Ribeiro Couto, Raul de Leoni e Agrippino Grieco Estudos brasileiros: 2a. série · Capítulo 4 de 10
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Ribeiro Couto, Raul de Leoni e Agrippino Grieco

RIBEIRO COUTO

Poesia, no Brasil, quer dizer eloqüência. Respiramos um ambiente saturado de gyrandolas, de fumaradas espessas, de fogos e labaredas alterosas. O poeta que desejar um triumpho rápido tem que se transformar num pyrotechnico hábil, capaz de pôr bichas e bombas chilenas nos seus endecassylabos, buscapés e salta-moleques. nas suas redondilhas, foguetões de assobio nos seus alexandrinos. Deve possuir um arsenal de imagens campanudas, montanhas de papelão pintado, soes de folhas de flandres, meteoros de latão, crespusculos e auroras de ouro-banana. Sem esses condimentos picantes, sem essa mostardariá complicada o paladar commum não encontrará sabor nos seus versos. E' de bom aviso, também, não esquecer o poeta o vestuário custoso das mythologias clássicas, assim como os respectivos attributos das divindades illustres, a concha de Amphytrite, o feixe de raios de Zeus, o caduceu de Hermes, os galgos de Artemisa. Tudo isso alternará, presentemente, com os Caapóras, os Sacys, os Corrupiras e as Uyáras da tradição indígena. Entre as solidões intactas do sertão e a radiosa gloria do Olympo caminharão, assim, os nossos bardos desejosos de fama, levando aos hombros as suas bilhas cheias de rimas sonoras e rutilantes. Com taes armas na mão, tudo lhes será fácil e propicio, o sorriso das musas, os galardões da imprensa e o cacarejar festivo da criticalha sinistra.

Ha, porém, alguns artistas bastante corajosos que chegam a trocar o verso reluzente e a rima fatal por uma entidade quasi metaphysica, desconhecida da maioria dos nossos versej adores officiaes. Ha, entre nós, alguns poetas que fazem poesia. P a r a esses, o que existe não são os metros, as formulas e os modelos, mas a realidade da vida. Uns preferem pintar essa realidade no que ella tem de mais gracioso, nos seus aspectos simples, na virgindade das suas formas infinitas, em toda a seducção das suas galas exteriores. Outros vão procurar os seus segredos profundos, as forças obscuras que a agitam, a mysteriosa energia que a anima. Aquelles dansam, numa ronda de luz, sobre a relva dos grammados velludosos; estes penetram os bosques silenciosos, desapparecem nos seus meandros encontrados. A sombra os tenta, a fascinação do mysterio os empolga.

A -poesia verdadeiramente nova, no Brasil, soffre as influencias dessa estranha suggestão da sombra e do silencio. O brilho do mundo contingente não lhe encontra um echo favorável.. Não é a pintura o que ella mais admira, senão a musica, uma espécie de musica muito especial, feita de sons velados, de surdinas, de tons menores, onde predomina a resonancia grave dos pedaes. As palavras não valem, na estrophe, apenas o que exprimem, mas o que podem também suggerir. Não lhe despertam grande sympathia os simples quadros da natureza, que os clássicos e os românticos tanto apreciaram. O que está na superficie, palpável, sob os olhos, não entra nas suas preferencias. Ella não quer apenas "encontrar" mas "descobrir" o universo.

Ribeiro Couto, no "Jardim das Confidencias", revela-se um mestre dessa nova poesia. Elle não vae directamente ás cousas, mas parte sempre de um estado d'alma subtil para chegar ao ambiente circumstante. Geralmente, mostra soberbo desprezo pelas imagens; só, de raro em raro, se serve dellas para dar realce á expressão. Se pudéssemos reduzir-lhe a poesia a um schema geométrico, diríamos que nella predominam as espiraes finíssimas, as sinuosas longas e dormentes, as curvas molles e fantasistas. Nada de ângulos, de linhas ríspidas, de planos monótonos. O pensamento gyra suavemente, sem ímpetos e sem volteios súbitos, demora-se u m instante sobre as cousas, vibra e se commove, para de novo retornar ás maciezas do vôo interrompido. Ribeiro Couto soube vêr no "eterno quotidiano" uma trama de motivos realmente dramáticos. Seu pendor é para os assumptos humildes, cuja terrível trivialidade augmenta ainda a humanidade dos symbolos. Um dia de chuva, uma praça abandonada, um portão solitário, uma phrase murmurada apenas, um trecho de jardim, onde turbilhonam folhas, bastam para o impressionar. E com que delicadeza transmitte o poeta as suas impressões mais subtis, com que clareza desvenda as emoções mais imponderáveis I

