Alberto Rangel, novellista da chronica brasileira Estudos brasileiros: 2a. série · Capítulo 6 de 10
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Alberto Rangel, novellista da chronica brasileira

ALBERTO RANGEL,

NOVELLISTA DA CHRONICA

BRASILEIRA

A chronica dos nossos primeiros tempos, onde está a gênese da evolução ethnica e social do Brasil, onde o historiador poderá encontrar aquelles elementos indispensáveis á explicação de certos phenomenos peculiares ao nosso paiz, é-tão mysteriosa e inédita para a maioria dos nossos homens como o relevo das paisagens que se desenrolam pelo "hinterland" nacional. E' cousa corriqueira ouvir dizer-se que não temos passado, ou que este, pela exiguidade do tempo ou mesquinhez da raça, nada de notável apresenta aos olhos do anthropologo ou do philosopho. Continuamos, pois, a repetir ingenuamente os mesmos conceitos displicentes com que o barão de Gobineau, em sua villegiatura diplomática pelos salões elegantes do Segundo Império ou pelos jardins luminosos de Petropolis, tentou humilhar-nos no século findo. A terra, segundo tal parecer, é ainda muito nova e de configuração bastante confusa para se ter delia noticia apurada, e os seus habitantes ainda soffrem as contingências de amálgamas summamente contradictorios para que os possamos considerar com attenção e proveito. Ora, a verdade é que nem a primeira nem a ultima proposição merecem maior cuidado. Nem a terra é de recente formação, nem os seus naturaes são de tal modo vulgares como os queria o genial visionário do "Ensaio sobre a desigualdade das raças"

A geohistoria sul-americana, apesar das escassas informações sobre ella existentes, é das mais opulentas. Basta uma rápida consulta aos trabalhos que ella inspirou, desde as sabias monographias do Dr. Moreno Filho e Baptista Caetano até os substanciosos volumes de Nadaillac, Ihering e Beuchat, para se concluir pela falsidade gratuita e descabida daquelle juizo. Quanto ao homem, creio, nem um outro poderá apresentar tantas faces curiosas e tão abundante material aos estudos da anthropologia comparada. Justamente porque está ainda sob o influxo directo de múltiplos caldeamentos, seguindo, portanto, as directrizes de um sem numero de idiosyncrasias é que o homem, aqui, se torna mais interessante. Não é, porventura, o europeu, já galvanizado, com as suas particularidades accentuadas, perfeitamente definido como elemento ethnico, que nos proporcionará o conhecimento experimental dos cruzamentos humanos. Entre nós, ao contrario, ha um largo campo de observação para pesquizas de tal natureza. Na physionomia mobil da raça, na instabilidade permanente dos seus impulsos, no transformismo continuo dos seus pendores vários, o anthropologo encontrará mésse uberrima com que se regalar Entretanto, somos os primeiros a justificar as conclusões de todos os doutores apressados de além-atlantico. Fingimos um doloroso cansaço precoce, ostentamos uma superficial despreoccupação do nosso destino, e suspiramos todos os dias por melhores fados.

Concorre para isso, e grandemente, a instrucção que nos é ministrada no lar, no collegio e nas academias superiores. Como poderíamos conhecer o Brasil se temos, commummente, da sua historia e dos seus mais altos varões uma vista errada ou confusa, quando não algumas alongadas noticias de pouca consistência? O povo brasileiro não 'fará melhor idéa das suas origens que aquelles recrutas famosos de que nos fornece copiosas informações Henry Houssaye. Conta elle, na "Pátria Guerreira", que, durante um prolongado repouso no acampamento, lembrou-se certo capitão de perguntar a um joven soldado o que sabia de Joanna d'Arc. Ao que, promptamente, o mesmo lhe retrucou: — Foi uma rainha de França, queimada pelos prussianos em 1870. Desconsolado, mas certo de que estava em presença de triste excepção, acercou-se de outro recruta, fazendo» lhe igual indagação. Joanna d ' A r e ? . . . E' uma cavalleira do tempo de Henrique IV; morreu sobre um r o c h e d o . . . Espantado de tão cerrada ignorância, redigiu o official breve questionário, e, retirando por sorte, vinte homens da sua companhia, submetteu-os ao interrogatório seguinte: Que sabeis de Joanna d'Are? — de Bayard? — de Luiz XIV? — da Revolução Franceza? — de Napoleão I? — da guerra de 1870? — da Alsacia Lorena?

