Matheus de Albuquerque Estudos brasileiros: 2a. série · Capítulo 9 de 10
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Matheus de Albuquerque

MATHEUS DE ALBUQUERQUE

Matheus de Albuquerque possue o segredo, já singular e raro, daquelles amadores de almas, que augmentaram a alegria do mundo, na Florença ou na Veneza do "Quatrocento" Depois das penetrantes paginas da "Juventude de Anselmo Torres", onde vibra discretamente um intenso drama psychologico, o autor de "As Bellas Altitudes" traçou uma novella, em que a pura realidade se combina com um profundo sentimento da vida. No seu primeiro romance deu-nos elle a imaginação subtil de um mundo subjectivo, em que os mais insignificantes pormenores assumem as proporções de problemas especiosos. O que elle fixou na figura de Anselmo Torres, foi o conflicto do pudor e da razão deante da existência quotidiana. Anselmo Torres move-se, entre os fios da intriga, num turbilhão de ânsias incontidas, de desejos insopitaveis, de ambições ardentes e imperiosas, mas, ao cabo, consegue, pela força do seu caracter voluntarioso, dominar todos os fantasmas que a duvida e a melancolia lhe accumularam no coração. Ha nelle, um pouco dos beróes de Stendhal, u m pouco daquella energia sem desfallecimento, que o escriptor francez destemperava com a violência das paixões, e o nosso romancista corrige e apura com a ironia vigilante de uma intelligencia desencantada.

Pertence Matheus de Albuquerque a uma linhagem de letrados, infelizmente escassa enk nosso paiz. A João Francisco Lisboa, a Salles Torres Homem, a Nabuco, a Machado de Assis, aos humanistas de risonha e polida expressão, poderá, sem favor, ser comparado o ensaísta de "Sensações e Reflexões" A simplicidade na arte literária, característica do seu estilo, é ainda esquiva entre nós. Geralmente, preferimos, ao desenho claro e directo do pensamento, as tintas dúbias ou atrevidas, os matizes quentes da imaginação desregrada. Soffrendo a influencia inevitável do scenario em que nascemos, pensamos por imagens. Accresce ainda que os iberos, portuguezes e espanhoes, de quem descendemos, nos herdaram esse culto da fantasia desenfreiada, que tem sido a fonte primacial da nossa literatura. Procuramos entender o Universo mais pelas leis do sentimento que do raciocínio.

Somos um povo que procura ainda a sua verdadeira formula ethetica e esthetica. Não a encontramos, mercê da indisciplina da nossa cultura fundamental. Eis porque a muitos se afigura estar nesse redemoinho de idéas truncadas e sensações imprecisas, nesse rude mecanismo de estilos carregados e luxuosos, a índole da nossa mentalidade. Simplicidade, ordem e clareza não são requintes que qualquer possa affectar, mas qualidades que o espirito adquire, ao termo de longa pratica. Cifra-se na campanuda eloqüência a maioria da nossa producção livresca. Pesa sobre nós essa fatalidade do falso grandioso, que o dogmático Buckle, no seu lirismo histórico e sociológico, áffifmou ser a causa da nossa incapacidade politica. Nossa admiração vai para o desmedido, na peor accepção do vocábulo, quando não para um classicismo espúrio, colhido ás pressas nos jardins sem viço das anthologias. Oscillamos entre a floresta de papelão pintado e as constellações empalhadas do arsenal romântico. Por via de regra, o que procuramos e estimamos, no escriptor, é a emphase e a rhetorica.

Somos todos, mais ou menos, como aquelle humilde mestre de latim, que o velho Saint-Hilaire, em uma das suas excursões pelos districtos diamantinos, conheceu em Sabará: "Outre son cours gratuit de latin, narra o benemérito chronista francez, il en faisait un de philosophie rationelle et morale, don il était payé par ses disciples, et il eut Ia bonté de me lire son discours d'ouverture. Le corps de 1'ouvrage présentait une suite de lieux communs, assez bien arrangés, sur les vantages de Ia philosophie; mais 1'exorde, dans lequel 1'auteur remerciait les habitans de Sabará de 1'hospitalité qu'il avait reçu d'eux, était d'une telle enflure, qu'en 1'entendant, j'eus souvent de Ia peine a m'empêcher de rire. L'orateur aurait voulu avoir 1'éloquence de Cicéron pour célébrer ses bienfaiteurs; il aurait voulu faire connaitre l'accueil qu'il en avait reçu à 1'univers entier et avoir à sa disposition toutes les trompettes de Ia renomée."

