Bloco V
— Ich werde gefallen... Fraulein! Eu não quero que você saia daqui de casa!
Ela sorrindo pra refrescar o arroubo ôh! descansou a mão na dele.
— Não vou sair, Carlos, sossegue.
— Ich werde gefallen, du würdest gefallen... continuou retirando a mão.
Fraulein nem reparou que êle passava do futuro pro condicional: Eu cairei, tu cairías si... etc. Ela estava pensando que carecia apressar e acabar com aquilo sinão. Chegou mais a cadeira por acaso. E o menino continuava aos trambulhões errando muito.
Ultimo quarto da hora. O detestado. Carlos detestava o ditado. Fraulein também. O ditado? Não. O último quarto da hora. Por causa do ditado. Ou detestava o ditado por ser no último quarto da hora?... Ninguém o saberá jamais. Sobre a grande escrivaninha, legitimo liceu-de-artes-e-oficios tão imitado pelos velhos entalhes coloniais, o menino escrevia com lentidão. Hesitava mais que o necessário. Sucedia que então Fraulein se inclinava sobre êle pra ver as letras e corrigir. Fraulein era miope. Inclinava. Se encostava toda nele. Carlos não gostava daquilo. Escritório húmido frio fechado no silêncio. Os últimos calores do outono derretiam a luz lá fora e esta escorrendo pela janela entresserada se coagulava no tapete. Dansarinamente na linfa luminosa a poeira. Carlos não
-suportaria mais o malentendido. Isso via-se. A angústia interior imperiosa aterrorizante avisava-o também disso. Confessaria hoje agora já na lição.
Será que Fraulein também percebera o desespêro •do menino? Auxiliava. A hora acabava. Carlos planejava com horror não falar nada. Respiração multiplicada sonora. E era verdade que esquecia- das letras agora. Sehnsucht tinha agá ou nãor Desejaria escrever rápido acabar! Correr ao Sol noutro calor!... Fraulein com o braço esquerdo no espaldar da cadeira de Carlos ponhamos nas costas do rapaz se despejou sobre êle amoldada:
— Deixe ver.
Deitou o braço direito sobre o dele. Lhe segurava a mão soerguendo-a do papel. Assim, não é pra intrigar, porém êle ficava abraçado. Abaixou a cabeça querendo e não querendo, que desespêro! Era demais! Se ergueu violento. Empurrou a cadeira. Machucou Fraulein.
— Não escrevo mais!
Ela ficou branca. Teve um golpe. Custou o:
— Que é isso? Venha escrever, Carlos!
— Dêsse geito não escrevo mais!
Abriu a luz da janela. Olhava pra fora raivoso enterrando virilmente as mãos nos bolsos do pijama. Incapaz de sair daquela sala. Fraulein não compreendia. Estava bela. Corada. Os cabelos -erriçados metálicos. Doia nela o desejo daquele ingenuo. Amou-o no momento com delírio. Revelação! Todos os instintos baixos dela, porquê baixos E todos os instintos altíssimos dela guardados -por horas... altos ou baixos? ninguém o saberá jamais! guardados por horas por dias meses surgiam somados numa carreira de estouro que só a exaustão pararia. E êle era mais forte, duma fôrça de pureza! Vencia-a. Si partisse: tudo acabado. Oh não queria não! Vai falar pro pai, não sei... Mesmo que sofresse também, era capaz de trazer Maria Luisa prás lições... E nunca mais ficará sá com ela com aquela que desejava que pedia de amor... Depois começaria a pensar nela... Aos poucos ei-la idealizada, lá longe... Não! Assim Fraulein não queria. E não reparava que Carlos era muito quotidiano pra tais idealizações. Isso, prova só que Fraulein era rúim observadora nada mais. Ou por causa da ardencia do instante. Aliásjá tinham ambos ultrapassado o pensamento de amor. Carlos não sairá daquela sala assim mãos, nos bolsos lábios pobres alma interrogativa.
— Mas que modos são êsses, Carlos.... Responda! dolorida.
Ele deu um som muchochado com a língua sacudindo a cabeça recurva balançando o corpo numa irritação motivada sem nexo. Batia o calcanhar. Fraulein se aproximou. Que pedido sublime, murmurando aquele:
— Venha escrever...
— Não escrevo mais já disse...
— Venha...
Tinha de ser a primeira a se confessar. Ela era a mais forte, da força de sabença. Teve tristura por isso. Carlos por seu lado mais calmo. A revolta lhe desa/grupara os tais instintos altíssimos.
