Theoria do Romance Estudos brasileiros: 2a. série · Capítulo 8 de 10
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Theoria do Romance

THEORIA DO ROMANCE

O romance é um filho prosaico da epopéa. Dos grandes poemas clássicos e medievaes, o que o espirito humano preferia e guardava não era propriamente a essência dos versos nem a poesia intima das cousas, mas o fio caprichoso das aventuras, das intrigas e das anecdotas, que nelles se continham. O que o vulgo percebia em Vergilio ou no Dante eram os episódios, o movimento do drama, a acção dos heróes, a capacidade emotiva das figuras que atravessavam os poemas. Assim, emquanto os graves humanistas — "dum verba sectantum, res ipsa negligunt" — se empenhavam em contendas inúteis de palavras e effeitos literários, o populacho, que se divertia na festa dos loucos e orava, temeroso dos castigos, na penumbra mysterioSa das cathedraes, sentia profundamente a realidade tumultuosa das paixões, o grito do ser ferido no turbilhão do mundo. O vulgo não queria admirar o desenho e o colorido sábio dos painéis e dos scenarios, porém simplesmente rir ou chorar com sinceridade em face da criação.

Entre as paredes de pedra, revestidas de rudes tapeçarias, dos seus burgos semi-barbaros, junto á lareira, onde cantavam, num tremular de accendalhas azues, as pesadas achas de carvalho, repetiam os nossos maiores o Romance da Rosa, as viagens de São Brendam, os infortúnios da inconsolavel Dido, a queixa lamentosa da Francesca da Rimini, quando não atiravam chufas e remoques aos solertes abades de experiente lascívia e nem uma fé. Para essa gente, era o verso um engenho puramente mnemonico. Era o vehiculo das historias de proveito e exemplo, que, nas solemnidades fúnebres ou festivas, ou mesmo na singeleza das lides domesticas, serviam para ensinar aos moços e distrair os velhos. Aos príncipes e cortezãos, rodeados de doutores amáveis e mulheres formosas, deixavam os bons burguezes o trabalho requintado de pôr em relevo as formas elegantes, os metros delicados e as rimas laboriosas dos seus versejadores predilectos. Formou-se, dess'arte, mercê das condições políticas e sociaes, um numeroso publico, apartado naturalmente dos salões senhoriaes, que, por falta de cultura e de lazeres para o trato das letras e das artes, se contentou com as historietas picantes, as novellas extraídas dos poemas de cavallaria, as chronicas anonymas e as narrações de viagens verídicas ou maravilhosas. Desses elementos heterogêneos nasceu o primitivo romance, baseado mais na fantasia que na realidade, ao gosto e ao sabor popular. Não havia ainda nesses vagos ensaios senão o cuidado manifesto de prender a attenção do leitor e edificar-lhe o sentimento pelo desenlace honesto da fábula. Os máos impulsos são caracterizados por gigantes e dragões, os bons por serafins e fadas. A natureza contribue indirectamente no desenrolar da intriga, do mesmo modo que na pintura dos primitivos. Entra, nos episódios, apenas para dar certa perspectiva arbitraria aos personagens. Precisaríamos chegar ao século XIX para ver uma paisagem realmente pintada e descripta, valendo por si mesma, pela qualidade emotiva dos seus elementos próprios. As arvores, as florestas, as montanhas, os precipícios, os jardins, os mares são symbolos risonhos ou terríveis, correspondentes á candidez ou á miséria das criaturas. Aliás, a grandeza do Dante não estará porventura nessa genial transmutação, nessa trágica intuição dos valores naturaes, que elle revela na Comedia? Seu poder, nesse particular, é tão penetrante, que nunca nos lembramos, como por exemplo em Homero ou Eschylo, ou mesmo Shakespeare, de um só dos seus typos, que não esteja enraizado num bloco de terra, ou intimamente ligado a uma porção do universo physico. Até a sua representação da divindade é um jogo de luzes que cegam e a t o r d o a m . . .