Quem observa o feitio de Matheus de Albuquerque, logo conclue. que elle não deseja, e antes repelle, o barulho plebeu das cem bocas da fama. Seu espirito se formou na atmosphera calma em que respiram as raças do Mediterrâneo. Seus deuses são aquelles que os antigos adoravam sem temor, e com quem se distraiam, nas fábulas de Ovidio e Luciano, entre as latadas cheirosas dos pomares de Pompeia, ou á sombra das oliveiras e dos limoeiros das ilhas douradas do mar jonico. Nas festas da sua fantasia não ha logar para os borés e os torocanás.

Escreveu Matheus de Albuquerque, certa vez, que natureza sem tradição é sem primor. Nada explicaria tão seguramente o seu temperamento como esse conceito agudo e sincero. O Universo, no seu entender, é o homem, ou melhor, a Intelligencia. Eis porque, sobre todas as cousas, ama elle a disciplina. Sem ella não comprehenderia o criador e as criaturas, e veria, na criação, um mosaico estéril de tumultos e contendas inúteis. Sua obra é um testemunho feliz do continuo e firme domínio que Matheus de Albuquerque exerce 'sobre si mesmo. Começou por traçar balisas á imaginação de poeta com que surgiu para a arte. Apesar de haver queimado incenso, como brasileiro e nortista lidimo que é, á musa patriótica, jamais perdeu o senso da medida. Nos seus cantos, até nos de amor, resoam vozes de sereno idealismo. A carne e o espirito vão nelles de par, e tão intimamente unidos que seria impossível separal-os, sem mutilar o conjunto da sua poesia.

A argúcia com que elle penetra as inquietudes e os tormentos da consciência, a rapidez da sua analyse, a fina agilidade do seu raciocínio, as directrizes geométricas da sua energia criadora evidenciam que as mais luminosas virtudes do seu temperamento estão ao serviço da intelligencia. Os personagens da sua galeria, os Anselmo Torres, os Guedes truculentos, os gentis D. Rodrigo Villaverde, os intrépidos André Garcia têm a scintillação das idéas, quando postas na luz da realidade. São humanos, sem duvida, mas são, na essência, categorias da sua razão, de onde se desprenderam, espontaneamente, como os frutos maduros e saborosos da arvore fecunda.

Seu primeiro livro de ficção, "A Juventude de Anselmo Torres", é um romance-depoimento, em que a urdidura da fábula foi manifestamente posta de lado. A acção da sua obra é toda interior, não extravasa para o mundo, mas vae extraindo delle e das cousas o mel e o fel da belleza. Os indivíduos que pasmam ante os diálogos caprichosos, ante o xadrez das intrigas vertiginosas, hão de ser inimigos de Anselmo Torres.

Anselmo Torres nasceu para dizer o que pensa, e não o que vê. Passam-lhe os ambientes sob os olhos, rapidamente, subitamente, com a celeridade da pellicula cinematographica. Anselmo é um sensitivo, capaz do perdão e do crime, do crime de se sacrificar, o peor de todos os delictos nesta sociedade monstruosamente incolor, de agora ou, possivelmente, de sempre. Lançou Matheus de Albuquerque um largo ensaio, feito de espelhos grandes e pequenos, lisos, concavos e convexos, onde a realidade ora se reflecte claramente, ora se transforma, ora se ergue, ora se rebaixa. Refere o próprio autor, com muita precisão, em um dos passos do seu trabalho, que "o ensaio é talvez hoje a única forma possível num romance que queira interpretar o seu t e m p o . . . Não o ensaio doutorai, dogmático, classificador e distribuidor systematico de valores, pugnando com a Índole própria desse gênero de estudos; mas o que suggere amavelmente, sem cansar a índole do leitor. O romance, com ser o mais complexo, o mais total dos gêneros literários, é um gênero cada vez mais difficil. Sabe-se, por Bourget, como já Barbey d'Aurevilly se lamentava de que Balzac houvesse esgotado todos os assumptos próprios do romance. Em nossa idade, critica por excellencia, resta o recurso de fazer pequenos ensaios críticos ou pequenas theses vividas em volta de uma idéa central qualquer, que até pode não revestir grande importância, ou cuja importância não seja o essencial no romance."

Matheus de Albuquerque soube realizar um penetrante ensaio, com a graça, a finura, o pudor, todos os pudores do seu estilo. Compensou a falta de movimento exterior com a riqueza das intenções, do sonho e do caracter dos seus personagens. Aliás, seus personagens são apenas desdobramentos, em carne e osso, dos desejos, das idéas e dos sentimentos de Anselmo Torres. São as sombras, em que se projecta viva, mobil, cambiante a luz do seu espirito. São plantas, águas, pedas, scintillações. da sua paisagem moral e intellectual. O critico sagaz e generoso de "Da Arte e do Patriotismo" é um pintor de emoções delicadas, um pintor mais clássico do que impressionista, pois o desenho nas suas telas sobreleva a côr.