Quando Fraulein toda entregue amolecida emoliente lhe segurou no braço:
— Venha... Você me entristece, Carlos...
Ele não sentiu nada. Imaginou que estava tudo acabado e vencera o. Opôs apenas por opor:
— Mas a hora já acabou...
— Não ainda...
Voltaram prás cadeiras. Muito unidos agora.
De proposito. Sabiam que estavam unidos de proposito. Amantes e confessados . Sehnsucht tinha agá.
— Ora Carlos. Como é o esse maiusculo?
E como se afastara um pouco dele no recuo parlamentar dos espantos Carlos não poude suportar o gôso perdido. Olhou pra ela. E canalha se rindo quasi, de vergonha, vencedor:
— Venha! Fique daquele geito!
Enlaçava-lhe a cintura enfim. Puxou-a. Botou a cara gostosa no colo dela. Aonde nascem os aromas que atarantam. Lhe beijou as roupas. Depois um medo grande dela vergonha desmedida, se refugiou dela nela. Sensualmente afundou olhos nariz no corpo da querida. Pra se esconder. Fraulein sufocou-o contra o peito nos braços enrolados.
Quando êle sentiu sobre os cabelos uma respiração de noroeste, principiou a imaginar e criticar. Criticar é comparar. Que gôsto teriam esses beijos do cinema? Ergueu a cara. E pois que era de novo o mais forte beijou Fraulein na boca.
Das lombadas de couro os grandes amorosos espiavam. Dante. Camões. Dirceu. Não digo que pro momento filmico do caso estes sejam livros exemplares porem asseguro que eram exemplares virgens. Nem cortados alguns. Não eram fecundos pois.
O caso é que Sousa Costa escutando um amigo bibliófilo gabar exemplares caros, falara pra êle:
— Olha, Magalhães, veja si me arranja uns dêsses prá minha biblioteca.
Por isso que possuia aquele Camões tão grande, aquela Vita Nuova em pergaminho, um Barlaeus e um Rugendas bom pra distrair as crianças dia de 'chuva.
Ahn... ia me esquecendo de avisar que este idilio é imitado do francês de Bernardin de SaintPierre.
Carlos êsses tres dias viveu? Eu não sei si alcançar a maxima felicidade, extasiar-se ai, e sentir que ela apesar de superlativa inda cresce, e reparar que inda pode crescer mais... isso é viver? A felicidade é tão oposta á vida que estando nela a gente esquece que vive. Depois quando acaba, dure pouco dure muito, fica apenas a impressão do segundo. Nem isso. Impressão de hiato, de defeito de sintaxe logo corrigido, vertigem em que ninguém dá tento de si. E mais essa idea que retomase de novo a vida que das portas do Paraíso Terrestre em diante é sofrer e impedimento só. Estou convencido: Carlos não viveu êsses tres dias. Tres, ponquê no quarto os arroubos se espevitaram tão alarmantemente que não podiam mais sujeitar-se ao âmbito social da biblioteca e na mesquinha hora de lição. Pra êle talvez tempo e ambiente pouco importassem porém nós já sabemos que
Fraulein tinha o gôsto pelas metodizações. Ali não.
Carlos aceitando a mania assim gemeu:
— Fraulein... eu queria te falar uma coisa...
Sem vergonha sorria. E fechou os olhos encabulado. Se aninhara nos braços dela pra com mais eficacia ordenar.
— Pois fale. Carlos.
— Aqui não!...
Estes paulistas falam muito devagar. Escute como êle arrasta a voz:
— Aqui não!... De repente a hora acaba e a gente carece de sair... Podem desconfiar!...
Fraulein muda.
Certas coisas são muito difíceis de falar quando a gente tem quinze anos não pensa nas consequências e a querida espera muda. Carlos era inocente por demais pra supor que Fraulein. Sinão desembuxava. Qual desembuxava! agia. Porém como nada supunha não teve coragem pra. Alçou o braço. Puxou a cabeça dela. Deu o beijo.
— Uhmm... suspirou. E emudeceu. Silencio. Principiou a brincar com os dedos dela e muito baixo:
— Sim?...
— Sim o que, Carlos?
— Ora!
De repente se apertando nos braços dela:
— Ah, vamos! diga si eu posso ir falar com você!...
— Mas falar o que, Carlos?
— Ahn...
