Tonalá e Puente del Inca Toda a América · Capítulo 5 de 10
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Tonalá e Puente del Inca

Tonalá e Puente del Inca

TONALÁ a Carlos Obregon Santacilia PINTADA por um alfarero, debaixo dos cardos massiços, Tonalá é uma china poblana, agachada na terra, vestida de barro cinzento, de chita e missanga, fazendo tibores e pratos de argila.

Nossa Senhora de Guadalupe ri em todos os nichos, com grandes olhos de vidro e bochechas rosadas, para as indiazinhas que mordem tamales e para os gorriones que brincam de esconder com o sol nas hortas verdes. Em cada pateo a louça crua estala na luz, na luz de Jalisco intrigante, plebéa, que salta nas sombras pula nos muros molha-se nos charcos e cáe das arvores como as tunas maduras, e baila no chão rola ciranda repiquetea como a sandália de verniz de um jarabe pachola, e fica assustando o ar como o lenço vermelho de uma novilhada brava! Sobre a porta das casas de adobe, vestida de china poblana, Nossa Senhora de Guadalupe ri em todos os nichos, com os olhos de vidro bem abertos e as bochechas bem rosadas, ri para o dia tranquillo, para as estradas que mergulham no silencio morno, para os cães que resomnam com o focinho entre as patas, ri para o céu azul e brunido, azul e brunido como os olhos de vidro de Nossa Senhora de Guadalupe!

Tonalá. 1923.

PUENTE DEL INCA a Rodrigo Mello Franco de Andrade AQUI nestes grandes silêncios das cordilheiras é que eu te sinto, America! Aqui está a tua virgindade cheia de promessas excitantes, aqui, onde o immigrante passa de olhos innocentes, onde o homem do Baltico e o homem do Adriático, o homem do Rheno e o homem do Guadalquivir não sabem as sementes que devem semear.

As planícies e as bahias, as florestas e os valles chatos não vivem o tropel dessas aspirações, dessas límpidas aspirações do ar livre e da luz virgem. Aqui ha a infinita melancolia de uma aurora que vai romper, de uma aurora que não vae romper para nós. Oh! America, o teu dia será primitivo, e será fresco e ingênuo, e fluctuará sobre as águas como aquelle outro dia que o espirito ephemero entenebreceu. O teu dia será como um grito que ainda boca nem uma gritou, e terá o rythmo de uma rajada de vento marinho sobre as vagas, o rythmo de todas as tuas arvores juntas resoando, o rythmo de todas as tuas pedras, de todos os teus rios, de todos os teus animaes atropelando-se! Como um cavallo selvagem o meu sangue pula e te adivinha, America! Que cidade immensa nascerá de todos esses milhões de mãos que se agitam em ti? Das mãos que perseguem a onça, a raposa. o buf alo e a baleia; das que laçam o touro no pampa e na coxilha, das que flecham o tapir e a sucuri, das que varam saltos e corredeiras, das que seccam mangues e igapós, das que misturam os oceanos, das que levantam as vigas para os sessenta andares, das que mergulham nos poços de petróleo, das que enchem e esvasiam os porões dos transatlânticos, das que amassam a argila de Tonalá e Tlaquepaque, das que matam para as terríveis obediências, das que planejam, das que constróem, das que destroem. Que cidade immensa nascerá de todos esses milhões de mãos que se agitam em ti ? Aqui nestas solidões brutas é que eu te sinto, America! Aqui está a tua virgindade, a tua virgindade que não podemos fecundar! Ah! como será bella a dansa do homem livre, que ainda esperas, a dansa do homem livre sobre o teu ventre violado.

Puente del Inca. 1924.

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