Caderno de Imagens
CADERNO DE IMAGENS
Affonso Arinos
Entre os da sua geração, Affonso Arinos foi, por excellencia, o homem brasileiro. Seus companheiros, discípulos de Jean Lorrain, de France e de Wilde, desprenderam-se da substancia nacional, perdendo a medida brasileira no racionalismo paradoxal e pedante de Mr. de Phocas ou de Dorian Gray. Para esses virtuosos burguezes que se extremavam ingenuamente na advocacia do vicio, que se distrahiam com monstruosos entes de razão e eram, ao mesmo tempo, escribas timoratos de humildes officios públicos, o Brasil seria um triste exilio de forças criadoras, incomprehendidas e desaproveitadas.
Em cada um de taes funccionarios melancólicos havia uma inquieta Madame Bovary, a espera da aventura libertadora. Como na França, de Luis Philippe, ardia nos mais plebeus febre alta de aristocracia. Escreviam em falsos papeis de pequena tiragem, fabricados em Leipzig, com timbre imperial de Hollanda ou J a p ã o . Usavam tintas de ouro, prata e zarcão. As personagens dos seus contos e poemas comiam f aisões e lebres em porcelana de Sèvres e Limoges, bebiam vinhos concentrados nas taças do Rei de Tulle. Comiam e bebiam —. espantosa criação — melhor que os seus criadores!
A geração de Affonso Arinos, mergulhada nesse prodígio de incessante sonhar, poderia crismar-se de geração de espectadores. O mundo foi, para ella, um puro espectaculo. Não o da metaphysica de Berkeley, mas o da metapsychica de Richet, porque, em verdade, não via as cousas da realidade, não as percebia, mas simplesmente as adivinhava, num vago nevoeiro subjectivo. Os contemporâneos de Arinos eram gregos, romanos, parisienses ou saxões que matavam, pachorrentamente, os quarenta graus do trópico fluminense com a água de coco verde da Bahia e citavam os heróes de Salamina, a propósito dos valentes portuguezes do Clube de Regatas Vasco da Gama. O hellenismo desses nossos tupis dos começos do século XX confundiria, pelos insólitos resultados, a catechese dos Anchieta e dos Montoya.
Affonso Arinos refugiu a esse artificialismo literário, porque a vida lhe foi mestra e não o livro. Elle viveu a sua intelligencia com todo o instincto de um verdadeiro senhor Foi, em sua obra, intensamente, um espectador da nossa realidade. Os typos que modelou vieram da terra e andaram com elle, meninos e adultos, nas voltas alongadas e bravias do seu mundo sertanejo.
O convívio silvestre de Pedro, o Barqueiro e Joaquim Mironga, ljbertou-o da tyrannia dos modelos burguezes da cidade. E o solar de Paracatú, onde as recordações do século XVIII, do século das entradas para as minas e para os garimpos, repontavam de todos os lados, acabou de formar-lhe o caracter. A exemplo de Nabuco ou de Graça Aranha, seguiu Arinos, em seu espontâneo brasileirismo, a fatalidade subtil de um velho sangue de tempera profundamente aristocrática. Sangue de bons cruzamentos, cujo brazão luzira desde Coimbra e viera brilhar, através do primeiro e do segundo Império, na primeira fila da nossa nobreza rural. Fazendeiros, políticos e doutores, os seus avós Mello Franco deixaram remotas raízes no solo natal.
O claro sentimento da raça dominar-lheia a fascinação do "transoceanismo", tão corrente no espirito das nossas elites do litoral. Por força desse imponderável, Affonso Arinos teve o privilegio de olhar os mais variados povos, de penetrar-lhes a estructura intima, sem esquecer a sua "gens", mas, ao contrario, avivando sempre, no contraste dos parallelos, o interesse por ella. Em Arinos, o prazer de viajar saturava-se do orgulho de comparar, com vantagem para as nossas, as mais bellas cousas da casa alheia. A cathedral gótica inspirava-lhe saudades das agulhas e dos pinaculos monolithicos da Mantiqueira. Os castellos do Loire e do Tâmisa despertavam-lhe o desejo de volver a um desses casarões de fazenda mineira, para armar a rede voluptuosa, de linho encardido e fresco, e escutar, ao guincho rythmico dos ganchos de ferro, as historias dos seus peões e vaqueiros. Ante os fogões de faiança, nas cidadezinhas illustres das províncias européas, elle chorava por uma fogueira de achas de peroba, ardendo no ar secco do sertão, á beira de um pouso desolado.
