Bloco VI
Carlos sai cuidadoso do quarto de Fraulein.
Caminha na maciota. Todo cuidado é pouco, não?
Com pés de onça êle pisa. Nem um ruído fará.
Não vá acordar alguém... Carlos reflete. E sabe que essas coisas ninguém deve descobrir.
Fraulein se fechou por dentro. Desenleou pensativa a mossoroca das cobertas. Foi alisar os cabelos cheia de molas boneco pra não se embaraçarem mais durante o sono. Estava toda numa idea longe parafusando parafusando. Deitando inda parou um pouco esquecida. Aonde está Fraulein? Qual! que idea! Interrompeu a luz. Mas porem havia de tirar a limpo aquilo. Pegou no sono.
Carlos se levantou tarde. Desapontado? E’ certo que descendo pro café deu graças-a-deus de não encontrar Fraulein. Bebeu. Subiu escorraçado pelos sustos. Tomou o banho frio quotidiano. E cantava distendendo os musculos morenos diante do espelho, nú. Coroava os olhos dele essa quebra de palpebras, vocês sabem... Como brilham as pupilas! E’ sono. Mas em volta delas sombria negrejante a aliança matrimonial. De Saturno. Não se discute: os estigmas do pecado alindam qualquer cara. Carlos hoje quasi bonito. Dêsse bonito que pega fogo nas mulheres. Até nas virgens apesar do fisico perfeito de Perí e do moçoloiro. Carlos estava assim com um arzinho sapeca agil um arzinho faz-mesmo. Não se moçoloirara nem um pouco. Porém si cantava de satisfa parou a desafinação de repente. Malestar... Berimbaus guisos membís. As meninas voltavam do passeio. Fraulein devia estar com elas. Ficaram no jardim. Cinco prás ouze, hora da lição! Apavorado. Que vergonha, meu Deus! Com que cara agora ia se apresentar diante de! Nunca mais olharia pra ela! Não teria coragem... Espiou. Fraulein grande, linda e esbelta pros olhos dele (estava com sono) parara entre as rosas. Metida numa capa austera. As pregas em ordem despencavam dos ombros dela pormenorizadas e góticas. Espalhavam serenidade sem segredos, religiosa. Ajoelhar diante daquela boniteza matinal!... Ficar assim extático, silenciosa adoração... Divina! E lhe beijar submisso a fimbria pura dos vestidos manto mãos... Descansar afronte naqueles seios protetores... Afundar o rosto nesse corpo... Apertar Fraulein! Molhar ela de beijos! Morder, não sei!... Enlaçar cheirar unir... dormir... morrer... era no outono quando a imagem... Que é!
— Dona Fraulein manda dizer pra senhor que é hora de lição.
Nunca! Não posso! como será!... Andou. Se riu de aflito abrindo a porta. Fatalizado. Caminhar pro suplício. Mais hesitações que degraus. Ela no centro do hol. A casa desabou.
Pra Fraulein também. — Ora essa! — Não me amolem com histórias de concordância psicológica. Vocês se esquecem do deus encarcerado? A casa desabou pra ela também. Só que poude disfarçar:
— Você se esqueceu da lição... Carlos?
Ele encabuladissimo rubro pálido ergueu um pouco os olhos pra ela. Fraulein também estava.
erguendo os dela. Só um pouquinho. Dois olhares que se relam, fogem. A casa redesabou. Muito desagradável. Si pudessem levar mais alguém prá biblioteca. .. Podiam desconfiar!... Não havia pretexto. Gostaram de não haver pretexto. Não queriam levar ninguém prá biblioteca. Porém passar uma hora juntinhos depois de!... Que horror! Carlos respondeu com a voz mais natural deste mundo:
— Estava me vestindo.
Entraram mecânicos sem vontade. Porta fecha. Ele caiu sobre ela choveu-lhe beijos pelo corpo mastigou-a em abraços ardentes.
— Como vão os estudos de japonês, irmãozinho!