Dos vinte soldados, quinze sabiam ler e escrever, quatro podiam exhibir attestados de estudos primários. Um só era completamente analphabeto. A média era satisfactoria, quanto á instrucção rudimentar. Mas, ajunta logo Houssaye, muito menos o foi o questionário nos seus resultados. Da metade, approximadamente, não se colheram outras respostas senão: ignoro, não me lembro, ou, então, algumas deste tope: Joanna d'Are? — Um grande homem que entrou em varias batalhas; Bayard foi um famoso marinheiro; Luiz XIV era um antigo official que vivia em 1547; a Revolução franceza foi provocada pela morte de Luiz XIV; Napoleão creou os tribunaes e civilizou o povo, morrendo, mais tarde, na prisão de ClermontFerrand; na guerra de 1870 houve muitas batalhas; a Alsacia-Lorena é uma importante cidade de França! Isso se passava em 1903! Trinta e três annos depois da derrota a França não aprendera ainda a conhecer-se.

Pois bem, se puzessemos á prova os sertanejos ou os praieiros numerosos do nosso paiz, e até mesmo muito estudante approvado com ou sem decreto, que idéas expenderiam elles sobre as nossas cousas? As respostas seriam, em verdade, do talhe daquellas acima referidas. E' que a historia do Brasil, com excepção de um ou outro trabalho, como o de João Ribeiro, aprendemol-a bocejando, em manuaes deficientes, sem espirito nacional, compostos friamente, da mesma feição que os celebres autos de que os jesuítas se serviam para instilar na alma do selvicola bronco as excellencias da fé religiosa. Ainda mais. Os capítulos mais significativos da nossa historia reduzem-se quasi sempre a uma enrediça de nomes e datas que o espirito infantil não logra destrinçar, e, de onde, uma vez enleiado, só se liberta muito tardiamente para lhes assimilar a belleza e a majestade recônditas. Está ahi por que estudamos com mais enthusiasmo e calor os atrevimentos de um "condottieri" ou as audacias cavalheirosas de um simples espadachim do Renascimento que, por exemplo, a epopéa dos nossos bandeirantes, epopéa deslembrada e obscura, perdida no horror e na bruteza das nossas florestas intactas, e da qual só percebemos um abafado e remoto rumor, como o ruido dessas cataractas longínquas, resoando ao fundo de mataria brava e impenetrável.

Em face disso, quem se espantará do habitual desamor ás nossas tradições? Essas tradições são ministradas em insulsos comprimidos de perguntas e respostas, que a creança engole num amúo dessaborido, senão com uma intima revolta contra os que tão levianamente lhe esgotam e corrompem a virgem retentiva. Essas tradições mui raramente são explicadas com intelligencia, mui raramente se lhes revela aquella reserva de energia accumulada, que desperta o heróe na alma do infante distrahido, e que é, em summa, a razão de ser de todas as tradições. Ignoramos, ás vezes até por snobismo, a maioria das cousas que nos respeitam mais directamente. A substancia do nosso "folklore", a índole das raças que estão convivendo e se desenvolvendo, aqui, de par com os antigos conquistadores e conquistados, todas as nossas peculiaridades geohistoricas quem as divulga nas escolas, quem as proporciona em livros bem orientados, ao entendimento dos jovens brasileiros ?