A chuva fina molha a paisagem lá fora. O dia está cinzento e longo. Um longo dia! Tem-se a vaga impressão de que o dia decora. E a chuva fina continua, fina e fria, continua a cahir pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois, vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta; a chuva fina continua, fina e lenta... E nós dois em silencio, um silencio que au[gmenta. se um de nós vae falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria.

Ah! para que falar? Como é suave, brando, o tormento de adivinhar — que o faria? — as palavras que estão dentro de nós chocando ...

Somos como os rosaes que, sob a chuva fria, estão lá fora no jardim se. desfolhando. Chove dentro de nós... Chove melancolia...

Não é uma arte para amadores essa de Ribeiro Couto. As cezuras e os hemistichios são distribuídos naturalmente, sem aquelle rigorismo das artimanhas poéticas. As rimas terminam as phrases sem artificio algum, e a syntaxe é corrente como a de uma conversa intima e despreoccupada. O artista conhece o segredo dos ritornelos, a chimica dos refrões. Com um reduzido numero de vocábulos desenha admiravelmente uma situação, faz um pequenino drama interior, ^É^ptUa as linhas de uma paizagem do espirito.

Na velha praça,

Por onde agora ninguém passa,

na velha praça adormecida

parece que morreu a vida.

Parece que morreu a vida

na velha praça adormecida.

Que aspecto humano de abandono doloroso tem a fila deserta e anonyma dos bancos, entre arvoredos, no jardim silencioso entre arvoredos que ao luar são sempre bran[cos l

Oh ! a doçura destas frias madrugadas... A um canto do jardim da praça immensa e

[triste sonho, semicerrando as palpebras maguadas... Ha tanto tempo, ha tanto tempo que partiste!

Na velha praça...

Seu temperamento refoge ás pompas decorativas. Nos jardins que evoca, ha simplesmente as arvores, as relvas e as flores do Senhor. Os mármores, os bronzes, as columnas de porphiro, as balaustradas de onyx não perturbam a serenidade da natureza, da natureza que elle ama silenciosamente. Seus ambientes são discretos, pois, suas paixões são meigas e doloridas. Repugnam-lhe os gritos, os anseios desesperados, as attitudes derramadas.

Na penumbra em que jaz o jardim silencioso a tarde triste vae morrendo... desfallece. Sobre a pedra de um banco um vulto doloroso vem sentar-se, isolado, e como1 que se esquece.

Deve ser um subtil, imponderável goso, permanecer assim, na hora em que a noite

[desce, anonymo, na paz do jardim silencioso, numa immobilidade extatica de prece.

Torna-se o alexandrino nas suas mãos, de emphatico e palavroso, como, por via de regra, é tratado, u m instrumento malleavel, ductil, cambiante, construído com o rythmo de uma verdadeira phrase musical. Combinam-se, espontaneamente, os sons graves com os agudos, fundem-se, penetram-se, formando uma só eurythmia deliciosa. A toada irritante do alexandrino parnasiano, com as suas doze syllabas resoando á semelhança de campainhas infalliveis, não se percebe aqui. As tônicas se distribuem caprichosamente. Ora predomina o rythmo ternario, ora o quaternário, ora os heróicos quebrados se equilibram como no verso clássico do século XVII. Para Ribeiro Couto, nada ha demasiado na vida, senão talvez a falta de medida, o ridículo dos gestos intempestivos, a bulha dos desperos insinceros. Mostra um sagrado horror por tudo quanto respeita á literatura. Suas confissões são veladas, apenas traduzidas levemente.

Quem é esse que está, sob a lâmpada morta, infantil, a chorar debruçado na mesa? Olá, rapaz, que tens? Conta... Contar conforta. E em tua bocca eu sinto estrangulada, presa, a confissão que assim, sob a lâmpada morta, entre livros, terá mais tristeza, tristeza...

