Cartas Toda a América · Capítulo 3 de 10
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CARTAS a Guilherme de Almeida MERCADO DE TRINIDAD a Felippe D’Oliveira MERCADO de Trinidad na tepidez molhada da manhã! Doirados tropicaes de asas e frutas, verdes marítimos franjados de alcatrazes, mar de coraes, fogos de madreperolas ao sol, Das cestas de vime rolam ananazes de escamas oxydadas, o amarello e o vermelho dos papagaios riscam o ar, as mangas queimam penumbras de folhas murchas, a terra é uma vibração de coloridos.

Sobe das faluas o aroma grosso do breu c do alcatrão, e ha deuses de bronze no azul da vaga, no azul da vaga tremula e faiscante.

Mercado de Trinidad na tepidez molhada da manhã! Por irás dos mastros e cordames pardos, na cinta elástica das bananeiras e dos limoeiros, espiam cottages e bungalows. E, sobre as livres solidões selvagens, entre araras, tucanos, goiabeiras e coqueiraes, passeia gravemente, de capacete branco, a ruiva sentinela do Forte colonial

Ilha de Trinidad. 1923

NOCTURNO DAS ANTILHAS a Ribeiro Couto ESTE nocturno das Antilhas quieto, morno, W feito de folhagens e águas marinhas, este nocturno ingênuo do mar dos Caraibas, feito de coraes e sargaços, enche-me todo de melodias navaes

Eu vivo aqui, nesta hora, a tranqüilidade de todas essas hervas atlânticas. E esse vento silvestre que passa pelos meus cabellos, e esse gorgolejo de onda que se parte nos meus ouvidos, e essa humidade salina do deck vasio, tudo isso é primitivo como um descobrimento . A terra próxima. Olor de mata.

Silencio. Luzes dos entrepostos, luzes balouçantes de mastros, farolins, luzes penduradas no ar Os coloniaes lêem as aventuras de RobertoLouis Stevenson. Aroma de chá, fumo da Virgínia, cakes, sweet-home. Os nativos lêem o céu cheio de manitús: redes missangas, plumas, âmbar, fermentos ácidos, volúpia, curvas lascivas da imaginação. Mar das Antilhas! A terra diminue. O ultimo farolim. Silencio. Olor mollinhoso de maresia. Bordo do "Vandyck" 1923.

BARBADOS A ilha toda clara, lavada pelas águas, ha pregões de missangas e quinquilharias.

As casas de madeira têm varandas preguiçosas, varandas humidas, de tectos baixos, que deitam sombras voluptuosas. O sol brinca nas ruas, por onde rolam os grandes ventos da maresia!

Súbito, num escorrer de linhas oleosas, balançando os quadris, uma miss de ébano, sorve a luz que lhe lateja nos seios trêmulos' e lhe penetra o ventre, longa e profundamente .

Ilha de Barbados. 1923

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