— Muito bem! Ora! já não morria de fome em Nagasáqui! A dificuldade sempre parece maior do que é.
— Mamãi! venha ver Carlos!
— Mas que seria que sucedeu pra êsse menino hoje!... Não tem parada! Você carece passar um pito nele, Felizberto! impossível da gente aturar!
Vieram correndo em busca dos amantes os tempos de intimidade. A gente nem respira e a vida já fica tão de ontem! E exquisito: o amor realizado se torna logo parecido com amizade... Carlos já senta-se e cruza as pernas. Si fumasse fumaria. E’ sempre o mesmo ardente o mesmo entusiasmado... Mas porém cruza as pernas. Sintoma de amizade. Talvez mesmo pra evitarem o excesso de camaradagem que traz os disques e conta os casos desimportantes do dia êles falam unicamente de amor. Não é por isso não. Fraulein tem de ensinar e ensina. Carlos até pouco fala. Geralmente apenas termina os raciocínios da sábia e se deita na sombra mansa das ilações. Carece aprender e aprende. Que diabo! não acha muito cedo pra ensinar o ciume da mulher, Fraulein? Porém a professora não se vence mais. Curiosidade? Antes aflição. Por isso ela se fala: Cheigou o momento de ensinar o ciume da mulher. E porquê chegou lhe sobra ocasião pra se certificar de. Arranca desabrida:
— E’. Como as outras que você já teve. E as que ha-de ter.
Que método, Virgem Maria! Veja como espantou o menino! Está roxo de vergonha. Porém a resposta é pura e firme:
— Nunca tive ninguém!
Fraulein não deve insistir. Pois ela, esta cultura do sofrimento!... ela imediatamente:
,f
— Ninguém? Você não me engana, Carlos. Então hei-de acreditar que fui a primeira?
— Você foi a primeira! a Unica!
— Não minta, Carlos. Então você nunca esteve com ninguém? Está vendo? Responda.
Ele ergue a cara ardendo em verdades magnificas. Quanta franqueza linda! E responde. Responde certo:
— Estar não é gostar, Fraulein!
— Não tem dúvida: o método socratico de perguntas e respostas dá no vinte quasi sempre. Ao menos quando escrito assim em cima do papel seja por Platão ou mesmo por mim. A resposta de Carlos falava lindíssima verdade. Porém quando as verdades saltam do coração, nós homens intelectuais lhes damos o nome-feio de confissões. Carlos confessara apenas. Não aprendera nada com a verdade que dissera. Só quando do peito passa pro cerebro a confissão se transforma em verdade. Dessa excursão o professor é o tapejara. Tínhamos chegado no momento da necessarissima distinção entre amor e posse que quando pra mais não sirva serve pro sossêgo dos Sousa Costas pais. Carlos chegaria na certeza boa si Fraulein dirigisse bem o dialogo. Bem que ela desconfiara na primeira noite. Carlos já conhecia o. Agora sabia disso, pois continuasse a lição. Qual o quê! A curiosidade corre num motociclo. O dever anda de bicicleta, veículo atrasado. Quem vencerá? A gente já sabe
que só nas fabulas o jaboti ganha da candimba nem sou capcioso Platão que prepara os diálogos por amor de cobrir de glorias o mestre dele. Por estas duas razões acontece que o motociclo ganha a corrida e Fraulein em vez de ensinar insiste. Faz perguntas fingindo ciume aliás muito verdadeiro.
Carlos refugando sempre enojado desembuxa tudo afinal. Fôra com uma qualquer, rua Ipiranga, porém que tinha isso! tão natural... e uma vez só I uma vez só! Fraulein juro!... nem tive prazer... e levado por companheiros... si soubesse que você vinha!... E era só unicamente dela! Nunca seria de mais ninguém!... e, juro! foram os companheiros que me levaram, sinão não ia!