Pões os olhos em mim: pobres olhos molhados em que o pranto desceu como que um véo

[vermelho. Conta o que tens.. Enxuga os olhos desgraçados...

E elle chorava para mim, dentro do espelho.

Como estamos longe desses pesados e desconformes delírios do nosso habitual lirismo.

E chove. Uma gotteira, fora, como alguém que canta de magua, canta, monótona e sonora, a bailada do pingo dágua.

Quando, ha dez annos atraz, tentávamos reagir contra a poesia dessaborida que lastrava por todo o paiz, e que consistia numa serodia imitação de Heredia e Lecomte de Lisle, recebemos todos nós o baptismo dos peiores remoques. Fomos troçados em prosa e verso, entramos até como numero de revistas alegres, e éramos o argumento preferido nas sabbatinas dos críticos conspicuos. O tempo, entretanto, não deu razão a estes, senão a nós. Ribeiro Couto vem juntar-se a Guilherme de Almeida, a Manoel Bandeira, a Álvaro Moreyra, a Felippe D'Oliveira, a Raul Leoni, aos poetas mais significativos dos últimos annos. Em seus versos não ha literatura, não ha eloqüência, não ha malabarismo, ha sentimento e gosto, isto é, ha coração e intelligencia, ou melhor, ha poesia.

RAUL DE LEONI

O prazer de pensar deixa no espirito certa melancolia, pois, é feito de sacrifícios. Quem pensa, escolhe. E quem escolhe conhece o travo da hesitação. Mas o prazer de pensar é u m jogo voluptuoso. Possue, nas suas varias e subtis disciplinas, o encanto das cousas discretas, dos perfumes inquietos, dos vinhos seccos, dos entre-tons sóbrios. Está nelle a melhor realidade, a realidade que nos provoca sempre uma surpresa. Quando pensamos, ao revés de quando sentimos, estamos ao mesmo tempo fora e dentro de nós. Quando pensamos, não descrevemos nem reproduzimos plasticamente os aspectos do ambiente exterior, mas procuramos ligar a vida mysteriosa dos objectos, por fios quasi imponderáveis e immateriaes, á vida obscura das nossas idéas.

Os ephemeros seriam graves e desolados, se pensassem, porque fomos formados apenas para sentir. Contentamo-nos, por via de regra, com a instantaneidade amável das nossas sensações. Elias é que nos guiam, que dirigem os nossos gestos, que orientam as nossas acções. Cada ser poderia resumir, assim, o seu destino: Biduo saltavit et placuit. Duas voltas de bailado, um rumor de applauso: eis o homem.

Alguns teimosos, porém, não se satisfazem com as águas tranquillas da bilha frágil que receberam. Querem-nas crespas e sonoras. Complicam voluntariamente os rythmos da melodia ingênua. Quebram o espelho manso dos reflexos num marulhar artificial de ondas breves e repetidas. Esses conhecem o triste prazer de pensar, e, entre esses, os que melhor o praticam talvez sejam os poetas. Os poetas não são somente inventores de imagens mas, sobretudo, creadores de relações e referencias. São os mais agudos e perspicazes mathematicos do planeta. A todo momento propõem e resolvem problemas especiosos, porque a matéria de que se servem é, na essência, numérica e formal. Cada poeta é uma formula viva do Universo. Formula caprichosa e volúvel, instável e maravilhosa, vã e innocente, fascinante e perigosa como todas as formulas combinadas pela intelligencia. Não sei mesmo de nada mais parecido com os accentos e a multiplicidade Humerosa de um verso que um conceito de mecânica racional, seja o de massa, o de movimento ou o de força. E' que a poesia nos offerece um problema de equilíbrio constante entre a razão, o sentimento e o espectaculo universal.

Dos brincos pueris da humanidade, o mais lascivo é a poesia. Mais enganoso que o amor, mais durável que a amizade, mais torturante que o vicio vulgar, esse vicio delicioso da alma transmitte todas as seducçôes imagináveis. De Anaxagoras a Einstein o leite da poesia tem jorrado com abundância e embriagado como um licor o engenho humano. Continuamos a legislar sobre o Espaço e o Tempo, continuamos a forjar medidas para os phenomenos da creação, com a serenidade innocente dos santos e dos heróes. Divina poesia!