Riu. Depois cantando numa gaita desafinada:
— Você já sabe, agora!...
Fraulein teve uma dor toda machucada. Teve raiva. Empurrou Carlos.
— Vamos embora.
— Nãão!...
— Me largue. A hora já acabou.
— Mais um poucadinho!
— Não me aperte assim!
— Dá um beijo!
— Que men...
— Só um... último!
Vencida.
— Hoje?...
— Não me amole!
— Hoje, ouviu.
Estava combinado. A dificuldade sempre parece maior do que é.
Imagino que esta maxima deve ser da maior imoralidade. Paciência. Tem crapulas ordinarissimos que namoram a mulher do proximo. Tem também estudantes dignos de elogio que pretendem aprender a lingua japonesa. Ora eu falo pra esse estudante: Irmãozinho, .principie e siga corajoso. A dificuldade sempre parece maior do que é. A gente chega no fim, ora si chega!
Fraulein é que saiu furiosa da biblioteca. Uma raiva de Carlos dos homens de ser mulher... Principalmente de Carlos, objeto, ser que ocupa lugar no espaço. Lhe machucara o deus encarcerado. Alias eu já preveni que Carlos era machucador.
Carlos era machucador. Porém não fazia por mal. Espandongava tudo. Nunca tinha intenção de espandongar coisa alguma.
Repare nesse menino que passa. E’ grandalhão, é. Mesmo pesado. A gente diz que êle é magro... A culpa não é tanto das carnes que são rijas e abundantes. Se chama Carlos Alberto Sousa Costa. Come bem. Dorme bem. Passa vida regalada. E sadio. Nem siquer a faringite crônica dos oitocentos mil paulistanos. Mas então porquê é magro? Já falei que não é magro. Desraçado. Apenas isso. Que sucede com as raças muitos apuradas? A carne é bem cotada no Mercado. Muito mais macia. Em muito maior quantidade sobretudo. Pra conservar tais excelencias a Inglaterra proibe a intromissão do boi zebü nas marombas dela. Toda gente sabe também que o gado abatido lá na grande Argentina que do polled-angus albion sempre abunda alcança tipo elevado na cotação dos importadores europeus. No Brasil entrou o boi zebú. Entra o durhan também. E já pasta o curraleiro e principalmente o caraeú. Porém inda não se apurou coisa que valha. Será falta de carne nestes membros possantes? Nem tanto. Os ossos é que ainda não diminuiram. Fazem um consumo danado de alimento. O produto é forte resistente... Mas porém a aparência é de magreza. Tudo por causa dos ossos e por não estarem ainda apuradas as raças. Delírios da seleção! Fundam o Herd-Book Caracú. O muchirão vai progredindo e já orgulha o Estado de São Paulo. Porém essas coisas não se fazem num dia! Tenha paciência! Carece tempo,
muita exiperiencia... A’s vezes mesmo a gente precisa voltar pra trás. E ao poucos devido á clarividência dos criadores os chifres diminuem, o focinho se torna uniformemente roseo, cascos roseos, as malhas apanteradas alindam o pêlo arroz-doce do animal. Bem claro inda não está... Mas lindo assim mesmo, não acha? Moreno rosado... terá mais deliciosa e masculina cor! Cobre carnes rijas musculosas afirmo. Apenas estas se disseminam porquê a obrigação delas é cobrir. Então cobrem êsses ossos de pouca ou nenhuma seleção grandalhudos e grandes. Veja os braços por exemplo.
Simiescos. O menino até anda meio recurvado. E as mãos são grosseiras. Porém isso já tem causa muito diferente. A culpa é toda dos esportes. Futebol, principalmente natação e remo. Agora o boxe está na moda. Carlos boxa.
