pra êsse sótão da vida, quartinho empoeirado aonde a gente joga os trastes inúteis. Até desagradáveis. Mas por agora ela apenas fôra viver no quarto andar. Sem elevador. Carlos já carecia de procurar a imagem dela muito alto. E vinha sempre acompanhada de qualquer coisa cacete: o horror do filho, a mesquinhez dela, a exigencia de casamento, do que escapei! teria mesmo recebido dinheiro?... Não recebeu. Então a imagem longínqua se aproximava apressada. Adquiria mais traços se corporizava em representação nitida. Belíssima. Enriquecida, ai desejo! E não desagradava mais. Fraulein, meu eterno amor!... Talvez mesmo nesses momentos êle pedisse qualquer corpo... Porém só tinha prática dum. Não amarei mais ninguém! Esse vinha sem atributos morais sem exigencia de casamento sem filhos, sublime. Carlos aos poucos se exaltava. O ofêgo dolorido chamava-o prá vida. Severamente reprimia a tendencia pra imoralidades e procurava de novo a própria tristura buscando de novo no quarto andar aquela
Fraulein que... Já muita coisa de convencional nessa tristura.
E ele sentiu sem se confessar a si mesmo que chegara o momento de principiar esquecendo. Meteu-se na manhã. Procurou companheiro de esporte. Foram treinar futebol. Na avenida Higienopolis o telefonema avisou que êle almoçava com o Roberto. Mais um companheiro se juntara com êles.
Passaram a tarde no cinema. Carlos fumou. Pagou o chôpe. Sorriu. Quasi riu. De sopetão falou alto.
Os amigos namoravam. Carlos por dentro se riu dos platônicos. Tolos! igrelar assim e mais nada!...
Tolos. Carlos não namorará.
Na avenida Higienopolis não conheceu mais a casa nem ninguém. Era uma gente antiga que voltava. E porquê forte sem precisão de carinhos a mãi as irmãs se tornaram inúteis pra êle. Jantou se esforçando por conservar um geito triste. As conveniências muitas vezes prolongam as infelicidades. Julgou mesmo a proposito recordar a imagem de Fraulein. Teve que subir quatro lances de escadaria interminável. Se cansou. Pudera, correra tanto de manhã!... si tivesse avançado um pouco mais fazia o gôl... Tom Mix, que admiravel!...
O dia já lhe interessava muito mais que o passado.
Vinte-e-duas horas.
Carlos volta da rua Ipiranga.
— Mamãi! olhe Carlos!...
Estouraram pela casa a dentro. Não sabiam bem porquê porem desejavam que Carlos estivesse ai.
— Mamãi!
— Mamãi, vi Fraulein!
— Vimos ela!
— ... com Judite e...
— ... Luis!
— Será que ela está na casa deles!
— Está bom, fiquem quietas! Que tem isso agora!
Carlos primeiro concordou: isso não tinha nada. Não tinha nada? Correra um friume desagradável por dentro. Achou conveniente ir pro quarto. Assim podia pensar milhor. Principalmente guardava as aparências. Naquele caso qualquer pessoa deve se mostrar meia triste, ensina a intuição. E realmente tinha certo alvoroço nas vísceras
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dele. No quarto o malestar continuou. Se acentuou.
Difícil de analisar porem. Voltará tudo? Não. Isso
Carlos não quer. Vitória! Sousa Costa empregou bem os oito contos!
Mas então aquele malestar não vem do amor?
Vem e não vem. Isto é: não vem. Não vem de nada.
Vem de... naturalissimo! Carlos não estava preparado pro choque e teve uma tontona. Ficou agreste. Aliás não pensa nada disto. Raciocina assim: Fraulein está com o Luis. E a Judite? Não tem Judite. Fraulein está com o Luis, juro. Consequências esportivas: Carlos acha que chegou primeiro. Luis perdeu a corrida. Por isso se ri do bocó.
E felizmente não são camaradas. Familia de visita rara na casa dele. Entra dona Laura prontinha pra misturar as lagrimas dela com as do filho.
— Meu filho, você está doente?
— Não tenho nada, mamãi! que idea!
Tem mas é uma raiva da mãi. Não carece de ajutorios. Sabe andar só. E depois dona Laura tocou no assunto. Isso infernizou Carlos que já principia a ter vergonha do passado.
Certa curiosidade ficou. Vai ver. Passou duas vezes pela casa do Luis. Não enxergou nada. Esqueceu a curiosidade. Pernada idiota! E tinha de
tratar do marinheiro pro Carnaval. Marinheiro» está escolhido. Assim mostra as cordas dos braços e a peitaria. A camisa será de seda branca... Duas ancoras bordadas de ouro na gola.
Procurando a página da gramatica portuguesa aceitou o convite dos olhos. Leu suas próprias letras manuscritas na margem:
Krone des Lebens,
Glück ohne Ruh
Liebe bist du!