Fraulein embora nada grega acreditava que os esportes eram alambiques de pureza. Porém não tinha vagar bastante agora pra defender a ilusão escangalhada. O fato de Carlos não lhe ter dado a inocência preocupava-a. Sejamos sinceros: aquilo machucou-lhe o orgulho profissional. Mais do que esse sentimento inútil logo sequestrado discutia si os oito contos lhe escapavam ou não. Certo que não. Porem lhe faltava descanso agora pra provar o não. Carlos estava ali. Só não cruzava as pernas mais. Queixo nas mãos cotovelos nos joelhos. O caso parecia grave. Bolas! preferia as boquinhas. Fraulein repeliu-o. E porquê chorou!
Ninguém o saberá jamais. Chorou sinceramente.
Aproveitou as lagrimas pra continuar a lição. E
aos poucos entre perguntas e desalentos tirava do aterrorizado as múltiplas verdades da sua teoria lá dela: qual o procedimento dum homem que não enciuma as cunhas, quais os gestos que dão firme e duradouro consolo prá amante, desculpe: mulher enfraquecida pela dúvida etc. Carlos, que menino inteligente! foi apressado, foi dominador, sincero. Tanto mesmo que ao partir compartilhava os ciúmes de Fraulein, satisfeito. A tal farra com os camaradas... um crime. Só não se amaldiçoou não amaldiçoou os companheiros e a perdida, só não chorou nem monologou porquê não tinha inclinação pro genero dramatico. E aquilo teria mesmo tanta importância assim? Não sabe. Sente que não.
Fraulein pelos dias adiante pensou duas vezes longamente no caso. Seriamente. Foi honesta. Resolveu ficar bem quieta e aceitar os oito contos. A missão dela não consistia em dirigir um ato. Ensinava o amor integral. Tão desnaturado nos tempos de agora!... Amor calmo, etc. Com a frequência do ideal escrito pelo deus encarcerado, com certeza discípulo de Hans Sachs, Fraulein pouco a pouco mecanizara a sua concepção pobre do amor. Ali o homem-da-vida e o homem-do-sonho vinham se confundir na pregação duma verdade só e, bem mais engraçado ainda, na visão do mesmo quadro. Professora de amor... porém não nascera pra isso, pensava. As circunstancias tinham
feito dela professora de amor. Se adaptara. Nem discutia si era feliz. Não percebia a própria infelicidade. Era. Verbo ser. Insensivelmente porém a teoria que ensinava pros alunos vinha se embrenhar no que ela desejava ser. E o alemão de dentro de Fraulein repisa insaciável incansável a suave scena sinfonia Pastoral cinco vezes por ano e perpétua visão: Boca-da-noite. Uma cidade escura milenar... Ele entraria do trabalho... Ela se deixava beijar... Durante a janta sabería dos bilhetes prá Filarmônica no dia seguinte... E quando a noite viesse ambos dormiríam sono grande sem gestos nem sonhar.
Pra isso também inconscientemente dirigia os alunos. Sem inveja acreditava que os já ensinados reproduziam, breve reproduziríam a visagem gostosa. Agora dirigia Carlos pro mesmo fim. Porém que uma outra tivesse movido o menino a primeira vez... Desagradava-lhe. Conservaria sempre pelos anos a sensação logo vencida mas porém imortal de que lhe tinham passado a perna.
— Sua mãi tem governanta em casa?
— Não. Porquê?
— Nada.
— Sua mãi tem governanta em casa?
— Não. Porquê?
— Nada!
— Sua mãi tem governanta em casa?
— Tem. Porquê?
— Ela ensina alemão pra você!
— Não. E’ russa.
— Você aprende o russo com ela!
— Eu! Deus me livre!
— Ah.
Vivia assim no quasi. Contava ou não contava... Se assusta. Não devia contar. Aquilo era escandaloso, era. E que satisfa, que vitória ser escandaloso !... Tinha também essa longínqua noção de que a aventura devia ser um pouco ridicula* Mas sem saber se punha vaidoso dêsses ridículos. Isso acontece pra todos os seres racionais. D’aír uma vontadinha de contar... Contar por contar* pouco se interessava com a inveja dos camaradas, e não gostava de pabulagens. Carlos é um forte de verdade. Um dêsses que só se comparam consigo mesmos. E com a doce agitação que lhe dava chegar assim no limiar da confidencia percebia que estava crescido sobre o Carlos de dois meses.
