Polyptico de Graça Aranha: A viagem maravilhosa Estudos brasileiros: 2a. série · Capítulo 2 de 10
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Polyptico de Graça Aranha: A viagem maravilhosa

A VIAGEM MARAVILHOSA

1. — Retrato de Graça Aranha

A exemplo dos primeiros mestres da sua formação, Rousseau e Chateaubriand, é Graça Aranha um gênio inquieto. Desde menino, quando lia, no solar paterno da tranquilla província de S. Luiz do Maranhão, as invenções de Le Sage, seu espirito acostumou-se a reduzir a realidade a puros schemas cerebraes. Rodeado de doutores, que falavam gravemente, no estilo de João Francisco Lisboa, comprimido num circulo aristocrático de barões juristas e gentishomens catholicos, seus sonhos infantis se povoaram dos anjos luminosos da Theologia e das imagens clássicas do mundo mediterrâneo.

Cedo, entretanto,-o ágil demônio coxo do seu autor predilecto começou a quebrar o rythmo igual e melancólico daquellas planuras que lhe fatigavam os olhos ávidos e insomnes. Sua curiosidade venceu os limites da razão e transbordou na duvida, ante o problema do incriado. Cartesiano, sem o saber, aos dez annos o descendente de senhores beatos espantou os sacerdotes que o instruíam, affirmando-lhes ser Deus uma idéa innata.

Sua primeira batalha travou-a, assim, com a tradição. A lógica impressionante desse determinismo explica-se facilmente. Um complexo de preconceitos remotos condensara-se na atmosphera que elle respirava. Procediam de vários quadrantes esses influxos subtis. Do sangue celtibero, exaltador do mysticismo dos seus antepessados. Do trágico romance naval vivido pelos portuguezes do século XVI, entre cujos capitães se encontravam gentes da sua linhagem. Do drama terrível da conquista americana, onde Aranhas e Carneiros Monteiros se distinguiram como bandeirantes nas entradas pelos sertões de Pernambuco, do Ceará e do Maranhão. Taes factores contribuíram para compor a physionomia dessas famílias nortistas, esplendidos typos de clans conservadores, impregnados do prejuízo da lei, do respeito da autoridade, das praticas religiosas, e onde o artificio político do Império foi buscar a sua melhor e mais honrada clientela.

A inquietação de Graça Aranha vem do seu passado longínquo, das raízes celtiberas que o impellem. Na espécie já aquietada pela fortuna, adormecida na posse de heranças conquistadas através de lutas immensas, brotou, de súbito, o aventureiro, o revolucionário insatisfeito, le cadet gascon. O tataraneto dos capitães épicos surgiu, de improviso, no filho do magistrado sereno, do humanista ciceroniano e thomista.

Não se contentou, pois, com a tradição. Preferiu a experiência, para conceber o universo. Preferiu a Republica, para comprehender o Brasil. Discípulo de Tobias Barreto, sua adolescência extasiou-se ante o monismo de Haeckel. A formula germânica, entretanto, parecer-lhe-ia, em breve, estreita. Seu espirito latino exigia -uma base social, em ,que a especulação metaphysica se transformasse numa regra para attingir a felicidade humana.

Reduzir a sciencia a uma disciplina de acção, a *um instrumento para dominar a realidade foi a sua primeira experiência pessoal. Dessas cogitações nasceu o "Chanaan" Sempre movido pelo interesse sociológico, latente na sua obra, Graça Aranha procura coordenar os elementos que se amalgamariam para produzir um Brasil maior. Sem aceitar o exaggero do aryanismo de Gobineau ou de Chamberlain, sem admittir o racionalismo de Renan, então em voga, na America e na Europa, Graça Aranha propoz, no "Chanaan", uma solução lúcida para o problema brasileiro: vencer a mestiçagem, pelo caldeamento das correntes migratórias latinas e germânicas, e o empirismo improvisador, pela cultura scientifica e pela educação da vontade.