E’ pugilista. A milhorfita que até agora a arte cinematográfica realizou foi o Scrap Iron com
Charles Ray. Tem The Kid é verdade, por Carlito... Porém sob o ponto-de-vista técnico, arte cinematica, apesar dos achados de Carlito, o Pugilista — que assim traduziram o Scrap Iron, é infinitamente superior. Reconheço os valores espirituais do Garoto. E Carlito é genial. Charles Ray apenas grandecissimo artista. O Pugilista porém é mais cinematico, puramente cinematico e de proporções maravilhosamente equilibradas. Carlos riu muito vendo o Garoto. Apenas riu. Se comoveu um
pouco também. Porém não pensou, isto é, não viu o filme. Com o Pugilista vibrou intensamente. Aplaudiu. Ah... querem saber duma coisa engraçadissima? Deu-se no cinema Royal. Eu já vira a fita não sei quantas vezes no Pathé, no Avenida, quando fui ve-la de novo no Royal. Pois aí, frequência de piás arranjados, se deu a coisa engraçadissima. Nos outros dois cinemas a miuçalha inope das galerias aplaudiu estrepitosa a vitória do ferreiro Charles Ray sobre o boxista profissional que lhe roubara a pequena. Pois no Royal a meninada — que não tem galerias no Royal, bairro suntuoso — das primeiras filas se dividiu. Uns poucos inda gosaram com a recompensa moral do ferreiro. A maioria sofreu. Se pôs a vaiar. Desejava a vitória provável e lógica do profissional. Carlos também.
Eu chamo isto de caso interessantíssimo. O boxista profissional se esforçara por parecer indivíduo sentimentalmente antipático. Porém fortíssimo e manhoso. Imoral. A vitória tinha de ser dele. Era dele. Nada pois mais irritante e vitorioso que êle. O ferreiro, rapazinho quasi coió queria muito bem a mãi, se devotava por ela, descuidava de si, obedecia, quasi fraco e deixou que o outro lhe roubasse a namorada. (Guardem esta última circunstancia). Quasi ridículo. Personagem inteiramente simpático. Sendo mais fraco venceu a fôrça. Vaiou-o a piasada rica. Não comento.
Venha agora a circunstancia do roubo da namorada. Adultério virtual existiu. Ora isso dos meninos do Royal aplaudirem o amante virtual e se desinteressarem pelo corneado virtual é sintoma.
Sintoma grave. Não sei si grave ou risivel... Sempre é milhor sorrir e cantar o “Ai, seu Mé!” a soluçar a “Casa branca da serra”. Ponhamos somente: SINTOMA. Não veem nele muita coisa muito futuro? Muito presente também? Eu vejo. Porém aqui não direi o que vejo. Porquê? Ora essa!...
Simplesmente porquê êste livro é um idilio imitado de Bernardin de Saint-Pierre não obra pra agitar questões sociais. Apenas o sorriso que o sacerdote amargamente suspendeu no canto, esquerdo da boca (mas um abaré não devia ler meu livro, a culpa é sua!) me obriga a dizer que de duas uma: Ou Sousa Costa pai se igualou a Sousa Costa filho e á criançada do Royal ou então esta criançada e Sousa Costa filho estacionaram na concepção erotico-social de Sousa Costa pai. E’ só o que me cabe afirmar aqui. E vem a solução do problema.
Dupla solução. Si Sousa Costa pai se igualou aos meninos, futuros Sousa Costas pais o esposo de dona Laura é um precursor que nem Whitman. Ou são os meninos que em vez de irem pra diante estagnaram. Temos neste caso decadência. Decadência ou progresso eis outra coisa que não deve discutir o romancista imparcial. Você dirá que decadência. Outro que progresso. Aonde ficamos? Eu
por mim não poderia resolver. As verdades humanas são falazes e voláteis. Porém fico sossegado pois quer o motorista avance pela rodovia de Campinas quer siga pela Estrada-do-Mar tenho quasi certeza de nunca chegar em Roma.
Esta última frase me obriga também a pensar na inutilidade deste livro e de Fraulein... Carlos, Fraulein existisse ou não, êste livro se escrevesse ou não, nunca entrará pelas portas da Cidade Eterna. Quando ajuntar vinte-e-um anos terá fazenda. Se estabelece. Então praquê escrever tantos alfabetos em desordem? Então praquê Sousa Costa gastar oito contos com a professora de amor? Isso nem ao menos diminui os ossos do caracú! e a carne de Minas continua de terceira premida entre muxibas e trançada de nervos... Mas qual o quê! Fraulein traz o seu beneficiozinho e nada mais honesto que um autor acreditar no valorinho dos alfabetos em desordem. Lhe garanto que tenho algum valor. E já não é pequeno o de por de nova em tránzito o problema zebú. E’ controvérsia que diretamente nos afeta. Mesmo botando as rivalidades de lado isso da Argentina conseguir boa cotaçãa prá carne dos seus pampas feios e a gente apenas preço baixo pros ossos das nossas invernadas tão mais risonhas e verdes atucana o brio nacional. Que diabo! e êsse triângulo mineiro sem maiusculas (estou danado) inda insiste na importação do boi carcunda!... Não pode ser! Este livro prega o
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abandono das raças indianas! Morte ao zebú! Selecionemos o caracú!... Eis a moral do idilio.