E) 128 Q
atrás. Gostava do brinquedo, confesso. Brinquedo, consciente? Ninguém o saberá jamais. O limiar da consciência é bem mais difícil de achar que as cabeceiras do rio da Dúvida... Que o digam os psicologos! Que o digam as penas rôtas e morta» em buscar esse limiar fugitivo e ironico!...
Aldinha se chegando ipra Maria Luisa traz uma panelinha na mão. Encostada:
— Maria! vamos brincar, heim?
— Mas brincar do que?
— Brincar... Vamos brincar de familia!
Faia como quem descobre uma luz. E de que mais podería ser o brinquedo das meninas? Sob o arco da escada que leva prá cozinha atrás elas aprendem horas brincando de familia. Visitas. Depois adormecem as filhas. Lindo o bebê de Maria Luisa! E dorme em cama própria. Porém Aldinha não inveja o bêbê da outra, escolhe sempre entre as bonecas essa filha de celulóide que sonha sobre o pedaço de lã no cimento. Mamãi é que deu o pedaço de lã. Isso basta? Aldinha se sente feliz. Laurita cozinheira faz o almoço. Eu mesmo já tantas vezes almocei ás quatorze horas! Só que por muito outras razões. A razão das meninas é mais imperiosa: vida de famílias de brinquedo principia de manhã. Eis que torno-me ironico sem motivo... Basta. Bateram quatorze horas faz pouco. -Mas o brinquedo apenas principia. São ponhamos onze e trinta. Laurita bota o almoço na mesa. Madame est servie. Aldinha é visita de cerimônia que só de tarde aparece. Não faz mal.
— Como vai sua filha, dona Maria Luisa?
— Agora está milhor, muito obrigada. Ela é muito fraquinha, tem sempre dores-de-cabeça, como sofre! O médico falou que é anemia... Mas nós temos medo que seja coração... E a da senhora, dona .Aldinha?
A visita gosa um orgulho assú. Quer se recatar porém não pode:
— A minha! Vai muito bem! Nasceu ontem! E’ muito forte! Está corada não acha? Nunca fica doente!
Dona Maria Luisa melancólica olha a filha. Porquê tem bonecas sãs e bonecas doentes neste mundo, meu Deus! Dona Maria Luisa suspira. Então esconde:
— Vamos passear no jardim, dona Aldinha? A tarde está tão fresca!
— E* de manhã, Maria Luisa!
— Também praquê que você já veio me visitar!
Vão e levam as filhas. Vem a cozinheira:
— O almôço está na mesa!
Dona Aldinha instada fica pra almoçar. A filha
de celulóide nasceu ontem... Ambas comem galhardamente um pouco de grama e pétalas roubadas das rosas. Comestíveis ideais. O chá agua puríssima nas lindas chavenas orladas de ouro. Carlos chega. Veio da aula de inglês e procura.
— Que é isso, agora!
— Nada!
— Também quero brincar!
— Não pode!
— Que tem, Aldinha! Deixe êle! Carlos é o pai da sua filha!
Porém Aldinha só tem cinco anos, como é que a gente pode reconhecer nessa idade o uso de pais pra bonecas de celulóide!
— Não careço de pai prá minha filha! Só si for da de você!
Maria Luisa se cala porquê também não quer pai pra bêbê tão bonito. O imperialismo das mãis...
Carlos inda mais encafifa a menina:
— Também você pensa que vou ser pai duma boneca de celulóide! Não vê! Sou pai só de bonecas de louça!
— Então você é visita! lembra a cozinheira salvando as bonecas.
Carlos não está com nenhuma vontade de brincar, isso percebe-se. Mas ninguém pode ficar inativo neste mundo. Ri:
— Pois é! Vim jantar também!