Depois do romance épico, cheio de lances bellicosos, ou da mera narrativa picaresca, ao geito das de Boccaccio, das "Gent Nouvelles" e do "Héptameron", deu-nos o século XVII as novellas tragi-comicas dos castelhanos, o romance divertido de Scarron, as analyses introspectivas da senhora de La Fayette e o romance histórico de Scudéry, de que Boileau disse tanto mal. Estava, pois, aberto o caminho para o romance descriptivo e de costumes, que, no século XVIII e na primeira metade do XIX, de Diderot e Laclos a Dickens e a Balzac, iria firmar-se definitivamente. O desenvolvimento desordenado da cultura popular, a diffusão do ensino entre os maiores paizes do occidente, a multiplicidade dos inventos scientificos, as lutas de classes, as difficuldades crescentes da existência, prejudicando, em parte, os estudos demorados e seguros das humanidades, criaram o ambiente inexpressivo e artificial da segunda metade do ultimo século. O romance naturalista, producto dessa effervescencia, é um depoimento doloroso da inquietação moral de uma época. - O homem começou a ser visto e considerado como simples mecanismo, organizado para funccionar dentro de moldes rígidos, com as suas attribuições e os seus rendimendos exactos. O pensamento era uma secreção, a virtude uma reacção chimica. Foi o tempo dos famosos "romances de these" O escriptor partia de um postulado fixo, ou melhor, de um bello preconceito, e construía assim \ima tranche de vie. Por exemplo : uma pobre mulher que vive na província, a cabeça atormentada por devaneios românticos, entre um marido extremoso mas prosaico e uma revoada de sonhos ardentes mas sem compensação, segue a lei da gravidade do adultério, e cáe irremediavelmente. Quando o escriptor é Flaubert, e escreve madame Bovary, vae tudo bem, porque realiza antes do mais uma obra d'arte. Mas quando é apenas Mareei Prevost ou Henry Bordeaux — que fazer?

Da reacção contra o naturalismo surgiu o romance de imagens e de conceitos, alumiado por um classicismo de gabinete, mas em todo caso discreto e polido, saboroso mesmo, quando é traçado por um Lemaitre ou um Anatole France. Ha, nas obras deste jaez, entretanto, um certo preciosismo perigoso, que pode chegar ao pernosticismo fácil dos imitadores ingênuos. Ainda ha pouco, um joven romancista, Henry Léon-Martin, na linda pastoral "Tuvache", resvalou nesse ingrato pendor, povoando a imaginação curta e grosseira de um horticultor bretão de uma ronda impossível de faunos literários.

Parallelamente com esse, appareceu primeiro timidamente, em algumas paginas de Stendhal, Villiers de LTsle-Adam, Merimée, Dostoiewsky e poucos mais, o romance introspectivo, firmado no estudo directo dos caracteres, onde a intervenção da natureza era escassa. Podemos fazer idéa do gênero, entre nós, na obra de Machado de Assis. Hoje, com Henry James, Maurice Barres, André Gide, Mareei Proust, Jules Romains, Knut Hamsun e Papini, temos excelllentes modelos da novella puramente psychologica. Procuraram os contemporâneos, nomeadamente o autor de "Sodoma e Gomorrha", explicar o indivíduo pela somma das suas sensações mínimas deante da realidade quotidiana. O plano dos seus livros se resume, ás vezes, na analyse de meia dúzia de impressões triviaes, que, aos românticos e aos naturalistas, pareceriam, sem duvida, secundarias. O que os singulariza justamente é não desprezarem elles a menor parcella da realidade. O gesto mais simples, a palavra mais vaga têm a sua correspondente exacta. Nada fazemos, pois, inutilmente. Torna-se, portanto, o romance como que uma longa confissão, um ensaio minucioso das experiências intimas que realizamos . Proust escreve um capitulo de quasi trezentas paginas para annotar, por meio de breves toques de carvão ou buril, os entretons da vaidade humana em uma grande recepção aristocrática. Romains, em "Lucienne", consegue alliar subtilmente a frescura de um amor nascente aos pormenores mais singelos da existência provinciana. A intelligencia moderna é deformadora. Não se satisfaz com o desenho apparente das cousas. Inverte-as, combina-as illogicamente, procurando exprimir, acima e fora de quaesquer theoremas, o phenomeno que decompõe. Ha um verdadeiro simultaneismo entre os estados de consciência e as puras representações exteriores. Proust é um admirável expressionista, que, em geral, prefere mostrar os elementos que constituem a realidade, sem, todavia, revelar o contorno delia. Suas paisagens, por exemplo, são deliciosas de frescura, mas, em vez de serem colhidas ao ar livre, apparecem humanizadas, através de uma atmosphera de lembranças, de meditações e de raciocínios longos e especiosos.

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