O verdadeiro poeta, comtudo, é dentre os sábios, o menos fallivel. E' o único, certamente, que não acredita na perfeição dos seus instrumentos. Applica-os, sorrindo, sobre a vaidade tumultuosa das cousas. Raul de Leoni, autor da admirável "Luz Mediterrânea", está no caso. Sabendo, como poucos, que a nossa intelligencia só vale pelas duvidas que é capaz de suggerir a si mesma, elle não affirma nem nega o que sente e o que vê. Aceita apenas, como um dado immediato da consciência, a realidade: Alma, em teu delirante desalinho, Crês que te moves espontaneamente, Quando és na Vida um simples rodamoinho, Formado dos encontros da torrente !

Moves-te porque ficas no caminho Por onde as cousas passam, diariamente; Não é o Moinho que anda, é a agua-corrente Que faz, passando, circular o Moinho...

Por isso, deves sempre conservar-te Nas confluencias do Mundo errante e vário, Entre forças que vêm de toda parte.

Do contrario, serás, no isolamento, A espiral, cujo giro imaginário, E' apenas a Illusão do Movimento !...

Este soneto apaixona e attráe como um theorema. Vejo, através da sua estructura solida e concisa, aquella seccura stendhaliana da obra de arte que pôde sobrepôr-se ao tempo. As representações propriamente materiaes, na poesia de Raul de Leoni, são meros pontos de referencia, que servem de apoio aos vôos da sua metaphysica. Seu exemplo é singular. Em uma literatura caracteristicamente descriptiva, qual a nossa, um espirito como o do autor de "Luz Mediterranea", um espirito continuamente voltado para si mesmo, causa espanto. Apesar da intensa melodia dos seus rythmos, da largueza das suas construcções métricas, seu lirismo não transborda, não vem á tona. Fica entre as luzes do. cristal, dentro do próprio vaso em que circula sem se derramar. Palpita, assim, num estoj o de facetas cambiantes, contido nas paredes translúcidas de uma fôrma exigente e severa. Raul de Leoni desmente, pois, o asserto do esquivo mas penetrante Charles du Bos, que faz da "exaltação inicial" a constante da arte poética. Elle pertence mais á família de Lucrecio e Sully Prudhomme que á de Byron ou Heine. Se, á feição do grande latino citado, Raul de Leoni quebrasse as correntes da rima e das composições fixas, mais do que inúteis em um poeta de profundo pensamento, teríamos inteira confirmação do meu juizo. A' parte uma que outra nota de extrema sensibilidade, o que caracteriza o seu livro é justamente o pudor da expressão exacta, da palavra precisa, do toque certo. Cada poema seu é uma demonstração lógica. Parte de uma determinada idéa, e, despresando pormenores insignificantes, atendo-se ás linhas primaciaes, vae direito á conclusão, em que se ajuntam, num feixe de imagens, todas as conseqüências ,inclusas na premissa. . E vive assim... como philosophia O Prazer, como tglorias e esperanças Uma vida espontânea e correntia E um gesto irônico ao que não alcançai l

Seja a vida um punhado de horas mansas, Numa felicidade fugidia, A piedosa illusão de cada dia E o bailado de sombras das lembranças.

Ama as cousas inúteis! Sonha! A Vida.. Viste que a Vida é uma apparencia vaga E todo o immenso sonho que semeias,

Uma legenda de ouro, distrahida, Que a ironia das águas lê e apaga, Na memória volúvel das areias !.

O mel das abelhas de Alexandria, ás vezes picante, como no divertido Luciano, verte um pouco da sua equivoca doçura no coração do nosso poeta. Seu raciocínio experimenta as differentes vaidades generosas da duvida. "Luz Mediterrânea", nesse particular, é uma confissão abundante:

Pensei de mais, e agora, apenas sei Que tudo que eu pensei estava errado. De tudo, então, ficou somente em mim O pavor tenebroso de pensar, Porque as idéas nunca tinham fim...