— Não é janta, Carlos! é almoço!
— Chi! que almoço mais porcaria!
— Eu chamo mamãi!
— Pode chamar! Também não careço de comer isso!... Capim... Só burro que come capim!
— Não é capim ’t’ai, é grama!
— E’ capim.
— Saia daqui!
— Não saio!
— Largue disso, Carlos!
— Carlos!
— Largue!
— Mamãi!
— Pronto!
— iAh!... minha comidinha!...
Tudo em pandarecos no chão desilusoriamente. As meninas têm uma tristura enorme. Entram em lagrimas na casa. Carlos conhece o argumento: finge uma raiva.
— Bem feito, mamãi! elas não queriam que eu brincasse também!
— Mas você não é mais criança, Carlos!
— E Maria Luisa então? Eu também posso brincar, ora essa! E’! fizeram uma porcariada no jardim! Arrancaram todas as rosas diz que pra fazer comidinha, a senhora vá ver!
— ôôôôô... mentiroso!
— Bom. O milhor é virem todos pra dentro. A tarde está fria e Maria Luisa pode ficar doente.
Eu imagino que Carlos está desapontado por
dentro. Imagino mais que desta vez êle fez mal.
As crianças guardam a louça a mobília e as bonecas. Os soluços de Laurita cortam a friagem da tarde e o meu coração.
A gente nunca deve desmanchar a comidinha das crianças.
No dia seguinte o pessoalzinho não fez questão de sair da cama. Até acordou mais cedo. Tanto assim não carecia. Só as aulas matinais têm de ser mais curtas. Afobação.
— 0 almôço está na mesa!
Fraulein, sempre a primeira a ficar pronta, parara no meio do hol. Batia com a mão nos lábios impaciente. Carlos de mansinho se aproxima dela.
Pensa que Aldinha não deve escutar a pergunta e mal sussurra:
— Achou?
— Inda não. E’... ná! não ha nada que me irrite mais do que isso.
Dona Laura vem descendo com a pressa aflitiva das pesadas:
— Vamos! Maria Luisa! você não está pronta ainda!... Precisamos andar depressa!
— Que-dê Maria Luisa, Laura?
— Já vem. Está com um pouco de dor-de-caheça.
— Quem sabe si é milhor ela não ir... Fraulein ficava com ela...
— Ah, papai 1 deixe Maria Luisa ir com a gente, coitadinha!
— Eu falei, Felizberto. Principiou a chorar... Diz que quer ir, não se pode contrariar ela, é pior!... Isso passa. Maria Luisa! o almoço está pronto!
Maria Luisa desce. Desmerecida, um pouco lenta. Mas sorri. Assim palida está ver uma rainha brancarana, de olhos negros muito rasgados e cabelos crespos por demais. E’ que teve rainhas nas cinco partes do mundo.
Almoçaram num atimo. Visitar a nova chacara comprada por Sousa Costa adiante de Jundiai... E de automovel... Que gostosura! Entusiasmo das. meninas. Carlos quasi feliz. Os pais! se sentem bons.
— Tem alguma coisa, Fraulein?
Ela meio que ri:
— Não é... (hesita. Afinal conta:) Mas acontece cada uma. Nós hoje encontrámos uma palavra na lição... Sabemos como é em português porém não ha meios de lembrar. Parece incrivel. Palavra tão comum. E nem eu nem Carlos.
— Mas porquê não viu no dicionário?
— Aí é que está. Hei-de me lembrar. Pois si nós sabemos. (E como que disfarçando o constrangimento sem motivo:) Não se lembra mesmo»
Carlos?
— Naam...
Olhou-o. Estava branco branco! Ficara aterrorizado escutando ela contar o caso. Não sabia porquê se amedrontava assim porem tinha medo...
Medo terrível. Lhe parecia que a mãi o pai as irmãs os criados todo o universo conhecia o sentido daquela palavra... Isso implicava desvendarem imediatamente as relações dele com Fraulein. .. O pobre! falou um “não” empalamado emquanto se gelava todo.