Ha, sem duvida, um certo ar de nobre desencanto nas suas creaturas. Reflectem ellas aquella doce melancolia dos que soffrem o prazer feito de sacrifícios e de hesitação. "Margara", porém, a exquisita mulher de seu ultimo romance, refoge a essa generalidade. "Margara", em summa, é também um symbolo, mas um symbolo feito de sangue, palpitante, doloroso, na sua tragédia humaníssima. Matheus de Albuquerque, neste particular, não applicou a sua equação pessoal, mas, da somma das suas impressões espanholas, tirou um typo em que se revê a própria alma castelhana. Para isso, evitou o lugar commum das arenas ruidosas e o artificio elegante das superficiaes descripções apressadas. Não ha, neste "episódio andaluz", os falsos scenarios pittorescos, em que apparecem, na continuidade de avatares infinitos, as Carmens e as Colombas do repertório ibérico. Ao contrario. Ha uma Espanha varonil, que se ajusta admiravelmente ao molde clássico do seu estilo, desenhada com a precisão de um " capricho" de Goya. A historia de "Margara" é bella porque é simples e oommum. E' a trivial historia de uma mulher que o mundo esmaga e a vida maltrata nas suas trajectorias fataes. Essa fatalidade é que nos commove profundamente, e está, na luta de Margara contra ella, a* verdadeira imagem da alma ibérica.

Corrompida, desde menina, pela própria mãe, illudida pelo noivo, rebaixada pelo convívio de amantes passageiros, Margara se defende com a indomável audácia dos seus ascendentes mouros e visigodos. Essa defesa, entretanto, é interior, não transparece no seu rosto delicado, nos seus olhos que incitam a lescivia dos homens e na sua boca voluptuosa, em que ha sempre um beijo displicente. Apesar de todas as suas quedas, ella guarda ainda o sabor da primeira innocencia. Entrega-se mas não se dá a ninguém, e é capaz de amar com ingênuo amor. A pecunia, o prazer e o luxo não entram nos seus cálculos. Ella quer viver, apenas, sem outros compromissos nem preconceitos. Assim, quando encontra André Garcia, as forças do seu pudor estavam de tal modo intactas, que Margara sente no coração de amante a doçura do instincto maternal. Ella é um exemplar daquellas formosas e dóceis escravas andaluzas, que o Jegionario romano preferia entre todas as mulheres da terra. Ha na sua psyche as mais nobres virtudes espanholas: a ternura, a confiança, o ódio que não adormece nunca, o desempeno e a bravura, o tumulto das coleras súbitas, a lealdade cavalheirosa e a capacidade immensuravel de designação.

Tudo isso comprehendeu e soube surprehender com indisputável mestria Matheus de Albuquerque, assim como a graça picante da irreverência castelhana e a languidez ou a aspereza dos céos e das paisagens peninsulares. São vivos os retratos de Villaverde e André Garcia, aquelle, representando a velha nobreza do sangue andaluz, este, a impetuosa ambição do brasileiro moderno. Vale ainda mencionar a formosura de alguns quadros de gênero, em que as notas claras e os coloridos ardentes esfusiam, como numa impressiva mancha de Zorolla ou Santiago Rusinol. O ambiente de Cadiz, ou mais propriamente, a terra andaluza, exsurge por exemplo, em toda a sua frescura, deste painel sóbrio: "Pelos cristaes semi-abertos, onde as cortinas de rendas se moviam lentamente, a luz daquella manhã de outono, clara e doce, convidava ao abandono e á fantasia. Fora. na rua estreita e banhada de sol, ouvia-se, de vez em quando, um rodar de carruagem fatigada ou o vozear de mercadores ambulantes^ apregoando, num dialecto de acentos arrastados e crespos, as derradeiras frutas do verão. Agora, de uma taverna próxima, sahia uma cantilena rude e melancólica, ora desfallecendo em ais prolongados, intermináveis, ora ameigando-se humildemente como uma supplica, ora aguda e rouca, cheia de calefrios, de punhos crispados, como um susto ou uma maldição. Depois, outra voz mais delicada, accentuadamente feminina, ensaiava, como replica, umas notas prazenteiras, acompanhadas rythmicamente, por uma regosijado bater de palmas. Uma e outra diziam, na sua linguagem primitiva, da tristeza e doçura dos ares regionaes; e através desses "ares" sentia-se, como fonte de inspiração, causa de gloria, alimento de alegria, a força mágica do vinho."

Bemaventurada é essa terra de Margara, em que as uvas se arredondam entre festões de rosas, e em que o sangue derramado pelos flexíveis punhaes torna mais bello e mais perigoso o prazer de amar.

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