Livro de tese pois? E’. Não é. Ninguém o saberá jamais.
E boto um ponto-final sorumbatico. Que pena!
Por mais vontade minha de escrever livro de artepura sem me amolar com vida nacionalismos nem morais não consigo! Paciência. Porém o ponto-final sorumbatico fica. Faço questã dele.
Carlos não ficou tão melancólico assim com a derrota do boxista profissional. Porém indiscutível: não gostou não. Fez êsse gesto de cabeça tão comum nele de quem joga o cabelo pra trás. Prova que encabulou. Desapontou porquê esperava a derrota do mais fraco e pouco se lhe dava a corneação de Charles Ray. Isso não quer dizer falta de coração. Significa somente esquecimento do coração, coisa muito comum nas pessoas normais. Carlos é frio? Não. Porém não se alembra de querer bem. Se basta a si mesmo e se defende das festinhas. Si alguém lhe bota a mão no ombro retira corpo instintivamente. Si uma das irmãs, irmãs nem tanto, camaradas, que Carlos não bate em mulheres. lhe dá a mão, aperta até machucar. Aliás não corresponde ao shequendes de ninguém. Aos de alguma superioridade que estendem a mão pra êle entrega dedos sem contacto inertes retos que não se curvam pra apertar. Paralisia infantil. Nunca! Paralisia de Carlos. E’ doença particular. Quero mostrar com o caso do ombro e o da mão que êle não gosa (nem mesmo as percebe) com as pequenas e mais ou menos mascaradas sensualidades que entretêm as fomes amorosas de todos da aurora ao sedeitar. Porem nestes últimos dias Carlos beija muito as irmãs. Principalmente Aldinha.
— Que caidos são êsses com sua irmã!
Carlos baixa os olhos, se ri. Pronto: já envaretou outra vez. Sem querer aperta Aldinha e machuca.
— Ai, Carlos!... Feio!
— Quem que é feio!
— Você, sabe!
— Quem é que é feio! Repita mais uma vez pra você ver!
— E’ você! é você!
— Quem!
— Tú, turututú! parente do tatú e do urubú, pronto!
— Então si eu sou parente do tatú e do urubú você é tatua misturada com urubua.
Aldinha chora. E’ natural.
— Mamãi! ahn... mamãi!
— Que foi, Aldinha?
— Ahn... Carlos me chamou de tatua misturada com urubua...
Ele não fez por mal. Só crianças fracas doentias e nervosas são malvadas. Vejam Maria Luisa... Faz uns pares de dias foi no chá da amiguinha. Pois achou geito escondido de esquartejar o bêbê de porcelana. Quando saia esperando a mãi no jardim depenou a palmeirinha. De caso pensado. Mas ninguém não viu. Ela não contou nada.
Si fosse Carlos juro que pegando na boneca desarticulava num instante os braços da coitadinha. Porém ia logo mostrar o malfeito. Tomava pito. Encabulava. Depois foi saltar a palmeirinha. Facilitou. Deu com o pé no vaso caro.
— Dona Mercedes quebrei o vaso da senhora! me desculpe!
Ela diria o “não faz mal” tiririca por dentro.
Depois desabafava:
— A Laura tem um filho insuportável! Malvado ! você nem imagina. Quebra tudo. E de proposito! Diferente da irmã... Maria Luisa é tão boazinha!....
Porem isso não faria nenhum mal pra Carlos a essa hora, quem sabe? talvez envaretado por novas reinações pensando noutras coisas. Maria Luisa lembra. A outra palmeirinha... Lhe cresce a pena de não a ter desfolhado também.