Que mais resta da fúria mallograda? Um bailado de phrases a cantar... A vaidade das fôrmas... e mais nada..

Dirão, porventura, os impertinentes, que a philosophia não cabe em verso. Simples contenda de vocábulos! A philosophia é o homem, ainda mais que o riso. Ou, melhor, o riso pantagruelico é a sabedoria, aquella "gayeté d'esprit confite en mépris des choses fortuites", segundo se lê em Rabelais. Quando nos confessamos, com a sinceridade núa de Raul de Leoni, praticamos um acto espontâneo e claro de philosophia. Para elle como para Keats, a verdade é a belleza.

Beauty is truth, truth beauty — that is ali Ye know on earth and ali ye need to know.

A coragem de sacrificar ás idéas, por Índole inflexíveis, as sensações malleaveis e macias da natureza, é e sempre foi r a r a . Lucrecio, Khayyam, o D ante do Purgatório, o Gcethe do segundo Fausto, o Vigny do Moysés são resistentes ao primeiro contacto. E' preciso vencel-os, para comprehender-lhes o sentido secreto da obra. Não ha entidade mais intratável que a idéa. E' um bloco único, total. Para chegar até ella, faz-se mister que nos despojemos dos preconceitos do nosso coração. Temos que a analysar com os próprios elementos de que ella dispõe. Emquanto usarmos de approximações mais ou menos penetrantes, ella se conservará alheia aos nossos olhos. Não a veremos, de modo nem u m .

A poesia de Raul de Leoni, mercê dos deuses que lhe deram uma intelligencia geométrica e avisada, não é amável nem derramada, mas esconde, sob a variedade subtil de rythmos cristalinos e puros, a entranhada e silenciosa riqueza de estratificações de um quartzo polychromico. O veio que reluz, agora, ao sol, indica a preciosa mina que o reteve por tanto tempo escondido.

AGRIPPINO GRIECO

A critica é uma obra de fé. O verdadeiro critico é um homem necessariamente parcial. Já a simples escolha dos motivos, a eleição dos assumptos, a preferencia dos themas, indicam, por sem duvida, certo pendor da razão e da sensibilidade, semelhante ao do artista creador. Ninguém pôde construir, sem amor, um instante de belleza, uma dessas milagrosas "things of beauty", que justificam a existência do espirito e a sua victoria sobre a matéria universal. O homem livre é o que dispõe de maior somma de sympathia para ver as cousas. O homem livre é o que domina as suas paixões, conduzindo-as, plasmando-as, transformando-as ao sabor da intelligencia e do coração. Aquelle que se deixa arrastar pela miserável instabilidade dos preconceitos, pelo turbilhão das regras e dos postulados infecundos, é um escravo das contingências inferiores, um ser incapaz de pensar, um producto falhado e estéril da própria espécie a que pertence. Quanto maior fôr esse poder de penetração, tanto mais generoso e humano será o objectivo attingido pelo critico.

Não houve quem desmentisse com mais elegância a burla da "historia natural dos espíritos", da classificação impassível das obras de arte, que esse commovido e inquieto Sainte-Beuve, pintor finíssimo de retratos, cinzelador de medalhões admiráveis, onde palpita, viva e ardente, a essência mysteriosa da alma franceza, no século XIX. Queixamse os Goncourt, no "Jornal", da versatilidade de Sainte-Beuve, dos seus ímpetos inexplicáveis, da sua extrema volubilidade. Nunca se queixaram tão sem propósito os Goncourt. Sainte-Beuve foi, principalmente, um indivíduo que soube conversar com o seu tempo, com a parcialidade, a tolerância, a discreção, o máo humor polido, â ironia piedosa, a serena melancolia de um perfeito "honnête homme" Tudo lhe interessava, neste velho mundo cynico e ingênuo. Elle fez a volta da sociedade, como um naturalista curioso, mais curioso da viagem que, propriamente, das conclusões que delia poderia tirar. Na sua galeria de mulheres, porque ninguém melhor as conheceu, as amou e as detestou, ha commentarios distraídos que valem por deliciosas creações. Raramente nol-as mostrava elle em corpo inteiro; muitas vezes, até, só o que se observa é a malícia de um perfil, uma bocca polpuda, um olhar esquivo, um nariz de asas lascivas. Mas no simples traço resurgia, subitamente, a creatura.