A' medida que escrevia o "Chanaan", seu instincto de rebeldia agitava-o novamente. O contacto que, nesse momento, mantinha com os velhos institutos políticos da Europa, nutria-lhe o espirito de alimentos estranhos. As reivindicações das classes proletárias chocavam-se com a armadura feudal e burgueza dos governos nascidos da Igreja, da Reforma e da Revolução. Na Inglaterra, onde elle trabalhava com Joaquim Nabuco, a majes^ tade da éra victoriana dissolvia-se nos clamores das classes opprimidas pelo capitalismo que, pela mão dos grandes chefes Jiberaes e conservadores, dilatara, nas guerras da Criméa, da índia e do Transvaal, o poderio da coroa.

O imperialismo de Gladstone, de Disraeli e de Chamberlain principiava a defrontarse com as forças tenazes da "Tory Democracy", emergentes das profundezas proletárias. As revelações do censo de Charles Booth, accusando, na capital do Império, a existência de 32 por cento de miseráveis, espantaram a opinião das elites. Desenhava-se, atemorizadora, nos círculos de St. James e nos clubs políticos, a ameaça de um Partido Trabalhista coheso, enérgico e seguro do seu prestigio na Câmara dos Communs. Na estructura dos partidos tradicionaes abria-se, de repente, uma fresta perigosa, por onde se encadeariam os vendavaes que, desde 1848, as idéas marxistas despregaram sobre a Europa. A febre do continente contaminava o esplendido isolamento das Ilhas de Salisbury.

A influencia do romance russo, por outro lado, imprimia á literatura de ficção um acoentuado caracter político. Turgueneff, Tolstoi, Dostoiewski, invadiam, com os seus personagens sombrios, gerados no terror, a imaginação occidental. Esse espectaculo impressionou a sensibilidade de Graça Aranha. A violência do seu temperamento extremado levou-o quasi ao anarchismo integral. Pareceu-lhe, então, que a piedade humana seria o movei da arte.

Sua maravilhosa intuição do universo, salvou-o, porém, desse estreito apriorismo. Elle sentiu, desde logo, que a felicidade não estava na acção, nas formulas da experiência social, naquella "conquista do pão", de Kropotkine, ou nas ingênuas taboas de valores do super-homem de Nietzsche, mas na vontade de ser livre. Os fundamentos da sua philosophia começaram a delinear-se no problema da liberdade. Dominar a realidade contingente, ser um com o universo, vencer o melancólico dualismo, que separa o homem do "todo absoluto", eis a preoccupação que o assaltou.

"Malazarte" é o symbolo dessa crise. Apesar de tantas vezes repisado, o exemplo de Ibsen não serve para explicar a estranha figura do mestre brasileiro. "Malazarte" não é um caracter, como o Brandt ou Hedda Gabler. Não se rege por theoremas nem abstracções caprichosas. O plano social não o limita. Elle não quer impor nenhuma regra de conducta, nem lhe importa servir de modelo a uma comparsaria de doutores requintados. "Malazarte" é a imaginação deformadora do real. Na sua mão, o mundo se fragmenta num enorme jogo de probabilidades. Sem acreditar na verdade nem no erro, elle não se fatiga, em sua perpetua relatividade. "Malazarte" inventa o mundo a cada passo. Desagrega-o, desarticula-o, sem penetrar na sua substancia. E' a luz, que engendra a forma e a supprime, no súbito mysterio do seu fluido.

No dynamismo de "Malazarte" repontam as raizes da "Esthetica da Vida" Aqui se define a inquietação angustiosa que abrazou toda a juventude de Graça Aranha. E' uma obra de altitude, onde se evaporam os relevos de encostas ásperas, galgadas soffregamente. Fundindo-se com o universo, pelos sentimentos da arte, da religião e do amor, o homem chega á perpetua alegria, áquella beatitude suprema do sêr que se integra no todo infinito. A "Esthetica da Vida" é, assim, uma philosophia da liberdade absoluta.

2. — O Artista

Essa viagem maravilhosa, através do seu espirito, Graça Aranha renovou-a na humanidade trágica, no lirismo genial do seu ultimo romance. Cérebro que não se fatiga, o meio onde o criador projecta as suas criaturas é de uma complexidade, de uma riqueza de matéria desconhecida em literatura de indole latina. O espectaculo do cosmos tropical exerce, nesse livro, todas as fascinações do seu primitivismo sensual. O pensamento metaphysico vae desenrolando, através de um tecido de imagens em movimento incessante, os schemas dos seus desenhos abstractos. Sob o influxo poderoso da especulação pura, que as dirige e as concerta, as sensações elementares vão surgindo das cousas e dos volumes inanimados. Talvez o exacerbado cerebralismo das annotações do Pelléas e de Petruchka possa transmittir a poesia de acalanto que fecha o primeiro capitulo da Viagem Maravilhosa:

"Thereza exaltava-se com essas

emanações do pensamento rudimentar, que se dilatava em imagens. Librava-se também no sonho. Nocturno transcendente. Não havia nem o

real nem o irreal. O universo desmaterializa-se, escapa-se em fugas espirituaes, torna a condensar-se e fragmenta-se nas apparições sensíveis.