Escrevera os versinhos de Goethe ali quatro» quatro ou cinco? dias depois da partida de. E aquilo já ficava tão pra trás! Carlos não lera Bataille está se vendo. O passado pra êle ficava atrás cada vez mais distante cada vez mais passado. Isso mesmo. Pegou na borracha, apagou aquilo. Impiedosamente. Não quer saber de saudades nem lembranças. Que sensações refinadas pode ter um rapaz de dezasseis anos? Nenhuma. Principalmente si ainda não leu Bataille? Nenhuma. Ninguém topará com uns versinhos alemãis na página 84 de certa gramatica portuguesa.
Porém Carlos fez mal. Não pôe reparo em que
das muitas superioridades que o fazem másculo e respeitado pelos colegas se conta entre as superioridades boas essa uma de falar o alemão. Prefere a que o exalta pelo sôco de anteontem no Frederico. Quasi o botava nocaute. E o gôl de quartafeira... Maravilhoso! Engraçado! até os dezoito anos mais ou menos a inveja faz amigos. Só depois afasta e inimiza. Carlos vive rodeado de amigos.
Se dedicariam por êle. Amam-no. Se dedicariam pois por amor?
— E’ taco no alemão...
Acolhe a afirmativa um silencio respeitoso scismarento.
Porém creic que em dois ou tres anos esquecerá o alemão. Que pena! Praticar não pratica porquê- não tem conhecidos alemãis. Não lê porquê não gosta de ler. Assim a gente esquece logo as sabedorias com que a providencia dos pais nos enriquece. Não tem mais remédio, oito contos perdidos!
Ora não faz mal! Oito contos já tem perdido
Sousa Costa numa noite de pôquer. E pra clubes como pra fazendas de café ou criação não tem necessidade de citações em alemão. Esquece o teu alemão si queres ser feliz! Falar nisso... Aquele estudante de japonês já traduz revistas ilustradas.
De primeiro andou desiludido cansado. Quasi desistiu. Porém seguiu a lição dêste idilio. Teve paciência. Tenteou. De repente criou fôrças. Foi crescendo em progresso rápido. Agora deu pra ler um livro truculento com desenhos de Okussai. Anda cheio de japonesadas satisfeito de si confiante. Principalmente no bonde quando abre uns livros assombrados, só vendo o espanto dos vizinhos! Espanto respeitoso, a gente nota facilmente. E só passeia nos peixes-fritos da Garagem Mikado. Sorri pro motorista umas ordens cabalisticas e o japonês conduz o automóvel direitinho adonde a gente quer. Maravilhoso! Aprende o teu japonês si queres ser feliz!
Carlos nunca aprendería o japonês... Praquê, meu Deus! E tem razão. Os milhores haicais andam traduzidos em qualquer lingua. Budá e o zenismo não podem interessar um moço brasileiro batisado e catolico. Alem disso acho inteiramente desnecessário o estudo da poesia japonesa. Tem muito mais sabedoria nas nossas quadrinhas populares que nos tancas e haicais do Japão. Poderiamos lembrar ainda que Carlos também ignora as nossas toadas... Porém a culpa é do clima paulistano que faz em vez de tenores mocinhos desafinados. Si Carlos nascesse mineiro é provável que entoasse a moda:
Vancê diz que sabe muito,
Barbuleta sabe mais:
Anda de perna pra riba
Coisa que vancê não faiz.
Diante dessa sabedoria popular êle nunca aprenderá o japonês. Será que lhe comunicaram a quadra? Tem tantas dessas dentro da gente!...
Ninguém o saberá jamais.
E Carlos voltou da lição. O episodio de Adamastor... Botou o Said Ali e a antologia na escrivaninha. Olhos erradios vagabundos. Aaa... Se fixaram na página celeste da janela. Goethe seria mesmo maior que Camões... Qual! nunca escrevería os Lusíadas. Tetis núa na praia... Camões era maior. Ora! até Bilac.
Escutara versos da Via-Latea num recital de declamação. Era úa moça gorda beiços gostosos cheia de gestos muito carioca. Linda I Recitara muito Bilac. Carlos gostou. Gostou imensamente.
De Bilac.
O corso se esparramava no aulge. As quatro filas de automóveis se entrecruzavam de manso.
Espirravam na tardinha as serpentinas. Luis já abandonara outra vez o lugar junto do motorista.
— Mais uma, Luis!
Passava a serpentina prá irmã.
— Porque você saiu de junto do chauffeur? Você tem alguma coisa?
— ... tenho nada, mamãi! Você sempre pensa que estou doente!...
Estava bem. Bemzissimo. Fraulein entre os dois irmãos na capota descida da Marmon recebeu nos olhos a cara cheia de confissões medrosas do Luis. Abaixou recatada o olhar.
— Mais uma, Luis! Luis, mais uma! que lerdeza. Me dê um maço logo!
— Também não brinca, Fraulein?