A critica literária não pode ser impassível, a critica literária não é um soneto parnasiano. Ella é um instrumento de emoções delicadas, um prisma que é mister collocar sabiamente na luz, para que em todos os seus ângulos vibre e estremeça o raio de sol. Eis ahi porque a maior sciencia do critico é a intuição. Sem esse elemento, do qual todos os outros são subsidiários, não ha critica. As obras de arte não podem ser julgadas senão pelo espirito profundo que as anima, pelas intenções que traduzem, pela realidade transcendente que nos communicam. Não quer isso dizer, todavia, que o compasso de Boileau e o metro de La Harpe tenham perdido os seus sequazes. A funcção dos mediocres é medir. Uns medem pés para fazer sapatos, outros para fazer versos. Tudo vae bem, entretanto, e o mundo não tem capitulos inúteis. Uns vendem os bilhetes á porta, outros assistem á comedia, alguns a representam, e os homens não m u d a m .

A critica literária, entre nós, ainda está quasi entregue aos que vendem os bilhetes á porta e não podem assistir ao espectaculo. Cada um com o seu quinhão. Possuimos, comtudo, alguns analystas optimamente aqui-' nhoados. Quem quizer apreciar esse juízo, leia, por exemplo, o "Caçadores de Symbolos" Seu autor, Agrippino Grieco, escriptor de justo renome, é um dos temperamentos críticos mais seguros da nossa literatura contemporânea. Ao revés dos seus emulos, nos quaes predomina a intelligencia, Agrippino Grieco é, antes do mais, uma poderosa imaginação ao serviço das idéas. Os factos, para elle, não têm relevo senão quando vistos através de um jogo múltiplo de imagens. Sob muitos aspectos, é elle um romântico, em cujas veias corre um sangue tumultuoso, o sangue borbulhante dos "novellieri" medievaes. Descendente directo da raça italiana, Agrippino Grieco encarna as excellencias e os erros dos seus varões antepassados. Sua imaginação diverge, essencialmente, da mystica e nebulosa imaginativa nordica, da que, nas noites immensas das florestas scandinavas, nas brumas do Baltico e dos "fiords" orlados de pedras talhadas a pique, engendrou as sagas bárbaras e terríveis. O seu Walhall não tem labaredas, nem Walkyrias, nem escudos, nem lanças espelhantes, nem fumos, nem corvos fúnebres. O seu Walhall, se assim posso exprimir-me, é tranquillo e macio, raiado de ouro e purpura, christão e pagão, ao mesmo tempo. Anjos e faunos, thronos e centauros passeiam por elle, como por um largo quadro do Veronese ou do Tintoretto, entre ribas de arroios mansos, numa paisagem em que houvesse pastores de Theocríto, flautas de écloga vergiliana e biblicas Samaritanas. Revive nelle aquella exuberância dos florentinos e dos venezianos, que misturavam, pelo goso puro das fôrmas, os cedros do Libano, os leopardos do Sanir e os leões do Amana com os cordeiros da Toscana, os falcões de Verona e os milhafres dos Appeninos.

Erudito, á semelhança de um velho humanista, poeta, analysta, commentador, "book worm" infatigavel, Agrippino Grieco é volúvel como um L. B. Alberti ou um Policiano. Sua linhagem espiritual é a mesma dos Gonzaga, dos Aragão, dos Este e dos Medicis. Elle parece ter formado a intelligencia na atmosphera límpida é subtil da Via Larga, onde o Magnifico, ao clarão das tochas e dos brandões aromaticos, fazia rebrilhar os bordados e as jóias que estrelavam os damascos, as sedas e os gorgorões das suas vestimentas voluptuosas. O que lhe interessa, no mundo, é o capricho das bellas fôrmas: ã curva de um seio ou da proa de uma gondola, a plumagem de um pássaro ou a fulguração cambiante de um cristal. Seus melhores ensaios, como o que escreveu acerca do sr. Geraldo Vieira, são aquelles em que ha maior porção de matéria plástica. Agrippino Grieco é um visual. O segredo do seu estilo repousa na segurança com que são distribuídos os adjectivos e os substantivos, os elementos materiaes do discurso. Já não acontece o mesmo com os verbos, cuja technica puramente ideológica pouco se coaduna com os seus processos decorativos. Basta ver como Agrippino Grieco se soccorre da pintura e das artes plásticas, afim de enriquecer as suas imagens, para se verificar a exactidão daquelle conoeito. Deante de uma fonte, jorrando água sob o céo azul, ou de uma tapeçaria, onde se desenrole uma scena pittoresca de costumes, um baile ou uma caçada, não pode elle esconder os seus pincéis finíssimos e ágeis. Seu claro realismo vence as inquietudes do mundo interior. Como um bom florentino, que é, não acredita na metaphysica, ou antes, acredita somente no seu valor dialectico e esthetico. A exemplo do velho Cosmo, do Guarino ou do Filelfo, é um amoral cheio de ternura pela vida, bom e amável, incapaz de mostrar os ferrões, embora fazendo sempre uso delles.