Todos os objectos vivem sua incommensuravel vida mollecular. As pedras, as arvores, o mar, as estrellas, os

corpos humanos, os grandes e imperceptíveis fragmentos da matéria, todos infatigavelmente se consomem e

se transformam na eternidade da duração, independentes do espirito que

delles se apossa e os transfigura. A

mesma força dynamica move os seres

em que se decompõe o Todo. Thereza

era arrastada inconsciente no movimente mysterioso e irreprimível. O

menino adormecia nas fronteiras do

irreal. Thereza absorveu, no collo, o

corpo da criança, como uma concha agasalha maternalmente um mollusco."

Em Graça Aranha, o sentimento pictorico desapparece no dynamismo psychologico da. construcção permanente. A matéria solida entra, apenas, como substancia que a sua intelligencia ordena em lei geométrica. O processo descriptivo de que se serviu, no Chanaan, era ainda reminiscencia romântica. Integrava-se, perfeitamente, na tradição eloqüente da nossa literatura, desde Basilio da Gama e Alencar até Euclydes da Cunha.

A esthetica da Viagem Maravilhosa não é um espectaculo. E' uma criação, uma invenção continua de volumes plásticos, de massas sonoras e trepidantes. Dos corpos mais simples aos de maior complexidade, sente-se o domínio da razão architectonica. Tudo está sujeito, tudo se subordina ao principio da mecânica universal. Nem a pedra, nem o perfume, nem o homem, nem o pensamento se desagregam da natureza, única e indivisível. Tudo se decompõe em schemas mecânicos. Com a vertical de um corpo de mulher e as curvilineas do oceano e da praia, Graça Aranha cria este milagre de musica e esculptura:

"Na frente de todos Thereza caminhava. A praia era larga e franca. As ondas longas, possantes e

coloridas, erguiam-se, dobravam-se,

mugiam e afogavam-se nas espumas.

O volume da immensa massa oceânica vinha rolando sobre a terra, que

ostentava as suas pesadas montanhas

e o despraiado das areias. As casas

numerosas enchiam de fantasia e

abrigos o espaço glorioso. Thereza

caminhava. A sua construcção era de

grande sobriedade de volumes, os indispensáveis para os movimentos simples. Havia nella uma synthese de

elementos vivos para os múltiplos

desenvolvimentos mecânicos. Nada

lhe perturbava a funcção da actividade, do equilibrio, da realização

plena. Erguia-se do solo, erecta, de

linhas finas, armadas. Os pequenos

e os grandes volumes ligavam-se estreitamente entre si e o movimento

do alto completava-se em toda a direcção até em baixo. Todos os seus

planos os mais subtis uniam-se, produzindo a superfície lisa e intima,

que revela a profundeza. Por toda a

parte os movimentos executam-se

schematicos e determinados pela construcção inexorável, patenteando a

alegria de uma liberdade transcendente. Thereza era uma maravK

lhosa machina de viver."

A composição de Graça Aranha attingiu a nudez da épura. Jogando apenas, como o engenheiro, com séries de linhas e movimentos, sua arte retira da Natureza o tumulto, reduzindo-a a simples coordenadas de espaço e duração. A côr, de que tanto abusaram os escriptores latinos, absorve-se na luz. A sensibilidade disciplina-se. A intelligencia commanda.

