Toda a America III
Toda a America III
BANJO, guitarra, maracá, v i o l ã o , torocaná, quena, marimba soam debaixo das tuas cajaseiras, dos teus coqueiraes, dos teus palteros, dos teus laranjaes, dos teus vinhedos, das tuas cerejeiras, dos teus magueyes, America! Quem exprimiu jamais a tua grande noite, grávida de vicio, cólera e prazer? a tua noite que funde todas as cosmologias, a tua noite por onde corre o Amazonas, a tua noite cheia das vozes do Mississipi, do São Francisco, do Araguaya e do Prata, a tua noite das cachoeiras e dos saltos, do Niagara, de Paulo Affonso e Iguassú, a noite dos teus macios ventos, que voam como pássaros pelas folhas das tuas arvores, a noite das tuas ilhas tropicáes, que p longo leque das bananeiras embala e acalanta, a noite das tuas praias que viram as caravelas! Sobre a fogueira dos payadores e dos troveiros, embuçados em ponchos e sarapes, em pelles de vicuha, de alpaca e guanaco, espiam os deuses primitivos, Manitús, totens, feitiços, tabus, encantos, talismans, tudo se mexe, fascina, ameaça e alucina dentro do ventre mysterioso da tua noite. África, Europa e Ásia vieram dansar na tua noite. Batuques, jongos, tangos, maxixes, jarabes, cuecas, c a t e r e t ê s , um vertiginoso rythmo se agita em ti, e a quena de Oroya, a marimba de Tenochtitlan, a guitarra de Bogotá, a viola de Joazeiro misturam na tua noite a lascívia das raças. Quem exprimiu os silêncios da tua noite, o kifirí das ocas, o kirirí dos sertões brutos, dos sertões do corrupira e do caipora, o kirirí dos igapós, o kirirí dos charcos onde o céu pinga estrellas? Guerras, catecheses, rosários e plumas, flechas e colubrinas, mosquetÕes e tacapes, autos, o r a ç õ e s , vozes de commando, vozes de horror, vozes de susto, celeuma de naus, monções, tudo se levanta e caminha na tua noite, na tua noite de litoraes üluminados e de serras e planaltos esquecidos. Quem jamais exprimiu o que rola dos silêncios da tua noite!
AH! America, o teu poeta será um constructor, e qual o que lança n'agua o barco migrador, e qual o que projecta o dynamismo da machina, e qual o que calcula os alicerces e as paredes, e qual o que domina a massa pelo numero, elle terá a rude imaginação do inventor. E deànte da sua obra dè granito e de ferro, de madeira e de argila, deante da sua obra áspera e nova, cheia de homens e animaes, de águas, plantas e pedras, America, o teu poeta caminhará no milagre da creação.