Sua philosophia é o espectaculo do universo. Eis porque seus ralhos e zangas, suas chufas e remoques não têm duração. Estalam e fagulham instantaneamente, com o riso luminoso da gyrandola passageira ou a rápida vaia dos foguetes de assobio. Agrippino Grieco tem a cordialidade dos que "não vão com as esporas nos pés" Não maltrata as aves de vôo curto que lhe trazem á mão os adestrados falcões. Arranca-lhes, quando muito, uma frisada pluma á vaidade, e solta-as novamente, com uma ligeira gota de sangue nas asas. E' injusto, por vezes, mas fere sempre de face, não imitando, assim, os seus maiores, que traziam os punhaes em bainhas de velludo negro e se apostavam, protegidos pelo velario das igrejas ou pela sombra dos pórticos escuros, para atravessar, com a lamina silenciosa, o coração dos rivaes.

No "Caçadores de Symbolos". Agrippino Grieco se revela, sobretudo, um critico constructor. Seu livro é uma obra de sympathia, embora o autor não esconda nunca as deficiências que lhe deparam os escriptores por elle estudados. O que elle vê, de Pereira da Silva a Renato Almeida, é, principalmente, a face mais saliente de cada personalidade. No autor de "Solitudes", encontra um pessimista imaginativo, da familia de Anthero e Leopardi; em Théo Filho, um observador cosmopolita das sociedades modernas; em Tristão de Athayde, um critico forrado da sensibilidade de um subtil artista; em Hermes Fontes, um brilho verbal, audacioso e impressivo; em Enéas Ferraz, um Daumier sagaz, em cujas paginas ha grande doçura mesclada de travor; em Luis Carlos, uma intelligencia de latino, ductil, ondeante e harmoniosa; em Raul de Leoni, um sceptico desabusado, amigo das idéas e das sensações; finalmente, em Renato de Almeida, uma seria capacidade para as mais vertiginosas abstracções. Em torno desses juizos nucleares, vae Aprippino Grieco demonstrando a individualidade e o caracter dos homens, que, honestamente, e, ás vezes, com muita precisão, fixa e marca, dentro das varias correntes literárias do momento.

Nesse livro, de uma scintillação invulgar de estilo, estão as qualidades e os defeitos de Agrippino Grieco. Destes, o maior é o horror á synthese. Freqüentemente apparece, aqui e ali, o mesmo conceito, apenas disfarçado em differentes aspectos. Largamente versado em todas as literaturas, o autor de 'Caçadores de Symbolos" ganhará muito em concisão e elegância, quando disciplinar a sua variada cultura. Taes particularidades, porém, não conseguem desmaiar as suas grandes virtudes de escriptor, que são: a graça das imagens, a engenhosidade da expressão, sempre renovada e quasi sempre inédita, a faculdade assimiladora, a memória activa e prompta, a profunda humanidade dos seus julgamentos, o senso musical dos rythmos da phrase e, sobrelevando tudo, a eloqüência desmedida, mas sem vulgaridade, intrépida, arrebatadora, que empresta a algumas de suas paginas o calor communicativo, a fantasia inesgotável de um desses largos painéis festivos, com que a escola de Veneza, no século XVI, augmentou a alegria dos homens e o encanto da vida.

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