Toda a America II Toda a América · Capítulo 9 de 10
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Toda a America II

Toda a America II

ONDE estão os teus poetas, America?

Onde estão elles que não comprehendem os teus meio-dias voluptuosos, as tuas redes pesadas de corpos eurythmicos, que se balançam nas sombras humidas, as tuas casas de adobe que dormem debaixo dos cardos, os teus cannaviaes que estalam e se derretem em pingos de mel, as tuas solidões, por onde o indio passa, coberto de couro, entre rebanhos de cabras, as tuas matas que chiam, que trilam, que assobiam e fervem, os teus fios telegraphicos que ennervam a atmosphera de humores humanos, os martelos dos teus estaleiros, os silvos das tuas turbinas, as torres dos teus altos fornos, o fumo de todas as tuas chaminés, e os teus silêncios selvagens que absorvem o espaço e o tempo? Onde estão os teus poetas, America?

Onde estão elles que se não debruçam sobre os trágicos suores das tuas séstas barbaras? No teu sangue mestiço crepitam fogos de queimadas, juizes, tribunaes, leis, bolsas, congressos, escolas, bibliothecas, tudo se estilhaça em clarões, de repente, nos teus pesadelos irremediáveis. Ah! como sabes queimar todos esses troncos da floresta humana, e refazer, como a Natureza, a tua ordem pela destruição!

Onde estão os teus poetas, America?

Onde estão elles que não vêem o alarido constructor dos teus portos, onde estão elles que não vêem essas bocas marítimas que te alimentam de homens, que atulham de combustível as fornalhas dos teus caldeamentos, onde estão elles que não vêem todas essas proas enthusiastas, e esses guindastes e essas gruas que se cruzam, e essas bandeiras que trazem a maresia dos fiords e dos golfos, e essas quilhas e esses cascos veteranos que romperam cyclones e pampeiros, e esses mastros que se desarticulam, e essas cabeças nordicas e mediterranicas, que os teus mormaços vão fundir em bronze, e esses olhos boreaes encharcados de luz e de verdura, e esses cabellos muito finos que procrearão cabellos muito crespos, e todos esses pés que fecundarão os teus desertos!

Teus poetas não são dessa raça de servos que dansam no compasso de gregos e latinos, teus poetas devem ter as mãos sujas de seiva, de seiva e limo, as mãos da creação! E innocencia para adivinhar os teus perigos, e agilidade para correr por sobre o teu corpo de ferro, de carvão, de cobre, de ouro, de trigaes, milharaes e cafezaes!

Teu poeta será agil e innocente, America! a alegria será a sua sabedoria, a liberdade será a sua sabedoria, e sua poesia será o vagido da tua própria substancia, America, da tua própria substancia liríca e numerosa.

Do teu tumulto elle arrancará uma energia submissa, e no seu molde múltiplo todas as fôrmas caberão, e tudo será poesia na força da sua ínnocencia. America, teus poetas não são dessa raça de servos que dansam no compasso de gregos e latinos!

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