3. — A Tragédia de Philippe

Dentro do quadro vertiginoso do Brasil contemporâneo, o Philippe, da Viagem Maravilhosa, vive os desesperos da sua inquietação. Brasileiro de velha estirpe, ligado, pelo sangue, aos primeiros forjadores da consciência nacional, tudo lhe marcava o destino dos condemnados de fim de raça. Educado num ambiente de inexorável mysticismo, que lhe recalcava os ímpetos de um temperamento enérgico, o complexo da libertação actuou, desde cedo, sobre o seu caracter adolescente. A principio, quando se distrahia a olhar o céo violento, deitado á sombra das pitangueiras, da selvagem Copacabana da sua infância, Philippe não sabia do que se libertar. Talvez dos excessivos carinhos maternos, que uma viuvez precoce aggravava pesadamente. Talvez da solidão que as suas perguntas sondavam inutilmente. Talvez da sua própria alma, que se debatia nessa tragédia incessante do instincto subtil da meninice. A lição do ar livre, da plenitude do trópico ardente, iniciou-o nas ansiosas experiências de alegria. Através das apparencias, das fôrmas e dos rythmos, elle conheceu o mundo insondavel das cousas. A arte foi, assim, a sua primeira libertação.

Os rapazes da sua geração prolongavam um estheticismo romântico, sem finalidade, que, nos últimos tempos do Império, consumira as suas forças de acção nos movimentos do abolicionismo e da Republica. Philippe, como os seus companheiros, se alimentava de um resíduo. Faltava-lhe o plano concreto, a base real. Ao contrario de Miranda, seu pae, formado nos debates da Escola do Recife, sectário e doutrinador, com aspirações definidas e seguro de pratical-as, mercê das opportunidades que lhe offerecia um regime em dissolução, Philippe era uma vontade á procura de um enthusiasmo.

Onde estaria a matéria prima para servir ao instrumento delicado e perfeito? Philippe não conhecia o Brasil. A escola não lhe ministrara, também, aquellas noções scientificas que dão ao prazer de pensar um derivativo constructor. Elle explicava o universo pela imaginação. O sentimento e a intelligencia jaziam em melancólico repouso. Angustiava-o, entretanto, o problema do sêr.

" P a r a Philippe o plano universal não podia ser a vontade de um

ente estranho á matéria do Universo.

A sua intelligencia não se acalmava

nesta quietude de uma longiqua criação, quando tudo lhe parecia em perpetua e inextinguivel transformação,

e não comprehendia que os seres terminassem em um criador consciente,

quando este criador seria fatalmente

a criatura de outros, que se succederiam ao infinito. Nenhuma luz lhe

vinha do ensino dos padres para esse

confuso e instinctivo determinismo.

Praticamente Philippe ia percebendo

que a mecânica dominava a vida em

torno delle e o seu pendor era para os

estudos mathematicos, fonte e explicação do grande segredo da mecânica universal."

Coagido pelos temores maternos, Philippe fez-se bacharel, renunciando " á preparação technica, que a mecânica lhe revelou e seria a marca da época moderna. Foi esta base que faltou sempre á sua cultura" Em torno delle, desenvolvia-se uma nova mocidade, puramente muscular. Remadores, footballers, discobolos, saltadores de vara, tennistas, nadadores, vinham substituir os meninos sizudos ou bohemios de outr'ora. A indifferença pelo Brasil crescia, por diversos motivos, de todos os lados. Os intellectuaes sorriam, pedantes, em face da paisagem brasileira, sem ruinas acadêmicas. Os sportistas berravam, com os pulmões de aço, para os seus campeões predilectos. O Brasil ficava, nas chorographias, com as manchas verdes, vermelhas, azues e amarellas dos seus Estados espraiando-se pelo mappa do continente, a recuar espavorido ante a pressão insolente das terras invasoras. Entre a intelligencia amoral e as descargas de uma alegria muscular, permanecia a pátria mythologica e distante.

A guerra, no improviso da sua ameaça, despertou nos brasileiros a imagem do Brasil. "O sentimento nacional revelou-se bruscamente em Philippe, que previra na victoria allemã a mutilação do Brasil, esboçada nos sonhos da conquista germânica, que se realizaria na absurda Allemanha Antarctica. O estudante inspirado tornou-se agitador patriota e universal"

4. — Philippe e o Brasil

O artificio esthetico fora vencido. A vontade de Philippe encontra a sua formula de enthusiasmo: a acção. Seu nacionalismo exalta-se com a victoria sobre o imperialismo germânico. Articular o Brasil, disciplinal-o pela formação de uma generosa consciência publica, eis o seu movei. O artificialismo dos nossos institutos políticos, a grosseiria da nossa cultura civica, o empirismo dos nossos systemas de governo impellem-no para a revolução. Só a reforma radical e violenta lhe parece capaz de accordar o Brasil, transformando-o na potência formidável em que um dia se converterá.

