Toda a America I Toda a América · Capítulo 8 de 10
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Toda a America I

Toda a America I

TODA A AMERICA a Renato Almeida DO alto dos Andes, America, do alto das s i e r r a s mexicanas, de Laguna dei Inca, de Punta de las Vacas, de Orizaba e Xochimüco, eu te vejo deitada e intacta no claro músculo dos teus cristaes, no Ímpeto das tuas águas, no frêmito fresco das tuas folhagens luminosas.

Em ti está a multiplicidade creadora do milagre, a energia de todas as gravitações, a massa viva de todos os volumes, a promessa de todas as fôrmas, America livre do terror! America voltada para o futuro como um botão que espera a flor e o fruto, America assentada nas praias atlânticas e pacificas, jogando com as ondas, as espumas e as areias, America dos cafezaes, dos seringaes e dos cannaviaes, America das locomotivas e das carretas de bois, dos elevadores e dos guindastes, das porteiras de peroba e das comportas de aço chromado de Pittsburgh, America das usinas, dos dynamos, das válvulas e dos embolos, America dos opprobrios e das reivindicações, dos trusts e dos Estados insolvaveis, America dos senhores de engenho liricos e trágicos, do pulque e da aguardente, do tequila e da coca, America lasciva que dansa o jarabe, o maxixe, o tango, o fox-trot, a cueca e a marinera, America violenta do cavallo selvagem do caudilho, do punhal dos generaes, da fogueira dos lynchamentos, dos imperadores banidos, dos Presidentes degolados, America sophista e causidica dos Parlamentos e dos Tribunaes, America de todas as imaginações, do azteca e do germano, do guarani e do latino, do hispano e do inca, do aimoré e do saxão, do slavo e do africano, America dos barões e dos escravos, do ladrão e do capitão mór, do santo e do heróe, Eu vivo todas as tuas indisciplinas, a tua cultura e a tua barbaria, as tuas pyramides e os teus arranhaceus, as tuas pedras de sacrifício e os teus calendários, os teus pronunciamentos e a tua boa fé puritana, America livre do terror, America dos meus avós guerreiros e constructores, America do meu Pai que morreu pelo Rei! AH! turbilhão de energias e grandezas latentes, choques, saltos, clamores, vibrações, claridades, tumultos do teu despertar! O mundo nasce outra vez em ti, e o homem deante de ti sorri ingenuamente como um deus. A tua manhã é um canto, é uma palpitação, um estrondo, um rumor, um grito alegre de posse. Correm os trenós nos gelos unidos do Alaska, pulam as baleeiras nas correntes do Hudson, sobre os trilhos da Pennsylvania, entre bungalows cobertos de hera e campos que fumam nos vapores da aurora, rolam as rodas massiças dos comboios, Morro Velho, La Pampa, Tampico, Potosí abrem as entranhas, e do sexo immenso da terra jorram metaes, óleos, pedrarias, giram os tornos de Puebla, crepitam os fornos de Tonalá, e os teares de Jersey, Oaxaca, São Paulo, Sucre e Punta Arenas trançam e retrançam o fio de seda e o fio de lã, cantam os oleiros acurvados sobre o barro, ululam as sereias de todas as machinas, e ha uma selvagem innocencia nas bocas que se saúdam, nos olhos que se procuram, nas mãos que se afagam. Os homens verticaes sobem nos horizontes, em todos os horizontes varados pelo sol! Oh! a emoção da força em face dos elementos que vão ser dominados! O espirito que se faz força, o amor que se faz força, o direito que se faz força, a força que se faz aspiração e fecunda todos os desejos e cria todos os movimentos: o movimento que gera e aniquila, o movimento do semeador que enche o teu corpo de germens, America! o movimento do mecânico, que lavra o teu corpo com o ferro e o aço, e o transforma num valle inflexível, America! o movimento do cavalleiro, do cowboy, do gaúcho e do pastor, que fazem o teu corpo estremecer num tropel de patas, America! o movimento da intelligencia e da vontade, que põe no chão das tuas florestas o asphalto de Broadway, de Copacabana e de Palermo! Os homens verticaes sobem nos horizontes, em todos os teus horizontes varados pelo sol! Montanhas, chãs, planaltos, mangues, várzeas, angras, tudo se enche da commoção de tuas raças, e a tua terra, que viu Anáhuac e Mitla immoveis, que viu Pachacamac e a pyramide do Sol, os mounds do Mississipi e os sambaquís de Marajó, a tua terra, que viu os grandes deuses e os grandes chefes, vestidos de ouro e plumas, C u a u h t é m o c e Ataualpa, Ahsonnutli e Awonawüona, Tupan e Huitzüopoxtli, a tua terra, que viu o passado e as migrações do crepúsculo, vê agora, oh! America, a maravilhosa confusão do Oriente, o raio directo da Aurora, o filho de Isis, de Minos e Eleusis, o filho da Biblia e do Alcorão, o filho dos dolmens e das cavernas magdalenicas, o filho das Sagas, os estupradores do Atlântico! São elles os ventos da tua manhã, o sal dos teus ares, a poesia livre que se elevará da tua voz, da tua voz que ainda os nossos ouvidos não podem escutar... Os homens verticaes, America, sobem nos horizontes, em todos os teus horizontes varados pelo sol!

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