Foi pensando em todas essas, falhas creio eu, que Alberto Rangel compoz os capítulos da sua obra "Quando o Brasil amanhecia." Nella, sobre paginas de belleza pura, traçadas num estilo cheio, onde ha brilhos de pedrarias e resôos de metal sonoro, desenrola-se a historia quasi incrível dos nossos primeiros tempos, surge a chronica espiritual, colorida e selvagem dos povos que entraram de collaboração no amanho e na defesa das nossas terras incultas. O autor fez, na synthese de alguns episódios intensos, a psychologia dos typos que se caldearam para formar a raça brasileira, procurando, principalmente nas características do portuguez, do indio e do africano, penetrar o segredo da alma dos nossos homens. Desde o remotíssimo Braz Cubas, que nos ensinou os primores do rude e abençoado monjolo, dando-nos logo de começo a primeira lição de sabedoria e paciência, até a honorabilidade de Jaguarary, o sentimentalismo de frei Brayner ou a impudencia jovial de Pedro I, simultaneamente intimo do pulhissimo Chalaça, amante da grosseira Domitila, pai bonachão e soldado capaz de sacrificar a própria vida por um capricho, repontam da sua penna commovida e rica, aureolados de esplendor ou atolados na miséria, os exemplares mais famosos do sangue baixo e aristocrático dos avoengos do nosso povo. Seu livro é, assim, a galeria dos heróes brilhantes ou obscuros que fizeram a conquista do nosso solo ou o preservaram da rapinagem dos piratas de toda casta e procedência, inglezes de Lencastre, hollandezes da Companhia das índias, francezes de La Ravardière. Nem uma historia do Brasil poderá offerecer, porventura, paginas mais soberbas que as do volume de Alberto Rangel. A "psyche" da nossa raça está retratada, ali, com todos os seus vicios e todas as suas excellencias, desde a insidiosa cupidez do mulato Calabar á facundia do negro Zambi, do covardissimo Cabeça de Vacca ao espantoso, trágico e incrível Antônio Raposo. O autor não levou ao seu trabalho antipathias preconcebidas, não tentou desmerecer no preconceito futil o caracter ou as acções deste ou daquelle. Vede, por exemplo, com que doçura desenhou elle o perfil de Maurício de Nassau, do nosso Príncipe Perfeito, mau grado ser o representante de uma sociedade de pilhagem e contrabando. Observae de que modo traçou a psychologia de Villegaignon, attentae na maneira por que poz em relevo a intrepidez e o animo intemerato de Jaguarary E' certo que, raras vezes, poupa a reles politica dos capitães-mores e o jesuitismo de certos prelados ambiciosos. Mas nem por isso regateia louvores ao benemérito Anchieta ou ao destemeroso Antônio de Albuquerque.

Suas diatribes contra o systema de governar da corte bragantina, suas invectivas contra alguns Vice-Reis «anguinosos ou calculistas são justíssimas, e não se pôde affirmar, sem damno á verdade, sejam taes revides falsos ou apenas movidos por qualquer nativismo despejado e cego. Quem folhear seu admirável livro, onde a fantasia é uma simples projecção da realidade, verá surgir inopinadamente, como de um jacto, toda a tragédia moral da nossa formação ethnica e politica. Verá, por igual, com orgulho, a força d'alma, a intrepidez de coração, a pertinácia de espirito, a resistência de corpo que nos legaram nossos maiores, lutando dois séculos a fio pela integridade do nosso litoral e pela dilatação das nossas fronteiras terrestres.

Alberto Rangel, além do mais, é um vigoroso paisagista, anima o ambiente em que refulgem as personagens das suas narrativas com uma graça de feitura digna de um grande pintor. Conhecendo como poucos o vocabulário genuinamente brasilico, esmalta a sua prosa com expressões peregrinas, palavras pitorescas da indumentária indígena, torneios singulares de syntaxe. Sua lingua é despejada, livre, numerosa, tem frescuras de terra virgem, perfumosa e calida, e ora lembra um rio de águas serenas, fluindo na mansidão das ribas engalanadas de hervas silvestres, ora um mar de alterosos parceis. Embora mostre, apparentemente, uma certa má vontade contra a lucidez e a simplicidade na arte de escrever, revoltando-se contra os "zoilos do bom senso", Alberto Rangel comprehende muito bem que, privada de taes qualidades, a obra de arte sahirá desgarrada e defeituosa. Se o leitor não lhe ultrapassasse o prefacio, pensaria cousas muito feias acerca do estilo e da linguagem do "Quando o Brasil a m a n h e c i a " . . . A fama de que, injustamente, gosa o estilo de Alberto Rangel é, entretanto, gratuita e descabida. Posto de lado o interesse que tem o autor em se castigar a si mesmo, infundindo por algumas de suas theses um tanto byzantinas e arbitrarias, um razoável terror da sua obra literária, nada ha que justifique o conceito de "autor difficil" em que é tido por muitos. Elle possue, e mostra-os quando quer, todos os dons do escriptor: é imaginoso, sabe fabular com facilidade, fixa os caracteres segu-

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ramente, desenha e, sobretudo, colore os painéis naturaes com volúpia, como quem os aprecia e os comprehende sinceramente. "Quando o Brasil amanhecia" só apresenta uma demasia imperdoável, e é o seu prefacio. Afinal, para que Alberto Rangel disse tanto mal das virtudes que fazem, justamente, a sua gloria de escriptor?

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