Entre Buenos-Aires e Mendoza e poemas do México Toda a América · Capítulo 7 de 10
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Entre Buenos-Aires e Mendoza e poemas do México

Entre Buenos-Aires e Mendoza e poemas do México

ENTRE BUENOS-AIRES E MENDOZA a Àgrippino Grieco EU vi o pampa! O pampa claro de aços e metaes, luzindo todo nos raios limpos dos arados, nas rodas lentas dos tractores, nos trilhos brunidos, que disparam, rectos, debaixo do céo! Eu vi a manhã do pampa, com filas negras de caminhões rolando pelos trigaes, num alegre rumor de klaxons, relinchos, mugidos, apitos, assobios e ladridos; Eu vi a luz da aurora, pulando ágil na cobertura de zinco dos longos frigoríficos rectangulares, escorrendo pelas vigas de ferro dos matadouros lavados pelo orvalho, chispando nas claraboias dos armazéns de xarque; Eu vi as arvores do pampa, magras e compridas, jogando, umas para outras, fios c fios telegraphicos; Eu vi as estradas do pampa, cheias de automóveis e locomotivas, de machinas compressoras, tubos, turbinas, chaminés e caldeiras! Eu vi calabrezes, genovezes, florentinos, syracusanos de calças de velludp, debulhando espigas; Eu vi agrônomos experimentando nitratos, estancieiros pesados dirigindo Fords, barracas de lona abafando vozes de todos os dialectos italianos. Eu não vi nem um payador. Eu não vi nem. um criollo vestido de couro. Eu não vi a sombra de Facundo, nem o punhal de Facundo, nem o cavallo de Facundo varando os silêncios do ar Eu vi o pampa! O pampa claro de aços e metaes, luzindo todo nos raios limpos dos arados, nas rodas lentas dos tractores, nos trilhos brunidos, que disparam, rectos, debaixo .do céo!

Fronteira do Rio Grande FERVURA de areiaes, Cardos. Cardos. Magueyes. Pedras que se levantam e rompem o horizonte. Chão de scintillaçÕes. Silêncios vigiados, homens por trás de todos os silêncios. Campainhas de cabras. Fogo de sarapes. México!

Junho. 1923.

Xochimüco ou o Epigramma da índia exilada

OLHEI-ME nas tuas águas, Xochimüco. Que águas poderão agora J reflectir-me?

Junho. 1923.

San Agustin Acólman A VOZ do sino de San Agustin é dos g o r r i o n e s ou do bronze? É o pássaro ou o metal que fala por tua boca, sino de San Agustin?

Julho. 1923.

Cholula

ALTURA que enfuna o ceu Cholula! Pyramide verde sob a esphera azul!

Nesse ar geométrico, exacto, abstracto, teu riso, india mexicana, tem o sabor das hervas livres do planalto. Agosto. 1923. Puebla de los Angeles

OLEIRO que desenha a talavera, debaixo das torres da Cathedral, ouvindo os sinos sem ver o ceu, pinta com os olhos ou com os ouvidos?

Julho. 1923. Puebla

NOITE sem melancolia, noite precisa, onde os contornos, de tão esguios, ondulam, i As folhas e as esfcrellas se adelgaçam. Teu perfil primitivo é um pássaro que vae voar! A noite é um azulejo de Puebla. 1 de Agosto. 1923. Querétaro a Diego Rivera

PONTES de azulejo debaixo do sol, Balcões de grades coloniaes, Ruas calçadas para o balanço das cadeirinhas, onde os Fords pretos pulam de prazer. Igrejas, capelas, atrios partidos, cathedraes, Praças com arvores para acompanhar procissões, Por todas as janelas "Viva Cristo Rey!" Casas que se equilibram nas ladeiras preguiçosas, Aleijados que bocejam com as gengivas sem dentes, Creanças que jogam com gestos gulosos, Beatas ferozes, Cachorros amáveis. Querétaro! foi o Greco ou Murillo que te pendurou no México? Julho. 1923.

México (D. F ) Í N D I A que passa todas as manhãs, sob a minha janela, a india da Avenida Juarez, como é feliz!

Leva nas mãos a brasa dos sarapes, na cabeça o rebozo de seda "de una nina muy bien", nos pés as sandálias de tacoes duros, para riscar o jarabe, e na boca a ultima canção tapatia.

índia da Avenida Juarez, toda florida de rythmos, tu és o México, ou Deus não existe!

Agosto. 1923.

Guadalajara a Roberto Mottòenegro

GUADALAJARA, tu és toda uma dansa!

Dansam as estrellas no teu lago ingênuo e a lua cheia dansa também pretensiosa e oca. Dansam nas tuas manhãs os eucalyptus. Dansam no teu sol as cupolas macias e as folhas dansam nos teus ventos irônicos, nos teus ventos que levantam as saias das tapatias, e misturam os perfumes numa dansa aérea, Tu és toda uma dansa, Guadalajara!

Meus pensamentos dansam em ti Julho. 1923.

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