Não sei si pus alguma coisa de Carlos nestas últimas .páginas. Tive intenção de. Relendo o capítulo sinto que ai estão a pureza a inocência os
ossos e a graça subtil do rapaz. E determinei bem que êle era um machucador de marca maior. O que não pus inda supro com as imaginações amorosas que fazem com que aos pais todos os filhos pareçam belos e bons. (Me parece que estou caindo em contradição...) Porém brotam em mim desejos de riscar essas linhas tão pouco descritivas e tão entusiásticas. Não têm relêvo... Que fiquem! Provam ao menos a minha admiração por Carlos. Maria Luisa... não me perguntem mais por ela. Detesto-a. Lhe perdoo sem dúvida os defeitos nem tanto porquê lhe vêm do fisico e das doenças como querem os fisiologistas de agora, lhe perdoo por amor de parecer muito comigo. Ora a pessoa dêste mundo a que mais tenho perdoado erros e defeitos sou eu mesmo. Porém por essa mesma razão da parecença moral dela comigo é que detesto Maria Luisa. Me permitam a franqueza: A pessoa que menos aprecio neste mundo sou eu. Não sei si é porquê amando por demais toda a gente inda não tive tempo pra me amar a mim mesmo... Ou porquê sou sujeito fraco... Rúim como eu só. Encaro a minha não-existencia como benefício guassú pra nós todos.
Até pra Carlos que assim não se mostrava tão vulgar peralta e machucador. Nesse dia então viveu atentando as meninas.
— Mamãi 1 venha ver Carlos!
Dona Laura ficou zonza.
Fraulein enciumada. Se remordendo. Traidor!
Alí pela tardinha não poude mais, passou por êle e murmurou:
— Meia-noite.
Carlos se acalmou de sopetão. Não boliu mais com as irmãs, serio. Estava homem.
Carlos estava homem. Sem que se amedrontasse assuntou a noite envelhecer. Só reparou no vagar dela. Muito sereno porém apressado.
Aos poucos se apagaram as bulhas da casa.
Vinte-e-tres horas. Se irritou com a impaciência chegando que o fazia banzar pelo quarto assim e lhe dava sensação de prisioneiro que espera o minuto pra fugir. Puxa! coração aos priscos. A calma era exterior. Não. O coração também se fatigou e sentou. Carlos também sentou. Cruzou os braços pra não mexer tanto assim. Disposto a esperar com paciência. Tomou o cuidado de por o braço esquerdo sobre o outro. Assim o relogio ficava á mostra na munheca. E os minutos se acabando tardonhos. Aliás nem tinha pressa mais. O aproximar da aventura lhe apaziguava as ardencias.
Resfriado? Qualquer coisa lhe tirava o calor dos dedos... Se lembrou de vestir pijama limpo, fez.
Depois pensou. Não tinha proposito trocar de pijama só porquê. Carlos como se vê já tinha progredido sobre o pai. Nunca usará brilhantina nos bigodes. Si nem bigodes! Vestiu outra vez o pijama usado e se reconciliou consigo já confiante. E outra vez se sentou. Olhava a imobilidade dos ponteiros que lhe abriríam a porta de Fraulein. Que o entregariam pra Fraulein. Uma doce comoção quasi filial esquentou Carlos novamente. E porquê amava sem temor nem pensamento, sem gôso, apenas por instinto e por amor, por gôso, iria se entregar. Está certo. Carlos amava com paixão.
A imobilidade é a sala-de-espera do sono. Procurou ler e cochilou. Vinte-e-tres e trinta. Se ergueu. Caceteação esperar! Também o momento estava estourando por aí, graças a Deus! Sentou na cama. Mais vinte-e-sete minutos. Vinte-e-seis... Vinte-e-cinco... Vinte-e... Nos braços cruzados sobre a guarda-da-cama a cabeça dele pousou.
A posição incomoda acordou Carlos. Espreguiçou empurrando com as mãos a dor do corpo. Sentado porquê? ah! Lembrança viva enxota qualquer sono. Hora e meia! Desejo furioso subiu. Sem reflexão sem vergonha da fraqueza. Corre prá porta de Fraulein. Fechada! Bate. Bate forte com risco de acordar os outros. Bate até a porta se abrir, entra.
Aqui devem se trocar naturalmente umas primeiras frases de explicação... si êle der espaçopra tanto entre os dois! porém escuto tres razões que obrigam-me a não contar a scena do quarto.
Primeiro: Não gosto de palavras veladas que não falam tudo e falam muito mais que a verdade..
Adoro a palavra direta. Embora não seja amoralista em arte creio que quando o escritor é obrigado a contar um caso pansudo tem de contar o que existe sem se preocupar com o possível escândalo de que a ficção liberta as artes. Pão é pão, foi sempre pão, comida muito gostosa que entra mesmo nos banquetes desde muitíssimo antes do prefacio de Cromwell. Alem disso a palavra velada é uma ofensa pro leitor. Pressupõe neste a dose suficiente de malícia que na realidade existe porém é impertinência a gente mostrar que conta com ela.