— Qual é a palavra?
— Você não sabe, Maria Luisa!
— Porquê não hei-de saber! Si até já falo milhor que você, agora!...
— Você! uma crila.....
— Carlos diga a palavra pra sua irmã!
— Mas... papai... ela não sabe!
— Diga a palavra, vamos!
— Nn... não sei mais...
— E’ Geheimnis, Maria Luisa.
— Geheimnis... já escutei essa palavra...
— Está vendo! não sabe!
— Mas podia saber muito bem!
— Está bom. Deixem de briga e comam!
Apesar de salvo permanecera em Carlos um eco perto de terror. Se sente mal. Si o pai fosse procurar a palavra no dicionário... Tudo perdido!
E a vontade por Fraulein, mais do que isso, o desespero por ela cresceu.
Se aboletaram no torpedo. Desta vez Carlos nâo brigou com Maria Luisa por causa do lugar da frente. Deixou ela sentar-se ao lado do pai que dirigia.
— Não. Ela está com dor-de-cabeça pode ficar ai mais no largo. Mamãi! assim você vai muito apertada... Deixe eu sento no meio.
— Fique nesse lugar. Está bem assim.
Não insiste. Porem carinhosamente passa o braço pelas costas da mãi. Resguarda-a. Do que? Do vento. Ventinho impertinente gelado.
— Minha filha, agasalhe-se bem. Você devia não ter vindo...
— Ah, mamãi! já estou boa!
Ia me esquecendo... A mão de Carlos roça pelas fazendas de Fraulein alem.
Pois o passeio foi lindo apesar da friagem. O chacreiro gostava de rosas. Tanta flor já! O buquê oferecido prá patroa é sensacional.
— Olhe esta, Felizberto!
— Em Janeiro havemos de vir comer uvas!
— E’ chupar que se fala, papai!
— Mamãi! posso comer mais uma laranja, posso, heim!
— Poode!
O ó sai tão aberto que dá idea do mais farto e eterno indicativo presente de todos os tempos.
G 136
Que pai-de-familia bom é Sousa Costa! A gente é forçado a reconhecer que Sousa Costa é um excelente pai-de-familia. Pater famílias. Dona Laura porem prevê miihor como a progenitoras convem:
— Mas Felizberto ela já comeu duas!
— Ora que tem, Laura! Deixe a menina!
— Mamãi! só mais uma!... só mais esta uminha!...
— Você facilita depois fica doente, minha filha!
— Papai! olhe Carlos!
Aldinha vem de carreira e se agarra em Sousa •Costa.
— Ele pegou um bicho tamanho e quer botar aa gente!
— Que-dê êle, heim! me mostre!
— Esse menino...
— Mas papai!... a gente não pode nem brincar essa linguaruda já vem fazer queixa já! Que enjoamento, puxa!
— Fique sossegado aí!
— Também não vim aqui pra ficar sossegado I
O chacreiro interrompe:
— Senhor Costa, o pedreiro falou que carece dizer adonde que o senhor quer as cocheiras.
— Papai vai ter bois aqui!
— Vou.
— Que bom!
— A gente pode vir tomar leite, não? mamãi...
— E’ tão longe, Laurita.
— Que pena!...
— E você está comendo a laranja, heim! Assim mamãi não gosta!
Atrás das árvores:
— Fraulein! Kommen Sie her!
— Warum, Karl? Ich bin etwas müde.
— Kommen Sie! Es ist so sonderbar!
— Aonde que você vai, Fraulein!
— Carlos está chamando pra ver uma coisa...
— Eu também vou!
— Eu também! Me espere, Fraulein!
Encontraram Carlos debaixo do carramanchão.
— Também quero ver!
— Que é, heim!
— O que vocês vieram fazer aqui! Ninguém chamou vocês!
Orfãs de pais Laurita e Aldinha desapontam quasi chorando já.
