Uma noite em Los Andes e Cristal marinho Toda a América · Capítulo 6 de 10
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Uma noite em Los Andes e Cristal marinho

Uma noite em Los Andes e Cristal marinho

UMA NOITE EM LOS ANDES a Paulo Silveira NAQUELLA noite de Los Andes eu amei como

"wt nunca o Brasil. De repente, um cheiro de bogary, um cheiro de varanda carioca balançou no ar Vinha não sei de onde o murmúrio de um córrego tranquillo, escorregando como um lagarto pela terra molhada. A sombra vertia uma frescura de folhas humidas. Um vagalume grosso correu no mato. Queimou-se no sereno. Eu fiquei olhando uma porção de cousas doces, maternaes. Eu fiquei olhando, longo tempo, no céo da noite chilena, as quatro estrellas de um cruzeiro pendurado fora do logar

CRISTAL MARINHO a Navarro da Costa

OS navios, de onde escorrem grossas correntes, estão parados no golfo. Mastros de vergas altas, fios de luz no sol, proas de curvas baixas, pastas de sombra n água. Toda a frescura do romance naval, galeras, brigues, bergantins, barcaças e chatas largas embebidas no óleo do mar Um vôo de gaivotas imita a ressaca de espumas amargas. Picada do reflexo das vidraças, no seu dique de pedras que morrem, Antofagasta é um jogo de polyedroa, fantasista, pequenina, vaidosa, como aquella praçazinha de Los Andes com o seu coreto pintado de azul e vermelho, os seus carabineiros pintados de verde, as suas ninas, que passeiam de mãos dadas, e dizem gravemente Buenas Noches para os pololos de chapéos de feltro novo.

Na minha vigia redonda, de cinta metálica, a paisagem tem ondulações de aquário. A minha vigia redonda de transatlântico olha orgulhosamente os veleiros, que descarregam barras de ferro, e os pontões fluctuantes do cáes. Nas praias de seixos rolados correm creanças, e o ar do crepúsculo, aromado de sal, mistura os meninos louros do Chile aos caboclinhos musculosos da Bolívia.

Serenidade que absorve tudo!

Como as plantas, o heroísmo do homem aqui tem frouxas raizes. Arica, Tacna, Maipo, hervas rasteiras de nomes, inscripções a espera da onda.

Aqui o heroísmo é da terra, da terra bruta, que se argamassa em blocos íngremes e inúteis, da terra que regeita o homem, que envenena o mineiro com os vapores do salitre e oxyda a carne com os gazes do cobre.

Mas ha nessa virgem solidão uma perturbadora poesia geométrica, pyramides, cones, cubos, cylindros, espheras, poesia do numero claro, poesia dos planos e dos volumes, que vence a melancolia, e funde a realidade na alegria da intelligencia.

Antofagasta. 1924.

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