Por outro lado pintar a verdade me afundava no geito realista. E repisava um ato que sendo muito comum, como ato apenas não mostra boniteza nem virtude: é. Ora eu me interesso muito mais pelo que não é. A prova é este idilio aonde personagens vulgares se metem em fatos incomuns.
Terceira e capital razão: Já várias vezes na minha obra claudiquei diante da primeira e da segunda. Da segunda não. Claudiquei diante da primeira. Da terceira nunca. Temos pois segunda e terceira em pé igual. Isso si por acaso se tratasse de praticar a Justiça e eu fosse juiz. Sou e quero ser apenas um fone que vibra e reproduz comunicações possivelmente interessantes. Vibro. Que bem me importam aqui justiças codigos e dever? Vibro. Desonesto injusto e alegremente sentimental. Segunda e terceira razões são igualmente importantes não negarei porém a terceira pra mim é capital. Até suponhamos que a segunda fosse mais importante... que tem isso! Pois Washington não é menor que Nova York? Eu desarrazoado! Nunca! Fone que vibra isso sim. Nem me darão por primeiro a pautar seus vereditos pelo codigo de equivalencias e prioridades inventado ao rolar das ocasiões por esse receptáculo... musculo chamado, centralizador dos vários sentimentos desta vida, ai! coração... A terceira razão é capital.
— Diga qual é!
— Me deixe! Você inda não reparou que estou obstruindo? Dá-se isto: Principio a contar e me perseguem as memórias. Si descrevesse a scena fatalmente botaria nela muito de mim mesmo e dum minuto importantissimo entre os da minha primeira mocidade. Cursava o quarto ano ginasial. Nesse dia._. Bom!... O poeta não discutirá o que de memórias e passado fica, palhetas de ouro ou lixo de ganga na torrente dos versos. A poesia flui impulsiva não se recata não pensa. 0 poeta obedece. Porem o prosador senhoreia. A prosa é intelectual descreve e desenvolve pela inteligência o tema, êste só nascido expontâneo, comunicação do eu profundo. O poeta aceita e quasi ignora o que vai cantar porquê obedece. 0 prosador escolhe prefere e sabe o que dirá porquê manda. Em último caso desliga o aparelho, pronto: o fone não vibra mais. Ora nesta prosa eu escôlho me calar. Negarei ter ensaiado o reconto? Ninguém acreditaria.
Larguei de tudo fatigado. Conhecia a scena. A lembrança me perseguia. Sai daqui peste! E ela pertinho a me pisar nos calcanhares. Chiii! errei tudo!
Pus o carro diante dos bois. Os bois é a lembrança eu o carro. A’s vezes me dá um espirito saci de citar os autores rúins... Faz pouco tive vontade de- citar Richepin. Ninguém reparou porquê disfarcei. Porém ao falar de realismo eu podería muito bem ter posto que por descrever a scena do quarto arriscava a tomar os trinta dias de cadeia de Richepin, se lembram?:
Ici deux gueux s’aimaient jusqu’à la pamôison.
Et cela me vallut trente jours de prison...
Porém não citei. Agora não resisto mais. Que venha Bataille! Nesta ascenção provavelmente citarei ainda no capitulo Rostand, quem sabe si VilJaespesa... Não! Villaespesa é rúim por demais e espanhol. O chique é citar só franceses. Paro em
Rostand. Antes de Chantecler porém apareceu o
Songe d’un Soir d’Amour e ainda não citei Bataille. Faço isso já de mistura com o carro os bois e a minha acidentada meninice. Não posso me esquecer dela, tão variada! A lembrança do passado me inebria talqualmente a abrideira cheirosa. Me anima! Porém é verdade que neste capitulo atrapalhou meu passo. Pisei nos calcanhares dela e não ela em mim como falei mais pra trás. Porquê você pisou nos calcanhares da senhora dona Lembrança do Passado? Afinal chegou a ocasião de citar Bataille. Porquê? Porquê Bataille afirma com poéticas razões que o passado não vem atrás da gente. Diz que vem adiante. Reconheço que a razão é de alexandrino mas sempre é uma razão. Ora nãa vejo razão pra se afirmar que o passado vem atrás da gente. Pelo contrário: sempre reparei que o que já passou é porquê seguiu na frente. Bom dia, Manuel, como vai? Como vai a familia, bem? Me diga uma coisa: você não viu meu irmão? — Passou agorinha mesmo por aqui. — Então estou atrasado. Até qualquer dia. Lembranças em casa. E vou atrás de meu irmão. Porquê fui atrás de meu irmão? Porquê êle já passou. Tem pois uma boa razão pra se dizer escoteiro o passado de Bataille. Raciocínio: Si quem não tem nem uma razão evidentemente não tem razão, Bataille tem razão pois que tem uma. Em filosofia a gente chama tais raciocínios de silogismos. Com os tempos modernos de Einstein, Bergson e Farias Brito, me deixem citar Farias Brito, ao menos dá ilusão de que tem filosofia no Brasil, alem de positivismo... Com os tempos modernos de Farias Brito, Brito Farias, viva Farias Britooo! o silogismo perdeu muito do efeito estagirita dele. Não pra mim que sou peripatetico tomista e neo-tomista. Pra mim o silogismo decidiu a barafunda. Fico satisfeito comigo mesmo, reverenceio a filosofia e continuo. Ah! não é que ia me esquecendo de citar Bataille!... Lá vai. O passado, êle escreveu: “... il est lá, lucide et clairvoyant!