Arinos condensou, no temperamento e na imaginação, as mais persistentes tradições brasileiras, aquellas que mereciam chamar-se as nossas tradições differenciaes: a simplicidade larga, a bonhomia hospitaleira, a confiança directa, a seducção do mysterio selvagem, a imaginação generosa, o realismo idyllico e ingênuo. Sua figura individualiza uma estirpe: a do senhor de engenho, das chronicas de Koster, a do fazendeiro, das narrativas de St. Hilaire. A voz para a ordem rápida, o olho vivo e jovial do caçador, a corpulencia do cavalleiro, vencedor de léguas sertanejas, tudo, em summa, nesse Mello Franco, era u m retrato dos conquistadores de Paracatú.
Em face dos nossos românticos, de Alencar, Bernardo Guimarães e Taunay, como se movem livremente as criaturas de Arinos! Joaquim Mironga poderia Jratar Pery de portuguez, sem offensa á syntaxe de Bernardim Ribeiro. Os índios de Gonçalves Dias e os matutos de Tavora são mascaras de scena, deante de Pedro, o Barqueiro. Sem o lirismo cíclico de Alencar, possuía Affonso Arinos, entretanto, um senso lógico dos valores humanos que faltava ao criador de Iracema.
A' semelhança do Chanaan, das Scenas da Vida Amazônica e dos Sertões, os contos do Pelo Sertão, embora viciados na expressão por certos defeitos peculiares á mocidade extrema de autor sem grande segurança de processo, marcarão um ponto de referencia singular em nossa historia literária. Na sua obra, Affonso Arinos representa um Brasil que principia a despojar-se do artificio, que se desentoxica do veneno rhetorico. Nesse particular, seu proselytismo foi uma aurora. Elle adivinhava quantas forças iria accordar quando, no curso mais árduo da guerra, soube organizar e realizar uma série de estudos sobre o folk-lore brasileiro, rematada por um extraordinário Bumba-meu-Boi, no Theatro Municipal de São Paulo.
Analysando-lhe o prodigioso dom de exprimir a alma sertaneja, escreve o seu critico e biographo mais notável—Tristão de Athayde — "Não foi á tôa que, uma noite, no sertão, leu Arinos um de seus contos para os tropeiros no pouso, e um desses lhe respondeu: — "Uai, parece a gente mêmo que tá falando." O gentilhomem devia ter sentido, nesse momento, que as suas historias eram a própria historia do seu povo. 2 — Jackson de Figueiredo
A personalidade de Jackson de Figueiredo é uma somma de valores tão concretos que resiste, ainda, por falta do necessário recuo no tempo, ás generalizações de uma analyse perfeita. O que espanta, desde logo, no caracter desse homem superior, é a extrema simplicidade a que chegou, depois dos mais vários e inesperados caldeamentos, a sua substancia moral. Essa maravilhosa simplicidade era a sua força, força catalytica, feita de imponderáveis, que lhe permittiu decompor a realidade nas suas séries mais complexas .
Todo o drama da sua vida se inscreve neste axioma: Jackson de Figueiredo foi um homem á procura da verdade. Seu pendor para as extremas, ora para o negativismo integral, durante a formação da sua intelligencia, ora para o dogmatismo absoluto, no ponto de equilíbrio de sua madureza, é um Índice daquella asserto.
Era-lhe fundamental o horror a qualquer relativismo. Por isso, nem um, dentre os seus contemporâneos, revelou, como elle, em tão apurado grau, as qualidades de chefe de partido, a energia do commando, a faculdade instantânea de situar os obstáculos para os vencer melhor.
Possuindo um espirito especulativo capaz de conceber uma obra de condensação como "Pascal e a Inquietação Moderna", Jackson de Figueiredo, pela disciplina da sua fé catholica, foi um realista em todas as construcções do seu talento. Desejou sempre, e com animo seguro, num periodo triste de infinita plasticidade moral e mental, os postos difficeis e atrevidos: foi amigo exemplar, entre distrahidos, dogmático, entre pragmatistas, brasileiro, entre metecas.