— Não aspereje assim com suas irmãs, Carlos. Você me entristece... Mas o que você queria me mostrar?
Olhou pra ela. Um dilúvio de ansias desesperanças machucaram-lhe o rosto de sopetão. E cada vez mais bonita!... Como a deseja! E não pode ser: abraçados ambos entregues esquecidos... Aquilo vai acabar, tem certeza disso. Pra esconder
as duas lagrimas curvou o rosto pro peito dando as costas. Duas lagrimas de raiva. Mente mal:
— Já voou.
Vai. Longínquo lento reto mãos nos bolsos cabeça pendente da gola do sueter. Dá pontapés nas pedras. Vai. Fraulein... sensação rúim de abandonada. Quasi estende os braços. Quasi chama o senhor. Odeia Laurita Aldinha. Dá a mão pra elas maquinalmente e volta. Mas... Geheimnis?...
Realmente espantada. Sabe a tradução, isso sabe.
Porém não pode dizer! Por que razão? E nasce a certeza exquisita que si não diz, si o som se recusa a vir é por causa de Carlos. A palavra está presa por Carlos. Depende dêle. Estranho. Nota que a boca a língua se amoldam pra rasgar as consoantes da palavra e uma coisa qualquer proibe. Carlos?
Não, não pode ser Carlos, ela imagina. Porém que será? Se irrita.
Passam das dezassete horas. Creio que é tempo de voltar. Só que agora mandam Carlos pro assento da frente. Maria Luisa terá o centro do automóvel bem agasalhada dos ventos. Diz que piorou. Lhe ardem os lábios as mãos. Carlos não se incomoda mais. Vai pra onde quiserem. Nem uma vez siquer olha pra trás. Prá irmã que piorou.
Não quer lutar. Tem cansaços na alma. Praquê tanto esfôrço vão? Tudo perdido mesmo! Carlos se entrega á... isso: á fatalidade inexorável do destino.
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Chegaram em casa com noite.
— O jantar estará pronto, Laura?
— Quer jantar já?
— Estou com fome. Você?
— Tanaka, pode botar o jantar na mesa.
— Sissenhôra.
— Olhem: se aprontem logo que o jantar vai já prá mesa. Felizberto, você telefona pro doutor Horton.
— Telefono.
— Peça pra êle vir logo.
Si Fraulein for a última a descer nada mais razoavel. Vai antes ajudar Maria Luisa se despir. A menina quasi chora apertando a cabeça. Febre que aumenta, uhm... Coitada de Maria Luisa! Mas Carlos, porquê não aparece? Todos já estão assentados! Quando Fraulein vem descer a escada êle está ali machucando as unhas na parede. Emaranha-a nos braços impacientes.
— Carlos...
— Dá um beijo!
— Não faça ass...
São muitos beijos dolorosos quasi sem prazer.
— Me largue.
— Mais!
— Podem ver...
Estaca. Expressão de quem triunfa. A mesma nele.
— Carlos, venha jantar! Chame Fraulein!
Os dois exclamam duma vez sem a surdina que abafara o diálogo anterior:
— Já sei!
Silencio curto. Um espera que o outro fale. E juntos: (
— E’: segrêdo!
Rindo muito descem pra jantar. Fraulein anuncia que afinal descobriram a palavra. Geheimnis quer dizer segrêdo.
— Foi ela que achou!
— Eu só não, Carlos. Fomos os dois.
E ambos têm uma desilusão. Palavra tão sem significancia. Fraulein se admira de não ter dado com ela mais cedo. Come calmamente. Carlos acha agora que não tinha razão pros terrores do almoço e do dia. Come satisfeito. Nunca ninguém descobrirá! Sousa Costa não sei porém me parece que teve uma intuição genial: Olha malicioso pros dois.
— Uma gripezinha... bastante forte... Muito cuidado sobretudo. Não tem importância. Mas.
Praquê o senhor não leva ela pra um clima mais quente... Rio de Janeiro, Santos...