— Não gosto muito dêsses brinquedos. Prefiro conversar.
Olhou-o sorrindo. Porém como pintara no sorriso quasi a máscara do desejo tornou a baixar as palpebras serenas. Varreu com elas o impudor e ficou inocente. Luis se chegara um bocadinho mais ou teve a intenção de. Muito feliz por descobrir essa correspondência. Também não gosta dêsses brinquedos ásperos. Faz cansaço na gente. E tantas pessoas desconhecidas. E’ tão milhor dentro de casa aonde a gente se conhece bem. Também preferia conversar. Com ela. Porém como não tinha nada que falar desenrolava envergonhadamente uma serpentina.
Fraulein olhava-o, puxava-lhe da lingua fornecia assuntos confiança em si mesmo. Luis progredia. Porem lentamente quasi nada. E quando ela no pretexto amoroso agarrou a mão dele:
— Não estrague assim a serpentina, mau!
Luis já não retirou a mão. Só que ficou branco tremulo se afoitando ao gôsto do contacto. Se pusera a espiar muito atento a cadeia dos autos. Não via nada, plum! plum! coração pulando no peito.
Fraulein retirou a mão. Trouxera consigo a fita desenrolada da serpentina. Luis docemente, que gostosura! puxava. Fraulein puxava. A serpentina se desenrolando. Tão divino o prazer que êle sentiu os olhos húmidos. Fraulein pensava relando a vista pela multidão. Luis lhe desagradava. Não era o tipo dela. Nenhum desses brasileiros aliás. Queria alguém de puro de humilde paciente estudioso pesquizador. Chegaria da Biblioteca, da Universidade... Qualquer edifício grande de pensamento cheio de deuses disponíveis. Deporia os livros... cadernos de notas? sobre a toalha de riscado...
Lhe dava o beijo na testa... Todo de preto, alfinete de ouro na gravata... Nariz longo muito fino... Bem raçado. Aliás todo êle duma brancura transparente... E a mancha irregular do sangue nas maçãs... Tossiría arranjando os oculos sem aro... Tossia sempre... Jantariam quasi sem falar nada... Serpentinas paulistas a dois e quinhentos! Dois e quinhentos! A Pastoral. Iriam no dia seguinte ouvir a Pastoral... Ele se punha no estudo... Ela arranjava de novo a... alguém lhe
L
chamou os olhos conhecido, Carlos? Era Carlos com as irmãs na Fiat. Instintivamente ela atirou uma serpentina. A fita rebentou.
— Ah!
Deu um gritinho horrorizada. Acertara na testa dele. Podia te-lo ferido... Carlos olhou. Mandou-lhe um gesto rápido de cabeça, quasi saudação. E continuou brincando com a holandesa. Fraulein se doeu. Baque seco nas entranhas. O deus soltou um gemido que nem urro. Esses deuses do norte são muito cheios de exageros. Carlos não fez por mal! Foi mostrar que reconhecia e machucou. Fraulein virando o rosto pra trás seguiu-o com os olhos. Quasi amorosa. Estava muito direito assim! E se venceu, feliz. Ele amaria muito aquela moça. Estava bonita. Rica, se via. Carlos casaria bem. Na mesma classe. Os versos de Hermann e Dorotea lhe confirmaram o pensamento:
Mehr wohlangestattet mõch ich im Hause die
Braut sehn;
Denn die Arme wird doch nur zulezt vom
Manne verachtet,
Und er hált sie ais Magd, die ais Magd mit dem
Bündel hereinkam. O verso seguinte veio sem ela querer: Ungerecht bleiben die Mânner... Repeliu-o. O mundo é tal como é. A gente deve aceitar sem revolta. Carlos casará rico. Muito bem. E uma comoção materna se desencadeou no corpo dela. Nem via mais Carlos. Os olhos dela foram batendo de auto em auto pela gente colorida. Carlos... José... Alfredo já casadio... Antoninho também já casado... E, mein
Gott, tantos!... Tomou-a maravilhosa alucinação.
Estavam todos por ali amando. Felizes. Habilissimos. Familiares. Ela era mãi de amor! Estava até bonita. Mãi de amor! Mãi...
Luis muito sozinho nos seus dezassete anos medrosos, esguio pela desilusão, se queixou:
— E’ Carlos...
:...De amor!... Ela abriu os olhos da vida pra aquele. Ininteligente. Sarambé. Batido, sem mesmo vivacidade interior. Decididamente Luis lhe desagradava. Nenhuma vontade de continuar.
Porém como êle apenas esperasse um gesto dela pra recomeçar o aprendizado Fraulein molemente buscou entre as mãos dele a fita da serpentina. O gesto preparado aproximara os corpos. Ondulação macia de auto é pretexto que amantes não devem perder. Descansando um pouco mais pesadamente o ombro no peito dele Fraulein se deixou amparar.
Ensinava assim o mais doce mais suave dos gestos de proteção.
FIM