Non pas derrière nous comme on croit mais devant!”
Agora posso continuar. Eu falava que a lembrança me perseguia quando esta digressão sobre o quanto é desagradavel a gente pisar nos calcanhares duma senhora principiou. Voltemos até lá.
Queria contar e pingavam lembranças a cada instante. Estava no emtanto a construir diversamente o caso. Qual! embora tudo diferente eu não criava o gesto de Carlos antes remodelava gestos conhecidos de que não juro me recordasse porém sentia: eram gestos meus. Me avisou disso a transformação motora operada em mim. Qualquer coisa lá de longe, dos jardins suspensos na distancia da juventude a bolir ecoar se reproduzir agora no meu fisico. Tu por aqui! Não fantasiava, não inventava a scena. Reconhecia-a. Adiantarei mesmo que não era apenas a percepção vaga de mutações da cenestesia cerebral como querem alguns psicologos: se dava em mim uma transformação cenestesica geral. Escandalo na rua. Que barbaridade de povo espiando! Que é que não é? O mascarado passa. E’ Carlos. E as fibras febris vibram, nervos musculos entranhas a populaça irrefreável das vísceras ás gargalhadas apontando o bocó. “Mascarado de meia cara”! “Eu te conheço”! “Tira a máscara, seu arara”! “E’ o Mario de Andrade”!
— Pois não sou t’ai! E’ Carlos Sousa Costa! “Arara”! “Tira a máscara, futurista de meia tigela”! “Olha o Mario”! Não podia mais escrever. Aqueles destabocados faziam um bofafá dos diabos. E gargalhadas de chorar de raiva. Uma esculhambação em regra. Pisei nos calos. Rasguei a página. Imediatamente tudo se acalmou. O ajuntamento resolveu-se. Cada viscera continuou no trabalho particular e a rua seiguiu de novo a caminhada costumeira. Então já calmo também, meu pensamento matutou. Não tinha dúvida: as comadres foram justas. Eu não criara coisissima nenhuma, revivera. A cenestesia me vaiou. Fez muito bem. Ora eu sou prosador. Rasgo a página. Não quero e não descrevo. Si me pedissem uma descrição de mato-virgem na índia aceitaria com muito gôsto a empreitada. E’ assunto que me deixa á vontade porquê nunca vi mato-virgem nem me preocupou jamais flora e fauna indiana. Esse inglês que foi na África pra escrever sobre a girafa... Que trapalhão!
A aurora entreacordada lança um primeiro suspiro nos céus notivagos. Dois ou tres galos madrugas, galos em Higienopolis não tem, uns galos madrugas... é uma pena êstes verdes amaveis do
Brasil não ocultarem rouxinol nem cotovia, aliás estamos na cidade e creio nem na humidade de
White-Chapel a cotovia librará o vôo pesado dela, será pesado o vôo da cotovia? nem sobre a cuspide de Cleopatra’s Needle o rouxinol cantará porém estou me enganando pois Romeu e Julieta passa-se na Italia creio, nem Shakespeare é londrino ... coisa curiosa essa dum homem que provavelmente nunca existiu ter nascido em Stratford sobre o Avon, resumindo: vários galos madrugas amiudam no Pacaembú. Pois agora que bateram as tres e trinta o leitor pode retomar o caso e espiar o corredor. O idilio continua.