A ansiedade de resolver muitas das nossas incógnitas perturba-lhe, naturalmente, as correntes de optimismo que estão no fundo do seu caracter, deixando-lhe, na imaginação, um travo de melancolia. Mas essa melancolia é apenas uma inquietação da esperança. Os que vivem, por antecipação, o futuro do Brasil, de um Brasil inteiramente aproveitado, na sua matéria prima de energias naturaes e humanas, soffrem a contingência da esperança. Philippe torna-se, pois, um chefe revolucionário. A obra de proselytismo empolga-o, de tal maneira, que não lhe deixa enxergar certos phenomenos inelutaveis, de cujas causas só mais tarde se apodera plenamente a sua razão.

A juventude que o cerca, idealista, inspirada e movida por paixões sem interesse, não possue a sua clarividencia. Frutos da estreiteza dos nossos methodos de instrucção, filhos do caos pedagógico, cega-os, a taes desesperados, a impaciência de conquistar, de chofre, um estado de cultura politica impossível de obter pelo processo radical.

No Brasil a escola prepara revoltados. Ao longo de todo o nosso curso gymnasial e superior aprendemos, num perigoso delírio patriótico, que o Brasil é o mais rico, o mais dotado de todos os paizes do globo. Nossa imaginação adormece num torpor de maravilhas. Montanhas de ouro, de esmeraldas, de ferro, cachoeiras e saltos cuja força hydraulica se multiplica por milhões de cavallos, terras de uma exuberância incrível, subsolo de inesgotável opulencia, eis a miragem com que nos acenam. Atravessamos a infância e a puberdade tontos de tamanha fortuna, certos de que, á semelhança daquelles ingênuos bandeirantes, basta metter a mão na terra para conhecermos a eterna abastança. Emquanto não chega esse dia, vamos sonhando, sonhando. Sonhamos uma historia que não é nossa, uma geographia que não é nossa, uma geologia que não é nossa. E o deslumbramento continua. O Brasil é um banco attestado, á espera dos nossos desejos. Todos nos sentimos delphins. Brincamos com a intelligencia e a fantasia seguros da partilha farta. Tornamo-nos sábios em tudo. Subimos a Acropole, andamos nas quadrigas da Illiada, conquistamos o mundo no calcanhar dos legionarios de César, falamos todas as línguas, preparamo-nos, emfim, para uma existência de itinerantes desoccupados, amáveis e preguiçosos.

Quando nos penetramos, porém, do sentimento do real, toda essa metaphysica da felicidade brasileira se desvanece. E a nossa vida se transforma numa accusação monstruosa. Não sabemos ver, porque não nos ensinaram a ver. Debatemo-nos, inutilmente, num turbilhão de destroços que nos opprimem. Não podemos crer na realidade. Não temos coragem de enfrentar o problema que nos depara o mundo brasileiro. O phenomeno immediato obscurece-nos a consciência das causas remotas. Não queremos convencer-nos de que somos um paiz cujas JJOSsibilidades materiaes só poderão ser aproveitadas á custa de abundantes capitães. Não queremos convencer-nos de que a nossa incultura politica é conseqüência da nossa pobreza, que somos uma grande casa de proletários, condemnados ainda por muitos annos, mercê das fatalidades geohistoricas, a descontar os juros do ouro que nos empresta o estrangeiro. Não queremos convencernos de que a nossa natureza, tão miraculosa, é um dos nossos peores inimigos, porque nos vem arrebatar, ao menor descuido, os resultados do nosso penoso labor. Não queremos convencer-nos, emfim, de que a immensidade das, nossas terxas, despovoadas e agrestes, é um dos maiores impecilhos do nosso desenvolvimento. E como não estamos preparados para considerar praticamente essas difficuldades, acreditamos na regeneração pela revolta.