Pela riqueza de sua herança, Jackson de Figueiredo estará sempre entre os mais vivos de todos nós. 3 — Tristão da Cunha
Tristão da Cunha é um clássico, amigo da ordem geométrica, da expressão alinhada como um parque do século XVIII, onde tudo tem o seu logar marcado e preciso. A' semelhança dos verdâfTeiros conservadores, o autor de "Cousas do Tempo", discípulo de Montaigne e Rivarol, praticante consumado de Anatole France e Remy de Gourmont, é um sceptico subtil. Não crê na essência das cousas, mas nas differentès fôrmas que ellas revestem. Reduz o espectaculo universal a um jogo de sensações e pensamentos finos e commovidos. Conhece todos os pudores, sabe os perigos d% eloqüência pura, os enganos da paixão, os venenos do exaggero. Não gosta da côr E' primordialmente um desenhista, que se serve com prudência do esfuminho. Seu estilo é um problema de linhas rectas, onde raramente se insinua a sombra de uma projecção.
Se eu fosse critico literário, e tivesse autoridade que me confirmasse o titulo, diria que, em Tristão da Cunha, a intelligencia predomina sobre a sensibilidade. As preferencias da sua cultura mostram que elle formou o espirito na escola grega do século V e na franceza do Renascimento. Não tem impetos nem arremessos. Seu enthusiasmo é concentrado, discreto, polido. Quando o leio, insensivelmente me vem á lembrança um daquelles sóbrios castellos do Loire ou do Sena. Na penumbra macia dos seus parques, plantados de arvores estiladas, symetricamente dispostas, erguem-se elles numa theoria de columnas de molde severo, de torreões graves, cortados de janelas elegantes. Ali dentro, não ha sitios, como nos pomares decameronicos, para o devaneio e o arrebatamento. Ha caramancheis de mármore, para alguma conversa especiosa ou para alguma intriga sybilina. Os taboleiros de relva sedosa pedem o minueto de Lulli e os bosques humidos algum violino de som melodioso e amável. No ar que se respira os perfumes são leves, não entorpecem os sentidos. A prosa de Tristão da Cunha transmitte a poesia voluptuosa de taes ambientes. A exemplo daquelle requintado Souza Bandeira, elle é também um "homem de bôa companhia" Não abusa dos contrastes, não deixa o interlocutor logo dominado. Vence-o, aos poucos, distrahidamente, como quem deseja antes de tudo convencer-se a si mesmo do que pensa e do que refere. E' um homem que lê muito, embora tenha o pudor de confessar que lê tanto. Receia perder "a noção da realidade"
Parece-me, nesse passo, que estaria eu em desaccordo com Tristão da Cunha, se não fosse tão difficil recusar-lhe as idéas e os conceitos de tanta justeza. Mas, ao menos para argumentar, vale insistir nesse ponto. Nem Tristão da Cunha nem eu somos inimigos dos livros. Não acreditamos, tampouco, em todas aquellas diatribes do nosso querido Erasmo, no seu famoso "Elogio da Loucura". Estou que o próprio Erasmo nos daria razão, com os testemunhos da sua mesma existência de leitor infatigavel. Para um analysta, como Tristão da Cunha, a realidade se encontra mais nos livros que na vida. E, porventura, a vida será real? Já disse Taine que ella era uma allucinação verdadeira. E Berkeley, antes de Taine, limitou a realidade ás nossas idéas. Talvez seja ella apenas um simples estado de consciência. Ora, a obra de arte é, sem duvida, tão real quanto a da natureza. Sendo o livro uma obra de arte, ha nelle a mesma somma de elementos reaes que na vida. Elle nos excita, nos perturba, nos obriga a pensar, a julgar, a comparar, nos ensina a ver, nos commove, criando em torno de nós uma realidade tão intensa, e, por vezes mais intensa, como a que o mundo nos depara.
Quem sabe ler nunca lê de mais. Ha no leitor avisado um instincto de perdigueiro, um faro que se desenvolve lentamente, e que não engana. De longe, percebe elle o cheiro da caça e não se perde nos cipoaes estéreis do caminho. Tristão da Cunha não ignora nada disso. Mas, á guisa dos grandes amorosos que sempre se queixam do amor, elle, que é um dos nossos mais atilados leitores, condemna, melancolicamente, os livros. Em ambos os casos ha um egoísmo delicioso, o mais delicioso e inquieto egoísmo: o do ciúme.