5. — O encontro com Thereza

Pouco e pouco, todavia, Philippe vae desprendendo-se dos companheiros. Nestes, por igual, o sentimento da revolução toma rumo differente. Uns e outros, com excepçãç do revolucionário intransigente, preso a concepções gregarias de primário, vão rectificando as suas directrizes. Sentem, quer os de pendores eommünistas, quer os ideólogos democráticos, que as revoluções sociaes não se improvisam nos quartéis, nem devem terminar no soerguimento de alguns ídolos, em detrimento de outros. A historia da America Latina mostra-nos copiosos exemplos dessa farça de revoluções façanhudas e pueris, em que, ao cabo de alguns annos de sangrenta experiência, os chamados Partidos Revolucionários triumphantes são accusados de reaccionarismo pelos caudilhos menos felizes, que desertam delles, para atacal-os pelas armas. A revolução é um remédio de luxo, comportavel somente em paizes de excessiva cultura politica.

A visão de S. Paulo dynamico infiltrouse, insensivelmente, na duvida inquieta de Philippe. Elle observou, por entre a gritaria dos metaes e dos vapores escapando-se dos freios e das caldeiras da locomotiva, que o arrebatava através da paisagem paulista.

"as massas das plantações, os volumes dos morros carregados de cafezaes escuros, os capões nos campos

cheios de gado estrangeiro, de cara

branca ou manchado de preto e branco, de mistura com os caracús nacionaes. Caminhões correndo nas estradas, tractores arando terra desbravada. A energia do homem transformadora. Velhas mattas substituídas

pela cultura. Cafezaes, cafezaes..."

Elle viu tudo isso, e exclamou: "O novo Brasil vence o terror"

O encontro com Thereza libertou Philippe de todos esses complexos. Nem a arte nem a acção puderam conceder-lhe a beatitude. Ambos aspiravam romper a melancolia que os amesquinhava. O monstro que se erguia em face de Thereza, era Radagasio, o seu marido . Radagasio representa a contingência medíocre, o eterno quotidiano, a lascívia da escravidão aos vícios, aos tyrannos, aos potentados, á rotina degradante.

Se, ao redor de Philippe, se movem todos os ideaes transcendentes; se, em volta de Thereza, gravitam todos os dynamismos do universo, na sua numerosa presença espectacular; em torno de Radagasio se agita um bestiario trágico. Deuses de macumba, sexos demoníacos, feitiços, tabus, ventres atormentados, succubos, gryphos, todas as invenções da pedra gótica se animalizam para dansar-lhe na sombra mágica. Radagasio não é uma caricatura, como o Rei-Ubu ou o conselheiro Accacio, é um complexo da mestiçagem brasileira e americana. Accumulam-se nos seus gestos, no seu impudor, na sua amoralidade, na sua covardia, os medos, as humilhações, a estupidez das tabas e das senzalas, que mysteriosos e alongados caldeamentos trouxeram á superfície das nossas sociedades hybridas. Radagasio é uma formula viva do escravo que acordou, subitamente, na pelle do senhor.

Defrontando-se com Thereza, Philippe comprehendeu que havia uma acção maior a realizar: o amor. "Nenhuma actividade mais poderosa, nem a da sciencia, nem a da arte, nem a da religião. O Universo deixa de ser espectaculo, transforma-se em vida, quando a energia do amor o conquista para a viagem maravilhosa, que realizamos nos espíritos e nas cousas."

O amor foi a suprema libertação de Philippe e de Thereza. Aos revolucionários, seus antigos camaradas, que, desalentados, lhe perguntavam porque não se retirava do Brasil, *Philippe responde gloriosamente: "Não sinto necessidade de evadir-me. Permaneço aqui. A minha viagem é outra" Os amigos percebem que perderam o chefe, e um o exproba: "Tu realizaste a evasão suprema. Tu nos fugiste e ao Brasil" E Philippe se despede:

"Eu desejo a vocês a maravilha

que me aconteceu. Só assim vocês

deixarão de ser inquietos."

Esta replica de Philippe condensa a philosophia de Graça Aranha e a magia dos seres que ella, pelo milagre da criação, fecundou e produziu. Só o amor vence o dualismo, que separa o homem do Universo. No meio brasileiro, tão magistralmente evocado, no meio trágico de torturas, ambições, esperanças, pessimismos, infâmias e desatinos, as figuras de Philippe e Thereza nada mais esperam. O amor é a alegria, a perpetua libertação.

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