A obra de Tristão da Cunha merece o dístico saboroso que elle mesmo gravou na de Raymundo Corrêa: "Faz pensar num bello tanque de mármore trabalhado, onde vive uma fonte verdadeira, de água límpida e natural, cheia, muita vez, de um veneno subtil e triste, mas isenta de impurezas e decomposições. E' um veneno que exalta. Deu-lh'o a belleza da vida" Eu acrescentaria, deu-lh'o o divino engano da arte.
Macunaíma, de Mario de Andrade
Macunaíma é o heróe do cyclo americano. E' uma força pura da cosmogonia precolombiana, acima, ou talvez melhor, fora do bem e do mal. Macunaíma transcende o espaço e o tempo. Suas dimensões excedem a realidade. Por isso, elle constitue um espectaculo permanente, que se alimenta da substancia universal, e se desloca em planos espaciaes e temporaes, sem correspondência nas séries mathematicas em que se move o homem. Macunaíma é uma aggregação de elementos, uma conjugação de energias que o fazem, apesar do seu invólucro anthropomorphico, um Índice da espécie, uma concentração de todos os valores da espécie humana, no seu estado essencial. E' um mytho de vontade e imaginação, onde se encontram, no seu dynamismo potencial, todas as volições peculiares a cada um dos seres que se integram nos limites da collectividade. Macunaíma não tem.limites, a não ser aquelles que elle próprio se impõe, quando tangencia o mundo phenomenal. Tomando-o como ponto de referencia, conseguio Mario de Andrade tirar uma força orgânica desse caos de elementos geradores de Macunaíma. Mario de Andrade projectou o Brasil nessa figura. Pelo menos, um dos Brasis que ajudam a situar as differentes imagens do nosso complexo nacional.
O aviso de Mario de Andrade parece irônico. Macunaíma não poderia ter caracter, pois, sendo illimitado, não está sujeito ás contingências. E é, justamente, essa ausência de caracter que lhe dá um grande caracter sobrehumano, onde se reflectem, no tumulto de apparente indisciplina, as energias elementares .
Macunaíma ri da verdade e do erro. Salta sobre todas as medidas. Longe de ser o "peor dos homens", não é bom nem mau, porque sua regra escapa completamente aos números, aos nossos números differenciaes.
Macunaíma tem o sabor das obras de invenção. E', sem duvida, pela deflagração da alegria que transmitte, pelo dynamismo violento e espontâneo que nos communica, o melhor, o mais puro poema de Mario de Andrade .
Álvaro Moreyra
O pintor que fizesse o retrato de Álvaro Moreyra, ao geito espanhol de Zuloaga, com a paisagem violenta do trópico brasileiro no horizonte do painel, desmentiria, no pretexto decorativo, a substancia humana da figura.
Álvaro Moreyra r.epelle o excessivo. Seu espirito é uma contradicção natural da demasia. Por singular constraste, esse puro occidental, que aprendeu os venenos da vida na Paris, de Rivarol, e na Florença, de Boccaccio, sem esquecer alguma escapada furtiva pelo mundo gótico dos contos da Rainha de Navarra, esses europeu de sangue temperado e tranquillo possúe os segredos subtis da arte do hai-kai. Nem um mestre do Oriente chinez ou nipponico o ultrapassa na mestria de dizer tudo, com aquelle ar distrahido de quem parece ter muito mais a dizer. 0 autor de " Um sorriso para t u d o . . . " criou, por isso, em nossa literatura um gênero seu, que poderíamos denominar lirismo do real. Essa poesia das cousas humildes, que se não adaptam ás molduras eloqüentes, — riso de criança, vôo de pássaro, som de água, rumor de folhas, curvas macias entre sombra e luz — toda essa poesia de pequenos instantes que se inserem nos planos mais íntimos da consciência foi Álvaro Moreyra quem descobriu e inventou, articulando-a maravilhosamente, pela sabedoria de uma technica prodigiosa, neste nosso idioma rude, gerado na proa das naus, na bruteza dos casarões solarengos, no estrepito das praias salgadas.
Álvaro Moreyra domou a língua portugueza. Conferiu-lhe o instincto geométrico um instrumento rarissimo, que se apodera de todos os rythmos e converte em musica o universo das fôrmas — a asa da andorinha, a linha elástica de uma espiral.
Se esse poeta fosse um faiscador, juntaria thesouros, accumulando as piscas invisíveis para os outros. Com os despresados pregões cariocas elle fez o plagio mais maravilhoso. Plagiou a cidade do Rio de Janeiro. E ficou sorrindo de três séculos de chronicas murchas, com essa flor illuminada na mão...